sexta-feira, junho 26, 2026

 Achei curioso estarmos em depressão marítima.. Estamos mesmo nublados e acinzentados. Com ocasionais precipitações e já anunciam trovoadas. 

Adeus, pandemia.

 Fico perplexa ainda de pensar que demorei dois anos, desde 2021, a perceber, admitir e entender um bocado o que me tinha acontecido. Nunca me sucedeu tal coisa. Tanta confusão, tanta opinião, tanto conflito, deu nisso. Tempos anómalos resultam em situações extremamente atípicas. Entretanto, aconteceu tanta coisa, eu mudei tanto, mas para meu grande espanto tudo o que aconteceu não teve mesmo nada a ver comigo. Não é toa que quem me conhecia de antes estranhou-me e disse que eu parecia uma pessoa completamente diferente. 

Lembro como a Katy dizia antes mesmo, que quem era do bem ia fazer ainda mais do bem e que quem era mau ia ficar pior. 

Ainda assim, eu arrependo-me de tudo, apesar de já me ter conformado com o facto de que foi o que foi e não dá para voltar atrás e não podia ter feito melhor pois agi sob hiperadrenalina e num tempo horrível. 

Foi deveras um enorme período de ver de que fibra se é feito e aprender depois com os erros. Durou os cinco anos que previa para a pandemia. Agora temos estado nesta continuação de distopia, temos de esperar mais uns anos até passar todo o trauma e a violência amainar. 


Madrugada de sal e lágrimas

 Quando lambo o sal das costas da mão sinto-me como um gato. 

Já não tenho guardado keepsakes para o meu scrapbook. 

Faz sentido, ter cansado de viver, e guardar mementos para quê? Tudo vai para o lixo um dia. Às vezes é giro apanhar alguma coisa que já não se lembrava há muito tempo. Outras vezes é triste. Outras, complicado. 

 Ao menos, quando penso que estou como estou, zombieficada, posso ficar satisfeita com o facto de que acabou a vergonha de escrever e sentir coisas estúpidas de pessoa apaixonada. Isso é o melhor do vazio. 

"Viver até morrer."

 Nestes momentos antes do absoluto nada, tentei levar algumas coisas a cabo. Nunca foi algo que eu quisesse muito, pois isso era impossível para uma criatura pobre como eu. Daí que tivesse uns poucos sonhos, embora maioritariamente ciente da completa impossibilidade de os realizar. 

Algumas pessoas disseram que vivi muito e outras que não vivia nada. Logo para começar, o conceito de viver é tão díspar para tanta gente. Coitados dos que não sentiram tudo o que havia para sentir e aprender, pois acho que essa é a condição basilar para se viver e função primordial de se estar vivo.

Vejamos, assim de repente: vi o nascer do sol e o pôr, fui sim a alguma festa, embriaguei-me e intoxiquei-me apenas uma vez na vida, fiquei doente, fui ferida, fui mordida, fui f*dido, chorei, gritei, silenciei, vi muitas coisas, consumi muita comida, olhei em muitos olhos, deixei-me ser beijado, fui abraçado, fui lembrado e lembrei tanto, todos os dias sofri, ri, descansei, cantarolei, procurei respostas, desisti, questionei, viajei sozinha e acompanhada, andei, trabalhei, ajudei muito, tentei muito, resignei-me muito, esforcei-me muito, falei muito, escrevi muito, calei-me, parei de questionar, ouvi muito, pensei e senti muito. Ah, dancei! Isso é estar viva! Claro que nem mencionei que amei, porque faz parte do sentir e isso foi muito mesmo, mais que demais. 

quinta-feira, junho 25, 2026

De Hilda Hilst


 

Esta espécie de morte

 O vazio que sinto é como o vácuo no espaço e aquela visão de a bola de bowling e as penas caírem quase em câmara lenta ao mesmo tempo. Eu sou aquele espaço sem ar e que, por isso, não causa resistência. Tudo congela no fundo negro e gélido do espaço. Tudo fica inanimado. 

Claro que prnsar em ti faz as bordas desse imenso vazio atravessado no meu peito, sangrarem. Grosso e derramando e deslizando e gotejando. Um sangue meio escuro, suficientemente antigo. De quando tudo enlouqueceu e eu era uma continuação de ti, sangras tu sangro eu. depois fizemos sangrat um so outro, sem saber qual o mais teimoso. Tu o mais sádico e mais cruel de nós, não achas? Eu só queria paz. No fim conseguimos. Menos eu mesmo, que nunca consegui nada de efectivo na minha vida. Mas quase ada disto tem que ver contigo. 


