sexta-feira, março 06, 2026

Deu

 Fomo-nos mostrando tudo
Porque queríamos 
Que um e outro soubéssemos 
Como nós éramos?
"when everything's meant
to be over
I just want you to know 
who I am"
Como se estivéssemos juntos 
E nos íamos despedindo
Porque sabíamos 
Que era o fim de tudo?
Vimo-nos estremunhados
Msl dormidos e acordados
Vimo-nos irritados
Vimo-nos muito amados
Como foi bom estarmos 
Assim mais lado a lado 
Nos momentos em que deu
Como deu
Enquanto deu

Nothing, woman

 Eu sempre soube que nada daquilo era para ficar. Eu disse-vos desde o início em coisas como "que seja eterno enquanto dure", depois todo o mundo há-de ir à sua vida", "é o que vai acontecer depois normalmente", "também não faço questão de encontrar ninguém". Mas claro que, como em tudo neste mundo, eu queria sim que fosse melhor, que fosse idílico, que o que se quis num momento ou outro pudesse sim realizar-se e que não fosse "para a vida toda" só no coração. É a tal da minha famigerada lucidez que sempre me avisa de tudo como é e de como provavelmente se irá suceder, tirando logo o chão a todos e quaisquer  sonhos que eu pudesse ter. 
Essa minha derrota face à impermanência e incapacidade, cedo me matou para a vida e me fez adaptar a tudo o que ela, em vez, queria. 
Nada foi para mim. Foi tudo para os outros. Tudo é dos outros. Tudo o que alguma vez foi meu até recentemente também. Eu não existia senão como veículo de amor e atenção para com todos. Posto isto, a maré não voltou, o whisky não me aqueceu e o cavaleiro da noite não me salvou. É assim que eu sou, era assim que eles tinham de ser. Ninguém conhece o tanto de alguém?

Cadáver Esquisito sqn

 Covas fundas
Substituem meus olhos 
De azeitona 
E o amor foi-se 
Escapando
Pelos dedos dos pés
Pôs-se na alheta
Deu de frosques
Ninguém avisa mais
Foi assim 
Eles não me vieram buscar 
Desapareceram
Não os vi mais 
Os anos passaram 
Fui esquecendo detalhes
E quase tudo
Mas não completamente 
Duas uvas tomaram meus olhos
Ressequidas passas
E a pele dos meus ombros 
E dos cotovelos 
Assemelha-se à dos joelhos 
E o resto da pele engelha
Aos poucos 
E agora 
Sou mais do que articulada
E com cabelo de peruca de boneca 
Disse ele e ela
Os que foram meus piores algozes
Mas agora sei que afinal 
Eu sempre fui bela
E tudo fica bem a um rosto oval

quinta-feira, março 05, 2026

 Sussuro ao passado: não tive escolha. É o que é. 

Um dia para sempre

 Um dia
Ainda pequenina
Tropecei na ternura
E assim fiquei 
Uma peste pespineta
Mas toda delicodoce

Hoje num só dia
O céu alterna tanto 
Que vai do deserto 
Ao azul e chuvisca
Até ao inferno
Entre tempestades-mil 
De poeiras do Sahara
E vórtices polares
Nunca mais vi arco-íris 
Também nunca gostei 
De promessas falsas


("what a difference a day makes", hasn't been quite that anymore [cuz everyday has been much of the same without you])

Inexistente

 Entre duas pétalas húmidas
O beijo que não te dei
E nas palmas das mãos 
O sossego que te roubei
Desculpa-me a paz
Que um dia te tirei
Como tu a mim de vez
Fui o livro que não lês
A opinião que não teceste
A tristeza imprimida
Na minha tez e nos teus olhos
Eu amei-te nos teus vários folhos
De uma saia que não usaste
Desculpa a paz 
Que um dia te tirei
Nada esconde em mim
O tamanho pesar
De ter tido de te deixar ir

terça-feira, março 03, 2026

Pessoas que usam lentes

 Apercebi-me só hoje:
Não se pode confiar em pessoas 
Que usam lentes de contacto 
E eu acho que namorei alguns
Que em algum momento usaram
Lentes para verem melhor 
Porque não gostavam de óculos
De se ver com eles ou foram gozados
Mas a bem ver não são de confiar:
Ou não têm espinha dorsal
Que é das piores coisas a não se ter
Ou não têm confiança em si
Ou ligam às aparências 
Ou pior, julgam enganar outros 
Manipulando-os com o seu ar

E depois, diga-se a verdade:
Como é que alguém usa lentes 
Colocadas dentro dos olhos 
Sem ter problema de tão rentes
Sem chorarem aos molhos? 


