terça-feira, junho 30, 2026

 Lembrando os ensinamentos do Mr. Bob Marley sobre que toda a gente te vai desiludir s tens é de ver quem é que vale a pena ainda assim, eu pensei agora: eu já nem me dou ao trabalho de me desiludir nem acho mais que alguém vale a pena. 

Simples assim

 A vida é só o que vem antes da morte; podes fazer o que der com ela. Mas, independentemente do que faças, a morte vem. 

Só um dia

 Ah, será que nos encontraríamos durante um só dia se fôssemos tão efémeros quanto  borboletas e será que ainda nos lembrávamos do que aconteceu antes, quando ainda éramos como lagartas (tal como as borboletas se lembram) e não tínhamos feito toda essa metamorfose que nos mudou completamente?

Eu queria ter nem que fosse só um dia para te ter comigo.

Agora

 Quando estamos no meio da distopia, ainda existe algures beleza e inocência?

Não há espaço. 

Os provedores e benfeitores do mundo estão com o espírito confuso e destroçado. Acossados pelos déspotas imbecis, esses violentos acéfalos, bestas irracionais que tomaram conta de tudo. 


 Pego no teu corpo, morto, entre os dedos, ondulo-os, vejo o teu corpo balançar de um lado para o outro. És um boneco que morreu. Inanimado guardo-te na minha mão. As saudades que se tem do que está morto. Lembramos o que esquecemos. Imaginamos o que não podemos. Só para lembrarmos da realidade. E a realidade é que está tudo morto. E eu guardo nos meus dedos. 


(Este luto todo acumulado está a ser muito engraçado, não haja dúvidas, s.q.n.)



Ser sábio

 Ser sábio é conhecer a sua própria ignorância. Procurar colmatá-la, ou ter a humildade de admitir a incapacidade de a preencher. Reconhecer as próprias lacunas do carácter e personalidade é de extrema sapiência, mas não se ficando por aí, pois há que encetar os esforços e acções necessárias para resolver essas questões. Com a maturidade, geralmente obtida pelo pensamento e processamento de todas as coisas das quais se deve aprender lições fulcrais sobre si mesmo e os outros, vem a humildade de desistir da intelectualidade que reside apenas em entropia ao verdadeiro conhecimento, pois que este é sempre verdadeiramente simples e seminal.

segunda-feira, junho 29, 2026

Alumbramento

 Um deslumbre sôfrego 
Como num quadro de Rothko 
Quando a sensação perpassa 
Deixa sem fôlego 
Por um segundo inteiro 

E não há chiaroscuro que me valha 
Agora nesta hora sombria
De tanto vazio, pesar e melancolia 
Procuro mas não acho
Ainda

Bebo um sumo, trago a trago
Vizualizo algo
Tranquilo
E lentamente absorvo
Qualquer coisa que seja algo
Que me estenda a mão 
Directa ao coração 

Como quem ressuscita 
Não com boca à respiração 
Mas um aperto sincopado
De uma massagem remediada
De uma ajuda involuntária 

Os dedos que tocam 
E sentem alguma pele arrepiar
As pestanas dos olhos 
Protegem o nosso olhar 
Goteja fraco e forte
Como os retratos da Fraga
Era uma vez essa história acabada
Num flash de imagem guardada

Que delírio imagético foi esse
Que te fez perder a objectiva
Olhando para todo o lado 
E não sentindo nada
Voltaste ao mesmo fado

Toca de novo essa guitarra 
Perfaz o teu curto dedilhado 
Dá asas a essa tua pancada
Não é à toa que goste sempre
A pessoa mais deslumbrafa

Do meu amor que é fogo eterno

 Amo-te com o fogo eterno do Olimpo
E a nossa história foi feita de dureza
Através dos tempos que nos testam
Até nos roubaram a nossa delicadeza!

Quantas provas passaremos nós
E quantas delas nos matarão
Será que sobreviveremos ao atroz
Ao impiedoso e à implacável sensação?

Do grão, do fruto, do amendoim 
Do pecado, da semente de gergelim 
Da cerveja e do vinho enfim 
Quais os venenos que comemos?

No palco do teatro da solidão 
Não precisamos de ninguém 
Porque somos de muito além 
E contemos imortal paixão 

Olho o teu pescoço alvo
Esticado e rosto cabisbaixo 
O teu cabelo ondulado 
E lembro o fogo que não lavo


