domingo, maio 24, 2026

Não te escolhi

 Consciente não te escolhi 
Jamais o faria
Pois pessoa cruel assim
Eu jamais amaria
Por decisão própria 

Talvez muitas vezes
Tenha me entregado ao "risco
De amar no máximo"
Mas não convosco 
Pois nem me apercebi 

Essa é a verdade, meus caros
Há em mim racionalidade
Nunca fui masoquista 
Ao contrário do que pareceu
Quando fiquei com amor que morreu

Pensando que alguma vez
Ele foi real
Mas quem, como vocês 
Ama no mínimo possível 
Nunca saberá o que é total



Ideia de "jerica"

 Afinal essa ideia de que como os médicos diziam que era suposto eu morrer com uma hemorragia interna, tipo cerebral, ou assim (desde 2001), ou depois ainda mais probabilidade com a insuficiência suprarrenal (desde 2013), e eu ter pensado que as pessoas afastarem-se de mim assim também não sofreriam tanto com a morte do que se estivessem mais habituados ao contacto, e por isso até era bom, na realidade é mais uma coisa muito má para mim porque entretanto são décadas de estar completamente ostracizada e abandonada. 

"parabéns, muito ruim", não é à toa que sempre me considerei a pessoa mais burra à face da Terra, por supostamente ter consciência de muita coisa, mas na prática não ne ter servido para grande coisa a meu favor. ó que porcarias acumuladas, minhanossa! 

sábado, maio 23, 2026

Coração Vulgar - Paulinho da Viola

Morre mais um amor num coração vulgar
Deixa desilusão a quem não sabe amar

E quem não sabe amar há de sofrer
Porque não poderá compreender
Que o amor que morre é uma ilusão
E uma ilusão deve morrer

Que o amor que morre é uma ilusão
E uma ilusão deve morrer

Um verdadeiro amor nunca fenece
E pouca gente ainda o conhece
Meu bem, se o teu amor morreu
É porque ninguém o entendeu

Deixa o teu coração viver em paz
O teu pecado é querer amar demais

Do Desespero

 O desespero chega como bala perdida

Rasgando o corpo mesmo na ferida

Começa a explodir pelas extremidades

Aniquila todas as passadas felicidades 

E de igual modo súbito devastador 

Todas as futuras possibilidades 


É só por causa deles

 É só por causa deles
Que eu não durmo
E morro devagar
Com preocupações 
Preso a um tempo
Que nunca passa
Açoitado numa prisão 
De diária desgraça 

É só por causa deles
Que ainda rio tem vezes
Raras em que me lembro 
Do nosso período doido
Ao mesmo tempo doído 
Formando amor tranquilo 
Queridos meus longe
Por mim tão amados

É só por causa deles 
Que eu não sei como fazer
Deixar os que me fazem mal
E me moem até morrer
E ir ficar com quem me quer bem
Mesmo que morra mais além 
Pois viver como eu vivo
Não é viver, é só sofrer

quinta-feira, maio 21, 2026

 "Será que você ainda pensa em mim?"
Claro que sim, todos os dias.
Meu amor. 
O tempo não passa. Embora os anos estejam a passar. E tu? Será? Claro que não. Se calhar seres forçado a lembrar certamente não será com boa sensação e pensamento sobre mim. É tudo muito triste nesta história que para mim ainda não tive fim e para ti nem querias que tivesse começado. 
Estou em sofrimento aqui como sempre, por causa das mesmas razões de sempre. Nunca ter sido amada por vocês, os dois gémeos, na realidade: quem me deu vida e quem me tirou tudo, ao mesmo tempo. 

(o mais doido é que os dois que em circunstâncias diferentes me deram vida, também me quiseram morta)

quarta-feira, maio 20, 2026

 Essas virgínias da vida
Que são tudo menos virgens
E esses nem terra nem mar
Que só sabem tentar pescar
Já tinham uma bela despedida 
Desse povo, queres apostar?

(pequena sátira do momento Brasil, dedico-te Yaya, acho que ias achar graça ☺️💓)

 Tu eras onde eu dormiria, sempre e para sempre.


(ele: eu ressono)


🤣 parece mesmo algo que dirias


(bronq?)

terça-feira, maio 19, 2026

Hoje, agora, lembrei de novo

 A Ângela matou-se quando ia fazer 45 anos. Ela também tinha uma irmã e um irmão. Ela também era a que ficou em casa a tomar conta dos outros. Também sofria de depressão. 

Hoje pensei de novo. O mesmo desespero já conhecido. Lembrei dela.

Depois guardei a tesoura com que acabei de cortar em pedaços as páginas arrancadas do caderno vermelho, que tinha escrito desde 2022 toda a nóia da pandemia. Nem li agora. Só cortei. Na força de um bocado de raiva da estupidez toda da hiperadrenalina daqueles tempos e toda a porcaria que não me parou, nem me impediu de estragar tudo. 

Faz mais de dez dias que perdi a Yaya. Chorei muito hoje, depois de mais um episódio dos vários de sempre desta vida toda a ouvir "tu és uma merda", "sai desta casa" e afins, enquanto a ouvir duas músicas que vi G. cantar e relembrar nos stories. Chorando também por tudo o que aconteceu e pela falta de apoio e solução. 

17/18-05-2026

Elo

 Hoje vi que os coreanos têm uma palavra (jeong {:jung}) para definir a ligação que fica entre as pessoas mesmo quando já não há relação. Uma ligação que se formou numa época intensa em momentos com uma profunda conexão, de dor partilhada, por exemplo, ou um elo forte que se foi formando pela acumulação de vários momentos frequentes, constantes.

Pensei em como é isso que me fez dizer com certeza que mesmo que os anos passem, o sentimento ao reencontrar aquela pessoa está lá intacto. Talvez a pessoa já nem seja a mesma, tenha passado por algo que mudou muito, mas quem nós somos um com o outro, o que nos uniu, isso existiu e só se houver uma destruição por algum acontecimento anterior é que num reencontrar já não haverá o elo de ligação. 

Eu tenho pena de ter contribuído também para essa destruição num caso ou outro. Mas a verdade é que se a destruição do elo de facto ocorreu, é porque não era tão forte, verdadeiro e especial assim. Os anos confirmam nos poucos reencontros breves, mesmo em pessoas muito mudadas, se nos unimos na nossa essência, intimidade, vulnerabilidade, abertura e honestidade, então nada muda, porque isso tudo também se reencontra de novo. Não deve haver muitas pessoas com quem as pessoas consigam isso. O ideal seria nem terem de se reencontrar e assim confirmar isso, mas sim nunca terem se perdido um do outro. O que levou as pessoas a se distanciarem também é toda uma outra questão a ser vista. 

Mas afinal nada disto importa, quando só a morte é certa, não é verdade? 

domingo, maio 17, 2026

 Quando já nada resta, o resto de mim fica suspensa.

Os pombos

 Vê o que a Humanidade fez com os seus mais frágeis, com os seus animais, os seus pombos, com as suas crianças e os seus idosos. Todos eles usados e abandonados. 

sábado, maio 16, 2026

 Só agora me apercebi de que os dois mencionaram o mesmo livro/história. 😯🤔

Do Abandono

 Hoje vi alguém falar que ser abandonado é só quando nos abandonamos a nós próprios. Depois, mais tarde noutra ocasião, ainda ouvi alguém dizer que se devia continuar sempre a preocupar-se com o outro, mas sem nunca se abandonar. 

Lembro daquele pequeno milagre que foi um beija-flor vir perto da minha janela. Lembro dos melros lindos sempre a vir aqui perto também. Vi hoje algo sobre os pássaros serem vistos, nalgumas culturas, como espíritos dos antepassados que nos visitam para saber de nós e para dizerem que não estamos sós. 

Eu abandonei-me demasiado no passado, porque eu não era ninguém para mim e só existiam os outros que invariavelmente recorriam a mim para ser a melhor amiga, a confidente, a irmã, a prima, a filha, a sobrinha, sempre escolhida para fazer e ajudar em tudo. Que bonito que parece, mas não, sempre foi a pior das torturas para um cérebro hiperactivo e um corpo fragilizado e sobrecarregado. Eu abandonei-me porque eu nunca pude ter vida minha, querer meu, tendo de lutar demasiado a duras penas para conseguir momentaneamente algo apenas para me ser tirado brutalmente num instante. 

