segunda-feira, abril 27, 2026

 Esta dor que fez morada em mim
parece que não tem princípio ou fim
e apenas insiste em viver cá dentro 
sufocando-me o pensamento 
e dando cabo do meu coração 
que morreu de tanto tormento 
por nunca ser amado por ti

Uma sombra mais pálida

 
Assim que ela chegou a casa
Olhando-me disse:
"estás branquinha"
e eu fiquei sem reacção 
como doutras vezes
perante tamanhos grotescos absurdos
Que apenas lembrei 
como de onde ela vinha
a outra era mais clarinha
a preferida dela
e de como sempre foi racista

Embora eu mude de tom
por causa das minhas doenças 
a minha cor sempre foi negra
e a minha alma sempre foi sombra

Por causa dela
Por causa dele

Tudo o que não é dito

 Todos criamos monstros 
Especialmente dentro de nós 
Com tudo o que não dizemos 
Nem arriscamos pensar a sós
São tantos os assombros
Que nesta vida fizemos 
Que vivemos assombrados
Sem saber o que é atroz

Como eu te odeio
E tu também a mim
Como eu nunca te amei 
E és só mais uma doença 
Como as outras que contraí

Como tu me amaste
Como eu te amei
Como desesperámos
Mas foi mais fácil quando acabei
Por nos sabotar o amor
Como eu nos destruí
Mas nunca quis desistir 
Como tu desististe
Mas não ficaste triste 

Como eu era a mulher da tua vida 
A tua melhor amiga
Como não querias ficar sem mim
Como eu não aguentei a despedida 

Como tu me odeias
Como eu te detestei pelo mal
E pela crueldade que demonstraste
Como tu me odeias 
Por tudo o que te contaram
E acreditaste
Como eu te odeio
Por acreditares noutros
E não em mim

Como eu pensei que com eles
O primeiro e o segundo 
Grandes amores que tive
Seriam para sempre 
Até ficarmos velhinhos 
Dizíamos ingénuos
Que podíamos contar
Até a morte nos separar

E tudo o que não falamos 
Adoece-nos
Dizem 
Eu já não sei
Porque sempre estive doente 
E tu sempre cantaste

domingo, abril 26, 2026

Sempre e para sempre

 tudo em mim clama por ti
e assim como as canções 
que nos acompanham
são imortais 
assim é o meu amor
que tu nunca respondeste
com "meu amor" 
como sempre imaginei 
e apenas ficas aqui
na minha cabeça 
e no meu coração 
alma unida à tua
sempre sol com a lua
e repetidas vezes
volta tudo à memória 
nessa linda e triste estória 
que para ti nem existiu 

enquanto aguardo
sofregamente 
um milagre que não vem


sábado, abril 25, 2026

 Hoje é o dia dessa utopia:

A Liberdade 

Que ainda esperamos 

E às vezes lutamos 

Para que ela surja

No meio das trevas

Mas neste momento 

Está em crise de meia-idade


(eu gostava de ser livre)

sexta-feira, abril 24, 2026

O Sol e a Lua II

 Amo-te todos os dias 
Sabias?
Fico à espera de um sinal teu
Como se houvesse uma jura
Que se prometeu
Mas tu nunca mais voltas
Para me tomares tua
E vi que há cada vez mais 
Crateras na Lua

Encontrei escrito num teu livro 
Que eu era o Sol 
Que tu girassol eternamente buscavas
E vi hoje numa fita escrito
Pela minha irmã criança 
Algo como quando tudo vai mal
Depois vem o Sol e fica melhor 
E lembrei de como o meu irmão 
Me deu um amuleto de um Sol
Que dizia "eres un Sol"
E tanta gente me via como vida
Porque eles não sabem de mim
A verdade que eu passo sempre 
A dor e o sofrimento que carrego
E só pensam em mim a fazê-los contentes 

Ou talvez, dirias tu, que são ambas as coisas 
E que sempre fui muito solar e lunar
E tudo o que há entre o espaço, e o nada
Tu que me embalavas a madrugada 
E me conhecias como ninguém 

(um dia páro de vos misturar)

quinta-feira, abril 23, 2026

Nome

 

Todos têm nome

Aquele que escolheram

Aquele que lhes escolheram

Aquele por que são chamados 

Aquele que lhes chamam

Mas nem sempre conhecem

O nome que lhes foi dado

À nascença 

À sua presença 

À sua liberdade 

terça-feira, abril 21, 2026

Ele foi como eu?

