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quinta-feira, agosto 13, 2026

A Ferida e a Cicatriz

 Há que se honrar o que se sentiu
E a própria pessoa que se perdeu
Dentro de nós todo o sentimento 
E todas as memórias e aprendizados
Como se da ferida fazer cicatrizes 
Que são a forma de carregarmos
Tudo o que das pessoas aprendemos

E honrá-las é lembrar delas 
Com o amor que tivemos 
E pensar em caminhar juntos 
Com a presença que escolhemos
Vivendo felizes por tê-los dentro 

sexta-feira, julho 31, 2026

O que faz um homem maior? (Como o Glen Hansard)

 A sua capacidade de ser maior do que ele, dando-se aberta e livremente às pessoas, com uma genuinidade e carinho desmedidos. Ele deixa um rasto de ternura e bonitas histórias, pois ele é vida e sentimento puro. Ele tem uma humildade e uma verdade que raras pessoas têm. Não faz nada usando e descartando as pessoas, não as manipula, não é frio nem distante com elas. Todo ele é amor e compaixão. Todo ele é claridade e coração. Ele entende o valor da vida e como ela é tão frágil e passageira, assolada por dificuldades e sofrimento. Ele sabe que só o amor vale a pena. Ele é o sol que irradia e a gargalhada que contagia, todos, mas ele é também quem é abrigo quando há perigo ou temos de chorar. Presta atenção, repara nas pequenas coisas, tira tempo para respirar e viver, cultiva a beleza e a arte. Homenageia e agradece. Viaja, conhece destinos, partilha mil momentos, vibra junto de "desconhecidos", aumenta todo o universo da tua linguagem e conhece melhor tudo sabendo da sua impossibilidade de compreensão. Entranha-te, intrusa-te, acontece, abraça forte e largamente, amplia os laços, espalha as experiências e vivências e as epifanias. Pinta, escreve, canta. Bebe uma cerveja artesanal. Esgoela-te por uma boa causa. Corre, luta, morre, sê total, sem nunca ser brutal! 


sexta-feira, julho 24, 2026

 Imagina por que raio viemos para aqui sofrer

E "a liberdade está na dor"

Tantas atribulações 

só para morrer

"Quem é que foi temperar o choro

E acabou a salgar o pranto?"

Quem é que te amou

E quem é que não ouviu o teu canto?

quinta-feira, julho 23, 2026

 Costumava ter samba no coração 
Apesar de ter mais alma de fadista
Mas até em momentos virei lampião 
Imagine-se só, se calhar sou artista! 

sexta-feira, julho 03, 2026

E agora o que sobrou?

 Desde que eu tivesse capacidade de enxergar e apreciar a beleza 

Desde que eu te tivesse

Desde que eu sentisse o amor dentro

Desde que pudesse ver o pôr-do-sol 

Desde que eu tivesse paz 

Desde que eu tivesse claridade 

Desde que eu tivesse alguém 

Desde que eu tivesse esperança 

Desde que eu tivesse condições 

Desde que eu não tivesse complicações 

Desde que eu não estivesse desfalcada

Desde que eu não estivesse desabrigada

Desde que eu não me sentisse magoada

Desde que eu tivesse força para superar

Desde que eu conseguisse sobreviver 

Desde que eu conseguisse relevar

Desde que eu conseguisse tolerar

Desde que eu conseguisse nãoe afectar 

Desde que eu pudesse escrever 

Desde que eu pudesse pensar 

Se vier

 Se for verdadeiro e inteiro, pode vir
Se for só meio e fingir primeiro, pode ir

Um gerbo, um cedro, 
Um medo, um anseio
Pode decidir 

Quando não há dúvida, há certeza
E eu sempre fui pela inteireza 

quinta-feira, julho 02, 2026

Na Baía dos Sussurros

 Pensava que toda a gente pensava. Pensava que toda a gente melhorava. 
Ilusões da mente, ingenuidade, inocência, desconhecimento, pouca experiência.

Ele e eu combinávamos matarmo-mos. Eu com 17, ele com 18. Muito mais tarde, 28 anos depois, lembrei-lhe do nosso pacto. 
Calhou apanhar um filme com a Liz Taylor (quase desisti logo de ver por me recordar tanto a D. Helena, principalmente o rosto de perfil), "Identikit", que me fez lembrar agora. 

