terça-feira, junho 30, 2026

 Lembrando os ensinamentos do Mr. Bob Marley sobre que toda a gente te vai desiludir s tens é de ver quem é que vale a pena ainda assim, eu pensei agora: eu já nem me dou ao trabalho de me desiludir nem acho mais que alguém vale a pena. 

Simples assim

 A vida é só o que vem antes da morte; podes fazer o que der com ela. Mas, independentemente do que faças, a morte vem. 

Só um dia

 Ah, será que nos encontraríamos durante um só dia se fôssemos tão efémeros quanto  borboletas e será que ainda nos lembrávamos do que aconteceu antes, quando ainda éramos como lagartas (tal como as borboletas se lembram) e não tínhamos feito toda essa metamorfose que nos mudou completamente?

Eu queria ter nem que fosse só um dia para te ter comigo.

Agora

 Quando estamos no meio da distopia, ainda existe algures beleza e inocência?

Não há espaço. 

Os provedores e benfeitores do mundo estão com o espírito confuso e destroçado. Acossados pelos déspotas imbecis, esses violentos acéfalos, bestas irracionais que tomaram conta de tudo. 


 Pego no teu corpo, morto, entre os dedos, ondulo-os, vejo o teu corpo balançar de um lado para o outro. És um boneco que morreu. Inanimado guardo-te na minha mão. As saudades que se tem do que está morto. Lembramos o que esquecemos. Imaginamos o que não podemos. Só para lembrarmos da realidade. E a realidade é que está tudo morto. E eu guardo nos meus dedos. 


(Este luto todo acumulado está a ser muito engraçado, não haja dúvidas, s.q.n.)



Ser sábio

 Ser sábio é conhecer a sua própria ignorância. Procurar colmatá-la, ou ter a humildade de admitir a incapacidade de a preencher. Reconhecer as próprias lacunas do carácter e personalidade é de extrema sapiência, mas não se ficando por aí, pois há que encetar os esforços e acções necessárias para resolver essas questões. Com a maturidade, geralmente obtida pelo pensamento e processamento de todas as coisas das quais se deve aprender lições fulcrais sobre si mesmo e os outros, vem a humildade de desistir da intelectualidade que reside apenas em entropia ao verdadeiro conhecimento, pois que este é sempre verdadeiramente simples e seminal.

segunda-feira, junho 29, 2026

Alumbramento

 Um deslumbre sôfrego 
Como num quadro de Rothko 
Quando a sensação perpassa 
Deixa sem fôlego 
Por um segundo inteiro 

E não há chiaroscuro que me valha 
Agora nesta hora sombria
De tanto vazio, pesar e melancolia 
Procuro mas não acho
Ainda

Bebo um sumo, trago a trago
Vizualizo algo
Tranquilo
E lentamente absorvo
Qualquer coisa que seja algo
Que me estenda a mão 
Directa ao coração 

Como quem ressuscita 
Não com boca à respiração 
Mas um aperto sincopado
De uma massagem remediada
De uma ajuda involuntária 

Os dedos que tocam 
E sentem alguma pele arrepiar
As pestanas dos olhos 
Protegem o nosso olhar 
Goteja fraco e forte
Como os retratos da Fraga
Era uma vez essa história acabada
Num flash de imagem guardada

Que delírio imagético foi esse
Que te fez perder a objectiva
Olhando para todo o lado 
E não sentindo nada
Voltaste ao mesmo fado

Toca de novo essa guitarra 
Perfaz o teu curto dedilhado 
Dá asas a essa tua pancada
Não é à toa que goste sempre
A pessoa mais deslumbrafa

Do meu amor que é fogo eterno

 Amo-te com o fogo eterno do Olimpo
E a nossa história foi feita de dureza
Através dos tempos que nos testam
Até nos roubaram a nossa delicadeza!

Quantas provas passaremos nós
E quantas delas nos matarão
Será que sobreviveremos ao atroz
Ao impiedoso e à implacável sensação?

Do grão, do fruto, do amendoim 
Do pecado, da semente de gergelim 
Da cerveja e do vinho enfim 
Quais os venenos que comemos?

No palco do teatro da solidão 
Não precisamos de ninguém 
Porque somos de muito além 
E contemos imortal paixão 

Olho o teu pescoço alvo
Esticado e rosto cabisbaixo 
O teu cabelo ondulado 
E lembro o fogo que não lavo


Assassino

 Amar-te
Também foi a minha destruição 
Não penses que eu só sofria
Não penses que eu sabia 
Que fiz tudo pensado de antemão 
Pois não foi nada disso 
Foi tudo sem senso nem razão 
Um redemoinho de sentimentos 
Um desespero de complicação 
Mas depois aqueles momentos 
Em que te enviava um poema 
Ou tu cantavas uma canção 
E tudo parecia valer a pena 
Fazia esquecer a maldição 
Talvez fingimos demais 
Inventámos demais 
Só porque éramos nós
Só porque era o fim do mundo 
E surgimos como espectros 
Meio iluminados mas escuros
E éramos feitos de bondade
Eu não tinha qualquer maldade
Até me ferirem incontáveis vezes
Até me acossarem e denegrirem
Mas mais ainda até não me defenderem
E o lobo ensanguentado 
Que vivia dentro de mim
Sem eu ter completa noção 
Transformou-se num assassino 
Começou em mim e acabou contigo 
E levou-o ainda a ele depois também 

Cruela

 Ela é tão alegre e feliz 
E quando sofre é o fim do mundo 
Aí ela detona tudo e até aborta
Exibe as vísceras como troféu
Exalta os seus tombos 
Exulta-se como réu
E como amiga dos animais
Mansos, empáticos, legais
Ela foi adicta de ir a reuniões 
E entoar mantras e fazer rituais 
Com sangue, sémen, sopas
De líquidos em que ela se banha
Frequentemente, do princípio 
Ao ventre
Onde não tem a malignidade 
Ela produz frutos e colhe-os 
Maduros
Pois teve toda a sorte e apoio
E um lacaio fiel e subserviente 
Não fosse ela a Cruela em gente
E fazer soar ao universo 
As suas vontades obstinadas
Tão cegas e urgentes
De ditadora 
Com medo de ser abandonada 
Faz com que se convença 
E se exponha 
Para se vangloriar abençoada

domingo, junho 28, 2026

Não estamos preparados

 Um mundo em que tudo é falso:
os corpos cheios de plásticos 
as comidas cheias de aditivos 
o chocolate, a carne, o peixe 
a fruta, os cereais, a água 
enchidos de químicos 