Eu abandonei-me quando confiei em alguém, a cada vez deixando-me na mão, indo embora sem grande razão. Eu abandonei-me quando me humilhei por acreditar num sentimento e numa ligação com alguém. E tu, alguma vez te sentiste abandonado por mim com inteira certeza de que eu não estava a pensar em ti? A cada segundo estava, numa luta para terminar o que tinha de ser. Quando alguém tem de crescer sozinho e eu já fiz o que podia para isso também, eu afasto-me, sempre foi assim. Mas quando ainda precisas de mim mesmo já não me querendo e com risco de me culpares, eu fico mesmo que a sofrer. Sim, eu disse que era um pouco como a Nanny McPhee. 

Eu nunca te abandonei. Não como tu me abandonaste e me fizeste abandonar-me a mim. 

Eu já não sou a criança com pouco mais de três anos abandonada com uma tigela de morangos em pleno terror e desespero. 

Dormência

 Ei, sabes quanto demora esta ausência?
Não sinto nada mais, pensei eu...
Instalou-se uma dormência 
Mas de repente apareceste tu 
E a minha barriga doeu de te ver
Levei um pouco um misto de susto
Com alguma dor e pena e amor
Como se fosse algo antigo
Como é antigo este meu sofrer

Estou ausente de mim desde sempre 
Até mesmo durante quando te conheci 
Estava eu dormente e desconectada
Pela dor em que estava enterrada
Mas contigo forcei-me presente
Porque era a última utilidade minha 
Antes de morrer unir as gentes
Para sobrevivermos à partida 

Eu não sei quanto passámos
Eu e tu tanto que foi duro já 
Estive em situações horríveis 
Não sei nada sobre as tuas
Mas parece que a dor é gémea
Sempre foi desde o início 
A tristeza que a gente leva
Como se vivêssemos no abismo

"Irmãos da mesma dor", lembro
Os meus pais fugiram de duas guerras 
Cada um deles, antes de se conhecerem
Mas isso nunca carreguei directamente 
E sim os traumas todos decorrentes
Talvez por isso a luta não acabe
E eu nunca pude descansar como quero
Talvez tu sejas quem traz essa paz
De sanar o mal antigo dessa dor
Que carrego entorpecida e incapaz 


O teu nome

 O teu nome está em todo o lado
Para onde me viro lá está ele
E é mais amor que a palavra amor
E é mais dor que a palavra dor

O teu nome é tão omnipresente 
Que chega a ser marca de queijo
Até de santidade e potestade
Não sai da boca para dizer outro

O teu nome é fino biscoito
Mas também duro como calhau
Trágico, herói, bandido, cowboy
Estás em todas as canções 

O teu nome é dito em chinês 
Inglês, certamente em portugueses
Mais ainda em Djavanês
Gestualmente e em braille

O teu nome é o teu pictograma 
Só tu tens o seu semblante 
Essa silhueta de cama
Esse galope de cavaleiro andante

O teu nome é minha sina
Desde a minha adolescência 
Desde que me lembro dele
Até o meu cabelo ficar platina 

sexta-feira, maio 15, 2026

 Eu dava tudo para te poder abraçar. Tu sabes, né?

Pelo que vivias tu?

 O que mais fizeste
Foi sofrer e sobreviver 
Sangrar até morrer
Não obedeceste
Tanto quanto devias
Para ver se menos sofrias
Do mal dos ditadores
Que te calharam bater
Não só no corpo
Mas no espírito 
E até na alma padecer

Por isso a necessidade 
Urgente, vital
De um momento 
Algo às vezes banal
Mas que te desse sossego
Que te lembrasse da beleza
De um mundo de amor
Inventado à força 
Para me agarrar e não parar
Totalmente 
De respirar

Tua voz meu trovão de vida
Atravessando-me perdida
Meu sopro único essencial 
Nada mais voltou ao normal 
Porque aquilo que tu procuravas
Deitar cá para fora no som
Nas palavras 
Era tudo o que eu queria ouvir
E precisava para acreditar 
Em magia 

Graças a quem te fez e constituiu
Pude ter a certeza de que ela existia
Tanto para o meu mal como bem
Sei que já ninguém lembra 
Dessa força que esse amor tem
Mas não há dor e luz maior acesa

(una rosa se engalana)


quinta-feira, maio 14, 2026

Essa é que é essa, Camus, toma e embrulha, fdx!

 Quanto perdes até te perderes completamente?
Que liberdade anseias se ela significar completa solidão? 
Mas atenção: 
Tu já perdeste tudo e nunca foste alguém 
Tu já na tua vida inteira não tens ninguém

chapéu 
já foste
azar

quarta-feira, maio 13, 2026

Os erros que eu cometi

 Os erros que eu cometi
Andam sempre atrás de mim:
Quem deixei que me beijasse 
Quem deixei que me abandonasse
Quem eu ajudei e não devia
Nos seus torpes intentos
E de quem eu nunca desconfiei
Mais ainda e pior que tudo
As pessoas que nunca larguei 
E que me destroem todos os dias 

Houvesse!

 Se houvesse algo
Que tu me mostrasses
De puro e bom
Sem qualquer mácula
Algo assim imaculado 

Se eu pudesse um dia
Ter-te encontrado

Não queria morrer
Sem ter um lar
Com paz e sossego 

Não te quis deixar 
Mas agi por erro
Sempre pensando em ti
Que te ia poupar 

Porque tu mereces
Tanto e tudo
O que tens de amor
De alegria e cuidado 
Que eu não te pude dar

Mas se eu pudesse...
Se tudo quisesse
Bem culminar 
Os sonhos longínquos
Podiam acordar

Houvesse esperança! 
Houvesse amar! 

Não consigo mais

 Desculpa.
Perdoa-me, por favor, se puderes.
Estou destroçada há anos com o que também te fiz passar e com as mortes das pessoas que eu tanto amava, como ainda mais recentemente os meus tios e a Yaya. Sei que não tenho grande solução na vida para a minha falta de condições. Já me dou por contente por ter conseguido um bocado de mais equilíbrio na mente. 
Obrigada. Só preciso de um lugar para descansar. 

terça-feira, maio 12, 2026

Lucidez

 Tive uma vez um delírio 
Produto das circunstâncias 
Extremo atrofio do tempo
De um pandemónio doente
E teve más consequências 

Mas logo as detectando
Pude começar a lutar 
Fiz tudo o que podia
Para a ilusão se acabar

E consegui terminar 
Toda a confusão que se fez
Dentro de mim outra vez
Quando alguém veio atear
Esse fogo antigo devastador 

Foi há uns anos já que acabou
Tudo o que o meu cérebro criou
Só para sobreviver à pandemia 
De um amor de todo o dia

E quando a ilusão breve se foi
Ficou a pena de errar tanto
Estragando o normal encanto
Da possibilidade da amizade

Hoje em dia depois de anos
A despedir-me de toda a gente 
E de somar tantos danos
Tanta coisa que ficou para trás 
E não voltará jamais
Pois morreram os desenganos

Confesso que dá saudade da alegria 
Que se fez sentir um dia
Quando o amor era só amor
E não tinha vindo ainda ventania
Mas ficou entre nós o sonho
Que já terminou no outro dia 

segunda-feira, maio 11, 2026

 Talvez eu tenha sido o Sexta-feira dos Robinsons Crusoés da vida. E apenas Godot para um só. 

 As coisas todas estão tão horríveis, sem parar, depois ainda mais do pesadelo da pandemia, que eu não sei quanto tempo eu vou aguentar. Tem sido tudo tão tenebroso e desesperador, sem ter para onde me virar, sem ter com quem contar, principalmente para as coisas práticas que é necessário.. Quando estamos sem luz no horizonte procuramos agarrar algo só para continuar. É aí que as dependências ressurgem, as velhas ilusões de amor, o afecto perdido e a necessidade de ter de novo aquela pessoa que era tudo para mim e que só o facto de poder estar perto dele já me dava um abrigo. Ajuda-me, por favor. Tu, que eras muito mais do que um amigo. 