 Gostava sim de conhecer alguém como eu
Uma vez que todos dizem que todo o ser
Desde criança precisa de conexão e cuidado 
Acho que só assim podia sentir isso 
Talvez tenha sido por isso que o quis tanto
Porque também talvez ele apoiou todos cedo
Irmãos e pais e primos e tios e avós 
Mantém-se bom, depois forçado por dentro 
Esgotado, acossado, stressado e pressionado 
Ansiando pela liberdade justa e indignado
Sem já grande paciência e um quê cínico 
Foi pau-mandado, escravizado, sonhou
Teve força, se intitulou, mas ele foi mimado 
Certamente pela maioria de todos à volta 
Já eu vivi isolada porque ninguém quis nada
A não ser quando de facto necessitava
Mas as mulheres são usadas e largadas 
Já os homens são eternos rapazes
É assim que a sociedade os pinta
Ninguém admite do que somos capazes 

domingo, abril 19, 2026

2 mortes, 2 nascimentos

 Eu, tu
Eles 
a nós
somos tios agora?
e cadê os meus tios?
e cadê as tuas avós?
Somos sós
Somos unos
Somos com todos
Como fomos um dia juntos 
Seguimos com fé intermitente 
Mas completamente certa
Talvez a esperança deserta
Mas também nada importa 

Luíza

 A fragilidade da vida
vê-se num brinco 
um coração de viana
oxidado
escurecido de propósito 
Ela luta, esperneia
as suas últimas tentativas 
de tentar se indignar
contra a falta de controlo
contra a falta de justiça 
e imagina e se resigna
mas nunca mais volta
é só o que pode fazer
de decisão própria agora 
Ela se quebranta
Esforça agradecimentos 
Aproveita segundos de leveza
Depois mais tarde desmancha 
Desistiu da sua cara
Antes de ver morrer a pessoa amada

sábado, abril 18, 2026

Fazemos de conta

 Fazemos de conta que nada aconteceu:
ninguém morreu, ninguém adoeceu 
ninguém destruiu ninguém 
ninguém assassinou ninguém 
e tudo continuou como era antes 
de festa em festa
sem pandemia 
sem mortandade 
só alegria 
sem ruindade
sem patifaria 
como numa danceteria 
em que a música só suspendeu

sexta-feira, abril 17, 2026

 Deve ser das sinas piores de um ser humano: não poder se dar normalmente à paixão e estar com alguém que se ama.

Improviso pós-surpresa da foto "movimento" de céu

Habito na hora oblíqua 
Capturo o movimento 
Ele fotografa as cores
Refraccionando a luz
Ó meu amor, como seduz! 
Já sei que me achaste
Meio ridículo de erudito
Mas gozaste de eu estar aflito 
Atrapalhado e enamorado
Eu amei tudo e todos demais
Até um dia que não dava mais
Para serem felizes comigo
E larguei-os do meu abrigo

Este meu improviso não vês 
Como tudo o que escrevi 
E (graças aos deuses 🙌🏽) não lês
Mas achei este céu bonito
Foi uma surpresa que me fiz
Ainda dou-me a experiências
Raras e etéreas, mas sou feliz
Independentemente delas
Também já desconheces
No que me tornei e deixei
Depois de Agosto de 2024
Com tantos lutos e turbilhões 
Sem ter chão, deixar de ser vento

Agora como nunca antes
Dissolvi-me no firmamento 
Entendi cada fugaz momento 
E já nada me importa questionar 
Tu acabaste por dar-me tudo
O que eu precisava para confiar
Que tudo um dia vai acabar
E eu já não sofrerei mais
Porque regressarei ao meu lugar

 O amor é sentir que estamos num pedaço fora de nós. 

