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terça-feira, julho 14, 2026

O amor sem nome

 O meu amor tem tudo menos nome. Ainda, isto é. 
Um rapaz trovador podia ser o meu amor, mas ele não me ama.
Há um que tem um sorriso sincero que se estende a fazer covinhas no rosto, mas não como o Heath Ledger a fazer de Joker. É mais o Brandon Lee n"O Corvo. O cabelo dele também é grande assim, o suficiente para eu passar os meus dedos por ele, como quando o B. disse para eu secar-lhe o cabelo ou como quando cortei o do L. 
Amar um homem nunca lhe é suficiente para ficar e ser o meu amor. São todos demasiado jovens ainda. Têm de amar outras para aprender e desaprender o amor, até entenderem o que é o amor infinito. Esse que lhe tenho e ele diz ser maldito.
Os três rapazes que mais amei foram coincidentemente quem em determinados momentos escreveram poesia, mas não se considerando poetas. Por isso, sim, naturalmente o meu amor tem poesia dentro de si, como livros de Neruda e Vinícius na estante. Mas eu preciso que ele tenha entendimento de alma e seja honesto, real, como Dostoiévski. 
Esse meu amor sem nome, ainda, tem morada. Eu sinto saudades dele hoje, pela já longa, como sempre, madrugada. 
Ter de desistir do amor desde já há tantos anos fez-me ficar com segredos doridos a fermentar no coração. O nome dele é um deles. Só há um que poderia ser o escolhido. 


(geralmente escrevo logo de rajada, mas este texto ficou estes dois dias a marinar e de facto só agora se entende)

sábado, julho 11, 2026

Atenta

 Atenta a quem nunca sorri
E a quem está sempre a sorrir
Quantas pessoas se mataram
Quantas pessoas morreram 
Demasiadas desmemoriei
Todo mundo está a fingir
Eu congelei

terça-feira, julho 07, 2026

 De noitinha ele vinha
Abrir as hostes
Como quem apadrinha
Tudo o que fostes
Num tempo em que o vírus 
Se espalhava como perfume
Abundava morte e queixume

Procurávamos torpes
Esquecer a vida e o mundo
Entranhar no som profundo
Que mexia com as entranhas
Atravessávamos um limbo 
Movíamos montanhas
Só para resistir mais um minuto

As horas passavam
Nem se dava por nada
Se não lhe fosse a profissão 
Se não fosses tu guiada
Vivendo no gume afiado
De uma faca cansada
Buscavam alento
Tu eras só sofrimento 
Mas para outros disfarçava 

Encontrei só o meu coração 
Que de tanto sangrar e amar
E ser deixado pendurado
Sempre a esperar
Acabava a madrugada 
Com a ilusão de sonhar 

sexta-feira, julho 03, 2026

E agora o que sobrou?

 Desde que eu tivesse capacidade de enxergar e apreciar a beleza 

Desde que eu te tivesse

Desde que eu sentisse o amor dentro

Desde que pudesse ver o pôr-do-sol 

Desde que eu tivesse paz 

Desde que eu tivesse claridade 

Desde que eu tivesse alguém 

Desde que eu tivesse esperança 

Desde que eu tivesse condições 

Desde que eu não tivesse complicações 

Desde que eu não estivesse desfalcada

Desde que eu não estivesse desabrigada

Desde que eu não me sentisse magoada

Desde que eu tivesse força para superar

Desde que eu conseguisse sobreviver 

Desde que eu conseguisse relevar

Desde que eu conseguisse tolerar

Desde que eu conseguisse nãoe afectar 

Desde que eu pudesse escrever 

Desde que eu pudesse pensar 

sexta-feira, junho 26, 2026

"Viver até morrer."

 Nestes momentos antes do absoluto nada, tentei levar algumas coisas a cabo. Nunca foi algo que eu quisesse muito, pois isso era impossível para uma criatura pobre como eu. Daí que tivesse uns poucos sonhos, embora maioritariamente ciente da completa impossibilidade de os realizar. 

Algumas pessoas disseram que vivi muito e outras que não vivia nada. Logo para começar, o conceito de viver é tão díspar para tanta gente. Coitados dos que não sentiram tudo o que havia para sentir e aprender, pois acho que essa é a condição basilar para se viver e função primordial de se estar vivo.