A pressão que pusemos 
em todo o planeta 
agora pronto à explosão 

Sim, talvez, não 
e com as dúvidas e mentiras 
fomos falsificando
tudo com a negação 

Agora já não dá tempo 
para qualquer correcção 
Já há mais de vinte anos
que fomos falando
e ninguém ouviu a razão 

o chão há-de derreter 
o mar há-de secar
o ar há-de matar
vai tudo (4 biliões) morrer
(e tu ficas aí a pular)

Não é predição

 Os céus cairão
em forma de clarão 
e varrerão as águas 
até mais não 

A vida termina
é como uma faxina 
um mata-leão
que sufoca o ar

E tudo o que cupmina
tem de parar
contigo a pular
mas sempre alerta

Não há nada que possas fazer 
meu amigo mru irmão 
começou comigo e contigo 
acabou em contramão 

E o chão tremeu
e as ilhas radioactivas 
e de plásticos no mar
tudo irrompeu 

sábado, junho 27, 2026

O deus do amor

 Não te mostrei quem eu tinha sido? Enxergaste-me no meu silêncio e na minha necessidade extrema de paz? Vieste ao meu encontro, entendendo a minha exaustão? Abriste--me os teus braços? 

As lágrimas que me caem automaticamente do rosto molham o vento. 

Meu amor. Tu existes. Estás na luz alaranjada de oiro aquecido na penumbra da escuridão. E a treva nunca mente. Será que ainda me escutas? Será que ainda pensas em mim? Ainda tens a força que eu depositei em ti e tê-la-ás sempre. Nada te faltará senão a pura verdade. 

"Quem sentiu o toque de Deus, sentiu-o espalhar-se por tudo o que existe", nunca mais sentiu necessidade do toque humano. 


(*Pequenos pecados, little trouble girls)

 A omnipresença do barulho irritante do relógio é o que nos torna a todos assassinos.

Minerais

 Viemos da terra e da água e do fogo e do ar. Somos inteiros, complexos, conflituosos, sedimentares e rochedos. 

Vagamos por aí sem noção do tempo. Refletimos, não por vontade própria, mas porque o Sol insiste em nos iluminar, até de noite com o luar. 

Vinte e quatro minerais. Diz-me. Sei nomes de queijos, quantos. 

Mineralizando, electrólitos, gerindo e tentando um equilíbrio.

O amor pode ser mineral?

Meu amor.

Poeta

 O poeta é um arranjador de palavras; maestro máximo do pensamento e da contemplação, ele conduz o maravilhamento com a caneta com que escreve. 
Apenas é verdadeiramente poeta, não quem escreve poesia ou di-la, mas que a vive, quem é a própria poesia em si.
Eu fui a poeta que ninguém viu, o poema que ninguém leu, a palavra que era só uma imagem e um som na cabeça de alguém.

Não tentei escrever o belo, recuperá-lo nas minhas frases.
Caminhei desesperançada, tendo dificuldades e conflitos em lidar com o sombreado, não gosto do barulho e aflige-me a multidão. Cada vez que chorei, "chovei" para lavar o ar que estava tão carregado de mágoas. Também eu sou apenas uma desempregada do meu destino, uma desalmada da minha alma gémea, desirmanada, desfilhada, habitando o silêncio com as patinhas do melro que canta na minha janela. Tenho de descobrir o nome dessa árvore que está aqui e que faz insistentes flores amarelas. 

 ODEIO BOTS!

 Sem o silêncio nada soa. 

sexta-feira, junho 26, 2026

 Achei curioso estarmos em depressão marítima.. Estamos mesmo nublados e acinzentados. Com ocasionais precipitações e já anunciam trovoadas. 

Adeus, pandemia.

 Fico perplexa ainda de pensar que demorei dois anos, desde 2021, a perceber, admitir e entender um bocado o que me tinha acontecido. Nunca me sucedeu tal coisa. Tanta confusão, tanta opinião, tanto conflito, deu nisso. Tempos anómalos resultam em situações extremamente atípicas. Entretanto, aconteceu tanta coisa, eu mudei tanto, mas para meu grande espanto tudo o que aconteceu não teve mesmo nada a ver comigo. Não é toa que quem me conhecia de antes estranhou-me e disse que eu parecia uma pessoa completamente diferente. 

Lembro como a Katy dizia antes mesmo, que quem era do bem ia fazer ainda mais do bem e que quem era mau ia ficar pior. 

Ainda assim, eu arrependo-me de tudo, apesar de já me ter conformado com o facto de que foi o que foi e não dá para voltar atrás e não podia ter feito melhor pois agi sob hiperadrenalina e num tempo horrível. 

Foi deveras um enorme período de ver de que fibra se é feito e aprender depois com os erros. Durou os cinco anos que previa para a pandemia. Agora temos estado nesta continuação de distopia, temos de esperar mais uns anos até passar todo o trauma e a violência amainar. 


Madrugada de sal e lágrimas

 Quando lambo o sal das costas da mão sinto-me como um gato. 

Já não tenho guardado keepsakes para o meu scrapbook. 

Faz sentido, ter cansado de viver, e guardar mementos para quê? Tudo vai para o lixo um dia. Às vezes é giro apanhar alguma coisa que já não se lembrava há muito tempo. Outras vezes é triste. Outras, complicado. 

 Ao menos, quando penso que estou como estou, zombieficada, posso ficar satisfeita com o facto de que acabou a vergonha de escrever e sentir coisas estúpidas de pessoa apaixonada. Isso é o melhor do vazio. 