(não é como os manifestos antibimby etc., mas é um bocadinho na mesma onda parodiante)

 Apetecia-me fazer um comunicado para avisar a todos os homens do passado para não voltarem a chatear-me depois de anos. Xiça, penico, que sagas! 

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Temporal

 Um temporal aproximou-nos
Trouxe-nos um ao outro
Como vento e ar bailando
Eu lembrei de nós crianças 
E assim fiquei com esperança 
De um tempo de bonança 
Mas logo a sombra do medo
E o barulho dos trovões 
Vieram sobre as nossas cabeças 
Poluindo como aviões 
Deixando rastros químicos 
E o raio veio depois e fez vidro
Foi tudo tão de repente 
Como um intenso desatino

Permaneci à espera da Primavera
Meu amor de outros tempos
Sem tempo e intemporal 
A flor e a abelha que se encontram 
E não só surge o doce mel
Como todo o mal se anula
No campo magnético da Terra


("Ah, quem me dera eu pudesse ser
A tua primavera
E depois morrer")

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Obrigada

 Deus me ajude
E todos os Santos
E Anjos
E xamãs
E mães-de-santo
E alminhas 
E árvores 
E Sol e Luas
E planetas
E todas as forças visíveis 
E invisíveis 
#Socorro 

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Um produto da imaginação

 Eu sou quem todo o mundo trocou 
Rapidamente quando viu a validade
Como um produto que pegaram
E só se aperceberam do prazo 
Depois de gastarem e já era tarde

Tiveram um imediato entusiasmo 
Ao se depararem com a embalagem 
Logo curiosidade e etiquetaram-me 
Como algo exótico para irem de viagem
Mas não estavam preparados 
E nunca têm adequada bagagem 

Talvez seja como disse o meu tio
E é só curiosidade de meninos
Que mal sabem no que se metem
E quando depois percebem 
Enfiam a viola no saco e desaparecem

Acho que a vida toda é feita de ilusão 
Para quem é como um artista 
Que inventa a arte para escapar 
Eu que sempre fui só solista
Sou-lhes apenas produto da imaginação 

 Morrer de saudades é quase tão estúpido quanto morrer com doenças prolongadas raras. Obrigadinha. 🤦🏽😫😵

 GANDA CONFUSÃO, CAR@LHO!

terça-feira, fevereiro 24, 2026

 Assim como o Império Romano fez todas as estradas irem dar a Roma, também tu trataste de fazer com que todos me ligassem a ti. 

 A Lua vela o sono dos poetas
A cada vez que a noite cai
E eu desenho em linhas rectas
Mesmo sendo a curva que trai


segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Afinal nem isso

 Afinal as rimas que fiz a pensar em ti provavelmente nem sequer rimam na tua língua, assim como na tua linguagem. 🤦🏽

 Nunca quis ter nome
Mas quis ter endereço 
Só quem nunca alinhou
É que sabe qual o preço 

De ser contra tudo e todos
Num mundo podre e roto
De valores íntegros e bons
Pois quem tem é posto além

Bem longe de ter direitos
De poder escolher o que quer 
Senão ficar a danar-se em jeitos
De quem nada tem como mulher 

Fraca Figura

 Desenhei-te sem saber quem eras
Ou simplesmente continuei
A ser como tinha de ser
Não sei
Certamente não fui quem esperas
Nem sou eu antes de morrer
Em tudo aquilo que eu sou
E queria fazer
Optar pelo silêncio 
Optar pelo saborear
Indo frágil pelas ruas
Apanhada por todos a olhar 
E mais os que ousam em me falar 

Eu sou apenas uma fraca figura 
Que fizeram de forte 
Para ninguém ter de cuidar 
Ou sequer se responsabilizar 
Quando me causam uma morte

Quem me leva os meus fantasmas?