...

terça-feira, junho 30, 2026

 Pego no teu corpo, morto, entre os dedos, ondulo-os, vejo o teu corpo balançar de um lado para o outro. És um boneco que morreu. Inanimado guardo-te na minha mão. As saudades que se tem do que está morto. Lembramos o que esquecemos. Imaginamos o que não podemos. Só para lembrarmos da realidade. E a realidade é que está tudo morto. E eu guardo nos meus dedos. 


(Este luto todo acumulado está a ser muito engraçado, não haja dúvidas, s.q.n.)



segunda-feira, junho 29, 2026

Alumbramento

 Um deslumbre sôfrego 
Como num quadro de Rothko 
Quando a sensação perpassa 
Deixa sem fôlego 
Por um segundo inteiro 

E não há chiaroscuro que me valha 
Agora nesta hora sombria
De tanto vazio, pesar e melancolia 
Procuro mas não acho
Ainda

Bebo um sumo, trago a trago
Vizualizo algo
Tranquilo
E lentamente absorvo
Qualquer coisa que seja algo
Que me estenda a mão 
Directa ao coração 

Como quem ressuscita 
Não com boca à respiração 
Mas um aperto sincopado
De uma massagem remediada
De uma ajuda involuntária 

Os dedos que tocam 
E sentem alguma pele arrepiar
As pestanas dos olhos 
Protegem o nosso olhar 
Goteja fraco e forte
Como os retratos da Fraga
Era uma vez essa história acabada
Num flash de imagem guardada

Que delírio imagético foi esse
Que te fez perder a objectiva
Olhando para todo o lado 
E não sentindo nada
Voltaste ao mesmo fado

Toca de novo essa guitarra 
Perfaz o teu curto dedilhado 
Dá asas a essa tua pancada
Não é à toa que goste sempre
A pessoa mais deslumbrafa

Do meu amor que é fogo eterno

 Amo-te com o fogo eterno do Olimpo
E a nossa história foi feita de dureza
Através dos tempos que nos testam
Até nos roubaram a nossa delicadeza!

Quantas provas passaremos nós
E quantas delas nos matarão
Será que sobreviveremos ao atroz
Ao impiedoso e à implacável sensação?

Do grão, do fruto, do amendoim 
Do pecado, da semente de gergelim 
Da cerveja e do vinho enfim 
Quais os venenos que comemos?

No palco do teatro da solidão 
Não precisamos de ninguém 
Porque somos de muito além 
E contemos imortal paixão 

Olho o teu pescoço alvo
Esticado e rosto cabisbaixo 
O teu cabelo ondulado 
E lembro o fogo que não lavo


sábado, junho 27, 2026

O deus do amor

 Não te mostrei quem eu tinha sido? Enxergaste-me no meu silêncio e na minha necessidade extrema de paz? Vieste ao meu encontro, entendendo a minha exaustão? Abriste--me os teus braços? 

As lágrimas que me caem automaticamente do rosto molham o vento. 

Meu amor. Tu existes. Estás na luz alaranjada de oiro aquecido na penumbra da escuridão. E a treva nunca mente. Será que ainda me escutas? Será que ainda pensas em mim? Ainda tens a força que eu depositei em ti e tê-la-ás sempre. Nada te faltará senão a pura verdade. 

"Quem sentiu o toque de Deus, sentiu-o espalhar-se por tudo o que existe", nunca mais sentiu necessidade do toque humano. 


(*Pequenos pecados, little trouble girls)

quarta-feira, junho 24, 2026

A vida que não tivemos

 Os nossos corações não estão intactos. A destruição foi tanta que apenas fingimos. Eu nunca fui de fingir. Tu tens tantas máscaras embutidas que nunca soubeste quem eras mesmo. Escolheste inventar uma vida que te permitisse viver conforme o que te era possível. Sempre tiveste uma boa sorte. Escolheste emocionar-te como podias para fugires da tua verdadeira persona, de pessoa fria e cruel, pois juraste nunca mais ser fraco de novo, nunca mais sucumbir. Conseguiste transformar-te no perfeito fingidor. Especialmente no que toca ao amor. Quando não o sentes. 

Não andaremos pelas ruas vazias abraçados pela noite iluminada apenas pela ténue luz dourada quente dos candeeiros. Não faremos amor o dia inteiro. A vida não nos proporciona pequenos-almoços, completos, demorados. Nem galas onde vestiríamos os nossos melhores fatos para depois sairmos logo, fugindo, entediados.