Assassino

 Amar-te
Também foi a minha destruição 
Não penses que eu só sofria
Não penses que eu sabia 
Que fiz tudo pensado de antemão 
Pois não foi nada disso 
Foi tudo sem senso nem razão 
Um redemoinho de sentimentos 
Um desespero de complicação 
Mas depois aqueles momentos 
Em que te enviava um poema 
Ou tu cantavas uma canção 
E tudo parecia valer a pena 
Fazia esquecer a maldição 
Talvez fingimos demais 
Inventámos demais 
Só porque éramos nós
Só porque era o fim do mundo 
E surgimos como espectros 
Meio iluminados mas escuros
E éramos feitos de bondade
Eu não tinha qualquer maldade
Até me ferirem incontáveis vezes
Até me acossarem e denegrirem
Mas mais ainda até não me defenderem
E o lobo ensanguentado 
Que vivia dentro de mim
Sem eu ter completa noção 
Transformou-se num assassino 
Começou em mim e acabou contigo 
E levou-o ainda a ele depois também 

Cruela

 Ela é tão alegre e feliz 
E quando sofre é o fim do mundo 
Aí ela detona tudo e até aborta
Exibe as vísceras como troféu
Exalta os seus tombos 
Exulta-se como réu
E como amiga dos animais
Mansos, empáticos, legais
Ela foi adicta de ir a reuniões 
E entoar mantras e fazer rituais 
Com sangue, sémen, sopas
De líquidos em que ela se banha
Frequentemente, do princípio 
Ao ventre
Onde não tem a malignidade 
Ela produz frutos e colhe-os 
Maduros
Pois teve toda a sorte e apoio
E um lacaio fiel e subserviente 
Não fosse ela a Cruela em gente
E fazer soar ao universo 
As suas vontades obstinadas
Tão cegas e urgentes
De ditadora 
Com medo de ser abandonada 
Faz com que se convença 
E se exponha 
Para se vangloriar abençoada

domingo, junho 28, 2026

Não estamos preparados

 Um mundo em que tudo é falso:
os corpos cheios de plásticos 
as comidas cheias de aditivos 
o chocolate, a carne, o peixe 
a fruta, os cereais, a água 
enchidos de químicos 

A pressão que pusemos 
em todo o planeta 
agora pronto à explosão 

Sim, talvez, não 
e com as dúvidas e mentiras 
fomos falsificando
tudo com a negação 

Agora já não dá tempo 
para qualquer correcção 
Já há mais de vinte anos
que fomos falando
e ninguém ouviu a razão 

o chão há-de derreter 
o mar há-de secar
o ar há-de matar
vai tudo (4 biliões) morrer
(e tu ficas aí a pular)

Não é predição

 Os céus cairão
em forma de clarão 
e varrerão as águas 
até mais não 

A vida termina
é como uma faxina 
um mata-leão
que sufoca o ar

E tudo o que cupmina
tem de parar
contigo a pular
mas sempre alerta

Não há nada que possas fazer 
meu amigo mru irmão 
começou comigo e contigo 
acabou em contramão 

E o chão tremeu
e as ilhas radioactivas 
e de plásticos no mar
tudo irrompeu 

sábado, junho 27, 2026

O deus do amor

 Não te mostrei quem eu tinha sido? Enxergaste-me no meu silêncio e na minha necessidade extrema de paz? Vieste ao meu encontro, entendendo a minha exaustão? Abriste--me os teus braços? 

As lágrimas que me caem automaticamente do rosto molham o vento. 

Meu amor. Tu existes. Estás na luz alaranjada de oiro aquecido na penumbra da escuridão. E a treva nunca mente. Será que ainda me escutas? Será que ainda pensas em mim? Ainda tens a força que eu depositei em ti e tê-la-ás sempre. Nada te faltará senão a pura verdade. 

"Quem sentiu o toque de Deus, sentiu-o espalhar-se por tudo o que existe", nunca mais sentiu necessidade do toque humano. 


(*Pequenos pecados, little trouble girls)

 A omnipresença do barulho irritante do relógio é o que nos torna a todos assassinos.

Minerais

 Viemos da terra e da água e do fogo e do ar. Somos inteiros, complexos, conflituosos, sedimentares e rochedos. 

Vagamos por aí sem noção do tempo. Refletimos, não por vontade própria, mas porque o Sol insiste em nos iluminar, até de noite com o luar. 

Vinte e quatro minerais. Diz-me. Sei nomes de queijos, quantos. 

Mineralizando, electrólitos, gerindo e tentando um equilíbrio.

O amor pode ser mineral?

Meu amor.

Poeta

 O poeta é um arranjador de palavras; maestro máximo do pensamento e da contemplação, ele conduz o maravilhamento com a caneta com que escreve. 
Apenas é verdadeiramente poeta, não quem escreve poesia ou di-la, mas que a vive, quem é a própria poesia em si.
Eu fui a poeta que ninguém viu, o poema que ninguém leu, a palavra que era só uma imagem e um som na cabeça de alguém.

Não tentei escrever o belo, recuperá-lo nas minhas frases.
Caminhei desesperançada, tendo dificuldades e conflitos em lidar com o sombreado, não gosto do barulho e aflige-me a multidão. Cada vez que chorei, "chovei" para lavar o ar que estava tão carregado de mágoas. Também eu sou apenas uma desempregada do meu destino, uma desalmada da minha alma gémea, desirmanada, desfilhada, habitando o silêncio com as patinhas do melro que canta na minha janela. Tenho de descobrir o nome dessa árvore que está aqui e que faz insistentes flores amarelas. 