 A "trança de Inês" não é a dele. Mas podia ser, não é?

Abandono

 Estar completamente sozinha em todos estes anos, fez-me ficar com uma dor muito profunda dentro de mim, como se o abandono e o desapoio tivessem cada vez mais proporções gigantes. 

Esta sensação tem estado pior nestes dias, depois destes últimos anos todos cheios de mortes. Agora mais ainda, com a morte repentina de alguém que era das únicas pessoas que sabia certas coisas sobre mim (e eu dela) e que partiu assim, sem poder se despedir de mim. 

Não foi também à toa que se deu aquele momento horrível no outro dia com a taça de morangos a levar-me para aquele estado, lembrando do trauma. 

Tu foste embora. Todos foram. Todos vão. Um dia eu irei também. Nunca tivemos hipótese. Eu pior. Esta dor nunca termina?


Tudo se acabou em mim
Como a luz quando vem a noite

domingo, maio 10, 2026

Meu Amor

 Não há dúvida no meu coração 
De que tu me amaste
E me deste o teu perdão 
Mesmo depois de eu
Nos ter tornado num desastre 
Do tamanho de Chernobyl 

Meu amor, ver-te como antes
Mesmo estando nós distantes 
Tu quase que me gritavas
Enquanto sussuravas
Me sinto só, me sinto teu
E eu acenava como dava

Perscruta tudo dentro 
No fundinho sem pensamento 
E diz-me se alguma vez duvidaste
Que esse grande amor único
Era só teu e meu
Mesmo quando me detestaste

sábado, maio 09, 2026

Demoníaco

 Talvez tu sejas o pior dos escroques da humanidade; falso, cruel, psicopata como não há igual.. Tens sempre um ar arrogante e olhas de lado a ver o que se está a passar e pōes-te a julgar do alto do teu pedestal de alabastro. Na verdade és completamente emplastro, de tal maneira que passas por coitado. Para ti o jogo nunca está acabado. Só quando tu queres, fartas-te e passas para o do lado sem olhar para trás. 

Tu não és um anjo caído, não, nada em ti foi realmente verdadeiro. Tu és um demónio perdido, como milhões de outros quase tão maus quanto tu. Para mim não vales nada, não valeste nada da primeira vez que te vi, lembro que até fiquei um bocadinho frustrada porque o teu nome supostamente prometia mais do que os outros. O teu último nome. O nome que quase ninguém te chama. 

Para mim és inominável. Assim como abominável. Insuportável mesmo. Como sempre foste. O teu odor é nojento. Deixa um rasto de morte lento. E não é sulfúrico nem enxofre. Embora sejas o enxofrado. Antes isso do que encornado. Ah, mas espera, isso também já foste e te tornaste. Ó diabo! Que fizeste tu para seres tão mal-amado?

 Querias deixar os lutos
As dezenas deles 
Com as suas desesperanças
Os seus desgostos
Mas eles correm atrás de mim
Fazem fila consecutivamente 
Lembram a presença do ausente 

sexta-feira, maio 08, 2026

 Em mim a mágoa aninhou-se
Como pássaro ferido fez ninho
O meu amor por ti acabou-se
Simplesmente não és meu amigo
Com essa imaturidade e crueldade
Mostraste-me que não és abrigo 
E agora que tudo se quebrou 
Esgotei as desculpas que te dava
Pois eu apenas me enganava 


Yaya

 pus isto de rajada no post com a Yaya a cantar um bocado da canção que ela fez e me pediu letra, a nossa valsinha Amada, tudo eu Faço :

.. entre tantas coisas, também eras a pessoa que eu mais adorava ouvir cantar a Balada do Louco e, por isso, vou como nessa música das favoritas nossas, ficar feliz (assim que conseguir, q ainda estou quebrada aqui com a notícia), porque cruzei contigo aqui e tivemos momentos muito bonitos de muito amor e fazia-te rir demasiado com as minhas doidices, minha também uma das "matriarcas das lives", naquele que foi dos períodos mais horríveis e que também tu ajudaste-me a salvar 🙏🏽✨💐💐💐 tu poupaste-me por saberes que eu já estava de luto nestes últimos anos consecutivamente e eu só fico muito triste e a sentir-me a pessoa mais incapaz do mundo por causa das minhas impossibilidades de estar com pessoas. Mas o que se deu entre nós enquanto pudemos já foi tudo para uma vida, ou mais, q continuo incrédula e abismada de pensar. Há uns 5 anos atrás, falei de como eu podia ir a qq momento, mas havíamos sempre de estar juntas, mas entretanto sou eu quem tenho perdido todo o mundo e ficado aqui sempre perdida. Eu trocava a minha vida por cada um, pois vcs têm filhos, vida, alegria, e eu nunca entendi por que raio vim para aqui, também exausta de sofrer um inferno diário. Tu, tal como o Magnus que nós perdemos, tb dizia e motivava a continuar; insistiam em dizer que eu já fazia e era muito mais do que pensava e nem tinha noção. Vocês ajudaram-me muito no processo de ter autoestima e tu, em particular, também transformaste-te e libertaste-te comigo, por isso também fico contente de pensar que ainda pudeste cumprir o que querias e ter força para realizar teus sonhos também por mim. Tiamo para sempre, como sabes ❤️ 

#lullabyyourselfintosleep #amadatudoeufaço #yayatiamoparasempre #💔🖤

____

Quem é que me vai chamar de "moreca" agora, Yaya? 😅🤦🏽💔🖤

____

Já aprendi mais coisas nestes dois dias: como as pessoas imaturas são cruéis, Yaya. Como as pessoas fazem de tudo para não se enfrentarem a si mesmas e aos seus lutos. Como há pessoas que simplesmente viraram robots. Como há pessoas que ainda sentem e que ainda se permitem sentir de coração aberto, muito raras essas.

Ainda não acredito que foste embora assim tão inesperadamente. Feito tonta, eu ainda estava a perguntar-me se chegaste a ir ver o Lucinho como te tinha avisado e disseste que compraste bilhete. Será que ainda deu para ires, pensei eu. Enfim, a minha cabeça continua a não querer acreditar e estou extremamente chateada de já não nos podermos contactar, mas espero que eu possa continuar também a ver-te e a ouvir a tua voz nas mensagens de áudio e nos vídeos onde cantas. 

Tu dizias que eu sempre sentia quando tu estavas mal e que isso era uma conexão divina, mas do que é que isso me valeu desta vez se tu foste embora assim e eu também nem consegui estar contigo? Que saudades, Yaya. 💔💔💔💔😭😭😭😭🖤


PS: bolas, vi dps q a data é 8 e 9, por isso se compraste é mais uma tristeza que se carrega por não poderes ir.. 

___

mddc Yaya, hj já é dia 9 e a cada dia que passa fico mais enraivecida com a hipocrisia das pessoas. Juro que apetece ir lá e gritar HIPÓCRITAS DE M*RDA, mas depois claro que sei que é a raiva do que te aconteceu que devo estar a direccionar, embora tenha direcção de facto correcta e justificada na morada e endereço de certas pessoas. Pessoas todas sentem de forma diferente, sei, mas pelamordedeus, que porcaria de seres humanos Yaya que são tão falsos e nojentos. Pior que também são pessoas que nós amamos, né? Ias falar mais dessas coisas, mas não deu. Estava a pensar em como isto de as pessoas contarem-me aquilo que não falam com ninguém e segredos mesmo, depois sobra sempre para mim na minha consciência desde pequenina. Os adultos são todos totós afffeee Yaya 😅 Tenho saudades tuas. Ontem apercebi-me, ou foi hj, já nem sei, até porque as madrugadas dadas as circunstâncias ficaram ainda mais esquisitas, enfim, só para dizer que em toda a minha vida nunca me tinha permitido sofrer um luto tão inteiramente e honesta como mesmo a sentir tudo o que tenho de sentir de dor e chorá-la, quanto contigo. Dá para ver como toda a minha mudança e crescimento, com os processos terapêuticos todos que me apetrecharam bem, me fizeram enfrentar tudo sem escapar, distração, ou hiperfunção, e sabendo que assim fica-se melhor e pode-se sair pelo outro lado do furacão. Falando nisso, tempestade aqui tá forte, mesmo quando parou a ventania e chuva, deu trovoada tão gigante e forte, q sei lá o quê. 

