quinta-feira, junho 25, 2026

Distopia

 Talvez sintas falta 
do amor que a gente fez
e como ele da dor nos salvava

Podíamos ser nós mesmos 
uns com os outros 

Éramos demasiado até 
envolvidos e levados
pela corrente 

Fiz o que pude para estar lá 
e nunca te faltar apoio
presença e acolhimento 
mesmo no nosso silêncio 

Sofri por saber que sofrias
e que eu nada podia fazer 
para acabar com o teu sofrimento 
e toda a pressão que sentias

Para mim vocês foram 
a coisa mais bela e frágil 
até todos se tornarem duros e dementes
cruéis e psicopatas com as gentes

O meu semblante triste e magoado 
desiludido e caído
mete medo ao susto
de qualquer inimigo 

Mas vocês não me verão em nada
do que eu sou ou quem fui
na madrugada 
tudo o que flui e foi
e nada souberam de verdade

Os meus lutos e a minha luta
toda a incompreensível distopia
para a qual tu contribuis
tão dedicadamente 
cegando o povo
com barulhos e fogos de artifício 

Eu perdi-me em 2020
e nunca mais me recuperei 
nem fui mais nada de jeito 
porque tudo piorou
e eu vi a maior das verdades 

Entrámos numa década distópica 
e eu tenho estado a observar 
completamente dormente
toda a porcaria da gente

A consciência flagrante 
que todos têm dos horrores 
e ninguém faz nada deliberadamente 
ou fazem pior

Eu não me tornei na resistência 
nem sequer num alucinado
enfiado num bunker
com a mente minada
mas simplesmente morri

Esqueci de avisar

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