Mostrar mensagens com a etiqueta nihilismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta nihilismo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, julho 31, 2026

O que faz um homem maior? (Como o Glen Hansard)

 A sua capacidade de ser maior do que ele, dando-se aberta e livremente às pessoas, com uma genuinidade e carinho desmedidos. Ele deixa um rasto de ternura e bonitas histórias, pois ele é vida e sentimento puro. Ele tem uma humildade e uma verdade que raras pessoas têm. Não faz nada usando e descartando as pessoas, não as manipula, não é frio nem distante com elas. Todo ele é amor e compaixão. Todo ele é claridade e coração. Ele entende o valor da vida e como ela é tão frágil e passageira, assolada por dificuldades e sofrimento. Ele sabe que só o amor vale a pena. Ele é o sol que irradia e a gargalhada que contagia, todos, mas ele é também quem é abrigo quando há perigo ou temos de chorar. Presta atenção, repara nas pequenas coisas, tira tempo para respirar e viver, cultiva a beleza e a arte. Homenageia e agradece. Viaja, conhece destinos, partilha mil momentos, vibra junto de "desconhecidos", aumenta todo o universo da tua linguagem e conhece melhor tudo sabendo da sua impossibilidade de compreensão. Entranha-te, intrusa-te, acontece, abraça forte e largamente, amplia os laços, espalha as experiências e vivências e as epifanias. Pinta, escreve, canta. Bebe uma cerveja artesanal. Esgoela-te por uma boa causa. Corre, luta, morre, sê total, sem nunca ser brutal! 


sexta-feira, julho 10, 2026

Ontem é sempre tarde demais

 No outro dia sonhei que contava a um professor um sumário do que aconteceu desde 2020, claro que quando chegou na parte do que aconteceu entre mim e alguém que amei demais, com tanta dor despertei quase a chorar. 

Ainda é muito inacreditável tudo o que aconteceu nos últimos seis anos. As mortes todas. Entre elas, quatro tios nestes últimos dois anos. Ontem foi o meu tio Zé, que me tinha dito um dia "tu és inteligente, não faças como as tuas primas que casaram logo, nunca dependas de um marido", enquanto olhava para as primas todas a vir para o casamento do primo com os seus esposos e filhos. Hoje em dia, já acho que dada esta sociedade e este mundo horroroso, espertas são todas as mulheres da minha família que se agarraram a um homem logo muito cedo e pronto, ficaram com a vida feita. Eu é que sempre fui a burra com princípios, ética, valores, à procura do amor verdadeiro e nunca contentei-me com menos nem tomei o caminho mais fácil. Por isso sofri terríveis coisas todos os dias da minha vida. O meu tio era embarcadiço, lembro sobre a Noruega (ainda no dia anterior eu disse ao meu irmão sobre como era bom ir viver para lá com o aquecimento global) deu-me um dos meus perfumes favoritos até hoje desde criança, trazendo lá dos países nórdicos.

Como eu disse hoje ao meu pai: o pior é que não só morreram os meus tios mas eram meus amigos, pessoas que gostavam de mim, que eram conta-corrente e tinham mau feitio como eu e que conversavam comigo como não faziam com os outros. Agora já não tenho ninguém. Sobrou um tio, o mais novo de todos.

Quando perguntei ao meu pai se ele ficou muito triste, ele disse "mais ou menos". Depois de desligarmos a chamada, pensei em como a minha teoria e estratégia de quando uma pessoa não tem constante e recente contacto com a outra, a morte da outra custa muito menos, está de facto empiricamente correcta, daí por ter observado isso ao longo do tempo é que também vi. Pensei então que a minha estratégia estava de vento em popa,  relação aos meus irmãos e todos os que amei tanto.

Ninguém sofrerá pela minha falta, porque eu não faço parte da vida de ninguém já; todo o mundo também me largou assim que não tive mais vazão para nada. Entretanto continua esta ostracização já antiga, que apesar de dar pena, nunca ninguém fez para ser diferente. 

sexta-feira, julho 03, 2026

 No instante me perdi 
No eterno renasci

Em milhares de escritos

 Ainda não houve nenhum poema que eu tenha escrito e pensado que depois dele podia parar de escrever. Provavelmente nunca haverá um que seja o tal. Aquilo que procuramos não existe. Podemos expressar e criar à exaustão e maior abrangência possíveis, que é impossível pôr tudo o que se pensou e sentiu transformado em palavras. E, por isso, continuamos, imperfeitos, incompletos e incessantes buscadores de um nada.

Escrevo para deixar pequenos vestígios do que nunca poderá ser dito. 