Já senti que estás a ir. Ainda bem. Sê livre completamente agora 🙌🏽😘😘fica bem e até à próxima ❤️

__ 

Yaya, Yaya, como é engraçado... Cada um vê no outro o que quer e o que o outro lhe parece mostrar. Comigo toda a gente que é vista como alegre, luminosa, divertida, é sempre muito triste, muito insegura, muito aberta ao sentir e ser frágil, é introspectivo e nem sou eu que peço nada de ninguém, daí talvez não actuarem como a tpdo o minuto para os outros e poderem ser eles mesmos. 

segunda-feira, maio 04, 2026

Processos terapêuticos e tal


Questionamentos e realidade

Hiperconsciência, sobredotação 

Tragédias consecutivas

Doenças autoimunes 

Chi-kong, Tai-chi

Angústia existencial 

Esgotamento mental

Síndrome de Stress pós-traumático complexo

Pânico, pensamentos intrusivos, ideação mortal

Auto-ostracização

Pino Mental

Psicoterapia 

Autoconhecimento 

Desconstrução do Ego

Despersonalização 

Terapia de Exposição 

Cristaloterapia

Meditação 

Cura da Criança Interior 

Enfrentamento de Traumas 

Transmutação 

Auto-estima 

Merecimento, Permissão 

Trabalho de Sombra

Fluxo, sincronia, pertencimento ao todo

Ligar ao tempo

Ilusão 

Inteireza, Presença

Trabalho de Respiração 

Luto, tristeza, dor, desesperança

Desamor, desapoio

Luta contra dependência emocional 

Apego evitativo

Isolamento total 

Ultrapassar mentalidade de escassez

Almejar Equilíbrio sempre

Perimenopausa















domingo, maio 03, 2026

Aceno enquanto partes

 Foste finalmente embora 
Despediste-te?
Quantas vezes antes?
Sentimos alívio 
Imediatamente 
Depois eu quebrei
A dor instalou-se
A tristeza tomou conta 
Depois desvaneceu-se
Até volta e meia se intensificar
Tirando tudo do lugar 
Outra vez
"É sorrir e acenar, meus caros 
É sorrir e acenar"

sábado, maio 02, 2026

Pulsar

 Já não oiço essa onda de rádio 
Meus receptores estão em baixo 
Acabou a sintonia e o fogacho
De um instante de sincronia
E a transmissão do gáudio 

Nesse território de elevações 
Nessa faixa de contradições 
A melancolia é desmedida
Não há alegria ou paixões 

Sinal morto sem quaisquer picos 
Que ainda pudessem esperançar
Foi quando se foi a confiança 
E qualquer ilusão ao ar

Não há período de duração 
Não há milésimos de segundos 
Só um sistema em franganicos
E um sonar num avião 

Tempestades electromagnéticas
Não penetram o nosso metal
Mas tudo abalam para parte incerta
Do início do ano até ao Natal

E eu que só te queria a ti
Um pulsar para vivermos
Ressuscitarmos e regenerarmos
Não me tenho mais em mim


 Pensar que um dia quando eu morrer todas estas coisas estúpidas escritas ficarão aqui.. 


(🤣🤣🤣🤣)

Uma tragicomédia romântica

 Sei que para ti sou indiferente, ou apenas não gostas de mim, detestas-me (se alguma vez lembrasses de mim), pelo trauma, por toda a mágoa e atrofio causados. Eu também um bocado, pelo trauma e a dor que passei (ainda passo, está alojada em mim nos cacos do coração), mas prefiro da maioria das vezes quando penso numa versão que é uma ilusão de nós nos termos amado e amarmo-nos e perdoarmo-nos como nas dezenas de comédias românticas que já vi, em que apesar dos erros e equívocos, o amor fala sempre mais forte e ninguém consegue perder a oportunidade de estar com a pessoa amada, de tentar uma última vez, completamente vulneráveis a pedir perdão, e por uma chance de não ficarmos sem a pessoa que realmente amamos. Muitas vezes nesses enredos também é uma paixão integrada num novo local, com novas pessoas, que rapidamente se fazem nos sentir como casa. Nalguns há dois "pretendentes", geralmente de personalidades opostas (pergunto-me se o meu avô e o irmão dele também eram assim 🤔 provavelmente eram), muitas vezes um é o mais certinho e o outro mais problemático. 

Coitada da minha avó..

 "O amor para tentar sobreviver foi um fracasso, ou talvez não."

quarta-feira, abril 29, 2026

Um coração partido demora a voltar a bater, se bater sequer

 Afinal quando me partiste o coração e eu demorei anos a sentir que ele batia, foi só para mo partirem de novo, mas isso eu já não te expliquei, porque sei que não tem nada a ver contigo e descobrir que não há ninguém que eu pudesse amar sem sentir o perigo da violência de um homem faz-me ao menos ter a certeza de que no fim das contas foi bom não ter de passar por mais isso. A violência que sempre sofri desde que vim para este mundo já me basta. Falas de como tudo é violência e sexo, mas quando te digo que eu não pertenço a este mundo e que por nada disso eu me interesso, já nem sequer escutas, porque já não me conheces. 

O que eu não te contei é que depois de ti, anos depois, de novo me apaixonei e desta vez amei como nunca tinha amado ninguém, tendo deveras enlouquecido, porque depois ele mostrou e disse que nem sequer existia como eu havia sentido. Todo o amor de que alguma vez fui capaz por toda a gente em toda a minha vida, foi todo transferido. Todos falam como sempre me preocupei e cuidei, mas hoje em dia, já há alguns anos, não sou mais assim, acabou tudo em mim e a tristeza habita-me de tal modo que nunca mais fui capaz de sorrir de paixão, senão uma vez ou outra ao lembrar alguma cena desse último devaneante amor. Apaixonei-me sempre por quem eles foram em pequenos, com a sua ternura, candura, determinação e inocência. Mas ninguém se mantém puro de sentimentos e se torna equilibrado e sem violência. 

Duas vezes eu ouvi o som do coração a partir-se. Da terceira vez não ouvi sequer, talvez porque eu nem sabia então que ele era o grande e único verdadeiro amor da minha vida, ou talvez porque tal como ele disse era tudo da minha cabeça viciada por ele e nem existia. 

Um dia, quiçá , eu ainda vou poder contar-te que encontrei uma pessoa decente e que depois de tanto tempo finalmente vale a pena voltar a ceder e amar. Porque mesmo que eu continue sozinha como nestes 13 anos, eu agora sei de quem eu realmente preciso e a quem realmente me entregaria de novo confiando, mesmo que haja grande improbabilidade de haver alguém assim. De qualquer modo, a minha vida sempre foi uma desgraça e o tempo também já provou que afinal nada passa tanto assim quanto eu precisava mesmo para mim.

Sofrimento

 Perder o grande amor da vida 
E não ter mais nada de esperança 
Não ter condições para fazer 
Tudo o que se sonhou realizar
Nem para viver bons dias 
E ainda ter de saber que a pessoa 
Que tanto amamos nos detesta
E está com outra mulher 
Além de que neste mundo inteiro 
Tudo de básico direito está a piorar

terça-feira, abril 28, 2026

Sou um rio

 Era dele como o rio é do mar
Mas o rio mudou de lugar 
Perdeu o curso
Foi secando
Deixou de transbordar 
Perdeu as margens
O seu caudal não vingou
Castores o prenderam-no
Luas-cheias-micro diminuíram-no
Serão duas em Maio
Para lhe dar o último golpe
Esse rio teve má sorte
Estava destinado à morte
E o mar nunca o quis
Porque rios malfadados como eu
São abandonados até por quem prometeu 

As aves ainda habitam ao seu redor
Nas fracas árvores que ainda se mantêm 
E os restantes animais a cada ano emigram
Sabem que o rio já não os tem
Ele aceitou o seu destino 
Sou um rio, sou um rio
Mas sequei