"Viver até morrer."

 Nestes momentos antes do absoluto nada, tentei levar algumas coisas a cabo. Nunca foi algo que eu quisesse muito, pois isso era impossível para uma criatura pobre como eu. Daí que tivesse uns poucos sonhos, embora maioritariamente ciente da completa impossibilidade de os realizar. 

Algumas pessoas disseram que vivi muito e outras que não vivia nada. Logo para começar, o conceito de viver é tão díspar para tanta gente. Coitados dos que não sentiram tudo o que havia para sentir e aprender, pois acho que essa é a condição basilar para se viver e função primordial de se estar vivo.

Vejamos, assim de repente: vi o nascer do sol e o pôr, fui sim a alguma festa, embriaguei-me e intoxiquei-me apenas uma vez na vida, fiquei doente, fui ferida, fui mordida, fui f*dido, chorei, gritei, silenciei, vi muitas coisas, consumi muita comida, olhei em muitos olhos, deixei-me ser beijado, fui abraçado, fui lembrado e lembrei tanto, todos os dias sofri, ri, descansei, cantarolei, procurei respostas, desisti, questionei, viajei sozinha e acompanhada, andei, trabalhei, ajudei muito, tentei muito, resignei-me muito, esforcei-me muito, falei muito, escrevi muito, calei-me, parei de questionar, ouvi muito, pensei e senti muito. Ah, dancei! Isso é estar viva! Claro que nem mencionei que amei, porque faz parte do sentir e isso foi muito mesmo, mais que demais. 

quinta-feira, junho 25, 2026

De Hilda Hilst


 

Esta espécie de morte

 O vazio que sinto é como o vácuo no espaço e aquela visão de a bola de bowling e as penas caírem quase em câmara lenta ao mesmo tempo. Eu sou aquele espaço sem ar e que, por isso, não causa resistência. Tudo congela no fundo negro e gélido do espaço. Tudo fica inanimado. 

Claro que prnsar em ti faz as bordas desse imenso vazio atravessado no meu peito, sangrarem. Grosso e derramando e deslizando e gotejando. Um sangue meio escuro, suficientemente antigo. De quando tudo enlouqueceu e eu era uma continuação de ti, sangras tu sangro eu. depois fizemos sangrat um so outro, sem saber qual o mais teimoso. Tu o mais sádico e mais cruel de nós, não achas? Eu só queria paz. No fim conseguimos. Menos eu mesmo, que nunca consegui nada de efectivo na minha vida. Mas quase ada disto tem que ver contigo. 


Distopia

 Talvez sintas falta 
do amor que a gente fez
e como ele da dor nos salvava

Podíamos ser nós mesmos 
uns com os outros 

Éramos demasiado até 
envolvidos e levados
pela corrente 

Fiz o que pude para estar lá 
e nunca te faltar apoio
presença e acolhimento 
mesmo no nosso silêncio 

Sofri por saber que sofrias
e que eu nada podia fazer 
para acabar com o teu sofrimento 
e toda a pressão que sentias

Para mim vocês foram 
a coisa mais bela e frágil 
até todos se tornarem duros e dementes
cruéis e psicopatas com as gentes

O meu semblante triste e magoado 
desiludido e caído
mete medo ao susto
de qualquer inimigo 

Mas vocês não me verão em nada
do que eu sou ou quem fui
na madrugada 
tudo o que flui e foi
e nada souberam de verdade

Os meus lutos e a minha luta
toda a incompreensível distopia
para a qual tu contribuis
tão dedicadamente 
cegando o povo
com barulhos e fogos de artifício 

Eu perdi-me em 2020
e nunca mais me recuperei 
nem fui mais nada de jeito 
porque tudo piorou
e eu vi a maior das verdades 

Entrámos numa década distópica 
e eu tenho estado a observar 
completamente dormente
toda a porcaria da gente

A consciência flagrante 
que todos têm dos horrores 
e ninguém faz nada deliberadamente 
ou fazem pior

Eu não me tornei na resistência 
nem sequer num alucinado
enfiado num bunker
com a mente minada
mas simplesmente morri

Esqueci de avisar

"Uma dor assim pungente"

 "Uma dor assim pungente"
De me lembrar todos os dias 
Desses amores maiores ausentes
Que fizeram da vida uma alegria 

Pudera eu ir conhecer-te
O som, o sabor, o cheiro 
Lá bem de pertinho ver-te 
A traça do teu edifício inteiro 

Porque tendo dança no corpo
Na ponta do pé o sambado
Nada em mim fez-se de rogado
Ressuscitando o que estava morto

Mas o meu ritmo é azul na veia
Como quem fez pacto com o diabo 
E dele fiz o ser mais amado
Ao som de uma guitarra velha



quarta-feira, junho 24, 2026

A vida que não tivemos

 Os nossos corações não estão intactos. A destruição foi tanta que apenas fingimos. Eu nunca fui de fingir. Tu tens tantas máscaras embutidas que nunca soubeste quem eras mesmo. Escolheste inventar uma vida que te permitisse viver conforme o que te era possível. Sempre tiveste uma boa sorte. Escolheste emocionar-te como podias para fugires da tua verdadeira persona, de pessoa fria e cruel, pois juraste nunca mais ser fraco de novo, nunca mais sucumbir. Conseguiste transformar-te no perfeito fingidor. Especialmente no que toca ao amor. Quando não o sentes. 

Não andaremos pelas ruas vazias abraçados pela noite iluminada apenas pela ténue luz dourada quente dos candeeiros. Não faremos amor o dia inteiro. A vida não nos proporciona pequenos-almoços, completos, demorados. Nem galas onde vestiríamos os nossos melhores fatos para depois sairmos logo, fugindo, entediados.

