quinta-feira, maio 28, 2026

Toada passada

 Mesmo quando não há mais razões para eu ficar, reconheço esse teu dedilhado na viola e a tua voz reverberando uma das antrola, como que se emocionando me diga: fica mais um pouco, não te vás embora. 'Não vai ter bolo", pois nada vale a pena quando todos já se foram e não tarda somos nós. 

Ei, meu amor, podemos estar a sós? 

Porque é que me abandonaste? Não sabes que eu vou morrer e tu nem há-de saber? Mas, sim, aquilo que não sabes não te faz sofrer. Estou-te a perceber. Cada vez que olhares o céu meia-noite eu já não estarei lá, nem a lua te lembrará. Tu vives liberto da recordação. Eu fiz questão. Não quero nada de ti - nem o teu pensamento, nem o teu coração - se não for puro e cheio de amor. 

Sabemos bem do nosso ressentimento e mágoa, da nossa dor afogada. Não somos de esquecer traumas que nos vão engatilhar e toda a nossa defesa grita a alertar: quem fez o que fez nunca merece nada, nem vai mudar. Eu fiz até se romper. Eu mudei tanto que já nada importa saber. 

quarta-feira, maio 27, 2026

 Sulcos nos dedos
A pele vincada
Marcada pelo chão 
Encarquilhada
Também na mão 
Nada se sustém mais
Tudo desistiu
Ficou para trás 
Um pêlo branco na axila
Surgiu
Os pêlos deles na barba
Também embranquecem
Como os meus cabelos 
Quantos anos passaram?
Quantos mais anos passarão? 
À medida que deixo de existir 
Tu continuas intermitentemente 
A sorrir

O que é que está no meu coração agora?

 Não sei se ainda tenho a capacidade de amar alguém como tinha. Embora os tenha visto aos dois e sentido que me deram cabo do coração e nunca mais de lá saíram, nesse amor que é uma ilusão. O meu por ele que é uma loucura que avariou a minha cabeça numa altura tenebrosa. 

O meu coração doeu demais. Quando a Yaya morreu e eu chorei tanto e fiquei com o corpo todo a doer e sem conseguir fazer quase nada. Quando eu me apercebi de toda a falta de hipótese, de esperança, de oportunidade, de capacidade para sentir alegria de novo. 

Parece que tento à força toda a hora não tomar uma atitude mais irreversível. Daí os stories e escritos a tentar processar tudo o que aconteceu ultimamente de mais mortes e mais coisas do presente que só me fazem medo de ter de lidar a todo o momento. O terror que sempre foi. O horror. O desastre. A falta de saúde. A falta de um abrigo, a falta de um abraço. 

Mas vi meus priminhos na chamada e quando a aniversariante amada disse para nos encontramos um dia de novo para um programa de artes, lembrei como eles são quem me fazem lembrar de quem sou um bocado. Se ainda sou alguma coisa. Mesmo quando não sou nada. Senão o que sempre fui para os outros. 

O meu coração desesperou também de novo por eles lá dos brasis, neste conflito em que habito há anos por tanta coisa. Esse amor, aquele fervor, aquela salvação. A minha avaria total. Como diz que é normal voltar ao que deu um dia conforto e esperança. Eu não sou mais nada de nada, nem criança. Desfiz-me. Vaporizou-se-me tudo o que podia ter sido alguma vez. 

Eu vi-o e senti de novo aquela nossa antiga, mesmo ancestral, dor de tantas vidas.

pesado coração dorido 🖤 o meu. vocês ficam sempre bem, porque está nos vossos poros a tristeza ser alegre. eu não sou dessa estirpe. 

e o meu coração sempre esteve além.

de todas as vezes. e eu espero que o teu, Hel., agora nesses lutos horríveis, também resista. mas de qualquer maneira, tudo passa mesmo no final, pois a vida nunca foi uma brincadeira. 