Mais um exercício

 Sou simples mas não simplista
Muito complexa mas não complicada
Muito integracionista mas não integrada
Sou alguém muito artista mas racionalista
Criativa mas muito dada à lógica dedutiva 
Extremamente sensível mas pragmatista 
Sou ingénua mas sempre alerta
Estou vulnerável mas sou esperta
Posso ser usada mas não sou só quem se lixa
Rodo a baiana, mas não sou quem cuchicha
Tenho mau feitio mas sou querida
Cuidadosa mas sumariamente implacável 
Ternurenta mas dou troco desagradável 
Sou diáfana mas palpável 
Sou toda amor e também impaciência 
Teimosia braba mas sou bem mandada
Eu sou querida mas também intragável 
Depende muito de quem puxa pelo quê 
Por isso sou maleável mas incontornável 
Criança que detesta adultos mas é sábia 



segunda-feira, abril 27, 2026

Peri

 Útero despetalando
As últimas flores 
E os últimos frutos

Nuvens mentais
Abcessos dentais
Nada normais 

As veias apertando
As dores aumentando
Os cabelos ligeiros

A planta do pé queixa
Que não brota mais pé
E a mágoa sobre-aleija

Tudo à volta marcha ré
Um amor desistiu
Outro amor insistiu

Eu já não tenho fé
Que amor seja o que se viu
Pois só fui eu que o sentiu



Eterno

 Amei-te mais do que a vida
E disse-te quase à despedida 
Que eu torço sempre por ti
E se em ti houver quem conheci
Certamente terá sempre guarida 
No eterno abraço que eu abri
 Esta dor que fez morada em mim
parece que não tem princípio ou fim
e apenas insiste em viver cá dentro 
sufocando-me o pensamento 
e dando cabo do meu coração 
que morreu de tanto tormento 
por nunca ser amado por ti

Uma sombra mais pálida

 
Assim que ela chegou a casa
Olhando-me disse:
"estás branquinha"
e eu fiquei sem reacção 
como doutras vezes
perante tamanhos grotescos absurdos
Que apenas lembrei 
como de onde ela vinha
a outra era mais clarinha
a preferida dela
e de como sempre foi racista

Embora eu mude de tom
por causa das minhas doenças 
a minha cor sempre foi negra
e a minha alma sempre foi sombra

Por causa dela
Por causa dele

Tudo o que não é dito

 Todos criamos monstros 
Especialmente dentro de nós 
Com tudo o que não dizemos 
Nem arriscamos pensar a sós
São tantos os assombros
Que nesta vida fizemos 
Que vivemos assombrados
Sem saber o que é atroz

Como eu te odeio
E tu também a mim
Como eu nunca te amei 
E és só mais uma doença 
Como as outras que contraí

Como tu me amaste
Como eu te amei
Como desesperámos
Mas foi mais fácil quando acabei
Por nos sabotar o amor
Como eu nos destruí
Mas nunca quis desistir 
Como tu desististe
Mas não ficaste triste 

Como eu era a mulher da tua vida 
A tua melhor amiga
Como não querias ficar sem mim
Como eu não aguentei a despedida 

Como tu me odeias
Como eu te detestei pelo mal
E pela crueldade que demonstraste
Como tu me odeias 
Por tudo o que te contaram
E acreditaste
Como eu te odeio
Por acreditares noutros
E não em mim

Como eu pensei que com eles
O primeiro e o segundo 
Grandes amores que tive
Seriam para sempre 
Até ficarmos velhinhos 
Dizíamos ingénuos
Que podíamos contar
Até a morte nos separar

E tudo o que não falamos 
Adoece-nos
Dizem 
Eu já não sei
Porque sempre estive doente 
E tu sempre cantaste

domingo, abril 26, 2026

Sempre e para sempre

 tudo em mim clama por ti
e assim como as canções 
que nos acompanham
são imortais 
assim é o meu amor
que tu nunca respondeste
com "meu amor" 
como sempre imaginei 
e apenas ficas aqui
na minha cabeça 
e no meu coração 
alma unida à tua
sempre sol com a lua
e repetidas vezes
volta tudo à memória 
nessa linda e triste estória 
que para ti nem existiu 

enquanto aguardo
sofregamente 
um milagre que não vem


sábado, abril 25, 2026

 Hoje é o dia dessa utopia:

A Liberdade 

Que ainda esperamos 

E às vezes lutamos 

Para que ela surja

No meio das trevas

Mas neste momento 

Está em crise de meia-idade


(eu gostava de ser livre)

sexta-feira, abril 24, 2026

O Sol e a Lua II

 Amo-te todos os dias 
Sabias?
Fico à espera de um sinal teu
Como se houvesse uma jura
Que se prometeu
Mas tu nunca mais voltas
Para me tomares tua
E vi que há cada vez mais 
Crateras na Lua

Encontrei escrito num teu livro 
Que eu era o Sol 
Que tu girassol eternamente buscavas
E vi hoje numa fita escrito
Pela minha irmã criança 
Algo como quando tudo vai mal
Depois vem o Sol e fica melhor 
E lembrei de como o meu irmão 
Me deu um amuleto de um Sol
Que dizia "eres un Sol"
E tanta gente me via como vida
Porque eles não sabem de mim
A verdade que eu passo sempre 
A dor e o sofrimento que carrego
E só pensam em mim a fazê-los contentes 

Ou talvez, dirias tu, que são ambas as coisas 
E que sempre fui muito solar e lunar
E tudo o que há entre o espaço, e o nada
Tu que me embalavas a madrugada 
E me conhecias como ninguém 

(um dia páro de vos misturar)

quinta-feira, abril 23, 2026

Nome

 

Todos têm nome

Aquele que escolheram

Aquele que lhes escolheram

Aquele por que são chamados 

Aquele que lhes chamam

Mas nem sempre conhecem

O nome que lhes foi dado

À nascença 

À sua presença 

À sua liberdade 

terça-feira, abril 21, 2026

Ele foi como eu?

 Gostava sim de conhecer alguém como eu
Uma vez que todos dizem que todo o ser
Desde criança precisa de conexão e cuidado 
Acho que só assim podia sentir isso 
Talvez tenha sido por isso que o quis tanto
Porque também talvez ele apoiou todos cedo
Irmãos e pais e primos e tios e avós 
Mantém-se bom, depois forçado por dentro 
Esgotado, acossado, stressado e pressionado 
Ansiando pela liberdade justa e indignado
Sem já grande paciência e um quê cínico 
Foi pau-mandado, escravizado, sonhou
Teve força, se intitulou, mas ele foi mimado 
Certamente pela maioria de todos à volta 
Já eu vivi isolada porque ninguém quis nada
A não ser quando de facto necessitava
Mas as mulheres são usadas e largadas 
Já os homens são eternos rapazes
É assim que a sociedade os pinta
Ninguém admite do que somos capazes 

domingo, abril 19, 2026

2 mortes, 2 nascimentos

 Eu, tu
Eles 
a nós
somos tios agora?
e cadê os meus tios?
e cadê as tuas avós?
Somos sós
Somos unos
Somos com todos
Como fomos um dia juntos 
Seguimos com fé intermitente 
Mas completamente certa
Talvez a esperança deserta
Mas também nada importa 

Luíza

 A fragilidade da vida
vê-se num brinco 
um coração de viana
oxidado
escurecido de propósito 
Ela luta, esperneia
as suas últimas tentativas 
de tentar se indignar
contra a falta de controlo
contra a falta de justiça 
e imagina e se resigna
mas nunca mais volta
é só o que pode fazer
de decisão própria agora 
Ela se quebranta
Esforça agradecimentos 
Aproveita segundos de leveza
Depois mais tarde desmancha 
Desistiu da sua cara
Antes de ver morrer a pessoa amada

sábado, abril 18, 2026

Fazemos de conta

 Fazemos de conta que nada aconteceu:
ninguém morreu, ninguém adoeceu 
ninguém destruiu ninguém 
ninguém assassinou ninguém 
e tudo continuou como era antes 
de festa em festa
sem pandemia 
sem mortandade 
só alegria 
sem ruindade
sem patifaria 
como numa danceteria 
em que a música só suspendeu

sexta-feira, abril 17, 2026

 Deve ser das sinas piores de um ser humano, talvez (esta minha às vezes parece): não poder se dar normalmente à paixão e estar com alguém que se ama.