Distopia

 Talvez sintas falta 
do amor que a gente fez
e como ele da dor nos salvava

Podíamos ser nós mesmos 
uns com os outros 

Éramos demasiado até 
envolvidos e levados
pela corrente 

Fiz o que pude para estar lá 
e nunca te faltar apoio
presença e acolhimento 
mesmo no nosso silêncio 

Sofri por saber que sofrias
e que eu nada podia fazer 
para acabar com o teu sofrimento 
e toda a pressão que sentias

Para mim vocês foram 
a coisa mais bela e frágil 
até todos se tornarem duros e dementes
cruéis e psicopatas com as gentes

O meu semblante triste e magoado 
desiludido e caído
mete medo ao susto
de qualquer inimigo 

Mas vocês não me verão em nada
do que eu sou ou quem fui
na madrugada 
tudo o que flui e foi
e nada souberam de verdade

Os meus lutos e a minha luta
toda a incompreensível distopia
para a qual tu contribuis
tão dedicadamente 
cegando o povo
com barulhos e fogos de artifício 

Eu perdi-me em 2020
e nunca mais me recuperei 
nem fui mais nada de jeito 
porque tudo piorou
e eu vi a maior das verdades 

Entrámos numa década distópica 
e eu tenho estado a observar 
completamente dormente
toda a porcaria da gente

A consciência flagrante 
que todos têm dos horrores 
e ninguém faz nada deliberadamente 
ou fazem pior

Eu não me tornei na resistência 
nem sequer num alucinado
enfiado num bunker
com a mente minada
mas simplesmente morri

Esqueci de avisar

"Uma dor assim pungente"

 "Uma dor assim pungente"
De me lembrar todos os dias 
Desses amores maiores ausentes
Que fizeram da vida uma alegria 

Pudera eu ir conhecer-te
O som, o sabor, o cheiro 
Lá bem de pertinho ver-te 
A traça do teu edifício inteiro 

Porque tendo dança no corpo
Na ponta do pé o sambado
Nada em mim fez-se de rogado
Ressuscitando o que estava morto

Mas o meu ritmo é azul na veia
Como quem fez pacto com o diabo 
E dele fiz o ser mais amado
Ao som de uma guitarra velha



quarta-feira, junho 24, 2026

A vida que não tivemos

 Os nossos corações não estão intactos. A destruição foi tanta que apenas fingimos. Eu nunca fui de fingir. Tu tens tantas máscaras embutidas que nunca soubeste quem eras mesmo. Escolheste inventar uma vida que te permitisse viver conforme o que te era possível. Sempre tiveste uma boa sorte. Escolheste emocionar-te como podias para fugires da tua verdadeira persona, de pessoa fria e cruel, pois juraste nunca mais ser fraco de novo, nunca mais sucumbir. Conseguiste transformar-te no perfeito fingidor. Especialmente no que toca ao amor. Quando não o sentes. 

Não andaremos pelas ruas vazias abraçados pela noite iluminada apenas pela ténue luz dourada quente dos candeeiros. Não faremos amor o dia inteiro. A vida não nos proporciona pequenos-almoços, completos, demorados. Nem galas onde vestiríamos os nossos melhores fatos para depois sairmos logo, fugindo, entediados.

 A vida do quotidiano: tão pequenina, tão bonitinha, tanta comidinha, tão cansativa, tão entediante como se torna rotina e faz o tempo desaparecer. Quando fomos de férias, quando me foste buscar, quando nos aventurámos, quando fomos andar de bicicleta, quando íamos ao campo e ao mar, quando íamos ao parque e ao jardim, quando fomos ao cinema e ao museu, quando fomos a uma festa, quando fomos visitar amigos e ter alegrias no quintal, quando fomos comer fora, quando fomos viajar, quando fizemos piqueniques, quando fomos brincar com os nossos sobrinhos, quando tivemos e adoptámos os nossos filhos, quando íamos ao mercado e à feira e às compras.

