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quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Cipreste centenário

 Encontrarei o grande amor perto do cipreste centenário. (eu vou saber que é ele) No ar sentirei o seu cheiro e depois o dele ao me abraçar. O meu grande amor para sempre é ele, tronco altivo que me guarda na sua sombra, envolve-me com os seus ramos. Das últimas vezes que fui vê-lo não estava muito bem, afectado pelo Inverno. A sua imensa copa apareceu muito reduzida e com galhos nus, finos, retorcidos, como que a agonizar com o frio. Eu apanhei um dos pedaços de galhos e terminações e trouxe comigo. Desde que começaram as tempestades consecutivas tenho-me lembrado. Como estará o meu cipreste, a minha árvore favorita? Sinto-a despedida, um pouco desprotegida, mas lá ainda. Que saudades tenho! 

Já não me interessa sobre Pessoa. Apenas imagino o meu grande amor a chegar junto ao cipreste. Talvez possamos tocá-lo juntos para vitalizá-lo com o nosso amor. Talvez isso faça-o frondoso de novo e nunca morrer. E os seus pequenos frutos, tal como tudo nele é tão perfeito nas suas geometrias, possam abundar e até resinosos se ponham a exalar. Já faltou mais para a Primavera chegar! 

Cipreste centenário, meu amor inteiro e relicário, leva comigo dentro. 

segunda-feira, dezembro 01, 2025

A morte em Pessoa

 O Pessoa que se fod@, pronto!
Ia republicar o meu Chaplin-Pessoa a ler o A morte é a curva da estrada, até cheguei a fazê-lo mas apaguei. 
Foi o meu poeta favorito em tempos, durante muito tempo, em que eu tinha poeta favorito. 

Hoje dei por mim a pensar que até Pessoa ele estragou-me.
Pensei agora mesmo, entretanto, no início desde escrito, que Pessoa era um covarde e que bebia que nem um texugo. Eu, ao menos, resisti a essas coisas: não fui completamente cobarde, pelo contrário, até cheguei a declarar a minha paixão assim que a reconheci com certeza e a admiti. Demorou, fez muita porcaria, deu muita mossa, mas eu não fui cobarde como Pessoa. Amei desabridamente, mas é, e fiz, como dizia Camões, que os amores devem ser clamados. 
Eu disse muito a cada um deles. Embora não tenha dito nem um milionésimo do que escrevi por causa deles. Dele, mais. 
Mas, ora, (onde é que nós íamos?) que se fod@ Pessoa, é isso. Temos pena. Ou sei lá. Nada importa nem vale a pena. 

segunda-feira, janeiro 09, 2023

A essência da alma

 Quando já nada nos incomodar
Porque crescemos e compreendemos
Porque limámos as arestas em nós
E deixámos as nossas essências nuas
Para falarem mais alto
Talvez um dia nos encontraremos
Quando tivermos a própria alma completa
E virmos que tivemos uma missão em comum
Maior do que nós e pela Humanidade.

terça-feira, agosto 16, 2022

Eureka da alma

Se "tudo vale a pena quando a alma não é pequena", então quando nada vale a pena, faz mesmo sentido que não exista alma. 

terça-feira, julho 26, 2022

Amo-te sem saber

 Faço-te festinhas no cabelo
descendo pelo rosto
como se fosses um gato
ou um cãozinho bebé

Preciso tanto do teu amor 

Jamais te diria tais palavras
até escrevê-las custa-me

Guardamos o segredo da flor

quantas vezes

o mundo não é nada sem ti

quinta-feira, julho 07, 2022

Rendição

 Se eu fosse ela, entregar-me-ia completamente nos teus braços, deixando que eles quebrassem todas as defesas e destruíssem todos os espinhos cravejados em mim, para que me possuísses por inteiro e não apenas o meu corpo. 

Confiava-te a minha alma que tu ao abraçares-me tornaste-a una de novo, existente e preenchida com o amor maior que faz com que a vida valha a pena.

Um dia fui assim, confiei, mas não estava tão completa quanto hoje, nem tão convencida de que o amor valia a pena neste mundo acima de todas as coisas. 

Hoje render-me-ia a ele, porque a morte faz-me ver que não há mais nada tão importante.

segunda-feira, julho 04, 2022

Infelizmente

 Só agora é que entendi que afinal tinha de ser mesmo alguém como eu, um monstro como eu, com os mesmos traumas, na mesma quantidade, variedade, profundidade e complexidade. Mas também o mesmo querer, a mesma alegria, a mesma vontade e o mesmo não-querer. A mesma dor e o mesmo amor. A mesma incerteza e insuficiência, o mesmo vazio e o mesmo horror. 

Não há ninguém assim como nós. "It takes one to know one".

sábado, julho 02, 2022

Dopamina

 Vício
Só quer mais
Nunca satisfeita
Devia ser ilícito
Atrapalhar a paz
Deixar a mente desfeita
Em busca de prazer
Sem nunca felicidade conhecer.

sexta-feira, julho 01, 2022

Já faz anos que não falo com quase ninguém

 Para quê falar com pessoas-livros
pessoas-documentários, pessoas-fofocas?
Para isso leria em vez os livros,
veria os documentários,
e leria revistas cor-de-rosa e afins.

