quarta-feira, abril 15, 2026
Outra fase do luto
Do Aborrecimento
Eles só sentem solidão quando estão aborrecidos. Daí usarem de terceiros para se distrair. Eu quase nunca me aborreço, porque eu vivi a vida inteira de pensamento e contemplação. Quando era mais nova fui uma ávida leitora e isso formou-me tanto a imaginação que acabei por me tornar numa pessoa extremamente imagética de tudo o que testemunho. A exponenciação da empatia e dos neurónios-espelhos também se deve desenvolver assim, creio. Ou seja, este cocktail perigoso foi o que também me permitiu, enquanto ser cronicamente alerta, nunca me entediar. Tudo a todo o segundo acontece e eu observo, sou impactada e atravessada por isso. A solidão e o aborrecimento podem ocorrer por não estar com pessoas que sejam presentes, que existam conscientes e que saibam estar no momento. Eu soube relaxar, descansar, divertir-me, mas muito pouco e com a duração de poucos minutos, nesta vida. O resto foi essas aflições de stress, incerteza, bombardeamentos e tudo mais patrocinado por outros (que assim podem e têm tudo, que se divertem à vontade, etc.) enquanto sempre a ter de cuidar de alguém.
Enfim, o tédio não me assiste. Eu assisto o tédio e nunca é completamente entediante. Até traz bonitas surpresas à percepção, às vezes. Um espaço para enxergar, escutar, aceder outras ondas.
domingo, abril 12, 2026
O meu menino
Talvez o meu menino já não exista mais. Morto pelas guerras de que o homem é capaz. Não somente as externas, mas principalmente as internas. O meu menino, no entanto, jamais se deixaria quebrar irremediavelmente no seu espírito. Embora ele não seja Mandela, ele sabe que o atrito tem a sua função apenas integrativa de toda a emoção que abraçamos. Há que estar consciente disso e o meu menino é muito ele, inabalável na sua meninice bonita e terna. Ele é o mesmo que aprendeu a fazer comigo um pequeno ondulante grito de vitória ao erguermo-nos e descermo-nos numa simples lomba na estrada. O meu menino é verde. Como a explosão de sabor que ele sentiu ao prová-lo, como a coragem que teve quando era desafiado para trilhos em rochedos ou simplesmente testar uma ponte de madeira improvisada, ou só mesmo quando apontava para uma estrela dizendo que não se deve apontar para estrelas. Enquanto o meu menino for um grande peixe sempre desidratado e a ansiar pela água e apartar os caminho de pipocas suspensas no ar, entre palhaços, anões e gigantes, e plantar campos inteiros de lírios-do-campo só para a ver feliz, eu sei que ele é imortal e existe em cada um deles um amor puro sem final.
(Eu não tive o meu menino; nem sequer me despedi dele.)
sexta-feira, abril 10, 2026
Um silencioso azul
Planos
quinta-feira, abril 09, 2026
Chorando
terça-feira, abril 07, 2026
"Se eu não sou nada, quem é que eu sou? ele perguntava"
segunda-feira, abril 06, 2026
Os contos de fadas que contamos a nós mesmos
Hoje não resisti ao Big Fish na tv. Lembrei como já foi o meu filme favorito num tempo e a favorita cena das pipocas, claro. Eu sei que vivi uma vida inteira a tentar sobreviver neste inferno diário através dessa fantasia que a arte proporciona, de nos dar esperança, de nos fazer acreditar que há coisas boas e bonitas para viver, mesmo que seja só por simulacro através dos filmes, músicas, livros, quadros, etc. É impressionante como além das ficções e das fantasia, também fui gostar de documentários e coisas de época. No fundo, tudo coisas de fôlego, profundas, que fazem reflectir e imaginar. Como a minha vida se tornou num nó insolúvel desde muito cedo, a minha forma de tentar deslindá-lo e escapar ao terror que me era imposto todos os dias, foi, sem eu me aperceber muito disso, refugiar me nessas artes todas. Desenvolvi alguns mecanismos de sobrevivência por causa dos traumas todos. Só nestes últimos anos bizarros é que me fui aperceber disso e identificar melhor o que se passava comigo aquando de certos comportamentos. Há quem passe a vida toda sem ver essas coisas em si, sem ter consciência nem sequer começar a analisar-se. Pessoas que não se conhecem, que nunca encetaram processos de autoconhecimento. Em vez, contam-se a história mais apropriada sobre si mesmos conforme dá jeito para a ocasião. Ao menos, eu sei de quase tudo o que fui de mau e de bom, sei que também tive muitos momentos de querer escapar deste mundo, mas limitei-me a aprofundar-me nele com as artes. Aos poucos, com o avanço da idade, foi-me dissolvida a maioria dos contos de fadas e depois de tudo me ter sido tirado e eu mil vezes abandonada sem quase nada, só um conto deve ter ainda sobrado. Muito lá no fundo enterrado.
sábado, abril 04, 2026
Afim
quinta-feira, abril 02, 2026
Entre citações musicais
A flor do mar
segunda-feira, março 30, 2026
Divagar
Em meandros da minha exaustão, ainda assim, alternam-se momentos de contemplação, crises existenciais e epifanias. "Frito em óleo profundo", é como me sinto, reconheci agora há pouco enquanto por curiosidade pesquisava entre menus de restaurantes e deparei-me com esta preciosa pérola da tradução literal.
