sábado, junho 20, 2026

A Fantasia

Houve um tempo
em que imaginei uma casa
antes mesmo de existir um caminho

Vi jardins onde nunca caminhámos
janelas abertas para um mar
que só eu conseguia ouvir
Escolhi cores para paredes
desenhei mesas
imaginei silêncios partilhados
e até os dias comuns
pareciam ter sido prometidos

Na minha cabeça
havia pequenas viagens
para visitar todos os amigos
concertos vistos na primeira fila
chás e cafés demorados
risos depois de microdiscussões
o envelhecer tranquilo
de quem encontra finalmente um porto

Vieram à minha cabeça conversas
que nunca aconteceram
Respostas que nunca chegaram
Abraços que só existiram
na delicadeza da esperança

Não foi mentira
Foi fantasia

E as fantasias têm essa estranha beleza
alimentam-nos
enquanto nos afastam da realidade

Tu nunca soubeste
a dimensão da vida
que eu te entreguei
Carregaste apenas o teu nome

Hoje olho para esse mundo
como quem visita uma casa abandonada
Ainda reconheço os móveis
Ainda me emociono com a luz
que entra pelas janelas
Mas já não espero encontrar ninguém

Percebo agora
que o amor que senti
era verdadeiro
O casamento que ela sonhou
Depois o futuro que imaginei
Não 


E talvez seja essa
a forma mais silenciosa do luto
agradecer à pessoa
por nunca ter prometido
aquilo que eu sonhei

Guardo a fantasia
com a ternura que se tem
por um desenho antigo
de uma casa sonhada

Ela falou de quem eu era
Não de quem tu eras afinal 

E, por isso,
chegou a hora
de deixar a porta aberta

Não para que voltes
(embora fosse o meu maior desejo)
Mas para que eu possa,
finalmente,
dessa ilusão 
sair

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