 E se um dia se acabar aquela dor 
Que um dia nos uniu 
O que será daquele nosso amor
Que foi sol, lua e chuva 
Quando tudo era só torpor?
 Todos aqueles anos
Em que eu não senti falta 
Nem falava com ninguém 
O hábito sempre se instala
O óbito sempre vem
Mas a lembrança está lá 
E a saudade mais além 

Hoje vejo as fotografias 
E amplio-as
Para enxergar s cor do olho 
De alguém que é rara
E a cara de outro alguém 
Por quem meu amor não pára 

Pergunto-me pela primeira vez 
Se há alguém que faz também 
Uma festinha no ecrã 
Num descuido
Numa acção vã
Tanto quanto tudo o que sinto

quinta-feira, abril 16, 2026

Sereno

 Tu podias ser a coisa bonita 
Agora nesta minha vida 
Em que eu reteria a beleza 
Só para sentir a divindade
Como um milagre 
Talvez ouvir-te de novo
Será que ainda me achas linda?

Tu estás cada vez mais bonito
E no país onde habitas
Há cada vez mais amor
Talvez eu volte a ver um dia
Algo de surpresa no teu olhar
Depois do amor que a gente fez
E do tumulto, do caos, da confusão
Dessa tua crueldade voraz
Com a minha insatisfação mordaz 

Eu morri porque tu quiseste 
Eu tornei-me numa pessoa 
E não gostei muito disso 
Ter autoconsciência é demais 
Não sei como nunca foste capaz 
De dizer que mais me amaste 
Quando eu era a tua menina 
E tu eras o meu rapaz 

A chuva parou de cair lá fora
Apenas sopra uma brisa
De quando em quando
E nunca mais se viu o sereno 
Como nas madrugadas desesperadas


quarta-feira, abril 15, 2026

Outra fase do luto

 O meu choro já não tem palavras 
Só tem silêncios
Já não tem desesperos gritados
Apenas mudos tormentos
Que me torcem a garganta 
Esmigalhando o nó
E a dor não termina nunca 
Ela agora quando vem incinera
Instantaneamente 
Quando me toca
Seja ao escutar uma música 
Que de novo me transporta
Seja ao ver algo que escancara a ferida
Eu já não sou quem fui um dia

Do Aborrecimento

 Eles só sentem solidão quando estão aborrecidos. Daí usarem de terceiros para se distrair. Eu quase nunca me aborreço, porque eu vivi a vida inteira de pensamento e contemplação. Quando era mais nova fui uma ávida leitora e isso formou-me tanto a imaginação que acabei por me tornar numa pessoa extremamente imagética de tudo o que testemunho. A exponenciação da empatia e dos neurónios-espelhos também se deve desenvolver assim, creio. Ou seja, este cocktail perigoso foi o que também me permitiu, enquanto ser cronicamente alerta, nunca me entediar. Tudo a todo o segundo acontece e eu observo, sou impactada e atravessada por isso. A solidão e o aborrecimento podem ocorrer por não estar com pessoas que sejam presentes, que existam conscientes e que saibam estar no momento. Eu soube relaxar, descansar, divertir-me, mas muito pouco e com a duração de poucos minutos, nesta vida. O resto foi essas aflições de stress, incerteza, bombardeamentos e tudo mais patrocinado por outros (que assim podem e têm tudo, que se divertem à vontade, etc.) enquanto sempre a ter de cuidar de alguém. 

Enfim, o tédio não me assiste. Eu assisto o tédio e nunca é completamente entediante. Até traz bonitas surpresas à percepção, às vezes. Um espaço para enxergar, escutar, aceder outras ondas. 