 Quem espalhou genuíno amor
Colherá pedras
Serão das mais belas
No entanto 
Quem espalhou servilismo 
Colherá nuvens 
Serão passageiras
As pessoas nas suas vidas 
E quem espalhou egoísmo 
Acabará sozinha
Detestada e mal-amada
Tendo sido muito entendido 

terça-feira, maio 26, 2026

Tudo e nada

 Esta coisa de sentir tudo
Especialmente de madrugada 
No silêncio da calada
Quando só pássaros palram
E depois de dia sentir nada
Como zombies nas sociedades 
Na rodinha do hamster 
Operadores com formalidades 

Só acima da espécie humana 
Reside o espelho espacial abstrato 

O grande amor da minha vida

 Saber quem nos amou mais na vida assim como nós somos mesmo, é algo difícil, especialmente quando muitas das vezes nunca nos sentimos completamente livres para sermos nós mesmos. 

Eu sempre tive o problema de ser muito eu mesma, sem grandes máscaras, excepto quando me calei e me diminuí para não levantar ondas e isso ocorreu de maneira comedida, porque nunca pude ficar permissiva perante abusos e injustiças fosse com quem fosse. 

Os lados mais fracos e debilitados de mim foram poucas pessoas que viram e essas sim, considero que as que não me abandonaram nessas alturas, mesmo que tivessem partido depois, foram as pessoas que mais me amaram porque viram mais e melhor sobre quem eu sou e ainda assim me amavam muito. A minha avó e o Hel, que inclusive também me demostraram que eu era uma prioridade e faziam esforços para estar comigo, vindo de longe. Também são das duas pessoas que eu mais amei. Quando olho para trás os primeiros dias em que estive com H. e abraçamo-nos horas a fio sem conseguirmos ir embora, como dois adolescentes apaixonados que éramos, foram mesmo os momentos em que mais me senti feliz. Uma inundação de hormonas da felicidade difícil de replicar. Um abraço longo de alguém muito especial, que é como nós, faz sentir uma completude incrível; senti-a com mais uma pessoa antes, um irmão de alma (que inclusive teve amigáveis ciúmes sadios do H. quando eu disse que ele era a minha alma gémea). Quem teve a felicidade, como eu, de se dar a relações verdadeiras e íntimas com as pessoas, sendo sem máscaras, teve a única miraculosidade de ter uma união absoluta com alguém. Sentir o que ela sente, ser igual sem separação, na condição de sermos humanos, em tudo o que isso implica de bom e menos bom, nomeadamente quando ainda somos muito novos, temos muitos traumas e não conseguimos abafar o ego cheio de inseguranças e medos. Ainda assim o amor prevalece. Fica guardado em retratos. Se quisermos e pudermos é só revisitar e pendurá-los. É bonito isso. Quando a dor da vida e do que correu mal entre nós não mancha as memórias boas. 

 Depois de toda a dor que me fizeram passar neste mundo, de todo o abandono e crueldade, nada deixa saudade. 

Como sempre

 Tudo o que eu precisava depois destas mortes todas e da desesperança que se instalou em mim, era do teu abraço, de ser uma prioridade para ti. Mas tu nunca vieste. Nunca nada me disseste. Eu fiquei aqui a querer morrer, como sempre. Tu nem quiseste mais saber. Tudo ficou óptimo para ti, como sempre. Assim que desististe de mim. Porque sempre fui muito exigente a querer sempre o teu carinho, a tua atenção, o teu ternurento beijinho. Aquele que mandavas com os dedos da mão. Como dantes. Como sempre. 

Os primeiros grandes amores

 O primeiro grande amor nós nunca esquecemos, dizem. E é verdade. Ou não teria sido grande. No meu caso foi devastador para mim tudo o que aconteceu. Eu era muito nova e no final da adolescência tudo foi muito para o que podia aguentar. Nunca mais fui a mesma. Ser traída e abandonada por quem mais confiámos é algo que me aconteceu antes também por quem era suposto me proteger e que depois só fez com que reabrisse uma ferida imensa a cada vez que aconteceu de novo. 

A vida vai nos tirando tudo o que nos dá de bom. Todos os amores, Todos os momentos felizes. Deixa-nos só horrores e frágeis cicatrizes. 

