segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Afinal nem isso

 Afinal as rimas que fiz a pensar em ti provavelmente nem sequer rimam na tua língua, assim como na tua linguagem. 🤦🏽

 Nunca quis ter nome
Mas quis ter endereço 
Só quem nunca alinhou
É que sabe qual o preço 

De ser contra tudo e todos
Num mundo podre e roto
De valores íntegros e bons
Pois quem tem é posto além

Bem longe de ter direitos
De poder escolher o que quer 
Senão ficar a danar-se em jeitos
De quem nada tem como mulher 

Fraca Figura

 Desenhei-te sem saber quem eras
Ou simplesmente continuei
A ser como tinha de ser
Não sei
Certamente não fui quem esperas
Nem sou eu antes de morrer
Em tudo aquilo que eu sou
E queria fazer
Optar pelo silêncio 
Optar pelo saborear
Indo frágil pelas ruas
Apanhada por todos a olhar 
E mais os que ousam em me falar 

Eu sou apenas uma fraca figura 
Que fizeram de forte 
Para ninguém ter de cuidar 
Ou sequer se responsabilizar 
Quando me causam uma morte

Quem me leva os meus fantasmas?

 Se é mesmo verdade que se nos encontrássemos mesmo nos nossos agora quarentas, depois de mais de vinte anos, nunca poderíamos ser só amigos, eu não sei. Mas acho que não. Eu já não te amo como te amava. Já amei outros dois depois de ti. Pensamos sempre que temos a nossa pessoa. Mas isso só é assim se essa pessoa estiver lá para nos defender e podermos contar com ela. Nenhum dos três me defendeu quando era preciso. Curioso, não? 

Sabes?

 Sabias que não há outra pessoa completamente igual a ti?

Quero crer que tentámos anestesiarmo-mos, doses sem conta, até à amputação. 

Sabias que não há ninguém com o teu olhar?

Sabias que ninguém mais tem o teu riso?

Sabias que eras o meu melhor amigo?

Sabias que só a ti te contei todas as atribulações que ia sentindo?

Sabias que só em ti confiei?

Sabias que não há ninguém que eu mais defendesse, ou acreditasse?

Sabias que só tu me tinhas e à minha vida?

sábado, fevereiro 21, 2026

Incapacidade final

 Talvez a minha forçada inépcia sempre no último verso seja como a minha inabilidade de fazer rapidamente um cheque-mate, ou talvez apenas o facto de nunca ter saído daqui, ou tão simplesmente nunca ter tentado de vez apagar-me.

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

 Marcou-me o teu gesto
De tocares um caracol do meu cabelo 
Será que era um brinquedo 
Ou o afastavas do meu rosto?

O teu cabelo é tão negro 
Como a asa de um corvo reluzente
E o teu cavanhaque de moço
Era tal como te dizia espadachim 

Tu causaste-me um alvoroço 
Com a tua desgarrada bravura 
Sempre tiveste optimista candura
Afinal lembravas-te de mim

E eu não sei o que te perdura
Nem soube por que foi assim 
Depois, todo o clima funesto
Quando te tinha já antes dito
Que eu não aguentava nada disto
E vocês que um dia foram alegrias
Acabaram a dar cabo de mim

Palpite

 porque é que estavam dois homens idosos (tugas, pelo menos um deles, o outro estava demasiado bêbado para falar uma frase  perceptivel) là à porta do bar inglês no Cais Sodré a repetir muitas vezes um ao outro que era "Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão" ou algo parecido a este famoso verso ? 

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Sensibilidade e bom senso

 Penso em quantas pessoas deixámos que nos influenciassem um contra o outro. O quanto de intrigas, fofocas, mexericos, diários equívocos, deixei que me contaminassem e envenenassem como nunca outrora. Sempre soube da perniciosidade dos comportamentos de grupo. Mesmo assim não me afastei das pessoas nefastas, porque por momentos tinha a ingenuidade de um puro amor como escudo acima de tudo e senti-lo era o que bastava para ser imune. Pensava eu. Mas os planos mesquinhos de outros podem matar tudo o que quiserem e, achava também eu, que se fizessem mossa num sentimento tão grande era porque afinal não era tão grande assim. Para mim ele resistiu e foi sempre o que foi: enorme. Massivo e maciço em tais formas que até depois da morte ressoa. 

Afinal também nós tivemos bastante de Heathcliff e Cathy. 