 A vida do quotidiano: tão pequenina, tão bonitinha, tanta comidinha, tão cansativa, tão entediante como se torna rotina e faz o tempo desaparecer. Quando fomos de férias, quando me foste buscar, quando nos aventurámos, quando fomos andar de bicicleta, quando íamos ao campo e ao mar, quando íamos ao parque e ao jardim, quando fomos ao cinema e ao museu, quando fomos a uma festa, quando fomos visitar amigos e ter alegrias no quintal, quando fomos comer fora, quando fomos viajar, quando fizemos piqueniques, quando fomos brincar com os nossos sobrinhos, quando tivemos e adoptámos os nossos filhos, quando íamos ao mercado e à feira e às compras.

Tu fazias-me dormir, como na canção, o carinho, a ternura, uma mão. O cheiro do café, a erva-principe, a cacau e baunilha, a pipocas e farturas, a frango a a chouriço assados, a frutos vermelhos, a canela e cardamomo. Gostávamos da vida que tínhamos juntos: parecia-nos tão perfeita e quase inacreditável, todos os dias olhávamo-nos "ô sorte!". Nós éramos tão diferentes e tão iguais.

Eu amei-te demais e tu amaste-me até depois de eu morrer. Também não demoraste a morrer depois. Fomos um e dois, sempre e para sempre. A tua mão na minha, o teu coração abraçado ao meu. Estávamos juntos e estava tudo bem.

 Perdi-te e perdi-te e perdi-te.

Quantas vezes antes não sei, tantas vezes depois, sei, mas serão cada vez menos. 

Sentindo agora esta espécie estranha de vazio e quebritude, pergunto-me quantos mais anos terei de suportar tudo e quantos mais anos ainda sentirei esta dor. 

terça-feira, junho 23, 2026

A hora dos aspersores

 Vinha a andar pelas ruas vazias, já pela noite adentro, quando uma pessoa começa a sentir-se insegura e pensei em como fui feita para vaguear assim, à hora em que se ligam os aspersores. Só o som deles corta o silêncio num ritmo contínuo. 

Chego a casa e o vazio é outro. Lembro como hoje parecia que via pessoas parecidas contigo e até tirei uma foto longínqua a um par numa esplanada, por onde depois passei e ele levantou os olhos do telefone e olhou-me directamente nos olhos. Eu já antes estava perturbada com a semelhança, mas quando ele me olhou assim pude ver que tinha os olhos verdes. Não tinha, afinal, nada a ver contigo, só a maneira de vestir e o cabelo. Deve estar na moda porque há muitos assim agora. 

Já tinha deixado fora a foto, porque não se via nada de jeito com a lonjura, mas fui vê-la de novo e na pasta do lixo estava ainda a outra em que ela está ao teu lado. A que deve ser a tua namorada. Não se vê a cara. Deu-me ódio pensar que ficaste com ela, que foi a ela que tu escolheste. Mas quem sou eu, não é, que tu nem sequer conheces? 

Eu não sou como eles. Ninguém sabe. Todos pensam que eu sou incrível e não sabem que é só a hiperadrenalina e que na verdade eu não sou nada nem ninguém, muito menos quem me pensam. 

Hoje tentei de novo. Falhei de novo. Continuei a andar como uma zombie. Com a estupidez, a dor e mágoa, completamente destroçada, arrastando-me sem alma. 

segunda-feira, junho 22, 2026

Não estou a gostar disto

 Não estou a gostar nada disto: esta coisa horrorosa de tudo continuar. Como se não tivesse acontecido nada. Como se nada fosse. Que ódio. Não, não vou mais olhar o céu, foi de tanto olhar que sofri tanto. A realidade é uma bosta, é o que é, mas mais vale estar ciente tendo os pés assentes no chão, sabendo que não se sai daí, do que sofrer sonhando com ilusão. 
O meu luto estagnou, ficou como um carro funerário estacionado na pista do meu peito com os pneus bloqueados pela polícia da dor. Ah, que desamor, que tragédia, que horror e eu nem preciso de fazer um drama, porque tudo o que não conto é ainda mais tenebroso. Ninguém sabe. Esse dilacerar contínuo, dia após dia, o stress a cada minuto, eu juro que se pudesse morreria, esperei tanto por uma cura mas mais ainda pela eutanásia. Nada veio. Hoje vi-o de novo, primeiro sentindo-o um zombie, quase como eu ando, mas depois rapidamente o vi sorrir e alegrar-se e pensei em como ele é feliz. Provavelmente também por tê-la. Assim é a vida. Alheia. 
Tudo escapa à minha compreensão, em quase todos os seus pormenores. Nada me faz grande sentido e tudo aparenta ser uma enorme estupidez, uma palhaçada do pior. 
Esquecemos quase tudo o que aprendemos e ficamos assim, meio perdidos sempre a começar de novo e envoltos em espuma dos dias. 
Eu tenho muitos casacos. Diria até que demasiados. Tenho sempre de me cobrir, seja verão ou inverno, seja noite seja dia. É como uma protecção, que vai além do frio, faz uma barreira, um escudo. 
Pensei que já não ia continuar este ano, mas entretanto deixei-me ficar, convenceram-me um par de pessoas, confluências de outras coisas, vou deixando até porque não tarda há-de ser. 
Mas não, não estou a gostar nada disto de tudo em volta continuar. Desde as mortes todas, dos familiares e amigos, do mundo, da vida. É tudo falso. Todos forçam tudo. Ninguém pára. É tudo doido e ali na pandemia puseram-me como eles, visto ter interagido com pessoas e adaptando-me ao que elas pediam que eu fosse. Foi um custo mortal para mim. Até hoje não recuperei e temo já nunca mais recuperar. Além de me ter tornado numa pessoa completamente diferente, quase nada agora. 

domingo, junho 21, 2026

sábado, junho 20, 2026

A Fantasia

Houve um tempo
em que imaginei uma casa
antes mesmo de existir um caminho

Vi jardins onde nunca caminhámos
janelas abertas para um mar
que só eu conseguia ouvir
escolhi cores para paredes
desenhei mesas
imaginei silêncios partilhados
e até os dias comuns
pareciam ter sido prometidos

Na minha cabeça
havia pequenas viagens
para visitar todos os amigos
concertos vistos na primeira fila
chás e cafés demorados
risos depois de microdiscussões
o envelhecer tranquilo
de quem encontra finalmente um porto