E agora o que sobrou?

 Desde que eu tivesse capacidade de enxergar e apreciar a beleza 

Desde que eu te tivesse

Desde que eu sentisse o amor dentro

Desde que pudesse ver o pôr-do-sol 

Desde que eu tivesse paz 

Desde que eu tivesse claridade 

Desde que eu tivesse alguém 

Desde que eu tivesse esperança 

Desde que eu tivesse condições 

Desde que eu não tivesse complicações 

Desde que eu não estivesse desfalcada

Desde que eu não estivesse desabrigada

Desde que eu não me sentisse magoada

Desde que eu tivesse força para superar

Desde que eu conseguisse sobreviver 

Desde que eu conseguisse relevar

Desde que eu conseguisse tolerar

Desde que eu conseguisse nãoe afectar 

Desde que eu pudesse escrever 

Desde que eu pudesse pensar 

Se vier

 Se for verdadeiro e inteiro, pode vir
Se for só meio e fingir primeiro, pode ir

Um gerbo, um cedro, 
Um medo, um anseio
Pode decidir 

Quando não há dúvida, há certeza
E eu sempre fui pela inteireza 

quinta-feira, julho 02, 2026

Na Baía dos Sussurros

 Pensava que toda a gente pensava. Pensava que toda a gente melhorava. 
Ilusões da mente, ingenuidade, inocência, desconhecimento, pouca experiência.

Ele e eu combinávamos matarmo-mos. Eu com 17, ele com 18. Muito mais tarde, 28 anos depois, lembrei-lhe do nosso pacto. 
Calhou apanhar um filme com a Liz Taylor (quase desisti logo de ver por me recordar tanto a D. Helena, principalmente o rosto de perfil), "Identikit", que me fez lembrar agora. 

...

terça-feira, junho 30, 2026

 Lembrando os ensinamentos do Mr. Bob Marley sobre que toda a gente te vai desiludir e tens é de ver quem é que vale a pena ainda assim, eu pensei agora: eu já nem me dou ao trabalho de me desiludir nem acho mais que alguém valha a pena. 

 Pego no teu corpo, morto, entre os dedos, ondulo-os, vejo o teu corpo balançar de um lado para o outro. És um boneco que morreu. Inanimado guardo-te na minha mão. As saudades que se tem do que está morto. Lembramos o que esquecemos. Imaginamos o que não podemos. Só para lembrarmos da realidade. E a realidade é que está tudo morto. E eu guardo nos meus dedos. 


(Este luto todo acumulado está a ser muito engraçado, não haja dúvidas, s.q.n.)



segunda-feira, junho 29, 2026

Alumbramento

 Um deslumbre sôfrego 
Como num quadro de Rothko 
Quando a sensação perpassa 
Deixa sem fôlego 
Por um segundo inteiro 

E não há chiaroscuro que me valha 
Agora nesta hora sombria
De tanto vazio, pesar e melancolia 
Procuro mas não acho
Ainda

Bebo um sumo, trago a trago
Vizualizo algo
Tranquilo
E lentamente absorvo
Qualquer coisa que seja algo
Que me estenda a mão 
Directa ao coração 

Como quem ressuscita 
Não com boca à respiração 
Mas um aperto sincopado
De uma massagem remediada
De uma ajuda involuntária 

Os dedos que tocam 
E sentem alguma pele arrepiar
As pestanas dos olhos 
Protegem o nosso olhar 
Goteja fraco e forte
Como os retratos da Fraga
Era uma vez essa história acabada
Num flash de imagem guardada

Que delírio imagético foi esse
Que te fez perder a objectiva
Olhando para todo o lado 
E não sentindo nada
Voltaste ao mesmo fado

Toca de novo essa guitarra 
Perfaz o teu curto dedilhado 
Dá asas a essa tua pancada
Não é à toa que goste sempre
A pessoa mais deslumbrafa

quinta-feira, junho 25, 2026

Distopia

 Talvez sintas falta 
do amor que a gente fez
e como ele da dor nos salvava

Podíamos ser nós mesmos 
uns com os outros 

Éramos demasiado até 
envolvidos e levados
pela corrente 

Fiz o que pude para estar lá 
e nunca te faltar apoio
presença e acolhimento 
mesmo no nosso silêncio 

Sofri por saber que sofrias
e que eu nada podia fazer 
para acabar com o teu sofrimento 
e toda a pressão que sentias

Para mim vocês foram 
a coisa mais bela e frágil 
até todos se tornarem duros e dementes
cruéis e psicopatas com as gentes