Lembrei de repente como no outro dia em que fui arejar, as ruas vazias pareciam ter um ar seco e quando há mais pessoas tudo fica mais húmido.
Retorno a ti. É-me inconcebível que não me detestes e que voltes um dia, mas nada dentro de mim é mais possível do que este amor doido nunca se acabar. Dizem que amamos uma ideia e temos a falta de sentir que estamos a ser amados e tudo mais que elaborámos à volta das incertezas. No teu caso, demoraste, mas deste-me a confirmação das piores certezas. Pois tenho de te dizer e a todos que em certo momento desejaram a minha morte, que não se preocupem, que todos nós para lá caminhamos eu, apesar de estar fora do prazo, continuo a ser a pior das mortais, que tanto sangra nesta vida de horrores.
Os pássaros estão desesperados. Melros afogueados. Parece, não sei ao certo, mas é como sempre "é de madrugada a criação". E eles não se calam. Hoje acabei por rever uns poucos, em que pensava eu, me cantavas. Eu sorri de novo "dengo, relaxar", quem dera que fosse verdade.
domingo, março 29, 2026
Ficou um bocadinho confuso tudo
sexta-feira, março 27, 2026
Sou de um país que não existe
Acho que sou de um país que não existe.
Quando quis pensar no teu nome veio-me o dele e quando quis pensar em qualquer nome de outros vem-me o teu. Faz sentido. Assim como o meu cérebro associa traços de rostos a outros rostos, confundo-me entre quem é nalguma coisa forte da personalidade igual.
Nunca nada fiz por mal. Foi tudo automático. Mas já sei o que se passa no meu cérebro, no meu coração, na minha sensação.
No país de onde eu sou só existe amor, todos os dias, sem qualquer gota de rancor. Há uma ingenuidade e franqueza alvas, nunca há mágoas, nem ressentimentos. No meu país vive-se por momentos, cada um presente.
Tu moras no meu país. Tens lá morada fixa. Será que era a mim que pedias que fingisse ser tua namorada? Hoje lembrei desse pormenor. Tudo quase questiono em redor.
Agora que somos assim, tão presentes, como acabam os nossos dias? Eu mudei tanto que já nem gosto das mesmas coisas. Nem todas. Eu sei que não fui eu que fui quem esteve naquele momento no tempo. Mas será que tu sabes? És tu quem sempre soube? Afinal és tu quem sempre soube quem eu realmente sou, não é?
O país de onde eu sou tem sim o cheiro doce da figueira, que primeiro me lembrava daquela passagem, das dunas e das libélulas e, depois, mais entranhado ainda eu usava à sexta-feira.
Sou de um país que não existe, que nunca teve fronteiras, limites, mentiras e falsidades, onde só existe tu.
(existe)
domingo, março 22, 2026
Rapariga de papel numa cidade de papel
domingo, março 15, 2026
Acidentes
Lembras-te de quando tiveste o acidente em que o carro ficou de tal forma espatifado que ficou inutilizado? Lembras-te como ficaste depois dias a bater mal da cabeça e a querer viver tudo antes que se acabasse? Lembras-te como, de repente, consciencializaste-te da inevitabilidade do teu fim e tantos arrependimentos vieram ao de cima? Eu lembro, lembro que me ligaste a contar, Lembro-me da tua aflição.
Sempre fico a pensar em como é invariavelmente assim que acontece com toda a gente. Aquele misto de intenso conflito mental com um toque de alívio e o suposto despertar para a iminente morte. Ah e a culpa, especialmente se havia mais gente no carro.
Lembro como eu me espatifei à grande por amor, quase a cada encontro, nunca saí incólume. Eu fui sempre o pendura e como boa pessoa no lugar do morto, morri em bastante. Só para depois entender mais de mim, do que fui e fiz e o quanto me perdi. A tal da expansão da consciência acontece também e a noção da mortalidade regressa. Eu sempre fui propenso a acidentes. Mas qualquer dia destes, despertei, foi de tal forma que nunca mais me apanharam nesses entroncamentos. Nunca mais andei sobre estradas de pedrinhas soltas derrapantes. Nunca mais fiz 180 graus. Nunca mais galguei o passeio nem amolguei coisa nenhuma. Além de ter deixado de conduzir há muito mais de uma década.
Hoje em dia já não sou propenso a acidentes, apenas a raríssimas passagens a pé, que no máximo rebentam as minhas veias das pernas até amanhã.
Quem és tu e quando vens buscar-me? nds "ninguém" 🤦🏽
quinta-feira, março 12, 2026
mais um daqueles pensamentos
A vida é uma coisa muito difícil para a maioria das pessoas.
Tenta-se levar em frente, fazer o que se pode, mas há pessoas que estão fadadas a ter todas as suas oportunidades goradas.
Ultimamente olho para trás, para ver se alguma vez houve uma chance, mas chego sempre à mesma conclusão: não houve e nós não fazemos "ses", não é?
Por causa da malograda saúde, estar há mais de uma década sem poder trabalhar fora, mais de duas décadas sem poder viajar, anos sem poder estar com pessoas à-vontade, e todos os pesadelos enfrentados desde a pandemia, mais uma vida inteira de traumas, faz-me pensar em como abraçar ser artista tem sido mais um murro em ponta de faca.