Vieram à minha cabeça conversas
que nunca aconteceram
respostas que nunca chegaram
abraços que só existiram
na delicadeza da esperança

Não foi mentira
Foi fantasia

E as fantasias têm essa estranha beleza
alimentam-nos
enquanto nos afastam da realidade

Hoje olho para esse mundo
como quem visita uma casa abandonada
ainda reconheço os móveis
ainda me emociono com a luz
que entra pelas janelas
mas já não espero encontrar ninguém

Percebo agora
que o amor que senti
era verdadeiro
o casamento que ela sonhou
depois o futuro que imaginei
Não 

E talvez seja essa
a forma mais silenciosa do luto

Guardo a fantasia
com a ternura que se tem
por um desenho antigo
de uma casa sonhada

Ela falou de quem eu era
Não de quem tu eras afinal 

E, por isso,
chegou a hora
de deixar a porta aberta

Não para que voltes
(embora fosse o meu maior desejo)
mas para que eu possa
finalmente
sair dessa ilusão 

quinta-feira, junho 18, 2026

Almas

 E eu que houve ali um momento 
Em que duvidei dos sentimentos
De não saber se havia mesmo alma
Pois ele me chamou de desalmada 
Talvez só agora eu tenha descoberto
Que afinal acho que tive várias almas 
E também a várias almas estive ligada
Mas, infelizmente, sei que sem a dele 
Eu nunca existiria e sou agora nada

Porque é que a vida vale a pena?

 Passei a vida literalmente nestaa coisas do existencialismo. Só na adolescência fui aflorar os que afinal pensavam e se questionavam acerca das mesmas inquietações, como Sartre, Sócrates, Camus e alguns outros. E Pessoa, claro, que eternizou essa falaciosa frase que passou a feita, falando de que a vida vale a pena quando a alma não é pequena. E das duas, uma: ou a alma é grande e pōe-se a inventar uma vida cheia de sentir, ou a alma inventando e não vivendo na realidade como ela é toda também expõe que a vida em si não vale a pena. No sentido em que a pena é pesada e longo sofrimento, a vida que é senão um intervalo até à morte, não valerá por esse mesmo facto inexorável. 

Costumava, no entanto, ver então a vida como um desafio, não tanto uma aventura, mas pela caminhada de descobrir sobre a existência humana que nos calhou e os conhecimentos que podíamos explorar e adquirir sobre o que existia. Muita gente, noutra perspectiva, viam a vida como uma busca pela felicidade, pela concretização de objectivos, sonhos e o hedonismo que ela proporciona. Há quem retire grandes quantidades de prazer da vida pela repetição de actividades que lhes dão isso, até para muitas desembocar em vicio. 

Eu sempre vi que a vida não valia as penas que significa e acarreta. Não falo só dos horrores cometidos pelos homens, mas tão simplesmente pelas dores pessoas comuns, até do quotidiano, do mundo humano em que nos inserimos. Contudo, lá está, quando vêm os grandes amores e eventuais realizações, ficamos com a ilusão de que a vida vale sim a pena e, muitas vezes, proferem até a mítica frase "valeu a pena tudo o que se passou para chegar aqui".

Não sei. De quase nada, já. Mas sei que se penso nele a cantar aquelas músicas, faz pensar de novo que dava tudo para as poder ouvir e que muita da pena pesada valia a pena só para ouvir e a amenizar. Isso sim, deve constituir-se em masoquismo. Ou seja, é mesmo assim: só os masoquistas e os inconscientes é que crêem que a vida vale a pena. E quando a pena deles é pequena. 

(P.S.; a vida valeria a pena se eu pudesse te ter para sempre)

quarta-feira, junho 17, 2026

 Entre robots e zombies eu ainda sou um ser humano de pele e osso e sangro todos os dias um pouco.

segunda-feira, junho 15, 2026

Gargomilo

 Entornaste a sorte pelo gargomilo 
Emborcaste-a em largos tragos
Como se fosse um caro vinho
E quebraste a taça no final

A raiva que nos consome
É só puro ódio ou será a dor
De quem um dia teve o maior amor
E fez de tudo para se tornar banal

Porque a vida não é sempre igual 
E a morte acaba sempre da mesma maneira 
Acho que a minha estratégia derradeira 
Não foi nada de bom para ninguém 

Senão vão ver mais além 
Que quando eu e tu morrermos 
Por já não termos mais contacto 
Doerá menos por nos protegermos

Ó sorte desgraça que não chegaste
A ser boa nem para quem tudo deu
"Vivo porque te vejo, miragem"
E ao teu rugir que me enlouqueceu


domingo, junho 14, 2026

"Tudo passa", muitos me disseram. Entretanto, quase nada passou e só eu, como estava previsto, virei uma passa. 🤦🏽💔

O Todo e o Caos

 Entre o Todo e Caos
Não faço mais perguntas 
Só remanesço
"Como dá"
Penso em ti
Minha única loucura 
Meu vinho lilás 
Que é pesado e cabeçudo
Arranhou-me a garganta 
Rasgou-me o peito
Deu cabo do meu coração 
Sangrou-me
Rios de tinta 
Numa violenta escrita 
Em cada explosão 

Perpetua-se o silêncio 
Vi imagens de três hoje
Quatro na verdade 
Que confusão que fiz
Só para tentar ser feliz 
Mas somos escravos 
Eu desse eterno retorno 
Que a vida me trouxe
Sem realmente ser
Pois entre o Todo e o Caos
Só me restou perecer

sábado, junho 13, 2026

 Falta muito para me vires buscar?