 A vida do quotidiano: tão pequenina, tão bonitinha, tanta comidinha, tão cansativa, tão entediante como se torna rotina e faz o tempo desaparecer. Quando fomos de férias, quando me foste buscar, quando nos aventurámos, quando fomos andar de bicicleta, quando íamos ao campo e ao mar, quando íamos ao parque e ao jardim, quando fomos ao cinema e ao museu, quando fomos a uma festa, quando fomos visitar amigos e ter alegrias no quintal, quando fomos comer fora, quando fomos viajar, quando fizemos piqueniques, quando fomos brincar com os nossos sobrinhos, quando tivemos e adoptámos os nossos filhos, quando íamos ao mercado e à feira e às compras.

Tu fazias-me dormir, como na canção, o carinho, a ternura, uma mão. O cheiro do café, a erva-principe, a cacau e baunilha, a pipocas e farturas, a frango a a chouriço assados, a frutos vermelhos, a canela e cardamomo. Gostávamos da vida que tínhamos juntos: parecia-nos tão perfeita e quase inacreditável, todos os dias olhávamo-nos "ô sorte!". Nós éramos tão diferentes e tão iguais.

Eu amei-te demais e tu amaste-me até depois de eu morrer. Também não demoraste a morrer depois. Fomos um e dois, sempre e para sempre. A tua mão na minha, o teu coração abraçado ao meu. Estávamos juntos e estava tudo bem.

sábado, junho 20, 2026

A Fantasia

Houve um tempo
em que imaginei uma casa
antes mesmo de existir um caminho

Vi jardins onde nunca caminhámos
janelas abertas para um mar
que só eu conseguia ouvir
escolhi cores para paredes
desenhei mesas
imaginei silêncios partilhados
e até os dias comuns
pareciam ter sido prometidos

Na minha cabeça
havia pequenas viagens
para visitar todos os amigos
concertos vistos na primeira fila
chás e cafés demorados
risos depois de microdiscussões
o envelhecer tranquilo
de quem encontra finalmente um porto

Vieram à minha cabeça conversas
que nunca aconteceram
respostas que nunca chegaram
abraços que só existiram
na delicadeza da esperança

Não foi mentira
Foi fantasia

E as fantasias têm essa estranha beleza
alimentam-nos
enquanto nos afastam da realidade

Hoje olho para esse mundo
como quem visita uma casa abandonada
ainda reconheço os móveis
ainda me emociono com a luz
que entra pelas janelas
mas já não espero encontrar ninguém

Percebo agora
que o amor que senti
era verdadeiro
o casamento que ela sonhou
depois o futuro que imaginei
Não 

E talvez seja essa
a forma mais silenciosa do luto

Guardo a fantasia
com a ternura que se tem
por um desenho antigo
de uma casa sonhada

Ela falou de quem eu era
Não de quem tu eras afinal 

E, por isso,
chegou a hora
de deixar a porta aberta

Não para que voltes
(embora fosse o meu maior desejo)
mas para que eu possa
finalmente
sair dessa ilusão 

quinta-feira, junho 18, 2026

Porque é que a vida vale a pena?

 Passei a vida literalmente nestaa coisas do existencialismo. Só na adolescência fui aflorar os que afinal pensavam e se questionavam acerca das mesmas inquietações, como Sartre, Sócrates, Camus e alguns outros. E Pessoa, claro, que eternizou essa falaciosa frase que passou a feita, falando de que a vida vale a pena quando a alma não é pequena. E das duas, uma: ou a alma é grande e pōe-se a inventar uma vida cheia de sentir, ou a alma inventando e não vivendo na realidade como ela é toda também expõe que a vida em si não vale a pena. No sentido em que a pena é pesada e longo sofrimento, a vida que é senão um intervalo até à morte, não valerá por esse mesmo facto inexorável. 

Costumava, no entanto, ver então a vida como um desafio, não tanto uma aventura, mas pela caminhada de descobrir sobre a existência humana que nos calhou e os conhecimentos que podíamos explorar e adquirir sobre o que existia. Muita gente, noutra perspectiva, viam a vida como uma busca pela felicidade, pela concretização de objectivos, sonhos e o hedonismo que ela proporciona. Há quem retire grandes quantidades de prazer da vida pela repetição de actividades que lhes dão isso, até para muitas desembocar em vicio. 

Eu sempre vi que a vida não valia as penas que significa e acarreta. Não falo só dos horrores cometidos pelos homens, mas tão simplesmente pelas dores pessoas comuns, até do quotidiano, do mundo humano em que nos inserimos. Contudo, lá está, quando vêm os grandes amores e eventuais realizações, ficamos com a ilusão de que a vida vale sim a pena e, muitas vezes, proferem até a mítica frase "valeu a pena tudo o que se passou para chegar aqui".