O meu semblante triste e magoado 
desiludido e caído
mete medo ao susto
de qualquer inimigo 

Mas vocês não me verão em nada
do que eu sou ou quem fui
na madrugada 
tudo o que flui e foi
e nada souberam de verdade

Os meus lutos e a minha luta
toda a incompreensível distopia
para a qual tu contribuis
tão dedicadamente 
cegando o povo
com barulhos e fogos de artifício 

Eu perdi-me em 2020
e nunca mais me recuperei 
nem fui mais nada de jeito 
porque tudo piorou
e eu vi a maior das verdades 

Entrámos numa década distópica 
e eu tenho estado a observar 
completamente dormente
toda a porcaria da gente

A consciência flagrante 
que todos têm dos horrores 
e ninguém faz nada deliberadamente 
ou fazem pior

Eu não me tornei na resistência 
nem sequer num alucinado
enfiado num bunker
com a mente minada
mas simplesmente morri

Esqueci de avisar

quarta-feira, junho 24, 2026

A vida que não tivemos

 Os nossos corações não estão intactos. A destruição foi tanta que apenas fingimos. Eu nunca fui de fingir. Tu tens tantas máscaras embutidas que nunca soubeste quem eras mesmo. Escolheste inventar uma vida que te permitisse viver conforme o que te era possível. Sempre tiveste uma boa sorte. Escolheste emocionar-te como podias para fugires da tua verdadeira persona, de pessoa fria e cruel, pois juraste nunca mais ser fraco de novo, nunca mais sucumbir. Conseguiste transformar-te no perfeito fingidor. Especialmente no que toca ao amor. Quando não o sentes. 

Não andaremos pelas ruas vazias abraçados pela noite iluminada apenas pela ténue luz dourada quente dos candeeiros. Não faremos amor o dia inteiro. A vida não nos proporciona pequenos-almoços, completos, demorados. Nem galas onde vestiríamos os nossos melhores fatos para depois sairmos logo, fugindo, entediados.

 A vida do quotidiano: tão pequenina, tão bonitinha, tanta comidinha, tão cansativa, tão entediante como se torna rotina e faz o tempo desaparecer. Quando fomos de férias, quando me foste buscar, quando nos aventurámos, quando fomos andar de bicicleta, quando íamos ao campo e ao mar, quando íamos ao parque e ao jardim, quando fomos ao cinema e ao museu, quando fomos a uma festa, quando fomos visitar amigos e ter alegrias no quintal, quando fomos comer fora, quando fomos viajar, quando fizemos piqueniques, quando fomos brincar com os nossos sobrinhos, quando tivemos e adoptámos os nossos filhos, quando íamos ao mercado e à feira e às compras.

Tu fazias-me dormir, como na canção, o carinho, a ternura, uma mão. O cheiro do café, a erva-principe, a cacau e baunilha, a pipocas e farturas, a frango a a chouriço assados, a frutos vermelhos, a canela e cardamomo. Gostávamos da vida que tínhamos juntos: parecia-nos tão perfeita e quase inacreditável, todos os dias olhávamo-nos "ô sorte!". Nós éramos tão diferentes e tão iguais.

Eu amei-te demais e tu amaste-me até depois de eu morrer. Também não demoraste a morrer depois. Fomos um e dois, sempre e para sempre. A tua mão na minha, o teu coração abraçado ao meu. Estávamos juntos e estava tudo bem.

sábado, junho 20, 2026

A Fantasia

Houve um tempo
em que imaginei uma casa
antes mesmo de existir um caminho

Vi jardins onde nunca caminhámos
janelas abertas para um mar
que só eu conseguia ouvir
escolhi cores para paredes
desenhei mesas
imaginei silêncios partilhados
e até os dias comuns
pareciam ter sido prometidos

Na minha cabeça
havia pequenas viagens
para visitar todos os amigos
concertos vistos na primeira fila
chás e cafés demorados
risos depois de microdiscussões
o envelhecer tranquilo
de quem encontra finalmente um porto

Vieram à minha cabeça conversas
que nunca aconteceram
respostas que nunca chegaram
abraços que só existiram
na delicadeza da esperança

Não foi mentira
Foi fantasia

E as fantasias têm essa estranha beleza
alimentam-nos
enquanto nos afastam da realidade

Hoje olho para esse mundo
como quem visita uma casa abandonada
ainda reconheço os móveis
ainda me emociono com a luz
que entra pelas janelas
mas já não espero encontrar ninguém

Percebo agora
que o amor que senti
era verdadeiro
o casamento que ela sonhou
depois o futuro que imaginei
Não 