Improviso pós-surpresa da foto "movimento" de céu

Habito na hora oblíqua 
Capturo o movimento 
Ele fotografa as cores
Refraccionando a luz
Ó meu amor, como seduz! 
Já sei que me achaste
Meio ridículo de erudito
Mas gozaste de eu estar aflito 
Atrapalhado e enamorado
Eu amei tudo e todos demais
Até um dia que não dava mais
Para serem felizes comigo
E larguei-os do meu abrigo

Este meu improviso não vês 
Como tudo o que escrevi 
E (graças aos deuses 🙌🏽) não lês
Mas achei este céu bonito
Foi uma surpresa que me fiz
Ainda dou-me a experiências
Raras e etéreas, mas sou feliz
Independentemente delas
Também já desconheces
No que me tornei e deixei
Depois de Agosto de 2024
Com tantos lutos e turbilhões 
Sem ter chão, deixar de ser vento

Agora como nunca antes
Dissolvi-me no firmamento 
Entendi cada fugaz momento 
E já nada me importa questionar 
Tu acabaste por dar-me tudo
O que eu precisava para confiar
Que tudo um dia vai acabar
E eu já não sofrerei mais
Porque regressarei ao meu lugar

 O amor é sentir que estamos num pedaço fora de nós. 

 E se um dia se acabar aquela dor 
Que um dia nos uniu 
O que será daquele nosso amor
Que foi sol, lua e chuva 
Quando tudo era só torpor?
 Todos aqueles anos
Em que eu não senti falta 
Nem falava com ninguém 
O hábito sempre se instala
O óbito sempre vem
Mas a lembrança está lá 
E a saudade mais além 

Hoje vejo as fotografias 
E amplio-as
Para enxergar a cor do olho 
De alguém que é rara
E a cara de outro alguém 
Por quem meu amor não pára 

Pergunto-me pela primeira vez 
Se há alguém que faz também 
Uma festinha no ecrã 
Num descuido
Numa acção vã
Tanto quanto tudo o que sinto

quinta-feira, abril 16, 2026

Sereno

 Tu podias ser a coisa bonita 
Agora nesta minha vida 
Em que eu reteria a beleza 
Só para sentir a divindade
Como um milagre 
Talvez ouvir-te de novo
Será que ainda me achas linda?

Tu estás cada vez mais bonito
E no país onde habitas
Há cada vez mais amor
Talvez eu volte a ver um dia
Algo de surpresa no teu olhar
Depois do amor que a gente fez
E do tumulto, do caos, da confusão
Dessa tua crueldade voraz
Com a minha insatisfação mordaz 

Eu morri porque tu quiseste 
Eu tornei-me numa pessoa 
E não gostei muito disso 
Ter autoconsciência é demais 
Não sei como nunca foste capaz 
De dizer que mais me amaste 
Quando eu era a tua menina 
E tu eras o meu rapaz 

A chuva parou de cair lá fora
Apenas sopra uma brisa
De quando em quando
E nunca mais se viu o sereno 
Como nas madrugadas desesperadas


quarta-feira, abril 15, 2026

Outra fase do luto

 O meu choro já não tem palavras 
Só tem silêncios
Já não tem desesperos gritados
Apenas mudos tormentos
Que me torcem a garganta 
Esmigalhando o nó
E a dor não termina nunca 
Ela agora quando vem incinera
Instantaneamente 
Quando me toca
Seja ao escutar uma música 
Que de novo me transporta
Seja ao ver algo que escancara a ferida
Eu já não sou quem fui um dia

Do Aborrecimento

 Eles só sentem solidão quando estão aborrecidos. Daí usarem de terceiros para se distrair. Eu quase nunca me aborreço, porque eu vivi a vida inteira de pensamento e contemplação. Quando era mais nova fui uma ávida leitora e isso formou-me tanto a imaginação que acabei por me tornar numa pessoa extremamente imagética de tudo o que testemunho. A exponenciação da empatia e dos neurónios-espelhos também se deve desenvolver assim, creio. Ou seja, este cocktail perigoso foi o que também me permitiu, enquanto ser cronicamente alerta, nunca me entediar. Tudo a todo o segundo acontece e eu observo, sou impactada e atravessada por isso. A solidão e o aborrecimento podem ocorrer por não estar com pessoas que sejam presentes, que existam conscientes e que saibam estar no momento. Eu soube relaxar, descansar, divertir-me, mas muito pouco e com a duração de poucos minutos, nesta vida. O resto foi essas aflições de stress, incerteza, bombardeamentos e tudo mais patrocinado por outros (que assim podem e têm tudo, que se divertem à vontade, etc.) enquanto sempre a ter de cuidar de alguém. 

Enfim, o tédio não me assiste. Eu assisto o tédio e nunca é completamente entediante. Até traz bonitas surpresas à percepção, às vezes. Um espaço para enxergar, escutar, aceder outras ondas. 


domingo, abril 12, 2026

O meu menino

 Talvez o meu menino já não exista mais. Morto pelas guerras de que o homem é capaz. Não somente as externas, mas principalmente as internas. O meu menino, no entanto, jamais se deixaria quebrar irremediavelmente no seu espírito. Embora ele não seja Mandela, ele sabe que o atrito tem a sua função apenas integrativa de toda a emoção que abraçamos. Há que estar consciente disso e o meu menino é muito ele, inabalável na sua meninice bonita e terna. Ele é o mesmo que aprendeu a fazer comigo um pequeno ondulante grito de vitória ao erguermo-nos e descermo-nos numa simples lomba na estrada. O meu menino é verde. Como a explosão de sabor que ele sentiu ao prová-lo, como a coragem que teve quando era desafiado para trilhos em rochedos ou simplesmente testar uma ponte de madeira improvisada, ou só mesmo quando apontava para uma estrela dizendo que não se deve apontar para estrelas. Enquanto o meu menino for um grande peixe sempre desidratado e a ansiar pela água e apartar os caminho de pipocas suspensas no ar, entre palhaços, anões e gigantes, e plantar campos inteiros de lírios-do-campo só para a ver feliz, eu sei que ele é imortal e existe em cada um deles um amor puro sem final. 

(Eu não tive o meu menino; nem sequer me despedi dele.)

sexta-feira, abril 10, 2026

Um silencioso azul

 Tão luzidio aquele momento 
Minutos em que a noite vira
E tudo se ilumina em dia
Lembrei de como era
Quando eu ficava à espera 
Num misto de desesperança 
E muito conformismo 
Todos nós, então, no abismo
Mas de repente 
Por uns segundos 
O céu alvo ofuscava
Com uma serenidade tonta
Ludibriosa
E eu pensava em ti
De novo 
Como em todos os silêncios azuis

Planos

 Nunca pude fazer planos 
Sempre tive só incerteza 
Pessoas causando danos
E só rara delicadeza 

Não pensei que eu fosse durar
Tamanhos eram os problemas 
Eu joguei tudo para o ar
Obrigada pelos dilemas 

Já tive quem me dissesse
Que achava já não me amava 
Só para se arrepender a seguir 
De o ter acabado de dizer 
E já tive também alguém 
Que disse que eu estava enganada 
Que não era nada do que eu supus
Mas houve quem me declarou
Que sem mim nada fazia sentido 
Outras pessoas queriam casar
Mas eu nunca achei que queria 
Pelo menos não com eles todos 
Quem sabe ainda haja tempo 
Para eu aceitar o tal um dia
Mas isto não sou eu a planejar
Nem tanto a pensar que haveria
Quem fosse de facto essa pessoa 
Só que isto de nunca fazer planos 
Também não quer dizer à toa
Pois a verdade é que sempre sonho
Com coisas parecendo impossíveis 
Como ir para Florença estudar
Um dia ser normal e poder voar
E quiçá depois de décadas namorar
Viajar o mundo e ser livre
Como quis no princípio de tudo
Antes de tudo me correr mal

quinta-feira, abril 09, 2026

 Revolvendo os destroços 
No meio do entulho 
Ainda encontras
Uma ternura que dura
Tanto quanto 
A angústia existencial
De um passado morto

Chorando

 Se eu chorar 1001 dias
Será que desagua a mágoa
E páro de dizer #bebamágua
E voltam algumas alegrias?

