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sexta-feira, julho 03, 2026

E agora o que sobrou?

 Desde que eu tivesse capacidade de enxergar e apreciar a beleza 

Desde que eu te tivesse

Desde que eu sentisse o amor dentro

Desde que pudesse ver o pôr-do-sol 

Desde que eu tivesse paz 

Desde que eu tivesse claridade 

Desde que eu tivesse alguém 

Desde que eu tivesse esperança 

Desde que eu tivesse condições 

Desde que eu não tivesse complicações 

Desde que eu não estivesse desfalcada

Desde que eu não estivesse desabrigada

Desde que eu não me sentisse magoada

Desde que eu tivesse força para superar

Desde que eu conseguisse sobreviver 

Desde que eu conseguisse relevar

Desde que eu conseguisse tolerar

Desde que eu conseguisse nãoe afectar 

Desde que eu pudesse escrever 

Desde que eu pudesse pensar 

sábado, junho 27, 2026

O deus do amor

 Não te mostrei quem eu tinha sido? Enxergaste-me no meu silêncio e na minha necessidade extrema de paz? Vieste ao meu encontro, entendendo a minha exaustão? Abriste--me os teus braços? 

As lágrimas que me caem automaticamente do rosto molham o vento. 

Meu amor. Tu existes. Estás na luz alaranjada de oiro aquecido na penumbra da escuridão. E a treva nunca mente. Será que ainda me escutas? Será que ainda pensas em mim? Ainda tens a força que eu depositei em ti e tê-la-ás sempre. Nada te faltará senão a pura verdade. 

"Quem sentiu o toque de Deus, sentiu-o espalhar-se por tudo o que existe", nunca mais sentiu necessidade do toque humano. 


(*Pequenos pecados, little trouble girls)

sexta-feira, maio 15, 2026

Pelo que vivias tu?

 O que mais fizeste
Foi sofrer e sobreviver 
Sangrar até morrer
Não obedeceste
Tanto quanto devias
Para ver se menos sofrias
Do mal dos ditadores
Que te calharam bater
Não só no corpo
Mas no espírito 
E até na alma padecer

Por isso a necessidade 
Urgente, vital
De um momento 
Algo às vezes banal
Mas que te desse sossego
Que te lembrasse da beleza
De um mundo de amor
Inventado à força 
Para me agarrar e não parar
Totalmente 
De respirar

Tua voz meu trovão de vida
Atravessando-me perdida
Meu sopro único essencial 
Nada mais voltou ao normal 
Porque aquilo que tu procuravas
Deitar cá para fora no som
Nas palavras 
Era tudo o que eu queria ouvir
E precisava para acreditar 
Em magia 

Graças a quem te fez e constituiu
Pude ter a certeza de que ela existia
Tanto para o meu mal como bem
Sei que já ninguém lembra 
Dessa força que esse amor tem
Mas não há dor e luz maior acesa

(una rosa se engalana)


segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Quem és tu?

 Quem és tu e quem te conheceu?
Entre uísque, conhaque, bourbon
Que bebida na tua língua ardeu? 

Como fénix erguida escuridão 
Tu te fizeste indestrutível 
E eu pensei-te meu irmão 
Quando isso era impossível 

Mas logo não me digas que não 
Porque quando ele veio mostrou
Que eu erradamente não acreditava
No melhor que me aconteceu 

E não sendo eu quem eu era
Ou sequer quem fui para ele
Já sei que nada é uma quimera
Tudo é uma ilusão que se sucedeu

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Cipreste centenário

 Encontrarei o grande amor perto do cipreste centenário. (eu vou saber que é ele) No ar sentirei o seu cheiro e depois o dele ao me abraçar. O meu grande amor para sempre é ele, tronco altivo que me guarda na sua sombra, envolve-me com os seus ramos. Das últimas vezes que fui vê-lo não estava muito bem, afectado pelo Inverno. A sua imensa copa apareceu muito reduzida e com galhos nus, finos, retorcidos, como que a agonizar com o frio. Eu apanhei um dos pedaços de galhos e terminações e trouxe comigo. Desde que começaram as tempestades consecutivas tenho-me lembrado. Como estará o meu cipreste, a minha árvore favorita? Sinto-a despedida, um pouco desprotegida, mas lá ainda. Que saudades tenho! 

Já não me interessa sobre Pessoa. Apenas imagino o meu grande amor a chegar junto ao cipreste. Talvez possamos tocá-lo juntos para vitalizá-lo com o nosso amor. Talvez isso faça-o frondoso de novo e nunca morrer. E os seus pequenos frutos, tal como tudo nele é tão perfeito nas suas geometrias, possam abundar e até resinosos se ponham a exalar. Já faltou mais para a Primavera chegar! 

Cipreste centenário, meu amor inteiro e relicário, leva comigo dentro. 