As únicas coisas que me interessavam
poderiam ser as pessoas em si,
elas que supostamente contêm universos,
mas infelizmente só são nebulosas
com tantas máscaras grossas e toscas
mentiras vãs e ocas
para as quais não há mais paciência.

Saudades das pessoas que têm mundos
criados por elas mesmas dentro
tão ricos e profundos
tão interessantes com os seus delírios
e devaneios que pensam por si
não copiam os outros ipsis verbis
não têm medo de ser assim
assumem que estão perdidas a navegar
em busca de um dos sete mares

Quem és tu?

 Que finges que sorris para mim
Que finges que carregas dor 
Nesses teus olhos de frenesim
Tanto espanto e tanto amor

Ora sombrio o teu rosto
Portando implacável altivez
Ora luminoso e brilhante
Com sorriso de maior nudez

Olho no espelho e reconheço-te
Vejo-te com limpidez única
Com dedos descodificando texto
Enxergo-te atrás dessa túnica

No dia em que beber cachaça
No dia em que abrir o rum
Vais-me falar de toda a desgraça
Contar o que não disseste a nenhum

Quem és tu mesmo
Não sei, nunca soube, nunca supus,
Comeremos um dia torresmo
Provaremos da tal mostarda que seduz

Espero que um dia saibas
Ou mesmo se não descobrires
Não faz mal o que guardas
O importante é sorrires

sábado, junho 25, 2022

Incongruências

 Nunca fui de incongruências
Quem me conhece sabe bem
Que os jogos de paciências
Só joga quem tempo tem

Já eu, sem ter eira nem beira,
Com a ampulheta a esvaziar
Ver-me morta há quem queira
Provavelmente quem me detestar

Não sei se é possível que os haja
Pois ódio assim é por demais ruim
Mas independentemente do que faça
Toda a minha vida já muito sofri

Por isso quem não gosta de mim
Tem um prato cheio à sua espera
Porque o meu tempo está no fim
E a morte é só quem impera.

Uma paixão

 Queria ter uma paixão
Uma paixão que fosse!
Como tenho por cacau quente
Que quando bebo
Me faz ficar apaixonada
Envolta na maior alegria
E motivação para um novo dia


segunda-feira, junho 06, 2022

Madrugada

 Busco encontrar-te na madrugada
Tingindo verdadeira seda a indigo
Tu que és azul como eu
Mas também vermelho como o céu
Às vezes tu e eu somos assim
Alternamos nessas cores sem fim

Teu corpo é-me afoito
Mas não há amor maior que esse outro
O nosso que será sempre imaterial
Sem físico, sem kamasutra,
Sem explosão de fluídos corpóreos
Temos o que nunca tivemos

Quem diria que a madrugada te traria
Desta forma tão indelével
Nessa eternidade de sentimento
Construído na mais pura emoção
Regado a orvalho que fez brotar o coração

quinta-feira, maio 12, 2022

 Enquanto nos debatemos

Esquecemos de olhar o céu

Enquanto nos afligimos

Dirigimo-nos para o eterno breu


Eu não quis amar-te assim

Como tu também a mim

Mas foi o que nos aconteceu

segunda-feira, abril 25, 2022

quinta-feira, março 31, 2022

Vem

 Vem, falar-me outra vez
Dos teus medos e anseios
Vem, contar-me outra vez
Dos teus engodos e desejos

Eu não vou mais dizer nada não
Vou ficar só calada na escuridão
A ouvir-te, a adorar-te, a escutar-te
Sem perdão

Vem, abraçar-me de novo
Com o calor do coração
Vem, colar de novo
Os pedaços da desilusão

Eu não vou mais dizer nada não
Vou ficar só calada na escuridão
A ouvir-te, a adorar-te, a escutar-te
Sem perdão

quinta-feira, março 24, 2022

Criança

 Eu sou a criança que nasceu na tua sombra
Rubra, ensanguentada e roxa com a tua queda,
Eu sou a criança que cresceu a ver a tua pompa
Oprimida, incompreendida e confusa com a tua peça
Eu sou a criança que amadureceu e não mais se escombra.

sexta-feira, março 18, 2022

Poetas (??)

 Irritam-me os que têm a mania que são poetas;
os que dizem que querem tocar as pessoas
com as suas palavras fazerem-nas mudar
sentirem algo que as faça alterarem-se

Para não falar dos propagandistas da poesia
os panfletários da auto-ajuda que exploram o alheio
dos sentimentos e comiserações dos outros

Oh, Almada, se ainda estivesses vivo!
PimPamPum!

quarta-feira, março 09, 2022

Amor Desabrigado

 Amor que é meu
Sempre foi
Sempre me pertenceu
Espalhado nos átomos
Disperso no fogo-fátuo 
Só as estrelas são seu tecto
Só o mar alimenta esse deserto
Numa vida inteira entrelaçado
Assim é o nosso amor desabrigado.