Não sei. De quase nada, já. Mas sei que se penso nele a cantar aquelas músicas, faz pensar de novo que dava tudo para as poder ouvir e que muita da pena pesada valia a pena só para ouvir e a amenizar. Isso sim, deve constituir-se em masoquismo. Ou seja, é mesmo assim: só os masoquistas e os inconscientes é que crêem que a vida vale a pena. E quando a pena deles é pequena. 

(P.S.; a vida valeria a pena se eu pudesse te ter para sempre)

domingo, junho 14, 2026

O Todo e o Caos

 Entre o Todo e Caos
Não faço mais perguntas 
Só remanesço
"Como dá"
Penso em ti
Minha única loucura 
Meu vinho lilás 
Que é pesado e cabeçudo
Arranhou-me a garganta 
Rasgou-me o peito
Deu cabo do meu coração 
Sangrou-me
Rios de tinta 
Numa violenta escrita 
Em cada explosão 

Perpetua-se o silêncio 
Vi imagens de três hoje
Quatro na verdade 
Que confusão que fiz
Só para tentar ser feliz 
Mas somos escravos 
Eu desse eterno retorno 
Que a vida me trouxe
Sem realmente ser
Pois entre o Todo e o Caos
Só me restou perecer

segunda-feira, junho 08, 2026

Menina

 Pára com essa doença 
Ele é jovem, artista de shows
Tem um amor 
A quem disse o mesmo 
Que o outro te disse 
Por isso não deve haver espaço 
Para mais nada do que ela
Que tu escolheste de antemão 
E tu estás velha e partida e torta
E contaminada de recordação 
Até do outro coração 

Ela é a menina dos seus olhos 
Tu não 
Por isso lembra toda a ilusão 
E consequente desilusão 
Toda a única longa obsessão 
Todo o ódio e maldição 
E sacode de vez esse tapete
Que empoeirou
Não levantou do chão 
E enterra-o ou desfá-lo
Do teu coração 

Menina
O diabo tem-te no caixão 
Incinerada como bruxa
Louca, má e em contramão 

sábado, junho 06, 2026

Sem nada

 Pode-se viver sem motivo? Sem ter qualquer objectivo? Claro que sim. Pois todas as razões para se viver são inválidas perante a fatalidade de todos nós irmos morrer.

Até mesmo com o contrário, uma pessoa tendo motivos para morrer, mas continua viva, vá-se lá saber.  Nada tem razão de ser.

quarta-feira, junho 03, 2026

Nunca pudemos ser amigos

 Que é essa dor 
Que carregas
Por trás do sorriso 
Quando és amigo
De toda a gente? 

Só tu me amaste
Com tal desespero 
Que depois deixaste
Em mim saudades 
De ter amor inteiro

Talvez a amizade 
Nunca tenha sido
O nosso melhor
Porque nos amámos
Com paixão e ardor



Amor de Lua Azul

 - Eu tive medo, achei que não ia ser suficiente para ti. 

- Tu eras tudo o que eu queria e tudo o que eu precisava. 

(filme Blue Moon Love)

quinta-feira, maio 28, 2026

Toada passada

 Mesmo quando não há mais razões para eu ficar, reconheço esse teu dedilhado na viola e a tua voz reverberando uma das antrola, como que se emocionando me diga: fica mais um pouco, não te vás embora. 'Não vai ter bolo", pois nada vale a pena quando todos já se foram e não tarda somos nós. 

Ei, meu amor, podemos estar a sós? 

Porque é que me abandonaste? Não sabes que eu vou morrer e tu nem hás-de saber? Mas, sim, aquilo que não sabes não te faz sofrer. Estou-te a perceber. Cada vez que olhares o céu meia-noite eu já não estarei lá, nem a lua te lembrará. Tu vives liberto da recordação. Eu fiz questão. Não quero nada de ti - nem o teu pensamento, nem o teu coração - se não for puro e cheio de amor. 

Sabemos bem do nosso ressentimento e mágoa, da nossa dor afogada. Não somos de esquecer traumas que nos vão engatilhar e toda a nossa defesa grita a alertar: quem fez o que fez nunca merece nada, nem vai mudar. Eu fiz até se romper. Eu mudei tanto que já nada importa saber (se cada letra de cada canção era o que querias dizer).