Tu fazias-me dormir, como na canção, o carinho, a ternura, uma mão. O cheiro do café, a erva-principe, a cacau e baunilha, a pipocas e farturas, a frango a a chouriço assados, a frutos vermelhos, a canela e cardamomo. Gostávamos da vida que tínhamos juntos: parecia-nos tão perfeita e quase inacreditável, todos os dias olhávamo-nos "ô sorte!". Nós éramos tão diferentes e tão iguais.

Eu amei-te demais e tu amaste-me até depois de eu morrer. Também não demoraste a morrer depois. Fomos um e dois, sempre e para sempre. A tua mão na minha, o teu coração abraçado ao meu. Estávamos juntos e estava tudo bem.

 Perdi-te e perdi-te e perdi-te.

Quantas vezes antes não sei, tantas vezes depois, sei, mas serão cada vez menos. 

Sentindo agora esta espécie estranha de vazio e quebritude, pergunto-me quantos mais anos terei de suportar tudo e quantos mais anos ainda sentirei esta dor. 

terça-feira, junho 23, 2026

A hora dos aspersores

 Vinha a andar pelas ruas vazias, já pela noite adentro, quando uma pessoa começa a sentir-se insegura e pensei em como fui feita para vaguear assim, à hora em que se ligam os aspersores. Só o som deles corta o silêncio num ritmo contínuo. 

Chego a casa e o vazio é outro. Lembro como hoje parecia que via pessoas parecidas contigo e até tirei uma foto longínqua a um par numa esplanada, por onde depois passei e ele levantou os olhos do telefone e olhou-me directamente nos olhos. Eu já antes estava perturbada com a semelhança, mas quando ele me olhou assim pude ver que tinha os olhos verdes. Não tinha, afinal, nada a ver contigo, só a maneira de vestir e o cabelo. Deve estar na moda porque há muitos assim agora. 

Já tinha deixado fora a foto, porque não se via nada de jeito com a lonjura, mas fui vê-la de novo e na pasta do lixo estava ainda a outra em que ela está ao teu lado. A que deve ser a tua namorada. Não se vê a cara. Deu-me ódio pensar que ficaste com ela, que foi a ela que tu escolheste. Mas quem sou eu, não é, que tu nem sequer conheces? 

Eu não sou como eles. Ninguém sabe. Todos pensam que eu sou incrível e não sabem que é só a hiperadrenalina e que na verdade eu não sou nada nem ninguém, muito menos quem me pensam. 

Hoje tentei de novo. Falhei de novo. Continuei a andar como uma zombie. Com a estupidez, a dor e mágoa, completamente destroçada, arrastando-me sem alma. 

segunda-feira, junho 22, 2026

Não estou a gostar disto

 Não estou a gostar nada disto: esta coisa horrorosa de tudo continuar. Como se não tivesse acontecido nada. Como se nada fosse. Que ódio. Não, não vou mais olhar o céu, foi de tanto olhar que sofri tanto. A realidade é uma bosta, é o que é, mas mais vale estar ciente tendo os pés assentes no chão, sabendo que não se sai daí, do que sofrer sonhando com ilusão. 
O meu luto estagnou, ficou como um carro funerário estacionado na pista do meu peito com os pneus bloqueados pela polícia da dor. Ah, que desamor, que tragédia, que horror e eu nem preciso de fazer um drama, porque tudo o que não conto é ainda mais tenebroso. Ninguém sabe. Esse dilacerar contínuo, dia após dia, o stress a cada minuto, eu juro que se pudesse morreria, esperei tanto por uma cura mas mais ainda pela eutanásia. Nada veio. Hoje vi-o de novo, primeiro sentindo-o um zombie, quase como eu ando, mas depois rapidamente o vi sorrir e alegrar-se e pensei em como ele é feliz. Provavelmente também por tê-la. Assim é a vida. Alheia. 
Tudo escapa à minha compreensão, em quase todos os seus pormenores. Nada me faz grande sentido e tudo aparenta ser uma enorme estupidez, uma palhaçada do pior. 
Esquecemos quase tudo o que aprendemos e ficamos assim, meio perdidos sempre a começar de novo e envoltos em espuma dos dias. 
Eu tenho muitos casacos. Diria até que demasiados. Tenho sempre de me cobrir, seja verão ou inverno, seja noite seja dia. É como uma protecção, que vai além do frio, faz uma barreira, um escudo. 
Pensei que já não ia continuar este ano, mas entretanto deixei-me ficar, convenceram-me um par de pessoas, confluências de outras coisas, vou deixando até porque não tarda há-de ser. 
Mas não, não estou a gostar nada disto de tudo em volta continuar. Desde as mortes todas, dos familiares e amigos, do mundo, da vida. É tudo falso. Todos forçam tudo. Ninguém pára. É tudo doido e ali na pandemia puseram-me como eles, visto ter interagido com pessoas e adaptando-me ao que elas pediam que eu fosse. Foi um custo mortal para mim. Até hoje não recuperei e temo já nunca mais recuperar. Além de me ter tornado numa pessoa completamente diferente, quase nada agora. 