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Eu amo-te

Dizer em inglês sobre amar-te sempre foi mais fácil. Talvez até nisso sejamos iguais. Escrever em português que te amo só foi mais fácil quando estava sob hiperadrenalina e se não expressasse e te dissesse que te amava sentia que ia morrer. Literalmente "se eu não disser que eu o amo, morro" e nem é camoniano do devemos clamar/cantar os amores - e como tu zombaste de mim -, não, era mais do que isso, coisa de segundos fatal. 
"Eu preciso te falar, te contar de qualquer jeito", era tipo assim. De tirar alguém da forca. Que desespero e figuras ridículas e todas elas necessárias e absolutamente inteligentes para se darem, não é verdade? E isso só se pode fazer na nossa língua, mesmo que não seja a nossa linguagem. 
Este é o ano para esfriar tudo. Deixar tudo sanar. Para tudo ficar no lugar. O amor, como sempre, há-de continuar, mas de vez sossegar e só ficar no arquivo da memória. 

quarta-feira, janeiro 07, 2026

Um dia

 Queria-nos mansos
frouxos, roucos
exaustos
já sem força nenhuma 
para nos defendermos
fosse do que fosse
Queria-nos asténicos
poucos
quase nada do que fomos
um para o outro 
Queria-nos já não loucos
talvez apenas o que somos
quando meio-mortos
adormecemos

Assim já não nos feríamos
como duas bestas enraivadas
que fomos um dia

segunda-feira, janeiro 05, 2026

Pesadelo

 Os últimos anos parecem um pesadelo interminável. Ou melhor, vários pesadelos diários, que depois permanecem como traumas enevoado na memória. 
Cinzentos, muito escuros. Magoados. No corpo dores e na alma rasgos. Eu não ter mais capacidade de continuar. Perdi-a já há muito tempo. Não é mais como antigamente uma resignação, mas um luto destruidor e paralisante. Os lutos acumulados são como óleos de cor escura empastados uns sobre os outros. Viscosidade de alcatrão mas sem brilho. Com as suas pedrinhas como micro-memórias esmagadas e levadas todas juntas.

De todos os pesadelos que tenho, o pior é ter de continuar a viver como desde criança a querer morrer por causa do sofrimento e do caos e insegurança que me causam diariamente, vindo de quem precisamente devia ter-me protegido e amado. Toda a falta de respeito, de cuidado, de protecção, de amor e atenção, o abuso e a exploração, estão a latejar no meu corpo a toda a hora. 

Sei que terei descanso finalmente quando morrer, sempre o quis desde criança, mas não ter tido direito a paz, amor, liberdade, a poder fazer escolhas e ter uma vida estável e harmoniosa, é por demais injusto. E vocês sabem como eu sou com as injustiças. 

Alegra-te, meu ser amado de todos os dias, o meu maior pesadelo dá cabo de mim o dia inteiro. E não és tu. Tu foste apenas o meu maior erro. Um que nunca terá perdão.  Ou seja, a pessoa morre burra e estúpida. Mas, também, não é assim que todos morremos?

terça-feira, dezembro 02, 2025

 Os amantes crucificados não devem nada ao passado
E os meus óculos têm tendência para descair mas eu resisto a olhar sobre eles (e ver tudo desfocado).

sábado, novembro 29, 2025

Vete

 O fogo 
Guarda tu
Vai-te
Leva contigo 
O sopro
Eu fico
Respirando
Pouco 
Mas o suficiente 
Para não ter mais 
Perigo 

quinta-feira, novembro 06, 2025

A seiva da vida

 Tu eras a minha alegria 
Doce canto e paz no ar
Tu eras a euforia 
De que eu não fui capaz 
E foste tu quem me deu vida
Ao me tomares como valiosa 
Ao me enalteceres preciosa
Fazendo-me ser amada 
E querida por me tomares
Como eu podia ser então 
Esforçando-me tanto
Para estar junto de ti
Eu fui luz escondida 
Que a todos iluminava
Com a minha paixão 
E atenção por cada um
Interessar-me sempre foi sina
Eu não sei quem eu fui
Mas sei que amei demais 
O mundo inteiro 
E tu estavas lá 
Sempre em primeiro 

quinta-feira, outubro 30, 2025

As tuas cores

 É quando chove
Que sinto falta 
Do arco-íris do teu sorriso 
E das aguarelas do teu olhar 

É quando adormeço 
Que sinto na pele
O calor do pôr-do-sol
Naquele laranja doce
Do teu rosto

É quando sonho
Olhando o céu
Seja Verão ou Inverno 
Que sinto o azul
Que tens na alma

Mas é quando vivo
Que o teu vermelho 
Do meu sangue inteiro 
Irradia do coração para o ar

Dança de frutas

 Comprei umas tangerinas e dizia que se chamavam Tango, e um mamão em que se lia que era do Brasil e veio por avião, pensei logo que tinha vindo sambando. Vi ainda abacate Hass e trouxe dois, com o objectivo de fazer guacamole com um e como vi que eram do Perú e já antes tinha pensado em ti, não tardou que lembrasse do Vuelvo al Sur. Comprámos ainda banana bolero e maçã gala e dançámos, dançámos. Tu foste depois a última fruta que ainda fui de novo lá para comprar: o 'cantaloupe'. ;) 

terça-feira, outubro 14, 2025

o barco vai

 ... houve momentos em que te amei com uma doce ternura suspensa, como a que soa na primeira sinfonia de brahms.

nenhuma das tuas maldições pode eliminar isso, mas sei que o tempo sim. 

quando me lias, ouvias a minha voz? 

será que os pássaros ainda podem falar por ti? 

só a dor e a mágoa nos fazem aprender, de uma vez por todas, a pôr limites e deixar quem nos faz mal. saiu-me bastante caro impor-te essa lição. rasguei completamente o meu coração. mas eu só existi ali, naqueles momentos, para a servidão. 

mudei tanto, entretanto, pois umas trinta vidas processei. não sinto nada do que sentia pelos que senti toda uma vida. já nada, de novo, tem lugar. nem a morte a aguardar. 