Se eu chorar 1001 nomes
Será que terminam as fomes
Todas dos humanos ignomes
E arreigar-se-ão dos seus pronomes?

Se eu chorar 1001 noites
Será que páram os açoites 
Nas costas da minha alma
E começa finalmente a calma?

terça-feira, abril 07, 2026

"Se eu não sou nada, quem é que eu sou? ele perguntava"

 Tu não és
Só estás 
Por enquanto 
E só és
Se fores para outros
Mas em si mesmo 
Não és nada
Poeira estelar
Com ilusão de importância 
Talvez num momento 
Talvez para alguém 
Talvez no mundo 
Nada de profundo 
Nada por aí além 
Porém inventas de ser
Ou parecer
Porque outros "são"
Mas não tens um irmão 
Talvez isso seja uma questão 
Mesmo quando não queres
Porque te é imposto
Tudo, até o teu rosto

Não queiras ser alguém 
Não queiras ser ninguém 
Tu não és o que queres ser
Nem o que queres ter
Embora te possa parecer
Nunca nada é completamente 
Porque quando és gente
És só um animal descontente 

(tu és só quem faz os teus hábitos, necessidades e automatismos, até morreres)

segunda-feira, abril 06, 2026

Os contos de fadas que contamos a nós mesmos

 Hoje não resisti ao Big Fish na tv. Lembrei como já foi o meu filme favorito num tempo e a favorita cena das pipocas, claro. Eu sei que vivi uma vida inteira a tentar sobreviver neste inferno diário através dessa fantasia que a arte proporciona, de nos dar esperança, de nos fazer acreditar que há coisas boas e bonitas para viver, mesmo que seja só por simulacro através dos filmes, músicas, livros, quadros, etc. É impressionante como além das ficções e das fantasia, também fui gostar de documentários e coisas de época. No fundo, tudo coisas de fôlego, profundas, que fazem reflectir e imaginar. Como a minha vida se tornou num nó insolúvel desde muito cedo, a minha forma de tentar deslindá-lo e escapar ao terror que me era imposto todos os dias, foi, sem eu me aperceber muito disso, refugiar me nessas artes todas. Desenvolvi alguns mecanismos de sobrevivência por causa dos traumas todos. Só nestes últimos anos bizarros é que me fui aperceber disso e identificar melhor o que se passava comigo aquando de certos comportamentos. Há quem passe a vida toda sem ver essas coisas em si, sem ter consciência nem sequer começar a analisar-se. Pessoas que não se conhecem, que nunca encetaram processos de autoconhecimento. Em vez, contam-se a história mais apropriada sobre si mesmos conforme dá jeito para a ocasião. Ao menos, eu sei de quase tudo o que fui de mau e de bom, sei que também tive muitos momentos de querer escapar deste mundo, mas limitei-me a aprofundar-me nele com as artes. Aos poucos, com o avanço da idade, foi-me dissolvida a maioria dos contos de fadas e depois de tudo me ter sido tirado e eu mil vezes abandonada sem quase nada, só um conto deve ter ainda sobrado. Muito lá no fundo enterrado.

sábado, abril 04, 2026

Afim

 eu fui quem tu eras
e tu eras como eu

teu corpo tinha os mesmos sinais 
e tua mente as mesmas cenas anormais 
éramos tão iguais 
em tempos desiguais 

o teu cabelo como o meu enrola 
o teu pêlo como o meu estola

medo, insegurança, segredo
enredo, tormento, lembrança 

e os rituais e as repetições 
como instrumentos de processar
como em todas as canções 
que não conseguimos ganhar 

só desculpas para nós mesmos
que trapalhões 

tu foste só eu
eu fui só teu
só uma persona afim 

quinta-feira, abril 02, 2026

Entre citações musicais

 Há que haver mais compaixão 
Todos erram e amar é perdão
Live in love, find it
You're always on my mind 
Baby I didn't treat you
Quite as good as I should have 
Mas tens o resto da vida
Se começares agora 
There are things I should've said
And things I shouldn't have done 
Tudo passa, tudo o que faz o bem
Tudo o que faz o mal 
Wisdom generally comes too late 
Forgive yourself for not knowing 
What you couldn't have known 
Faz melhor da próxima vez
Tudo pode ser melhor se quisermos
Fazer acontecer diferente 
É só nos focarmos
Vale a pena, se não tiveres mágoa 
Se não tiveres ressentimentos 
Se não te tiverem quebrado
But it's hard, nobody said it was easy 

A flor do mar

 A flor do mar não foi pisada. A flor do mar não gemeu em nenhum tronco. A flor do mar era só dele e ele libertava-a. 
A flor do mar flutuava lúcida como um lótus num lago profundo. A flor do mar sentia a tempestade quando ela vinha e avisava o mar. A flor do mar fez igual ao que via nos outros, exacerbando, para a todos mostrar o que eles faziam e como se tratava dela eles já notavam e assim já puderam olhar para si mesmos, podiam se alterar e a abandonar, porque agora assumiam o incómodo; podiam tomar uma atitude também porque a tinham como garantida. Porque com os outros nunca importava muito e, por isso, não eram obrigados a dar um salto e tomar uma atitude. Mas isso também não tem muito que ver com a flor do mar. Ela nunca foi de julgar, sempre desdenhou convenções, mesquinhices societais, fofocas e demais. Detestava papéis iguais. A flor do mar só era pela paz e amor e no Verão virava ainda mais bobmarliana. A flor do mar fui eu, quando endoideci por amor à humanidade em tempos de fim do mundo e só depois pude aceitar as sombras e retornar à lucidez. 

(ne sont pas les fleurs du mal, mais de la mer)

segunda-feira, março 30, 2026

 O meu maior erro foi pensar que tu me amavas. 

Divagar

 Em meandros da minha exaustão, ainda assim, alternam-se momentos de contemplação, crises existenciais e epifanias. "Frito em óleo profundo", é como me sinto, reconheci agora há pouco enquanto por curiosidade pesquisava entre menus de restaurantes e deparei-me com esta preciosa pérola da tradução literal. 

Lembrei de repente como no outro dia em que fui arejar, as ruas vazias pareciam ter um ar seco e quando há mais pessoas tudo fica mais húmido. 

Retorno a ti. É-me inconcebível que não me detestes e que voltes um dia, mas nada dentro de mim é mais possível do que este amor doido nunca se acabar. Dizem que amamos uma ideia e temos a falta de sentir que estamos a ser amados e tudo mais que elaborámos à volta das incertezas. No teu caso, demoraste, mas deste-me a confirmação das piores certezas. Pois tenho de te dizer e a todos que em certo momento desejaram a minha morte, que não se preocupem, que todos nós para lá caminhamos eu, apesar de estar fora do prazo, continuo a ser a pior das mortais, que tanto sangra nesta vida de horrores. 

Os pássaros estão desesperados. Melros afogueados. Parece, não sei ao certo, mas é como sempre "é de madrugada a criação". E eles não se calam. Hoje acabei por rever uns poucos, em que pensava eu, me cantavas. Eu sorri de novo "dengo, relaxar", quem dera que fosse verdade. 

domingo, março 29, 2026

Ficou um bocadinho confuso tudo

 Chorei naquele dia a olhar as estrelas
Sem receber qualquer sinal delas
Pareçe que voltaste a dançar 
Eu sei que fiquei doente de pirar
Morreram tantas pessoas 
Processo de terapia de exposição 
Processo de cura da criança interior 
Processo de aceitar o desamor 
Era uma vez o autocuidado
Viver com pausas, movimento 
E almejar estar sossegado 
Fazer mais do que faz bem
Ou que nos tira do desdém 
Tudo isto antes de estar tudo acabado 
E quiçá esperar um bocadinho 
Só um pouco mais antes de desistir 
De viver e de sorrir sem ter um amigo
Fazer esporádicos novos 
E reatar raramente contigo
Saber que a doença do vício continua 
Que tudo beira o perigo
E mais importante do que isso
Ainda amar aquele desconhecido 

sexta-feira, março 27, 2026

 Também eu sou capaz de cair nas "areias movediças da carícia"...

