Vê lá tu que ainda está azul, deve ser porque tinha proteínas de trigo e entrançou-se no fio dos cabelos. Hoje mudei o cartucho da Parker, limpei os dedos num guardanapo e foi como se sangrasse azul da tanta tristeza dos lutos. Ontem, um pouco antes de receber a notícia da morte do primo Salvador eu tinha visto que um quadrinho meu (uma antiga pequena tela cartonada que estava na estante dos livros em que no início dr começar a pintar a óleo, há mais de 20 anos, pintei um pôr-do-sol laranja numa savana com apenas uma árvore num canto) estava caído na minha cama. Ao colocar no sítio, olhei para os livros antigos e pensei que devia dar e lembrei de novo da priminha Cátia e da sua página de livros. Pensei na possibilidade de ter havido um pequeno abalo sísmico. Houve depois, no meu estômago, aquela dor do luto. Da tristeza pelos que sofrem com a partida dos seus entes. Pela tristeza de todas as desgraças e nojices que se sabe e se espalham e persistem perpetuadas pelas pessoas.
Um violino rasga o ar... e com ele o meu pesar funesto de um azul escuro fúnebre. A água abunda da chuva, tem alagado tudo, ninguém tem podido contra o azul. Ele é poderoso, o pior inimigo de tudo e de todos os tempos e eu o odeio agora. Queria decepá-lo de mim, podia rapar o cabelo, como a Sinéad, como a Dani ou a Rose, mas precisaria de uma lobotomia e de uma exsanguinação também; talvez assim finalmente o tirasse de mim, toda esta putrefacção que é descobrir tudo o que eu não sabia que me fez triste.