Vejamos, assim de repente: vi o nascer do sol e o pôr, fui sim a alguma festa, embriaguei-me e intoxiquei-me apenas uma vez na vida, fiquei doente, fui ferida, fui mordida, fui f*dido, chorei, gritei, silenciei, vi muitas coisas, consumi muita comida, olhei em muitos olhos, deixei-me ser beijado, fui abraçado, fui lembrado e lembrei tanto, todos os dias sofri, ri, descansei, cantarolei, procurei respostas, desisti, questionei, viajei sozinha e acompanhada, andei, trabalhei, ajudei muito, tentei muito, resignei-me muito, esforcei-me muito, falei muito, escrevi muito, calei-me, parei de questionar, ouvi muito, pensei e senti muito. Ah, dancei! Isso é estar viva! Claro que nem mencionei que amei, porque faz parte do sentir e isso foi muito mesmo, mais que demais. 

quarta-feira, junho 24, 2026

A vida que não tivemos

 Os nossos corações não estão intactos. A destruição foi tanta que apenas fingimos. Eu nunca fui de fingir. Tu tens tantas máscaras embutidas que nunca soubeste quem eras mesmo. Escolheste inventar uma vida que te permitisse viver conforme o que te era possível. Sempre tiveste uma boa sorte. Escolheste emocionar-te como podias para fugires da tua verdadeira persona, de pessoa fria e cruel, pois juraste nunca mais ser fraco de novo, nunca mais sucumbir. Conseguiste transformar-te no perfeito fingidor. Especialmente no que toca ao amor. Quando não o sentes. 

Não andaremos pelas ruas vazias abraçados pela noite iluminada apenas pela ténue luz dourada quente dos candeeiros. Não faremos amor o dia inteiro. A vida não nos proporciona pequenos-almoços, completos, demorados. Nem galas onde vestiríamos os nossos melhores fatos para depois sairmos logo, fugindo, entediados.

 A vida do quotidiano: tão pequenina, tão bonitinha, tanta comidinha, tão cansativa, tão entediante como se torna rotina e faz o tempo desaparecer. Quando fomos de férias, quando me foste buscar, quando nos aventurámos, quando fomos andar de bicicleta, quando íamos ao campo e ao mar, quando íamos ao parque e ao jardim, quando fomos ao cinema e ao museu, quando fomos a uma festa, quando fomos visitar amigos e ter alegrias no quintal, quando fomos comer fora, quando fomos viajar, quando fizemos piqueniques, quando fomos brincar com os nossos sobrinhos, quando tivemos e adoptámos os nossos filhos, quando íamos ao mercado e à feira e às compras.

Tu fazias-me dormir, como na canção, o carinho, a ternura, uma mão. O cheiro do café, a erva-principe, a cacau e baunilha, a pipocas e farturas, a frango a a chouriço assados, a frutos vermelhos, a canela e cardamomo. Gostávamos da vida que tínhamos juntos: parecia-nos tão perfeita e quase inacreditável, todos os dias olhávamo-nos "ô sorte!". Nós éramos tão diferentes e tão iguais.

Eu amei-te demais e tu amaste-me até depois de eu morrer. Também não demoraste a morrer depois. Fomos um e dois, sempre e para sempre. A tua mão na minha, o teu coração abraçado ao meu. Estávamos juntos e estava tudo bem.

sábado, junho 20, 2026

A Fantasia

Houve um tempo
em que imaginei uma casa
antes mesmo de existir um caminho

Vi jardins onde nunca caminhámos
janelas abertas para um mar
que só eu conseguia ouvir
escolhi cores para paredes
desenhei mesas
imaginei silêncios partilhados
e até os dias comuns
pareciam ter sido prometidos

Na minha cabeça
havia pequenas viagens
para visitar todos os amigos
concertos vistos na primeira fila
chás e cafés demorados
risos depois de microdiscussões
o envelhecer tranquilo
de quem encontra finalmente um porto

Vieram à minha cabeça conversas
que nunca aconteceram
respostas que nunca chegaram
abraços que só existiram
na delicadeza da esperança

Não foi mentira
Foi fantasia

E as fantasias têm essa estranha beleza
alimentam-nos
enquanto nos afastam da realidade

Hoje olho para esse mundo
como quem visita uma casa abandonada
ainda reconheço os móveis
ainda me emociono com a luz
que entra pelas janelas
mas já não espero encontrar ninguém

Percebo agora
que o amor que senti
era verdadeiro
o casamento que ela sonhou
depois o futuro que imaginei
Não 