 Se é mesmo verdade que se nos encontrássemos mesmo nos nossos agora quarentas, depois de mais de vinte anos, nunca poderíamos ser só amigos, eu não sei. Mas acho que não. Eu já não te amo como te amava. Já amei outros dois depois de ti. Pensamos sempre que temos a nossa pessoa. Mas isso só é assim se essa pessoa estiver lá para nos defender e podermos contar com ela. Nenhum dos três me defendeu quando era preciso. E abandonaram-me à morte. Curioso, não? 

Sabes?

 Sabias que não há outra pessoa completamente igual a ti?

Quero crer que tentámos anestesiarmo-mos, doses sem conta, até à amputação. 

Sabias que não há ninguém com o teu olhar?

Sabias que ninguém mais tem o teu riso?

Sabias que eras o meu melhor amigo?

Sabias que só a ti te contei todas as atribulações que ia sentindo?

Sabias que só em ti confiei?

Sabias que não há ninguém que eu mais defendesse, ou acreditasse?

Sabias que só tu me tinhas e à minha vida?

sábado, fevereiro 21, 2026

Incapacidade final

 Talvez a minha forçada inépcia sempre no último verso seja como a minha inabilidade de fazer rapidamente um cheque-mate, ou talvez apenas o facto de nunca ter saído daqui, ou tão simplesmente nunca ter tentado de vez apagar-me.

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

 Marcou-me o teu gesto
De tocares um caracol do meu cabelo 
Será que era um brinquedo 
Ou o afastavas do meu rosto?

O teu cabelo é tão negro 
Como a asa de um corvo reluzente
E o teu cavanhaque de moço
Era tal como te dizia espadachim 

Tu causaste-me um alvoroço 
Com a tua desgarrada bravura 
Sempre tiveste optimista candura
Afinal lembravas-te de mim

E eu não sei o que te perdura
Nem soube por que foi assim 
Depois, todo o clima funesto
Quando te tinha já antes dito
Que eu não aguentava nada disto
E vocês que um dia foram alegrias
Acabaram a dar cabo de mim

Palpite (brasileiro a tocar no miradouro)

 porque é que estavam dois homens idosos (tugas, pelo menos um deles, o outro estava demasiado bêbado para falar uma frase  perceptivel) là à porta do bar inglês no Cais Sodré a repetir muitas vezes um ao outro que era "Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão" ou algo parecido a este famoso verso ? 

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Sensibilidade e bom senso

 Penso em quantas pessoas deixámos que nos influenciassem um contra o outro. O quanto de intrigas, fofocas, mexericos, diários equívocos, deixei que me contaminassem e envenenassem como nunca outrora. Sempre soube da perniciosidade dos comportamentos de grupo. Mesmo assim não me afastei das pessoas nefastas, porque por momentos tinha a ingenuidade de um puro amor como escudo acima de tudo e senti-lo era o que bastava para ser imune. Pensava eu. Mas os planos mesquinhos de outros podem matar tudo o que quiserem e, achava também eu, que se fizessem mossa num sentimento tão grande era porque afinal não era tão grande assim. Para mim ele resistiu e foi sempre o que foi: enorme. Massivo e maciço em tais formas que até depois da morte ressoa. 

Afinal também nós tivemos bastante de Heathcliff e Cathy. 

(e quantas vezes de seguida disseste tu a alguém que a amas?)

Hoje ao rever Sensibilidade e Bom Senso pensei em como devia ter morrido aos 16 anos com as febres do vírus, mas também eu tal como a Marianne, sobrevivi. Só que eu não tive o meu final feliz (sei que ainda não se acabou tudo, mas não há esperança para mim nesse departamento). Hoje fiquei feliz e com esperança no mundo porque vi um post da Minó no fim de dezembro a dizer que afinal o amor existe e ela disse que sim (pedido de casamento). Depois, fui ver O Monte dos Vendavais e chorei imenso no fim. 

Não há amor verdadeiro que sobreviva à morte e o despedaçar do coração por inteiro. (Nós, eu, sempre estivemos, estive, condenados, condenada.) Tu nunca saberás o que foi este amor e ainda bem para ti. Como no filme. Nada de bom vem dessa perdição. Não imaginava que ainda poderia viver tamanho amor de destruição total, depois de tudo o que passei na vida e, ainda assim, a loucura e consumição típicas dos amores mais vorazes e adolescentes persistiu com uma violência brutal. 

Tudo tem a sua medida e tamanho e adequação. Só o inferno incontrolável é que não.