E talvez seja essa
a forma mais silenciosa do luto

Guardo a fantasia
com a ternura que se tem
por um desenho antigo
de uma casa sonhada

Ela falou de quem eu era
Não de quem tu eras afinal 

E, por isso,
chegou a hora
de deixar a porta aberta

Não para que voltes
(embora fosse o meu maior desejo)
mas para que eu possa
finalmente
sair dessa ilusão 

domingo, junho 14, 2026

O Todo e o Caos

 Entre o Todo e Caos
Não faço mais perguntas 
Só remanesço
"Como dá"
Penso em ti
Minha única loucura 
Meu vinho lilás 
Que é pesado e cabeçudo
Arranhou-me a garganta 
Rasgou-me o peito
Deu cabo do meu coração 
Sangrou-me
Rios de tinta 
Numa violenta escrita 
Em cada explosão 

Perpetua-se o silêncio 
Vi imagens de três hoje
Quatro na verdade 
Que confusão que fiz
Só para tentar ser feliz 
Mas somos escravos 
Eu desse eterno retorno 
Que a vida me trouxe
Sem realmente ser
Pois entre o Todo e o Caos
Só me restou perecer

quarta-feira, junho 10, 2026

A vida não é boa, mesmo que a tua seja

 Aprende uma coisa: quando disseres que a vida é boa, tem a consciência de que estás a falar da tua vida e não da vida enquanto vida em si. Só porque tu vives numa bolha em que tens só alguns problemas com que conseguiste lidar e já achas que foste grande herói por isso, sem muitas vezes ver todo o sistema que te fez ter essa resolução nem sequer muitas vezes és grato pelas pessoas que te ajudaram a vida toda, não quer dizer que a vida é boa. A vida não é boa, nunca foi, especialmente para o ser humano que sempre foi horrível para com os seus e destruidor de tudo o que é são. Desde que o animal homem existe ele estupra outros seres, nomeadamente crianças. Toda a gente maltrata-se e ao próprio filho que põe no mundo sem sequer ter estudado para ser responsável por outro ser humano. Para não falar da extrema fome e poluição que causámos no planeta que é a única casa que temos. 

Pessoas canibalizam, torturam, violam, roubam, matam, assistem todas essas coisas calados todo o segundo e não fazem nada para impedir. A vida não é boa, nem nunca foi, tu é que só fazes parte dos que se mentem e se separam dos outros, dizendo que não é nada contigo, que não queres saber, que só focas no que queres, que não podes fazer nada e que algum deus ou político está aí para resolver essas coisas. 

Parabéns para ti.

sábado, junho 06, 2026

Sem nada

 Pode-se viver sem motivo? Sem ter qualquer objectivo? Claro que sim. Pois todas as razões para se viver são inválidas perante a fatalidade de todos nós irmos morrer.

Até mesmo com o contrário, uma pessoa tendo motivos para morrer, mas continua viva, vá-se lá saber.  Nada tem razão de ser.

domingo, maio 31, 2026

Nunca mais amei assim

 Amei-te tanto que enlouqueci
Com uma paixão que se ardeu 
Amei-te tanto que endoideci 
Com uma paixão que se morreu 

Amei-te tanto que embruteci
Com uma paixão que se f*deu
Amei-te tanto que insisti
Com uma paixão que se perdeu

Amei-te tanto que resisti
Com uma paixão que se feneceu
Amei-te tanto que assisti 
Com uma paixão que se encolheu

Amei-te tanto que desisti 
Com uma paixão que se rompeu
Amei-te tanto que despedi
Com uma paixão que se escafedeu

domingo, maio 24, 2026

Não te escolhi

 Consciente não te escolhi 
Jamais o faria
Pois pessoa cruel assim
Eu jamais amaria
Por decisão própria 

Talvez muitas vezes
Tenha me entregado ao "risco
De amar no máximo"
Mas não convosco 
Pois nem me apercebi 

Essa é a verdade, meus caros
Há em mim racionalidade
Nunca fui masoquista 
Ao contrário do que pareceu
Quando fiquei com amor que morreu

Pensando que alguma vez
Ele foi real
Mas quem, como vocês 
Ama no mínimo possível 
Nunca saberá o que é total



quarta-feira, maio 20, 2026

 Essas virgínias da vida
Que são tudo menos virgens
E esses nem terra nem mar
Que só sabem tentar pescar
Já tinham uma bela despedida 
Desse povo, queres apostar?

(pequena sátira do momento Brasil, dedico-te Yaya, acho que ias achar graça ☺️💓)