E talvez seja essa
a forma mais silenciosa do luto

Guardo a fantasia
com a ternura que se tem
por um desenho antigo
de uma casa sonhada

Ela falou de quem eu era
Não de quem tu eras afinal 

E, por isso,
chegou a hora
de deixar a porta aberta

Não para que voltes
(embora fosse o meu maior desejo)
mas para que eu possa
finalmente
sair dessa ilusão 

quarta-feira, junho 10, 2026

A vida não é boa, mesmo que a tua seja

 Aprende uma coisa: quando disseres que a vida é boa, tem a consciência de que estás a falar da tua vida e não da vida enquanto vida em si. Só porque tu vives numa bolha em que tens só alguns problemas com que conseguiste lidar e já achas que foste grande herói por isso, sem muitas vezes ver todo o sistema que te fez ter essa resolução nem sequer muitas vezes és grato pelas pessoas que te ajudaram a vida toda, não quer dizer que a vida é boa. A vida não é boa, nunca foi, especialmente para o ser humano que sempre foi horrível para com os seus e destruidor de tudo o que é são. Desde que o animal homem existe ele estupra outros seres, nomeadamente crianças. Toda a gente maltrata-se e ao próprio filho que põe no mundo sem sequer ter estudado para ser responsável por outro ser humano. Para não falar da extrema fome e poluição que causámos no planeta que é a única casa que temos. 

Pessoas canibalizam, torturam, violam, roubam, matam, assistem todas essas coisas calados todo o segundo e não fazem nada para impedir. A vida não é boa, nem nunca foi, tu é que só fazes parte dos que se mentem e se separam dos outros, dizendo que não é nada contigo, que não queres saber, que só focas no que queres, que não podes fazer nada e que algum deus ou político está aí para resolver essas coisas. 

Parabéns para ti.

segunda-feira, janeiro 05, 2026

Pesadelo

 Os últimos anos parecem um pesadelo interminável. Ou melhor, vários pesadelos diários, que depois permanecem como traumas enevoado na memória. 
Cinzentos, muito escuros. Magoados. No corpo dores e na alma rasgos. Eu não ter mais capacidade de continuar. Perdi-a já há muito tempo. Não é mais como antigamente uma resignação, mas um luto destruidor e paralisante. Os lutos acumulados são como óleos de cor escura empastados uns sobre os outros. Viscosidade de alcatrão mas sem brilho. Com as suas pedrinhas como micro-memórias esmagadas e levadas todas juntas.

De todos os pesadelos que tenho, o pior é ter de continuar a viver como desde criança a querer morrer por causa do sofrimento e do caos e insegurança que me causam diariamente, vindo de quem precisamente devia ter-me protegido e amado. Toda a falta de respeito, de cuidado, de protecção, de amor e atenção, o abuso e a exploração, estão a latejar no meu corpo a toda a hora. 

Sei que terei descanso finalmente quando morrer, sempre o quis desde criança, mas não ter tido direito a paz, amor, liberdade, a poder fazer escolhas e ter uma vida estável e harmoniosa, é por demais injusto. E vocês sabem como eu sou com as injustiças. 

Alegra-te, meu ser amado de todos os dias, o meu maior pesadelo dá cabo de mim o dia inteiro. E não és tu. Tu foste apenas o meu maior erro. Um que nunca terá perdão.  Ou seja, a pessoa morre burra e estúpida. Mas, também, não é assim que todos morremos?

segunda-feira, dezembro 15, 2025

O Luto

 O luto é um desalento 

Que se instala e não sai

Tão cedo

Se foram 

No redemoinho que cai

Sobre a nossa cabeça 

E sob os nossos pés

Só fica um tormento 

Que volta de lés a lés 

terça-feira, dezembro 02, 2025

 Os amantes crucificados não devem nada ao passado
E os meus óculos têm tendência para descair mas eu resisto a olhar sobre eles (e ver tudo desfocado).

sábado, novembro 29, 2025

Vete

 O fogo 
Guarda tu
Vai-te
Leva contigo 
O sopro
Eu fico
Respirando
Pouco 
Mas o suficiente 
Para não ter mais 
Perigo 