 Para quem quer morrer desde os 12 anos, eu deixei-me levar muito facilmente: 

por caras e cabelos e mãos 
por risos, amigos, afeição 
um ou dois cantadores
dois ou três historiadores
três ou quatro nomes de árvores de fruto
descendentes de peixes e pão
dormindo num viaduto
vendo a beleza dos vagabundos
à luz dos vagalumes
encantando a minha tristeza 
num segundo fazendo-me sorrir
e a minha destreza de deusa
com autoestima a surgir

Da Morte

 A morte vem sem avisar o momento exacto que vai chegar. Ninguém sabe o seu último minuto. Pode ser enquanto estiver a fazer seja o que for. Fica tudo parado: tudo o que estávamos a fazer ou pretendíamos fazer, desde um livro que estávamos a ler, a um noivado que estavamota preparar, até uma refeição, ou simplesmente todas as subscriçôes que fizemos. É dos maiores inconvenientes além de estar vivo, o de não saber o exacto momento em que morreremos. Pouparia muitas frustrações, inclusive para terceiros. Dava extremo jeito para se planear tudo e obviamente o dinheiro. Esse é dos maiores incomodos, também em termos práticos. Quando a morte chegar leva tudo de quem nos amou, aos poucos deixamos de existir para elas de vez. 

Pronto, lá fui com os porcos de novo

 Por que é que és tão lindo para mim

Por que ainda sorrio quando te vejo

Porque é que a minha barriga aquece

Porque é que ainda és tu que apareces

Por que tudo em mim é teu desejo

Porque é que és tu o meu maior tropeço

Por que é que a minha mente te urdiu

Porque é que te tornaste no que me iludiu

Porque é que és "vida, amor, esperança"

Porque é que és a minha brava criança 

Porque é que eu só em ti me foco

Por que me fizeste ficar como um louco

Porque é que não me farto do teu rosto

?



Eu nunca te disse

 Eu nunca te disse que tu destruíste a minha vida. Eu nunca consegui ser tão cruel. Pensava eu, que se te dissesse, eu seria. Tal é o meu nível de burrice no que diz respeito a deixar que os que me fizeram mal saiam ilesos. A verdade é que os acho a todos uma porcaria e a mim também nesse aspecto de tê-los amado. 

Eu era tão nova e acreditei no conto de fadas. Agora, há anos que estou velha e verdade seja dita nunca mais pude acreditar em mais nada. Todos me enganaram. Eu nunca soube de nada. Até ser demasiado tarde. Não é à toa que não dá para confiar em ninguém. 

Sou um prato cheio para todo e qualquer narcisista de plantäo. As pessoas egoístas são as que menos têm coração. Fazem-se de altruístas para os outros e quando apanham alguém frágil usam completamente e prendem para manipularem como bem lhes faz questão. 

Tu destruíste a minha vida e eu te dei o meu perdão. Uma, duas vezes, nem sei mais o que realmente aconteceu. Alguém que me fez tanto mal não merece mais nada de mim, mesmo que já não me diga nada e eu já nem sequer estar magoada. Mas como eu sempre acabo por não querer ficar mal com as pessoas e sou compreensiva, pus-me em maus lençóis por uma vez ou outra. Não repetindo depois os mesmos erros, pois a quota já estava vista e revista. 

As pessoas só estão lá para elas mesmas, no fundo, só quando precisam ou querem alguma coisa só para se sentirem bem consigo próprios. Como sabem que esquecem, que não lhes significa nada, que seguem em frente rápido, não estão nem aí para tudo o que fizeram o outro sofrer. 

"Desce à terra, o amor existe"

 Quem espera sempre pela tua meia-noite
E pela tua Primavera que foste em mim?
Sou eu, mais ninguém, pudera
Com tudo o que fui de ti e tu enfim
A poesia e a melodia da alegria 
Nas festas dos nossos corações 
Quando nos sentíamos surgir
Quantas confusões, mil complicações 
E não há nada que acabasse em nós 
Aquele murmúrio de quem se perdeu
E se encontrou numa una voz 
Em ternura, quentura, carinho, amor
Aquele abraço de novo e mais um
Para quê se não há depois? 

Desculpa. Se tu soubesses tudo, entendias. 

Ao mesmo tempo

 Ser feliz 
Ser o mais amado
Por quem mais se ama
Sentir-se livre e em paz
Estar despreocupado
Isto tudo ao mesmo tempo 
É possível? 
Só para os inconscientes
Infelizmente 

sexta-feira, junho 12, 2026

Pessoas falsas deviam ser postas numa ilha todas juntas tb

 Todo o tempo que eu passei preocupada com pessoas que não se preocupam comigo, gostava muito que me pudesse ser devolvido, porque entretanto finalmente aprendi a lição de que as pessoas não merecem nada de nós quando são falsas. 

quarta-feira, junho 10, 2026

A vida não é boa, mesmo que a tua seja

 Aprende uma coisa: quando disseres que a vida é boa, tem a consciência de que estás a falar da tua vida e não da vida enquanto vida em si. Só porque tu vives numa bolha em que tens só alguns problemas com que conseguiste lidar e já achas que foste grande herói por isso, sem muitas vezes ver todo o sistema que te fez ter essa resolução nem sequer muitas vezes és grato pelas pessoas que te ajudaram a vida toda, não quer dizer que a vida é boa. A vida não é boa, nunca foi, especialmente para o ser humano que sempre foi horrível para com os seus e destruidor de tudo o que é são. Desde que o animal homem existe ele estupra outros seres, nomeadamente crianças. Toda a gente maltrata-se e ao próprio filho que põe no mundo sem sequer ter estudado para ser responsável por outro ser humano. Para não falar da extrema fome e poluição que causámos no planeta que é a única casa que temos. 

Pessoas canibalizam, torturam, violam, roubam, matam, assistem todas essas coisas calados todo o segundo e não fazem nada para impedir. A vida não é boa, nem nunca foi, tu é que só fazes parte dos que se mentem e se separam dos outros, dizendo que não é nada contigo, que não queres saber, que só focas no que queres, que não podes fazer nada e que algum deus ou político está aí para resolver essas coisas. 