Ninguém nos diz tudo o que pode acontecer connosco. Ninguém nos ensina que tudo dá errado em determinado momento e que num instante o jogo está terminado. Eu não pude fazer nada bem para mim, porque não tive oportunidades para isso se desenvolver e consolidar. Forcei muito tudo, contra todas as probabilidades, para ainda tentar ter uma hipótese, mas sempre muito rapidamente a vida foi me mostrando o quanto eu nada podia para a fazer vergar um pouco que fosse para o meu lado. E como eu tentei, durante tantos anos, já com as últimas forças e depois mesmo sem forças, até quase a vida me matar. É, eu não fui feita para a vida, nem para este mundo, mas tentei muito me encaixar, lutar, fazer o que podia para todos ajudar, especialmente a terem uma vida muito melhor que a minha. A todos os meus grandes amores amei incondicionalmente, compreendendo tudo sobre eles, perdoando todos os enganos que não me traziam mais danos. A vida encarregou-se de me mostrar a realidade dura, nua e crua; eu nunca quis acreditar, porque isso iria me matar e eu tentei ao máximo sobreviver precisamente pelos meus amores todos também que eu cuidei e jamais quis que sofressem, muito menos por minha causa. 

Mas nada é como se quer totalmente. No meu caso nem um bocadinho foi. Antigamente eu pensava que o primeiro foi o grande amor da minha vida, até porque quando se desfez eu quis morrer e pensava que nunca mais ia amar e ser feliz. Hoje em dia, depois de tantos anos e de ter mudado tanto, já ter amado muito alguém de novo, também se deu o caso louco de ter sentido que o grande amor da minha vida era alguém que eu nem conhecia e com quem pensei ter uma semelhança de alma que nunca tinha tido com ninguém, nem mesmo com o meu primeiro grande amor que parecia aquilo que diziam de uma alma gémea. Depois de aprender sobre muita coisa, crescer e desmistificar tudo o que ouvi sobre esse tipo de ligação, sei que afinal uma "alma gémea" é alguém ter a alma igual à nossa, com os mesmos "defeitos e qualidades". Isso, na verdade, é muito terrível, é um inferno mesmo, porque somos dois de nós e a mim já me bastava eu com os meus problemas de origem. Talvez daqui a mais umas décadas eu desdiga tudo isto também. Até porque se Deus não existe como os seres humanos o pintaram, a alma gémea também não. É tudo parte dessa ilusão global que se construiu para sobreviver enquanto ser humano, nomeadamente em sociedade. 

domingo, maio 24, 2026

Não te escolhi

 Consciente não te escolhi 
Jamais o faria
Pois pessoa cruel assim
Eu jamais amaria
Por decisão própria 

Talvez muitas vezes
Tenha me entregado ao "risco
De amar no máximo"
Mas não convosco 
Pois nem me apercebi 

Essa é a verdade, meus caros
Há em mim racionalidade
Nunca fui masoquista 
Ao contrário do que pareceu
Quando fiquei com amor que morreu

Pensando que alguma vez
Ele foi real
Mas quem, como vocês 
Ama no mínimo possível 
Nunca saberá o que é total



Ideia de "jerica"

 Afinal essa ideia de que como os médicos diziam que era suposto eu morrer com uma hemorragia interna, tipo cerebral, ou assim (desde 2001), ou depois ainda mais probabilidade com a insuficiência suprarrenal (desde 2013), e eu ter pensado que as pessoas afastarem-se de mim assim também não sofreriam tanto com a morte do que se estivessem mais habituados ao contacto, e por isso até era bom, na realidade é mais uma coisa muito má para mim porque entretanto são décadas de estar completamente ostracizada e abandonada. 

"parabéns, muito ruim", não é à toa que sempre me considerei a pessoa mais burra à face da Terra, por supostamente ter consciência de muita coisa, mas na prática não ne ter servido para grande coisa a meu favor. ó que porcarias acumuladas, minhanossa! 

sábado, maio 23, 2026

Coração Vulgar - Paulinho da Viola

Morre mais um amor num coração vulgar
Deixa desilusão a quem não sabe amar

E quem não sabe amar há de sofrer
Porque não poderá compreender
Que o amor que morre é uma ilusão
E uma ilusão deve morrer

Que o amor que morre é uma ilusão
E uma ilusão deve morrer

Um verdadeiro amor nunca fenece
E pouca gente ainda o conhece
Meu bem, se o teu amor morreu
É porque ninguém o entendeu