(e quantas vezes de seguida disseste tu a alguém que a amas?)

Hoje ao rever Sensibilidade e Bom Senso pensei em como devia ter morrido aos 16 anos com as febres do vírus, mas também eu tal como a Marianne, sobrevivi. Só que eu não tive o meu final feliz (sei que ainda não se acabou tudo, mas não há esperança para mim nesse departamento). Hoje fiquei feliz e com esperança no mundo porque vi um post da Minó no fim de dezembro a dizer que afinal o amor existe e ela disse que sim (pedido de casamento). Depois, fui ver O Monte dos Vendavais e chorei imenso no fim. 

Não há amor verdadeiro que sobreviva à morte e o despedaçar do coração por inteiro. (Nós, eu, sempre estivemos, estive, condenados, condenada.) Tu nunca saberás o que foi este amor e ainda bem para ti. Como no filme. Nada de bom vem dessa perdição. Não imaginava que ainda poderia viver tamanho amor de destruição total, depois de tudo o que passei na vida e, ainda assim, a loucura e consumição típicas dos amores mais vorazes e adolescentes persistiu com uma violência brutal. 

Tudo tem a sua medida e tamanho e adequação. Só o inferno incontrolável é que não.

 Tenho chorado muito 
Vejo filmes românticos 
Despedaçam-me de novo
Constatar a condenação 
Toda a espera e desespero 
Todo o desejo e quimera 
Todo o arrependimento 
Todo o enredo 

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

 Pessoas que confiam 
Na própria estupidez 
Mas não nos outros 
Pessoas que não aguentam 
A irresponsabilidade 
Quando é de outrém é pior
Porque se odeiam a si
Por terem lhes confiado
Algo que podiam ter sido elas
A assumir e se falhassem
Podiam culpar-se 
E não sentirem 
Que eram pessoas más
Por culparem outros
 Quem de nós extrapolou mais 
Não sei
Mas sei dela e de nós 
A nossa violência 
Os nossos traumas e defesas
Dele nada
Ele é água calma
Doce e de lodo na base funda
Ele nunca se agita
Ele é cristalino quase sempre
Nós não 
Nós somos águas turvas
Feridas expostas
Gritos expressos 
De maneiras pouco várias 

A luz é algo escura
Mas ela existe-nos
Lembras-te quando éramos crianças 
E dançávamos e fugíamos 
Desapareciamos do mundo
Por segundos
Era quando estávamos juntos 

Eu amo-te 
E a ela
E a ele

Três vezes mais e mais
Quando somos os mesmos 
E quando somos desiguais

Sentir-se vivo

 Sentir-se vivo é sobrevalorizado 
Tanto quanto viver 
Dependendo da definição 
Um jeito de ser
"Tesão de viver"
E pode ser se não 
Porque não é o contrário 
De se sentir morto
Nem de estar morto
Ao contrário 
Senão 

Lembras-te do que disseste?
Melhor, ainda, lembras-te 
do que sentiste?

Ama-me assim como eu
Sem ti te amo

E tudo está bem
Tudo bem, tudo certo
Pronto, pronto
"Deixámos p'ró universo"

És tu que eu sinto
És tu que me cantas
Lés a lés 
Olhando o céu 
De olhos fechados
E recordando
Abraçando no pensamento 
Aquilo 
Não há em tempo algum
Ninguém, nenhum
Maior que tu

Quem és tu?

 Quem és tu e quem te conheceu?
Entre uísque, conhaque, bourbon
Que bebida na tua língua ardeu? 

Como fénix erguida escuridão 
Tu te fizeste indestrutível 
E eu pensei-te meu irmão 
Quando isso era impossível 

Mas logo não me digas que não 
Porque quando ele veio mostrou
Que eu erradamente não acreditava
No melhor que me aconteceu 

E não sendo eu quem eu era
Ou sequer quem fui para ele
Já sei que nada é uma quimera
Tudo é uma ilusão que se sucedeu

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Tempestades

 Perdi a conta dos nomes de tempestades 
Assim como do nome dos meus mortos 
Foi Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo
Foram os tios e os primos, dez em 2 anos

Dizem que devemos sonhar
Para não perdermos a esperança 
Que devemos criar 
À espera da bonança 

Quem decide quando tudo acaba?
Quem pára as tempestades?
Quem é que decide quem sara
E quem fica refém das maldades?