Sou de um país que não existe

 Acho que sou de um país que não existe. 

Quando quis pensar no teu nome veio-me o dele e quando quis pensar em qualquer nome de outros vem-me o teu. Faz sentido. Assim como o meu cérebro associa traços de rostos a outros rostos, confundo-me entre quem é nalguma coisa forte da personalidade igual. 

Nunca nada fiz por mal. Foi tudo automático. Mas já sei o que se passa no meu cérebro, no meu coração, na minha sensação. 

No país de onde eu sou só existe amor, todos os dias, sem qualquer gota de rancor. Há uma ingenuidade e franqueza alvas, nunca há mágoas, nem ressentimentos. No meu país vive-se por momentos, cada um presente. 

Tu moras no meu país. Tens lá morada fixa. Será que era a mim que pedias que fingisse ser tua namorada? Hoje lembrei desse pormenor. Tudo quase questiono em redor. 

Agora que somos assim, tão presentes, como acabam os nossos dias? Eu mudei tanto que já nem gosto das mesmas coisas. Nem todas. Eu sei que não fui eu que fui quem esteve naquele momento no tempo. Mas será que tu sabes? És tu quem sempre soube? Afinal és tu quem sempre soube quem eu realmente sou, não é? 

O país de onde eu sou tem sim o cheiro doce da figueira, que primeiro me lembrava daquela passagem, das dunas e das libélulas e, depois, mais entranhado ainda eu usava à sexta-feira.

Sou de um país que não existe, que nunca teve fronteiras, limites, mentiras e falsidades, onde só existe tu. 

(existe)

domingo, março 22, 2026

Rapariga de papel numa cidade de papel

 Agarram-se muito de vez em quando 
músicas à minha cabeça entre os ouvidos 
eu sei que não fui feita para este mundo 
mas tentei fazer algumas coisas 
que o mundo logo tratou de destruir 
porque eu sofro de alergias a quase tudo
mas insisto em queree ver, conhecer
poder admirar, cheirar, tocar e até absorver 
até ao recordar violento do choque
do espirro, da comichão, da dor, da infecção 
eu não sei de nada senão passar tormento
sem ter quase nenhum alento de ninguém 
as minhas batalhas a cada segundo 
são como o vento: chega e vai mais além 
ora a vertigem, da tontura, da fraqueza 
ora o trespassar, o abalroamento, a leveza
que me faz ir no vendaval do mau tempo 

Tu vives na cidade dos arranha-céus 
eu lembro que era a mais poluída 
e os meus pulmões que nunca foram bons
certamente sucumbiriam 
mas o meu coração também já sucumbiu
pelas orquídeas que despontam de troncos
e pela graça de alguém se lembrar de mim
abençoando-me sempre que as fotografa
Quantas pessoas me disseram que viesse?


(today saw on tv Paper Towns)


 Ardi nas chamas azuis do teu peito

pássaro morto

no último vôo 

em que tu me alvejaste com uma seta


vai de uma vez e leva
toda a memória de ti

domingo, março 15, 2026

 Meu caro, o meu coração está despedaçado há muito tempo. Cada pessoa que me traiu e abandonou, mais toda a gente que eu amava e morreu, juntamente com toda a violência e desapoio que sofri, deram cabo de mim. 

 A minha "metralhadora de mágoas" entupiu. 

Acidentes

 Lembras-te de quando tiveste o acidente em que o carro ficou de tal forma espatifado que ficou inutilizado? Lembras-te como ficaste depois dias a bater mal da cabeça e a querer viver tudo antes que se acabasse? Lembras-te como, de repente, consciencializaste-te da inevitabilidade do teu fim e tantos arrependimentos vieram ao de cima? Eu lembro, lembro que me ligaste a contar, Lembro-me da tua aflição. 

Sempre fico a pensar em como é invariavelmente assim que acontece com toda a gente. Aquele misto de intenso conflito mental com um toque de alívio e o suposto despertar para a iminente morte. Ah e a culpa, especialmente se havia mais gente no carro. 

Lembro como eu me espatifei à grande por amor, quase a cada encontro, nunca saí incólume. Eu fui sempre o pendura e como boa pessoa no lugar do morto, morri em bastante. Só para depois entender mais de mim, do que fui e fiz e o quanto me perdi. A tal da expansão da consciência acontece também e a noção da mortalidade regressa. Eu sempre fui propenso a acidentes. Mas qualquer dia destes, despertei, foi de tal forma que nunca mais me apanharam nesses entroncamentos. Nunca mais andei sobre estradas de pedrinhas soltas derrapantes. Nunca mais fiz 180 graus. Nunca mais galguei o passeio nem amolguei coisa nenhuma. Além de ter deixado de conduzir há muito mais de uma década. 

Hoje em dia já não sou propenso a acidentes, apenas a raríssimas passagens a pé, que no máximo rebentam as minhas veias das pernas até amanhã. 

Quem és tu e quando vens buscar-me? nds "ninguém" 🤦🏽

 Queria que me viesses levar 
Contigo
Até não mais poder voar
Preferia 
Do que ter o coração sofrido 
Todos os dias 
Também por te amar

Ontem estavas num meu sonho 
Acompanhado por alguém 
Sabia que já não eras meu
E eu procurava outrem 

Hoje procurei-te de novo 
Mas já nada me faz bem
Nem ver-te nem ouvir-te 
Já faz anos que não sei
Nem de ti nem da tua cara
Se ainda sorri
Ou se é só feita de mágoa

O teu nome desconheço 
Mas ainda tenho esta sensação 
De um dia saber quem és
E tu vires só para mim 
Seres uma pessoa inteira
Como ainda jamais vi


quinta-feira, março 12, 2026

mais um daqueles pensamentos

 A vida é uma coisa muito difícil para a maioria das pessoas.

Tenta-se levar em frente, fazer o que se pode, mas há pessoas que estão fadadas a ter todas as suas oportunidades goradas.

Ultimamente olho para trás, para ver se alguma vez houve uma chance, mas chego sempre à mesma conclusão: não houve e nós não fazemos "ses", não é?

Por causa da malograda saúde, estar há mais de uma década sem poder trabalhar fora, mais de duas décadas sem poder viajar, anos sem poder estar com pessoas à-vontade, e todos os pesadelos enfrentados desde a pandemia, mais uma vida inteira de traumas, faz-me pensar em como abraçar ser artista tem sido mais um murro em ponta de faca.

terça-feira, março 10, 2026

 Lambo a semente
Coloco na Terra
O silêncio é cinza
Que fica da guerra
E a sílaba tónica 
E o acorde atonal
Soam vibrando
No frio outonal

Sambo na corrente 
Invoco a espera 
O pensamento é tinta
Que rolo na tela
E a linha sónica
E o rastro celestial 
Voam desenhando
No ar um rio de sal

segunda-feira, março 09, 2026

escrito num story do insta pós-8M

 Além do que já estamos habituados no dia-a-dia, hoje também foi triste constatar como não há homens que estejam do lado das mulheres a sério, com acções concretas que façam alguma melhoria por mais pequena que seja. De ano para ano aqui é quase sempre a mesma coisa: nenhum homem se põe a falar para os outros homens e chamar-lhes atenção (começo a ver q n é só pela desculpa esfarrapada do "não sinto que seja esse o meu papel, o meu lugar de fala", mas tlvz pq no fundo eles sabem q tb já foram merdosos com mulheres). Inclusive muitos dos seus amigos são homens que já foram extremamente horríveis para as suas amigas e eles não estão nem aí. Infelizmente não há nenhum que eu tenha conhecido que não tenha sido um cobarde nesse sentido. Todos coniventes. E tantas mulheres também amigas desses meninos. É tudo triste, porque na verdade o amor não existe. Todos usam os outros e nem vêem quem realmente são por dentro.

Continuem a fechar os olhos e a baixar a cabeça, fingindo que não é nada convosco, que com certeza essa onda de ódio maior contra as mulheres há-de desaparecer magicamente, ó se há-de. Ah e não esqueçam de continuar a lamentar depois as mortes, como se não tivessem contribuído para isso.

E, sim, sou misândrica.