Este amor devastador

 Este amor devastador 
Que me matou 
Não tem fim
Ele deixou-me aqui
Para penar sem ele
E de repente morrer
Tudo novamente 
Com a memória 
A inundar-me 
Eu só queria 
Que tivesse sido 
Tudo verdade 
E que o que sinto
Fosse suficiente 
Para não me matar
Com a realidade 

sexta-feira, novembro 28, 2025

O caçador de sombras

Tu foste o meu caçador, quando sombras me habitavam e se entranhavam no meu ser. 
Alimentaste delas como os abutres da carniça mortiça. Tu foste o meu caçador e diligentemente, a todo o instante, montaste armadilhas, venceste-me nas trilhas espalhando os teus minions para me apanhar. Eles espiam-me até hoje. Volta e meia tu assombras-me, e eu embora esteja mais curada das minhas sombras, tu vens como vento repentino que suspira na minha mente uma esquecida canção de piseiro do meu coração, cheia de repentes e contradição. 
Eu caio de novo no redemoinho tortuoso da vibração e não durmo porque volto a absorver um bocado da tensão, mas agora sei que ela não é minha para eu ter de a suportar. Mas quem lhe diz, até às dez da manhã? Chego a desejar-te de surdina sorte e que vai tudo correr bem, como sempre correu. Talvez ainda não tenha aprendido a lição. Talvez ainda não tenha esquecido que um dia foste meu irmão. E também que depois caí em aflição, qual vítima ignorando o síndrome de Estocolmo, mergulhada no tormento da paixão. 
Tu és o meu caçador, ainda, rodeando-me quando a lua enche e quando o silêncio é mais alto. Eu sou o fogo que ardeu até cinzas, sopradas pelo teu furacão. Estiveste armado até aos dentes, a tua matilha era grande, usaste todo o teu arsenal para me matar e antes dilaceraste-me com dentes certinhos e brilhantes num enorme sorriso, seguido de gargalhadas estridentes. 
Eu não sobrevivi. A minha luz apagada sim. 

segunda-feira, novembro 24, 2025

Monção*

 A monção não desabrocha as flores
Senão talvez no deserto 
Assim como quando são sequiosos 
Todos os nossos amores
Não se importam com nosso alagamento 
Pois são terreno fértil à espera dele
Para nos acolher pertencendo
Há poucas pessoas assim 
Que têm arcabouço para tanto
Mesmo quando já tinham amor de todos
Sabem que o amor verdadeiro é raro
E nunca é demais, pelo contrário 
Pareceu-me que F. era assim
Será que fomos mesmo cobardes
Ou apenas nobres cavalheiros 
Que põem o bem dos outros à frente? 
Prefiro acreditar que sim
Que é para não me fazer mais descontente 
Era uma vez um conto de rua
Um mural, dois amigos-irmãos, uma lua
Antes de chegar a enxurrada
Despedimo-nos com a ilusão do reencontro 
Que nunca mais chegou a acontecer 
Porque as águas quando vêm de novo
Nunca são exactamente as mesmas 
E não sabemos para onde vão correr 

*prefiro a palavra em inglês, monsoon, pq em pt faz lembrar moção 🤷🏽

sexta-feira, novembro 07, 2025

quinta-feira, novembro 06, 2025

A mais longa trovoada

 Talvez estivesse à espera que as trovoadas me alterassem os telómeros, ou assim, como acontece nas histórias de super-heróis e que eu passasse a estar curada de todas as maleitas, de repente. 

Mas as trovoadas não são milagres, nem são conhecidas por fazerem boas acções.

Os sonhos envelhecem, as ilusões viram pó e os contos de fadas são só pesadelos. 


(tempestade registaram mais de 40mil raios)

terça-feira, novembro 04, 2025

 Gosto das tuas imensidões:
como eras belo
delicado e incisivo
o toque de um cavalo terno
o teu olhar de oceano 
e o teu cérebro de universo 

penas finas alvas minhas
tocaram-te um dia
fui fiel como um apóstolo 
e eu a rainha do teu reino
e tu sabias o nosso lugar

o luxo de ser amado
simplesmente por que se é
pela imensidão de quem se é

o desejo dos homens é comum
não faz distinções 
não se rende a imensidões 
não se deixa engolir por elas

eu só quero agora um amor 
que seja uma final consumição 

(Elizabeth e Clive Owen de novo)

domingo, novembro 02, 2025

Plutão ou quê

 Tu absorveste-me
E o feitiço que te puseram
E a maldição que me rogaram
Fundiram-se 
Aquando Plutão 
Que ora é planeta anão 
Ora é solidão