"o tempo vem, o tempo vai", um classicismo mesmo com o experimentalismo. 

uma solitude absoluta de mais de doze anos e ainda não sei de nada nem me interessa saber. este vazio foi almejado. o fim da intelectualidade. sem o início de mais nada. 

sexta-feira, outubro 10, 2025

Uma alma

 Quando voltares com a alma inteira, talvez já eu saiba, por essa altura, o que é alma e que ela existe mesmo. Talvez, então, eu já entenda absolutamente o que é isso de que Platão falava de "uma alma em dois corpos". Talvez eu aí tenha, entretanto, ultrapassado as noções que tive quando era jovem e de forma pueril pensava que tinha uma alma gémea, ou um irmão ou amizade de almas. Ou talvez não. Talvez eu sinta que sempre foste tu a tal da minha alma gémea, igualzinho a mim, sem me identificar, mas sabendo sempre que estamos ligados de forma indissociável: siameses, como fomos um dia. 

As nossas completas devastações, a nossa resignada apatia, talvez encontrem umas nas outras uma paz integral, como se ligassem um círculo preenchido por um nada cabal e ilimitado, que tem a força da explosão de mil sóis. 

Eu nunca quis abrir mão de ti. Eu nunca abri totalmente, pois não? É, por isso, também que não voltas mais. O meu querer nunca significou nada. O meu sentimento também não. Tu não quiseste saber, porque eu era demais e nada. Quando na verdade eu gostava que me escolhesses como teu tudo. Mas só quem me sente como seu tudo é que nem precisa escolher. Quando é maior, ninguém pode reter. 

Se eu fui só verdade, como fui, criança que ama sem mais nada ter, talvez eu seja só uma alma a valer. 

quinta-feira, outubro 09, 2025

Onde estás tu agora?

 Na sombra do teu cabelo 
Vejo a Lua
E a tua barba que tanto gosto
De ver assim desenhada

Meu amor de alma inteiro
Minha vida tão acabada
Levo-te comigo dentro
A tua eterna apaixonada 

Nas tuas mãos o meu medo
A mais bela aparição 
O tom do meu segredo 
Esse amor de paixão 

A falta que sinto de ti
Só se equipara ao vazio
Que deixaste em mim
Meu mar, eu já não rio

terça-feira, outubro 07, 2025

Foste

 Tu foste o meu "não" mais perfeito 
O meu erro mais inteiro 
O único que me deixou louco 
Pondo a minha vida em contramão 

Foste as auroras mais esperançosas
E as maldições mais odiosas
Tu foste da ternura o encanto
E da saudade o espanto

E de todas as canções maravilhosas 
Tu destroçaste-me com teu canto
E troçaste de mim como ninguém 

Foste tu quem me insultou em tudo
Do que eu fui e do que eu sou
Pisoteaste o meu coração 
Quase tanto quanto quem me amou

Foste o meu amor maior que nunca abracei.

sexta-feira, outubro 03, 2025

Para te amar

 Para te amar
regressei a uma parte de mim
que me fez ir mais além 
a uma criança tão afim
que só fez vibrar
tudo o que era o bem

Para te amar 
tão puro no sentimento 
fui fluindo com tudo
fui terno a cada momento 
só para chegar 
a um vazio som mudo

Para te amar 
tive de enfrentar tempestades 
nunca me confudiram tanto
e até me fez chorar 
não só por verdades
mas por muito espanto

Para te amar 
tive de percorrer o deserto 
a noite mais escura da alma
a madrugada de cristal
até saiu-me um clamar
para tirar de mim o mal

sexta-feira, setembro 12, 2025

Setembro

 44 anos de inverno 
mas não deixes que as lições 
sejam apenas de canções 
arrependimentos e ilusões 
e esmiuça o teu interno
antes de embarcares em acções 
de que te podes arrepender 
para o resto da tua vida

neste período de outono 
de folhas amarelecidas 
caídas no chão que pisas
desejo que o ar te dê o sono
que é o que tu tanto precisas 

setembro é o teu nome 
viagem é o teu sonho
de searas florescidas 
ou mergulhar na água 
que ainda está aquecida
lavar essa mágoa 
de quem tem fome
e só viu a despedida 

terça-feira, setembro 09, 2025

 Parece mesmo que o ser humano só foi feito para contar nascimentos e mortes, e viver tudo do entremeio zombificado.