Não estou a gostar nada disto: esta coisa horrorosa de tudo continuar. Como se não tivesse acontecido nada. Como se nada fosse. Que ódio. Não, não vou mais olhar o céu, foi de tanto olhar que sofri tanto. A realidade é uma bosta, é o que é, mas mais vale estar ciente tendo os pés assentes no chão, sabendo que não se sai daí, do que sofrer sonhando com ilusão.
O meu luto estagnou, ficou como um carro funerário estacionado na pista do meu peito com os pneus bloqueados pela polícia da dor. Ah, que desamor, que tragédia, que horror e eu nem preciso de fazer um drama, porque tudo o que não conto é ainda mais tenebroso. Ninguém sabe. Esse dilacerar contínuo, dia após dia, o stress a cada minuto, eu juro que se pudesse morreria, esperei tanto por uma cura mas mais ainda pela eutanásia. Nada veio. Hoje vi-o de novo, primeiro sentindo-o um zombie, quase como eu ando, mas depois rapidamente o vi sorrir e alegrar-se e pensei em como ele é feliz. Provavelmente também por tê-la. Assim é a vida. Alheia.
Tudo escapa à minha compreensão, em quase todos os seus pormenores. Nada me faz grande sentido e tudo aparenta ser uma enorme estupidez, uma palhaçada do pior.
Esquecemos quase tudo o que aprendemos e ficamos assim, meio perdidos sempre a começar de novo e envoltos em espuma dos dias.
Eu tenho muitos casacos. Diria até que demasiados. Tenho sempre de me cobrir, seja verão ou inverno, seja noite seja dia. É como uma protecção, que vai além do frio, faz uma barreira, um escudo.
Pensei que já não ia continuar este ano, mas entretanto deixei-me ficar, convenceram-me um par de pessoas, confluências de outras coisas, vou deixando até porque não tarda há-de ser.
Mas não, não estou a gostar nada disto de tudo em volta continuar. Desde as mortes todas, dos familiares e amigos, do mundo, da vida. É tudo falso. Todos forçam tudo. Ninguém pára. É tudo doido e ali na pandemia puseram-me como eles, visto ter interagido com pessoas e adaptando-me ao que elas pediam que eu fosse. Foi um custo mortal para mim. Até hoje não recuperei e temo já nunca mais recuperar. Além de me ter tornado numa pessoa completamente diferente, quase nada agora.
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