quinta-feira, abril 02, 2026

A flor do mar

 A flor do mar não foi pisada. A flor do mar não gemeu em nenhum tronco. A flor do mar era só dele e ele libertava-a. 
A flor do mar flutuava lúcida como um lótus num lago profundo. A flor do mar sentia a tempestade quando ela vinha e avisava o mar. A flor do mar fez igual ao que via nos outros, exacerbando, para a todos mostrar o que eles faziam e como se tratava dela eles já notavam e assim já puderam olhar para si mesmo, podiam se alterar e a abandonar, porque agora assumiam o incómodo; podiam tomar uma atitude também porque a tinham como garantida. Porque com os outros nunca importava muito e, por isso, não eram obrigados a dar um salto e tomar uma atitude. Mas isso também não tem muito que ver com a flor do mar. Ela nunca foi de julgar, sempre desdenhou convenções, mesquinhices societais, fofocas e demais. Detestava papéis iguais. A flor do mar só era pela paz e amor e no Verão virava ainda mais bobmarliana. A flor do mar fui eu, quando endoideci por amor à humanidade em tempos de fim do mundo e só depois pude aceitar as sombras e retornar à lucidez. 

(ne sont pas les fleurs du mal, mais de la mer)