 ODEIO BOTS!

 Sem o silêncio nada soa. 

sexta-feira, junho 26, 2026

 Achei curioso estarmos em depressão marítima.. Estamos mesmo nublados e acinzentados. Com ocasionais precipitações e já anunciam trovoadas. 

Adeus, pandemia.

 Fico perplexa ainda de pensar que demorei dois anos, desde 2021, a perceber, admitir e entender um bocado o que me tinha acontecido. Nunca me sucedeu tal coisa. Tanta confusão, tanta opinião, tanto conflito, deu nisso. Tempos anómalos resultam em situações extremamente atípicas. Entretanto, aconteceu tanta coisa, eu mudei tanto, mas para meu grande espanto tudo o que aconteceu não teve mesmo nada a ver comigo. Não é toa que quem me conhecia de antes estranhou-me e disse que eu parecia uma pessoa completamente diferente. 

Lembro como a Katy dizia antes mesmo, que quem era do bem ia fazer ainda mais do bem e que quem era mau ia ficar pior. 

Ainda assim, eu arrependo-me de tudo, apesar de já me ter conformado com o facto de que foi o que foi e não dá para voltar atrás e não podia ter feito melhor pois agi sob hiperadrenalina e num tempo horrível. 

Foi deveras um enorme período de ver de que fibra se é feito e aprender depois com os erros. Durou os cinco anos que previa para a pandemia. Agora temos estado nesta continuação de distopia, temos de esperar mais uns anos até passar todo o trauma e a violência amainar. 


Madrugada de sal e lágrimas

 Quando lambo o sal das costas da mão sinto-me como um gato. 

Já não tenho guardado keepsakes para o meu scrapbook. 

Faz sentido, ter cansado de viver, e guardar mementos para quê? Tudo vai para o lixo um dia. Às vezes é giro apanhar alguma coisa que já não se lembrava há muito tempo. Outras vezes é triste. Outras, complicado. 

 Ao menos, quando penso que estou como estou, zombieficada, posso ficar satisfeita com o facto de que acabou a vergonha de escrever e sentir coisas estúpidas de pessoa apaixonada. Isso é o melhor do vazio. 

"Viver até morrer."

 Nestes momentos antes do absoluto nada, tentei levar algumas coisas a cabo. Nunca foi algo que eu quisesse muito, pois isso era impossível para uma criatura pobre como eu. Daí que tivesse uns poucos sonhos, embora maioritariamente ciente da completa impossibilidade de os realizar. 

Algumas pessoas disseram que vivi muito e outras que não vivia nada. Logo para começar, o conceito de viver é tão díspar para tanta gente. Coitados dos que não sentiram tudo o que havia para sentir e aprender, pois acho que essa é a condição basilar para se viver e função primordial de se estar vivo.

Vejamos, assim de repente: vi o nascer do sol e o pôr, fui sim a alguma festa, embriaguei-me e intoxiquei-me apenas uma vez na vida, fiquei doente, fui ferida, fui mordida, fui f*dido, chorei, gritei, silenciei, vi muitas coisas, consumi muita comida, olhei em muitos olhos, deixei-me ser beijado, fui abraçado, fui lembrado e lembrei tanto, todos os dias sofri, ri, descansei, cantarolei, procurei respostas, desisti, questionei, viajei sozinha e acompanhada, andei, trabalhei, ajudei muito, tentei muito, resignei-me muito, esforcei-me muito, falei muito, escrevi muito, calei-me, parei de questionar, ouvi muito, pensei e senti muito. Ah, dancei! Isso é estar viva! Claro que nem mencionei que amei, porque faz parte do sentir e isso foi muito mesmo, mais que demais. 

quinta-feira, junho 25, 2026

De Hilda Hilst


 

Esta espécie de morte

 O vazio que sinto é como o vácuo no espaço e aquela visão de a bola de bowling e as penas caírem quase em câmara lenta ao mesmo tempo. Eu sou aquele espaço sem ar e que, por isso, não causa resistência. Tudo congela no fundo negro e gélido do espaço. Tudo fica inanimado. 

Claro que prnsar em ti faz as bordas desse imenso vazio atravessado no meu peito, sangrarem. Grosso e derramando e deslizando e gotejando. Um sangue meio escuro, suficientemente antigo. De quando tudo enlouqueceu e eu era uma continuação de ti, sangras tu sangro eu. depois fizemos sangrat um so outro, sem saber qual o mais teimoso. Tu o mais sádico e mais cruel de nós, não achas? Eu só queria paz. No fim conseguimos. Menos eu mesmo, que nunca consegui nada de efectivo na minha vida. Mas quase ada disto tem que ver contigo.