Deixa o teu coração viver em paz
O teu pecado é querer amar demais

Do Desespero

 O desespero chega como bala perdida

Rasgando o corpo mesmo na ferida

Começa a explodir pelas extremidades

Aniquila todas as passadas felicidades 

E de igual modo súbito devastador 

Todas as futuras possibilidades 


É só por causa deles

 É só por causa deles
Que eu não durmo
E morro devagar
Com preocupações 
Preso a um tempo
Que nunca passa
Açoitado numa prisão 
De diária desgraça 

É só por causa deles
Que ainda rio tem vezes
Raras em que me lembro 
Do nosso período doido
Ao mesmo tempo doído 
Formando amor tranquilo 
Queridos meus longe
Por mim tão amados

É só por causa deles 
Que eu não sei como fazer
Deixar os que me fazem mal
E me moem até morrer
E ir ficar com quem me quer bem
Mesmo que morra mais além 
Pois viver como eu vivo
Não é viver, é só sofrer

quinta-feira, maio 21, 2026

 "Será que você ainda pensa em mim?"
Claro que sim, todos os dias.
Meu amor. 
O tempo não passa. Embora os anos estejam a passar. E tu? Será? Claro que não. Se calhar seres forçado a lembrar certamente não será com boa sensação e pensamento sobre mim. É tudo muito triste nesta história que para mim ainda não tive fim e para ti nem querias que tivesse começado. 
Estou em sofrimento aqui como sempre, por causa das mesmas razões de sempre. Nunca ter sido amada por vocês, os dois gémeos, na realidade: quem me deu vida e quem me tirou tudo, ao mesmo tempo. 

(o mais doido é que os dois que em circunstâncias diferentes me deram vida, também me quiseram morta)

quarta-feira, maio 20, 2026

 Essas virgínias da vida
Que são tudo menos virgens
E esses nem terra nem mar
Que só sabem tentar pescar
Já tinham uma bela despedida 
Desse povo, queres apostar?

(pequena sátira do momento Brasil, dedico-te Yaya, acho que ias achar graça ☺️💓)

 Tu eras onde eu dormiria, sempre e para sempre.


(ele: eu ressono)


🤣 parece mesmo algo que dirias


(bronq?)

terça-feira, maio 19, 2026

Hoje, agora, lembrei de novo

 A Ângela matou-se quando ia fazer 45 anos. Ela também tinha uma irmã e um irmão. Ela também era a que ficou em casa a tomar conta dos outros. Também sofria de depressão. 

Hoje pensei de novo. O mesmo desespero já conhecido. Lembrei dela.

Depois guardei a tesoura com que acabei de cortar em pedaços as páginas arrancadas do caderno vermelho, que tinha escrito desde 2022 toda a nóia da pandemia. Nem li agora. Só cortei. Na força de um bocado de raiva da estupidez toda da hiperadrenalina daqueles tempos e toda a porcaria que não me parou, nem me impediu de estragar tudo. 

Faz mais de dez dias que perdi a Yaya. Chorei muito hoje, depois de mais um episódio dos vários de sempre desta vida toda a ouvir "tu és uma merda", "sai desta casa" e afins, enquanto a ouvir duas músicas que vi G. cantar e relembrar nos stories. Chorando também por tudo o que aconteceu e pela falta de apoio e solução. 

17/18-05-2026

Elo

 Hoje vi que os coreanos têm uma palavra (jeong {:jung}) para definir a ligação que fica entre as pessoas mesmo quando já não há relação. Uma ligação que se formou numa época intensa em momentos com uma profunda conexão, de dor partilhada, por exemplo, ou um elo forte que se foi formando pela acumulação de vários momentos frequentes, constantes.

Pensei em como é isso que me fez dizer com certeza que mesmo que os anos passem, o sentimento ao reencontrar aquela pessoa está lá intacto. Talvez a pessoa já nem seja a mesma, tenha passado por algo que mudou muito, mas quem nós somos um com o outro, o que nos uniu, isso existiu e só se houver uma destruição por algum acontecimento anterior é que num reencontrar já não haverá o elo de ligação. 

Eu tenho pena de ter contribuído também para essa destruição num caso ou outro. Mas a verdade é que se a destruição do elo de facto ocorreu, é porque não era tão forte, verdadeiro e especial assim. Os anos confirmam nos poucos reencontros breves, mesmo em pessoas muito mudadas, se nos unimos na nossa essência, intimidade, vulnerabilidade, abertura e honestidade, então nada muda, porque isso tudo também se reencontra de novo. Não deve haver muitas pessoas com quem as pessoas consigam isso. O ideal seria nem terem de se reencontrar e assim confirmar isso, mas sim nunca terem se perdido um do outro. O que levou as pessoas a se distanciarem também é toda uma outra questão a ser vista. 