Caro leitor (se existir ainda)

 Caro leitor,

não mais escreverei aqui poeminhas romanticóides. Sei que é algo de que as pessoas geralmente gostam, de poemas de amor, mas fartei-me de escrevê-los. Aliás, quem quiser ler tem aqui e no meu blog em inglês, milhentos, inclusive. 

Se por acaso houver de facto algum leitor, que também goste de vir lê-los cá, que gostaria de continuar, então diga e claro, poderei reconsiderar a minha posição. 

Até,
S. 

 tudo bem. tudo certo." naquele bolero eu fui só o reco-reco. 

(Piazzola 4everrr 💓🥺)

Confiar

 Tenho de confiar no Amor, assim como lhe disse para confiar. 

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Cipreste centenário

 Encontrarei o grande amor perto do cipreste centenário. (eu vou saber que é ele) No ar sentirei o seu cheiro e depois o dele ao me abraçar. O meu grande amor para sempre é ele, tronco altivo que me guarda na sua sombra, envolve-me com os seus ramos. Das últimas vezes que fui vê-lo não estava muito bem, afectado pelo Inverno. A sua imensa copa apareceu muito reduzida e com galhos nus, finos, retorcidos, como que a agonizar com o frio. Eu apanhei um dos pedaços de galhos e terminações e trouxe comigo. Desde que começaram as tempestades consecutivas tenho-me lembrado. Como estará o meu cipreste, a minha árvore favorita? Sinto-a despedida, um pouco desprotegida, mas lá ainda. Que saudades tenho! 

Já não me interessa sobre Pessoa. Apenas imagino o meu grande amor a chegar junto ao cipreste. Talvez possamos tocá-lo juntos para vitalizá-lo com o nosso amor. Talvez isso faça-o frondoso de novo e nunca morrer. E os seus pequenos frutos, tal como tudo nele é tão perfeito nas suas geometrias, possam abundar e até resinosos se ponham a exalar. Já faltou mais para a Primavera chegar! 

Cipreste centenário, meu amor inteiro e relicário, leva comigo dentro. 

 Eu amo-o e não queria tê-lo magoado jamais. 💔😭

A dor do amor imerecido

 Dói muito saber que por minha causa sofreste e que te destruí bastante a vida em momentos. Assim como tu me fizeste sofrer o pão que o diabo amassou até me levares à completa confusão mental. Foi uma destruição total. Tanto que contribuiu para que eu, juntamente com tudo de horrível que me aconteceu, me fizesse tornar em alguém completamente diferente. 

As coisas acontecem de forma caótica mesmo quando não se pode controlar nada. Foi o que aconteceu. Só no fim é que tudo se percebeu e eu fiz para que nos libertasses de vez daquele tormento impossível e tão prolongado. Estava tudo já acabado antes de ter começado, condenado por todas. 

Eu mudei muito, consegui claridade e assim não deixar a hiperadrenalina tomar conta de mim como dantes. Agora sou a pessoa mais quieta do mundo, como antes da infernal pandemia. 

Eu nunca te mereci, nem por tudo o que fiz por ti, mas só pelo amor que te tive, esse sim, em essência merece tudo. E teve tudo de ti. Enquanto deu. (foi também graças a ti que eu sobrevivi)

 "Qualquer que seja a matéria de que é feita a alma, as nossas são feitas da mesma."

O que é que eu fiz, meu deus? O que será a verdade? 

"Eu não tenho medo de nunca encontrar a minha alma gémea. O meu maior medo é encontrar e não poder ficar com ela."

A pior dor de amor sempre e para sempre. 💔😭

À espera da Primavera

 Espero que as tempestades cessem
E os vendavais acabem
Espero que os amores se renovem
E as alegrias regressem

Espero que a chuva pare
E o Inverno termine
Espero que o que ele sabe
Fique em lições que me ensine

E quando o sol chegar 
E o céu azul brilhar
Ver as flores desabrochar 
É só o que posso sonhar



terça-feira, fevereiro 10, 2026

 O amor não se explica inteiramente:
parte é pelo rir, pela inteligência 
e pela volúpia dela
parte é pela criança e crença dele
a complexidade e a dor deles
tudo isso faz parte do encanto
da candura da ternura da doçura 
mas eles os três também são jocosos 
bastante astutos e negligentes
com as suas crueldades selectivas
são tão autocentrados que hiperfocam
em mais nada nem ninguém 
as suas relações são só criativas*


*/recreativas(?)