Parabéns para ti.

terça-feira, junho 09, 2026

Ela não soube de nada

 No instante da sede o mar apareceu
E ela amou-o como se nunca fosse amar
Depois na escuridão uma nuvem veio
Branca gigante e solícita de rompante
E ela nada entendeu

Talvez não houvesse mais nada para dar

E tudo nela há muito feneceu
Embora tudo eles ressuscitaram
Com sopros e estórias e sorrisos 
Fazendo-se dela melhores amigos 

Acontece que afinal os homens 
É que são ardilosos quando caçam
Fazem crer que a caça é de raça
E só mostram que a querem comer

Ela lamentou os factos da vida
Chorou à despedida 
Nunca mais se levantou 

Tudo o que viveu de trágico 
E até hoje a feria
Nenhum deles foi mágico e ficou
Para fazer da dor dela
Algo que para sempre sumiria
Só por tê-lo a seu lado

segunda-feira, junho 08, 2026

O teu nome já não é "ato falho"?

 Queria que o teu nome fosse leve pena na minha língua para que eu conseguisse dizê-lo. 


("Não, ainda não foi desta.)

(e a 22jun ainda)

Menina

 Pára com essa doença 
Ele é jovem, artista de shows
Tem um amor 
A quem disse o mesmo 
Que o outro te disse 
Por isso não deve haver espaço 
Para mais nada do que ela
Que tu escolheste de antemão 
E tu estás velha e partida e torta
E contaminada de recordação 
Até do outro coração 

Ela é a menina dos seus olhos 
Tu não 
Por isso lembra toda a ilusão 
E consequente desilusão 
Toda a única longa obsessão 
Todo o ódio e maldição 
E sacode de vez esse tapete
Que empoeirou
Não levantou do chão 
E enterra-o ou desfá-lo
Do teu coração 

Menina
O diabo tem-te no caixão 
Incinerada como bruxa
Louca, má e em contramão 

As flores também sangram

 As flores também sangram
Não é mel, não é seiva
É cor
É perfume 
É pungente colorido odor
Tingindo as veias do amor
E tu que não queres saber delas
Senão para lhes sacar o pólen 
Bem podes manter distância 
Porque senão elas te comem


O que é um sonho?

 O que é um sonho mediante a vida? Não o sonho que se tem dormindo, mas o sonho que se vê acordado. Aquele sonho que eu vejo de olhos abertos e olhar emocionado, quase aguado, vislumbrando lá no infinito um delírio. Tão amado. Tão querido. Tão desejado.

A moça que tem o pé sagrado do chão da sua terra, tem benção forte, abraço de acalanto, fé na madrugada, no dia, no nada. Ela joga as rosas no mar e o mundo inteiro vai lá se banhar. Ela conhece a dor e a tormenta mas a sua sorte é benfajeza. Hoje ela mostrou-me o meu esquecido destino, mais uma vez no meu delírio. Amém, Axé, insha'Allah, Oxalá! Maktub. 

domingo, junho 07, 2026

 Isto de ser tudo e de não ser nada, não é muito divertido.

Vazio pacífico

 Esvaziei-me
Nos bons e maus sentidos 
Acabei com os significados
Os amores mais amados
E os que talvez nunca amei

Afinal só os tem 
Quando nós lhes damos 
Atribuímos aos que amamos
Um bocado extra também 

O amor já foi e se arrumou
Não volta mais e ainda bem
Sempre foi mais capaz
Quem não é de ninguém 




Mágoa

 Eu acolhi-te nos meus braços
Lembras-te?
E tu não ligaste muito
Até eu dizer algo
Afinal as palavras te importam 
Sempre te importaram
Mesmo quando as renegas 

Tu sabes o que fizeste
Tu sabes o que disseste 

Eu desmanchei-me como areia
Que não se aguenta na escultura 
E atormentada como já estava
Desabei em pranto e mágoa


Boneco

 Sim, entendi
Para dizimar a dor
E todo o caos e mágoa 
Só os grandes furacões 
Que não deixam nada
E com a Polónia devastada
Se ouve Chopin tocar de novo

A anedonia não foi salva
Apenas por um papagaio de papel 
Nem vestidos, nem um donut
Nem um lugar com amigos 
Mas tudo isso

Essa tua miudeca não é nada
Embora tenha sido escolhida 
Também por mim a dedo
Sabemos nós o segredo

Tu és um boneco Michelin 
No deserto e negro
Daquele negro patenteado 
Que depois foi libertado

Quando yo muera mañana
...

 Com tudo, acabo de me aperceber que nunca tive nada de bom que não resultasse da minha necessidade de lutar a cada dia para não morrer e, portanto, estando atenta a tudo por defeito do stress pós-traumático que me foi incutido, procurei agarrar um bocadinho de algo que parecesse belo e bom para contrapor a fealdade e o horror do que sempre passei.

Dos meus sonhos mínimos

 Há os serviços mínimos que se procura garantir numa situação de greve e há os sonhos mínimos que se procura porque não se pode sonhar.

Eu queria poder ir à casa-de-banho à-vontade sem ter de limpar tudo antes a cada vez e não poder sentar e passar dificuldade porque a sanita tem aquela porra de assento sobre-elevado que só faz mal. Ter de viver ainda para mais com alguém que nem fecha a tampa da sanita mas vangloria-se aos outros de lavar até as cascas da banana 🤦🏽😵

Eu queria poder dormir (!!), sem ouvir estrondos a toda a hora de portas e loiças e a puxarem cuspo e a tossir e espirrar tudo perto e virado para onde estou, sem fecharem a porta de onde estão; sem ser acordada com cheiros tóxicos, muitas vezes nauseabundos, de pimentas e etc. na minha cara vindos pela parede em frente à minha cara e pela porta.

Eu queria poder cozinhar (sem ter de ser em stress em 15 minutos) e comer (sem ser num cantinho no meu quarto) e qualquer coisa que nem é nutricionalmente completa e apenas uma refeição por dia, se puder chamar isso de refeição. AINDA POR CIMA EU COZINHO BEM e várias cozinhas do mundo todo, tendo visto décadas de Masterchef Austrália e começado a cozinhar aos 7 anos, arroz com ovo, panquecas e assim. Queria tanto poder iniciar comendo alguma coisa mais completa como aveia cozida com banana e canela, um ovo mexido em tosta de sementes, um sumo natural. Algo como as pessoas saudáveis normais. Mas nem isso me é acessível. Agora com a idade ainda mais vou definhando.

