Talvez tenhas sido o último devaneio da alma
Talvez tenhas sido apenas perigo
Mas certifica-te de quando eu morrer
Tu fazes de meu amigo a aparecer
Como se não me tivesses matado um dia
Poesia filosófica; Poesia Visual; e outros objectos poéticos de Poeta mera observadora
O mais triste é que todos nós morreremos um dia destes e não pudemos viver juntos e todos felizes, em paz, amor e alegria.
(E o mais feliz é que sim, tivemos um momento em que fizemos parecido como deu)
No outro dia sonhei que contava a um professor um sumário do que aconteceu desde 2020, claro que quando chegou na parte do que aconteceu entre mim e alguém que amei demais, com tanta dor despertei quase a chorar.
Ainda é muito inacreditável tudo o que aconteceu nos últimos seis anos. As mortes todas. Entre elas, quatro tios nestes últimos dois anos. Ontem foi o meu tio Zé, que me tinha dito um dia "tu és inteligente, não faças como as tuas primas que casaram logo, nunca dependas de um marido", enquanto olhava para as primas todas a vir para o casamento do primo com os seus esposos e filhos. Hoje em dia, já acho que dada esta sociedade e este mundo horroroso, espertas são todas as mulheres da minha família que se agarraram a um homem logo muito cedo e pronto, ficaram com a vida feita. Eu é que sempre fui a burra com princípios, ética, valores, à procura do amor verdadeiro e nunca contentei-me com menos nem tomei o caminho mais fácil. Por isso sofri terríveis coisas todos os dias da minha vida. O meu tio era embarcadiço, lembro sobre a Noruega (ainda no dia anterior eu disse ao meu irmão sobre como era bom ir viver para lá com o aquecimento global) deu-me um dos meus perfumes favoritos até hoje desde criança, trazendo lá dos países nórdicos.
Como eu disse hoje ao meu pai: o pior é que não só morreram os meus tios mas eram meus amigos, pessoas que gostavam de mim, que eram conta-corrente e tinham mau feitio como eu e que conversavam comigo como não faziam com os outros. Agora já não tenho ninguém. Sobrou um tio, o mais novo de todos.
Quando perguntei ao meu pai se ele ficou muito triste, ele disse "mais ou menos". Depois de desligarmos a chamada, pensei em como a minha teoria e estratégia de quando uma pessoa não tem constante e recente contacto com a outra, a morte da outra custa muito menos, está de facto empiricamente correcta, daí por ter observado isso ao longo do tempo é que também vi. Pensei então que a minha estratégia estava de vento em popa, relação aos meus irmãos e todos os que amei tanto.
Ninguém sofrerá pela minha falta, porque eu não faço parte da vida de ninguém já; todo o mundo também me largou assim que não tive mais vazão para nada. Entretanto continua esta ostracização já antiga, que apesar de dar pena, nunca ninguém fez para ser diferente.
Desde que eu tivesse capacidade de enxergar e apreciar a beleza
Desde que eu te tivesse
Desde que eu sentisse o amor dentro
Desde que pudesse ver o pôr-do-sol
Desde que eu tivesse paz
Desde que eu tivesse claridade
Desde que eu tivesse alguém
Desde que eu tivesse esperança
Desde que eu tivesse condições
Desde que eu não tivesse complicações
Desde que eu não estivesse desfalcada
Desde que eu não estivesse desabrigada
Desde que eu não me sentisse magoada
Desde que eu tivesse força para superar
Desde que eu conseguisse sobreviver
Desde que eu conseguisse relevar
Desde que eu conseguisse tolerar
Desde que eu conseguisse nãoe afectar
Desde que eu pudesse escrever
Desde que eu pudesse pensar
Vinha a andar pelas ruas vazias, já pela noite adentro, quando uma pessoa começa a sentir-se insegura e pensei em como fui feita para vaguear assim, à hora em que se ligam os aspersores. Só o som deles corta o silêncio num ritmo contínuo.
Chego a casa e o vazio é outro. Lembro como hoje parecia que via pessoas parecidas contigo e até tirei uma foto longínqua a um par numa esplanada, por onde depois passei e ele levantou os olhos do telefone e olhou-me directamente nos olhos. Eu já antes estava perturbada com a semelhança, mas quando ele me olhou assim pude ver que tinha os olhos verdes. Não tinha, afinal, nada a ver contigo, só a maneira de vestir e o cabelo. Deve estar na moda porque há muitos assim agora.