domingo, junho 21, 2026

sábado, junho 20, 2026

A Fantasia

Houve um tempo
em que imaginei uma casa
antes mesmo de existir um caminho

Vi jardins onde nunca caminhámos
janelas abertas para um mar
que só eu conseguia ouvir
escolhi cores para paredes
desenhei mesas
imaginei silêncios partilhados
e até os dias comuns
pareciam ter sido prometidos

Na minha cabeça
havia pequenas viagens
para visitar todos os amigos
concertos vistos na primeira fila
chás e cafés demorados
risos depois de microdiscussões
o envelhecer tranquilo
de quem encontra finalmente um porto

Vieram à minha cabeça conversas
que nunca aconteceram
respostas que nunca chegaram
abraços que só existiram
na delicadeza da esperança

Não foi mentira
Foi fantasia

E as fantasias têm essa estranha beleza
alimentam-nos
enquanto nos afastam da realidade

Hoje olho para esse mundo
como quem visita uma casa abandonada
ainda reconheço os móveis
ainda me emociono com a luz
que entra pelas janelas
mas já não espero encontrar ninguém

Percebo agora
que o amor que senti
era verdadeiro
o casamento que ela sonhou
depois o futuro que imaginei
Não 

E talvez seja essa
a forma mais silenciosa do luto

Guardo a fantasia
com a ternura que se tem
por um desenho antigo
de uma casa sonhada

Ela falou de quem eu era
Não de quem tu eras afinal 

E, por isso,
chegou a hora
de deixar a porta aberta

Não para que voltes
(embora fosse o meu maior desejo)
mas para que eu possa
finalmente
sair dessa ilusão 

quinta-feira, junho 18, 2026

Almas

 E eu que houve ali um momento 
Em que duvidei dos sentimentos
De não saber se havia mesmo alma
Pois ele me chamou de desalmada 
Talvez só agora eu tenha descoberto
Que afinal acho que tive várias almas 
E também a várias almas estive ligada
Mas, infelizmente, sei que sem a dele 
Eu nunca existiria e sou agora nada

Porque é que a vida vale a pena?

 Passei a vida literalmente nestaa coisas do existencialismo. Só na adolescência fui aflorar os que afinal pensavam e se questionavam acerca das mesmas inquietações, como Sartre, Sócrates, Camus e alguns outros. E Pessoa, claro, que eternizou essa falaciosa frase que passou a feita, falando de que a vida vale a pena quando a alma não é pequena. E das duas, uma: ou a alma é grande e pōe-se a inventar uma vida cheia de sentir, ou a alma inventando e não vivendo na realidade como ela é toda também expõe que a vida em si não vale a pena. No sentido em que a pena é pesada e longo sofrimento, a vida que é senão um intervalo até à morte, não valerá por esse mesmo facto inexorável. 

Costumava, no entanto, ver então a vida como um desafio, não tanto uma aventura, mas pela caminhada de descobrir sobre a existência humana que nos calhou e os conhecimentos que podíamos explorar e adquirir sobre o que existia. Muita gente, noutra perspectiva, viam a vida como uma busca pela felicidade, pela concretização de objectivos, sonhos e o hedonismo que ela proporciona. Há quem retire grandes quantidades de prazer da vida pela repetição de actividades que lhes dão isso, até para muitas desembocar em vicio. 

Eu sempre vi que a vida não valia as penas que significa e acarreta. Não falo só dos horrores cometidos pelos homens, mas tão simplesmente pelas dores pessoas comuns, até do quotidiano, do mundo humano em que nos inserimos. Contudo, lá está, quando vêm os grandes amores e eventuais realizações, ficamos com a ilusão de que a vida vale sim a pena e, muitas vezes, proferem até a mítica frase "valeu a pena tudo o que se passou para chegar aqui".