Enfim, também ia escrever algo como "ir dar um passeio, arejar", mas já estou deprimida com as minhas impossibilidades de coisas que para a maioria são simples e eu pelos vistos nunca terei. 

sábado, junho 06, 2026

#VemMeteoro

 Com sorte talvez fosse
Que o Ro. criava o buraco negro
E nos implodisse de vez
Mesmo se já estivermos num

Com sorte talvez fosse 
Que o #vemmeteoro da Paulocas
Acontecesse de vir e acertar
Mesmo à grande e de vez

Com sorte talvez fosse 
Que algum dos bélicos 
Se pusesse a explodir
Uma bomba atómica 

Com sorte talvez fosse 
Que a partícula de Higgs
Nos eclipsasse com o LHC
Já que Deus é um bosão 


PS: Com sorte eu morro sem sofrer mais.

Dorme bem

 Estás a dormir 
E eu nunca tentei 
Entrar nos teus sonhos 
Já eu só tenho pesadelos 
Ultimamente 
Sei que não há a gente 
Nunca houve 
Mas continuo errante
Desalmada
Como me pintaste
E a inventar 
Como ela me acusou
Porém os factos da escrita 
São distintos e jornalísticos 
E tu sabe-lo como ninguém 
Que a linguagem tem função 
E o silêncio vai muito além 

A visão de ti

 A visão de ti
Arranca de mim 
"Meu menino"
Suspiro e sede
Daquele abraço 
Negado
Do amor estragado 
Que é só Poesia
Que espera a Primavera 
Para renascer

O AMOR EXISTE!
Afinal não era só naquela 

Sem nada

 Pode-se viver sem motivo? Sem ter qualquer objectivo? Claro que sim. Pois todas as razões para se viver são inválidas perante a fatalidade de todos nós irmos morrer.

Até mesmo com o contrário, uma pessoa tendo motivos para morrer, mas continua viva, vá-se lá saber.  Nada tem razão de ser.

O teu rosto será o último

 O teu rosto será o último 
que eu desenharei
pois nenhum outro
se compara ao teu

E eu que nunca me apaixonei 
Fácil ou rapidamente 
Fui me dar comigo
Só depois completamente 
Perdida de paixão 
Por ti

Não há ninguém 
Em tua comparação 

O teu rosto
De dor e mágoa
Foi a minha doce e atormentada
Prisão 


(só agora é que reparei que tens um longo osso antes da cana do nariz. o meu e do meu pai é inexistente, ainda no outro dia dizia-lhe que estou a ficar com um vinco como o dele e já vou ficar como ele com ar de guardião do templo chinês zangado. ele perguntou se eu também estava a ficar com o sulco a meio do queixo como é o dele e eu disse-lhe que achava que não, que isso era mais dos homens, então lembrei de ti que tb tinhas, mas também de uma actriz. por isso não é mais atributo masculino, né? quando ficar ainda mais velha deve aparecer também, já começaram as primeiras rugas.)

quarta-feira, junho 03, 2026

Nunca pudemos ser amigos

 Que é essa dor 
Que carregas
Por trás do sorriso 
Quando és amigo
De toda a gente? 

Só tu me amaste
Com tal desespero 
Que depois deixaste
Em mim saudades 
De ter amor inteiro

Talvez a amizade 
Nunca tenha sido
O nosso melhor
Porque nos amámos
Com paixão e ardor



Amor de Lua Azul

 - Eu tive medo, achei que não ia ser suficiente para ti. 

- Tu eras tudo o que eu queria e tudo o que eu precisava. 

(filme Blue Moon Love)

Aqueles diálogos que aparecem na minha cabeça

 - Tu nunca nos deste valor.

- Pois, deve ter sido, deve. Especialmente quando só continuei viva por causa de vocês, (inclusive para que não sofressem se eu me matasse, como cedo tive o exemplo da Filipinski em relação ao irmão dela) mesmo quando vocês me fizeram coisas que me fizeram querer morrer. 

(saudades Filipinski)

terça-feira, junho 02, 2026

"O que é que tu finges para ti mesmo que não sabes?"

 Todas as coisas que "finjo" para mim mesmo não saber é sobre outras pessoas que infelizmente tenho de aturar. Nomeadamente o quão nojentas, racistas, fascistas, narcisistas, violentas, traidoras, falsas, conseguem ser. 

Sobre mim mesmo já não finjo nada, estou a própria Baba Yaga, não só de aspecto 😅🤷🏽😶

segunda-feira, junho 01, 2026

Essa é que é essa

É engraçado como a vida é...
Passa-se por uma série de coisas, depois tratamos de as entender e aprender as lições sobre nós...
Ainda assim, depois de mudarmos completamente, chegamos à mesma ideia que tentámos combater a vida toda...
A verdade é que a minha vida nunca fez sentido sem ele. E nunca mais terá qualquer sentido (mesmo que a vida toda só tenha sido servir para a vida dos outros e sucesso alheio, com ele falo de a vida ter sentido por causa dele como era, ou pensava eu que ele era, e não por causa de qualquer propósito ou servitude que eu tenha feito como naturalmente passei a vida a fazer). Aliás, bastou ouvir uns segundos da voz dele numa canção que já não ouvia há séculos e eis que se deu esse pensamento que despoletou tudo isto aqui escrito. 
Essa é que é essa...

(vdd q tb foi tudo tão confuso, intenso e ilusório, q tb n fez sentido, s formos a ver bem 🤷🏽🤦🏽 {ele salvou-me, foi tudo para mim e eu destruí-lhe o sossego por causa da minha obsessão em obter respostas e entender o que raio se passava com toda a bodega qbme vinham dizer e as cenas dele💔😐😐🖤pena q a culpa dps n m fez morrer finalmente e continuo aqui tds os dias neste calvário de pagar pelos pecados})