Já tinha deixado fora a foto, porque não se via nada de jeito com a lonjura, mas fui vê-la de novo e na pasta do lixo estava ainda a outra em que ela está ao teu lado. A que deve ser a tua namorada. Não se vê a cara. Deu-me ódio pensar que ficaste com ela, que foi a ela que tu escolheste. Mas quem sou eu, não é, que tu nem sequer conheces?
Eu não sou como eles. Ninguém sabe. Todos pensam que eu sou incrível e não sabem que é só a hiperadrenalina e que na verdade eu não sou nada nem ninguém, muito menos quem me pensam.
Hoje tentei de novo. Falhei de novo. Continuei a andar como uma zombie. Com a estupidez, a dor e mágoa, completamente destroçada, arrastando-me sem alma.
Passei a vida literalmente nestaa coisas do existencialismo. Só na adolescência fui aflorar os que afinal pensavam e se questionavam acerca das mesmas inquietações, como Sartre, Sócrates, Camus e alguns outros. E Pessoa, claro, que eternizou essa falaciosa frase que passou a feita, falando de que a vida vale a pena quando a alma não é pequena. E das duas, uma: ou a alma é grande e pōe-se a inventar uma vida cheia de sentir, ou a alma inventando e não vivendo na realidade como ela é toda também expõe que a vida em si não vale a pena. No sentido em que a pena é pesada e longo sofrimento, a vida que é senão um intervalo até à morte, não valerá por esse mesmo facto inexorável.
Costumava, no entanto, ver então a vida como um desafio, não tanto uma aventura, mas pela caminhada de descobrir sobre a existência humana que nos calhou e os conhecimentos que podíamos explorar e adquirir sobre o que existia. Muita gente, noutra perspectiva, viam a vida como uma busca pela felicidade, pela concretização de objectivos, sonhos e o hedonismo que ela proporciona. Há quem retire grandes quantidades de prazer da vida pela repetição de actividades que lhes dão isso, até para muitas desembocar em vicio.
Eu sempre vi que a vida não valia as penas que significa e acarreta. Não falo só dos horrores cometidos pelos homens, mas tão simplesmente pelas dores pessoas comuns, até do quotidiano, do mundo humano em que nos inserimos. Contudo, lá está, quando vêm os grandes amores e eventuais realizações, ficamos com a ilusão de que a vida vale sim a pena e, muitas vezes, proferem até a mítica frase "valeu a pena tudo o que se passou para chegar aqui".
Não sei. De quase nada, já. Mas sei que se penso nele a cantar aquelas músicas, faz pensar de novo que dava tudo para as poder ouvir e que muita da pena pesada valia a pena só para ouvir e a amenizar. Isso sim, deve constituir-se em masoquismo. Ou seja, é mesmo assim: só os masoquistas e os inconscientes é que crêem que a vida vale a pena. E quando a pena deles é pequena.
(P.S.; a vida valeria a pena se eu pudesse te ter para sempre)
Aprende uma coisa: quando disseres que a vida é boa, tem a consciência de que estás a falar da tua vida e não da vida enquanto vida em si. Só porque tu vives numa bolha em que tens só alguns problemas com que conseguiste lidar e já achas que foste grande herói por isso, sem muitas vezes ver todo o sistema que te fez ter essa resolução nem sequer muitas vezes és grato pelas pessoas que te ajudaram a vida toda, não quer dizer que a vida é boa. A vida não é boa, nunca foi, especialmente para o ser humano que sempre foi horrível para com os seus e destruidor de tudo o que é são. Desde que o animal homem existe ele estupra outros seres, nomeadamente crianças. Toda a gente maltrata-se e ao próprio filho que põe no mundo sem sequer ter estudado para ser responsável por outro ser humano. Para não falar da extrema fome e poluição que causámos no planeta que é a única casa que temos.
Pessoas canibalizam, torturam, violam, roubam, matam, assistem todas essas coisas calados todo o segundo e não fazem nada para impedir. A vida não é boa, nem nunca foi, tu é que só fazes parte dos que se mentem e se separam dos outros, dizendo que não é nada contigo, que não queres saber, que só focas no que queres, que não podes fazer nada e que algum deus ou político está aí para resolver essas coisas.
Parabéns para ti.