Não sei. De quase nada, já. Mas sei que se penso nele a cantar aquelas músicas, faz pensar de novo que dava tudo para as poder ouvir e que muita da pena pesada valia a pena só para ouvir e a amenizar. Isso sim, deve constituir-se em masoquismo. Ou seja, é mesmo assim: só os masoquistas e os inconscientes é que crêem que a vida vale a pena. E quando a pena deles é pequena. 

(P.S.; a vida valeria a pena se eu pudesse te ter para sempre)

quarta-feira, junho 17, 2026

 Entre robots e zombies eu ainda sou um ser humano de pele e osso e sangro todos os dias um pouco.

segunda-feira, junho 15, 2026

Gargomilo

 Entornaste a sorte pelo gargomilo 
Emborcaste-a em largos tragos
Como se fosse um caro vinho
E quebraste a taça no final

A raiva que nos consome
É só puro ódio ou será a dor
De quem um dia teve o maior amor
E fez de tudo para se tornar banal

Porque a vida não é sempre igual 
E a morte acaba sempre da mesma maneira 
Acho que a minha estratégia derradeira 
Não foi nada de bom para ninguém 

Senão vão ver mais além 
Que quando eu e tu morrermos 
Por já não termos mais contacto 
Doerá menos por nos protegermos

Ó sorte desgraça que não chegaste
A ser boa nem para quem tudo deu
"Vivo porque te vejo, miragem"
E ao teu rugir que me enlouqueceu


domingo, junho 14, 2026

"Tudo passa", muitos me disseram. Entretanto, quase nada passou e só eu, como estava previsto, virei uma passa. 🤦🏽💔

O Todo e o Caos

 Entre o Todo e Caos
Não faço mais perguntas 
Só remanesço
"Como dá"
Penso em ti
Minha única loucura 
Meu vinho lilás 
Que é pesado e cabeçudo
Arranhou-me a garganta 
Rasgou-me o peito
Deu cabo do meu coração 
Sangrou-me
Rios de tinta 
Numa violenta escrita 
Em cada explosão 

Perpetua-se o silêncio 
Vi imagens de três hoje
Quatro na verdade 
Que confusão que fiz
Só para tentar ser feliz 
Mas somos escravos 
Eu desse eterno retorno 
Que a vida me trouxe
Sem realmente ser
Pois entre o Todo e o Caos
Só me restou perecer

sábado, junho 13, 2026

 Falta muito para me vires buscar?

 Para quem quer morrer desde os 12 anos, eu deixei-me levar muito facilmente: 

por caras e cabelos e mãos 
por risos, amigos, afeição 
um ou dois cantadores
dois ou três historiadores
três ou quatro nomes de árvores de fruto
descendentes de peixes e pão
dormindo num viaduto
vendo a beleza dos vagabundos
à luz dos vagalumes
encantando a minha tristeza 
num segundo fazendo-me sorrir
e a minha destreza de deusa
com autoestima a surgir

Da Morte

 A morte vem sem avisar o momento exacto que vai chegar. Ninguém sabe o seu último minuto. Pode ser enquanto estiver a fazer seja o que for. Fica tudo parado: tudo o que estávamos a fazer ou pretendíamos fazer, desde um livro que estávamos a ler, a um noivado que estavamota preparar, até uma refeição, ou simplesmente todas as subscriçôes que fizemos. É dos maiores inconvenientes além de estar vivo, o de não saber o exacto momento em que morreremos. Pouparia muitas frustrações, inclusive para terceiros. Dava extremo jeito para se planear tudo e obviamente o dinheiro. Esse é dos maiores incomodos, também em termos práticos. Quando a morte chegar leva tudo de quem nos amou, aos poucos deixamos de existir para elas de vez. 

Pronto, lá fui com os porcos de novo

 Por que é que és tão lindo para mim

Por que ainda sorrio quando te vejo

Porque é que a minha barriga aquece

Porque é que ainda és tu que apareces

Por que tudo em mim é teu desejo

Porque é que és tu o meu maior tropeço

Por que é que a minha mente te urdiu

Porque é que te tornaste no que me iludiu

Porque é que és "vida, amor, esperança"

Porque é que és a minha brava criança 

Porque é que eu só em ti me foco

Por que me fizeste ficar como um louco

Porque é que não me farto do teu rosto

?