O desespero chega como bala perdida
Rasgando o corpo mesmo na ferida
Começa a explodir pelas extremidades
Aniquila todas as passadas felicidades
E de igual modo súbito devastador
Todas as futuras possibilidades
Poesia filosófica; Poesia Visual; e outros objectos poéticos de Poeta mera observadora
O desespero chega como bala perdida
Rasgando o corpo mesmo na ferida
Começa a explodir pelas extremidades
Aniquila todas as passadas felicidades
E de igual modo súbito devastador
Todas as futuras possibilidades
A Ângela matou-se quando ia fazer 45 anos. Ela também tinha uma irmã e um irmão. Ela também era a que ficou em casa a tomar conta dos outros. Também sofria de depressão.
Hoje pensei de novo. O mesmo desespero já conhecido. Lembrei dela.
Depois guardei a tesoura com que acabei de cortar em pedaços as páginas arrancadas do caderno vermelho, que tinha escrito desde 2022 toda a nóia da pandemia. Nem li agora. Só cortei. Na força de um bocado de raiva da estupidez toda da hiperadrenalina daqueles tempos e toda a porcaria que não me parou, nem me impediu de estragar tudo.
Faz mais de dez dias que perdi a Yaya. Chorei muito hoje, depois de mais um episódio dos vários de sempre desta vida toda a ouvir "tu és uma merda", "sai desta casa" e afins, enquanto a ouvir duas músicas que vi G. cantar e relembrar nos stories. Chorando também por tudo o que aconteceu e pela falta de apoio e solução.
17/18-05-2026
Hoje vi que os coreanos têm uma palavra (jeong {:jung}) para definir a ligação que fica entre as pessoas mesmo quando já não há relação. Uma ligação que se formou numa época intensa em momentos com uma profunda conexão, de dor partilhada, por exemplo, ou um elo forte que se foi formando pela acumulação de vários momentos frequentes, constantes.
Pensei em como é isso que me fez dizer com certeza que mesmo que os anos passem, o sentimento ao reencontrar aquela pessoa está lá intacto. Talvez a pessoa já nem seja a mesma, tenha passado por algo que mudou muito, mas quem nós somos um com o outro, o que nos uniu, isso existiu e só se houver uma destruição por algum acontecimento anterior é que num reencontrar já não haverá o elo de ligação.
Eu tenho pena de ter contribuído também para essa destruição num caso ou outro. Mas a verdade é que se a destruição do elo de facto ocorreu, é porque não era tão forte, verdadeiro e especial assim. Os anos confirmam nos poucos reencontros breves, mesmo em pessoas muito mudadas, se nos unimos na nossa essência, intimidade, vulnerabilidade, abertura e honestidade, então nada muda, porque isso tudo também se reencontra de novo. Não deve haver muitas pessoas com quem as pessoas consigam isso. O ideal seria nem terem de se reencontrar e assim confirmar isso, mas sim nunca terem se perdido um do outro. O que levou as pessoas a se distanciarem também é toda uma outra questão a ser vista.
Mas afinal nada disto importa, quando só a morte é certa, não é verdade?
Vê o que a Humanidade fez com os seus mais frágeis, com os seus animais, os seus pombos, com as suas crianças e os seus idosos. Todos eles usados e abandonados.
Hoje vi alguém falar que ser abandonado é só quando nos abandonamos a nós próprios. Depois, mais tarde noutra ocasião, ainda ouvi alguém dizer que se devia continuar sempre a preocupar-se com o outro, mas sem nunca se abandonar.
Lembro daquele pequeno milagre que foi um beija-flor vir perto da minha janela. Lembro dos melros lindos sempre a vir aqui perto também. Vi hoje algo sobre os pássaros serem vistos, nalgumas culturas, como espíritos dos antepassados que nos visitam para saber de nós e para dizerem que não estamos sós.
Eu abandonei-me demasiado no passado, porque eu não era ninguém para mim e só existiam os outros que invariavelmente recorriam a mim para ser a melhor amiga, a confidente, a irmã, a prima, a filha, a sobrinha, sempre escolhida para fazer e ajudar em tudo. Que bonito que parece, mas não, sempre foi a pior das torturas para um cérebro hiperactivo e um corpo fragilizado e sobrecarregado. Eu abandonei-me porque eu nunca pude ter vida minha, querer meu, tendo de lutar demasiado a duras penas para conseguir momentaneamente algo apenas para me ser tirado brutalmente num instante.
Eu abandonei-me quando confiei em alguém, a cada vez deixando-me na mão, indo embora sem grande razão. Eu abandonei-me quando me humilhei por acreditar num sentimento e numa ligação com alguém. E tu, alguma vez te sentiste abandonado por mim com inteira certeza de que eu não estava a pensar em ti? A cada segundo estava, numa luta para terminar o que tinha de ser. Quando alguém tem de crescer sozinho e eu já fiz o que podia para isso também, eu afasto-me, sempre foi assim. Mas quando ainda precisas de mim mesmo já não me querendo e com risco de me culpares, eu fico mesmo que a sofrer. Sim, eu disse que era um pouco como a Nanny McPhee.
Eu nunca te abandonei. Não como tu me abandonaste e me fizeste abandonar-me a mim.
Eu já não sou a criança com pouco mais de três anos abandonada com uma tigela de morangos em pleno terror e desespero.
As coisas todas estão tão horríveis, sem parar, depois ainda mais do pesadelo da pandemia, que eu não sei quanto tempo eu vou aguentar. Tem sido tudo tão tenebroso e desesperador, sem ter para onde me virar, sem ter com quem contar, principalmente para as coisas práticas que é necessário.. Quando estamos sem luz no horizonte procuramos agarrar algo só para continuar. É aí que as dependências ressurgem, as velhas ilusões de amor, o afecto perdido e a necessidade de ter de novo aquela pessoa que era tudo para mim e que só o facto de poder estar perto dele já me dava um abrigo. Ajuda-me, por favor. Tu, que eras muito mais do que um amigo.
Estar completamente sozinha em todos estes anos, fez-me ficar com uma dor muito profunda dentro de mim, como se o abandono e o desapoio tivessem cada vez mais proporções gigantes.
Esta sensação tem estado pior nestes dias, depois destes últimos anos todos cheios de mortes. Agora mais ainda, com a morte repentina de alguém que era das únicas pessoas que sabia certas coisas sobre mim (e eu dela) e que partiu assim, sem poder se despedir de mim.
Não foi também à toa que se deu aquele momento horrível no outro dia com a taça de morangos a levar-me para aquele estado, lembrando do trauma.
Tu foste embora. Todos foram. Todos vão. Um dia eu irei também. Nunca tivemos hipótese. Eu pior. Esta dor nunca termina?