Mas afinal nada disto importa, quando só a morte é certa, não é verdade? 

domingo, maio 17, 2026

 Quando já nada resta, o resto de mim fica suspensa.

Os pombos

 Vê o que a Humanidade fez com os seus mais frágeis, com os seus animais, os seus pombos, com as suas crianças e os seus idosos. Todos eles usados e abandonados. 

sábado, maio 16, 2026

 Só agora me apercebi de que os dois mencionaram o mesmo livro/história. 😯🤔

Do Abandono

 Hoje vi alguém falar que ser abandonado é só quando nos abandonamos a nós próprios. Depois, mais tarde noutra ocasião, ainda ouvi alguém dizer que se devia continuar sempre a preocupar-se com o outro, mas sem nunca se abandonar. 

Lembro daquele pequeno milagre que foi um beija-flor vir perto da minha janela. Lembro dos melros lindos sempre a vir aqui perto também. Vi hoje algo sobre os pássaros serem vistos, nalgumas culturas, como espíritos dos antepassados que nos visitam para saber de nós e para dizerem que não estamos sós. 

Eu abandonei-me demasiado no passado, porque eu não era ninguém para mim e só existiam os outros que invariavelmente recorriam a mim para ser a melhor amiga, a confidente, a irmã, a prima, a filha, a sobrinha, sempre escolhida para fazer e ajudar em tudo. Que bonito que parece, mas não, sempre foi a pior das torturas para um cérebro hiperactivo e um corpo fragilizado e sobrecarregado. Eu abandonei-me porque eu nunca pude ter vida minha, querer meu, tendo de lutar demasiado a duras penas para conseguir momentaneamente algo apenas para me ser tirado brutalmente num instante. 

Eu abandonei-me quando confiei em alguém, a cada vez deixando-me na mão, indo embora sem grande razão. Eu abandonei-me quando me humilhei por acreditar num sentimento e numa ligação com alguém. E tu, alguma vez te sentiste abandonado por mim com inteira certeza de que eu não estava a pensar em ti? A cada segundo estava, numa luta para terminar o que tinha de ser. Quando alguém tem de crescer sozinho e eu já fiz o que podia para isso também, eu afasto-me, sempre foi assim. Mas quando ainda precisas de mim mesmo já não me querendo e com risco de me culpares, eu fico mesmo que a sofrer. Sim, eu disse que era um pouco como a Nanny McPhee. 

Eu nunca te abandonei. Não como tu me abandonaste e me fizeste abandonar-me a mim. 

Eu já não sou a criança com pouco mais de três anos abandonada com uma tigela de morangos em pleno terror e desespero. 

Dormência

 Ei, sabes quanto demora esta ausência?
Não sinto nada mais, pensei eu...
Instalou-se uma dormência 
Mas de repente apareceste tu 
E a minha barriga doeu de te ver
Levei um pouco um misto de susto
Com alguma dor e pena e amor
Como se fosse algo antigo
Como é antigo este meu sofrer

Estou ausente de mim desde sempre 
Até mesmo durante quando te conheci 
Estava eu dormente e desconectada
Pela dor em que estava enterrada
Mas contigo forcei-me presente
Porque era a última utilidade minha 
Antes de morrer unir as gentes
Para sobrevivermos à partida 

Eu não sei quanto passámos
Eu e tu tanto que foi duro já 
Estive em situações horríveis 
Não sei nada sobre as tuas
Mas parece que a dor é gémea
Sempre foi desde o início 
A tristeza que a gente leva
Como se vivêssemos no abismo

"Irmãos da mesma dor", lembro
Os meus pais fugiram de duas guerras 
Cada um deles, antes de se conhecerem
Mas isso nunca carreguei directamente 
E sim os traumas todos decorrentes
Talvez por isso a luta não acabe
E eu nunca pude descansar como quero
Talvez tu sejas quem traz essa paz
De sanar o mal antigo dessa dor
Que carrego entorpecida e incapaz