domingo, abril 12, 2026

O meu menino

 Talvez o meu menino já não exista mais. Morto pelas guerras de que o homem é capaz. Não somente as externas, mas principalmente as internas. O meu menino, no entanto, jamais se deixaria quebrar irremediavelmente no seu espírito. Embora ele não seja Mandela, ele sabe que o atrito tem a sua função apenas integrativa de toda a emoção que abraçamos. Há que estar consciente disso e o meu menino é muito ele, inabalável na sua meninice bonita e terna. Ele é o mesmo que aprendeu a fazer comigo um pequeno ondulante grito de vitória ao erguermo-nos e descermo-nos numa simples lomba na estrada. O meu menino é verde. Como a explosão de sabor que ele sentiu ao prová-lo, como a coragem que teve quando era desafiado para trilhos em rochedos ou simplesmente testar uma ponte de madeira improvisada, ou só mesmo quando apontava para uma estrela dizendo que não se deve apontar para estrelas. Enquanto o meu menino for um grande peixe sempre desidratado e a ansiar pela água e apartar os caminho de pipocas suspensas no ar, entre palhaços, anões e gigantes, e plantar campos inteiros de lírios-do-campo só para a ver feliz, eu sei que ele é imortal e existe em cada um deles um amor puro sem final. 

(Eu não tive o meu menino; nem sequer me despedi dele.)

sexta-feira, abril 10, 2026

Um silencioso azul

 Tão luzidio aquele momento 
Minutos em que a noite vira
E tudo se ilumina em dia
Lembrei de como era
Quando eu ficava à espera 
Num misto de desesperança 
E muito conformismo 
Todos nós, então, no abismo
Mas de repente 
Por uns segundos 
O céu alvo ofuscava
Com uma serenidade tonta
Ludibriosa
E eu pensava em ti
De novo 
Como em todos os silêncios azuis

Planos

 Nunca pude fazer planos 
Sempre tive só incerteza 
Pessoas causando danos
E só rara delicadeza 

Não pensei que eu fosse durar
Tamanhos eram os problemas 
Eu joguei tudo para o ar
Obrigada pelos dilemas 

Já tive quem me dissesse
Que achava já não me amava 
Só para se arrepender a seguir 
De o ter acabado de dizer 
E já tive também alguém 
Que disse que eu estava enganada 
Que não era nada do que eu supus
Mas houve quem me declarou
Que sem mim nada fazia sentido 
Outras pessoas queriam casar
Mas eu nunca achei que queria 
Pelo menos não com eles todos 
Quem sabe ainda haja tempo 
Para eu aceitar o tal um dia
Mas isto não sou eu a planejar
Nem tanto a pensar que haveria
Quem fosse de facto essa pessoa 
Só que isto de nunca fazer planos 
Também não quer dizer à toa
Pois a verdade é que sempre sonho
Com coisas parecendo impossíveis 
Como ir para Florença estudar
Um dia ser normal e poder voar
E quiçá depois de décadas namorar
Viajar o mundo e ser livre
Como quis no princípio de tudo
Antes de tudo me correr mal

quinta-feira, abril 09, 2026

 Revolvendo os destroços 
No meio do entulho 
Ainda encontras
Uma ternura que dura
Tanto quanto 
A angústia existencial
De um passado morto

Chorando

 Se eu chorar 1001 dias
Será que desagua a mágoa
E páro de dizer #bebamágua
E voltam algumas alegrias?

Se eu chorar 1001 nomes
Será que terminam as fomes
Todas dos humanos ignomes
E arreigar-se-ão dos seus pronomes?

Se eu chorar 1001 noites
Será que param os açoites 
Nas costas da minha alma
E começa finalmente a calma?

terça-feira, abril 07, 2026

"Se eu não sou nada, quem é que eu sou? ele perguntava"

 Tu não és
Só estás 
Por enquanto 
E só és
Se fores para outros
Mas em si mesmo 
Não és nada
Poeira estelar
Com ilusão de importância 
Talvez num momento 
Talvez para alguém 
Talvez no mundo 
Nada de profundo 
Nada por aí além 
Porém inventas de ser
Ou parecer
Porque outros "são"
Mas não tens um irmão 
Talvez isso seja uma questão 
Mesmo quando não queres
Porque te é imposto
Tudo, até o teu rosto

Não queiras ser alguém 
Não queiras ser ninguém 
Tu não és o que queres ser
Nem o que queres ter
Embora te possa parecer
Nunca nada é completamente 
Porque quando és gente
És só um animal descontente 

(tu és só quem faz os teus hábitos, necessidades e automatismos, até morreres)