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sexta-feira, julho 01, 2022
Já faz anos que não falo com quase ninguém
Para quê falar com pessoas-livros
pessoas-documentários, pessoas-fofocas?
Para isso leria em vez os livros,
veria os documentários,
e leria revistas cor-de-rosa e afins.
As únicas coisas que me interessavam
poderiam ser as pessoas em si,
elas que supostamente contêm universos,
mas infelizmente só são nebulosas
com tantas máscaras grossas e toscas
mentiras vãs e ocas
para as quais não há mais paciência.
Saudades das pessoas que têm mundos
criados por elas mesmas dentro
tão ricos e profundos
tão interessantes com os seus delírios
e devaneios que pensam por si
não copiam os outros ipsis verbis
não têm medo de ser assim
assumem que estão perdidas a navegar
em busca de um dos sete mares
sábado, abril 03, 2021
O Homem-Acumulado
O que é o Homem senão o acumular das suas contas, dos seus discos, dos seus instrumentos, dos seus livros, dos seus dias transviados e oblíquos, que se empilham na poeira das horas e nas estórias que esqueceu de contar?
Com o tempo tudo se desvanece na mente do Homem-Acumulado, excepto aquele momento em que mais amou ou foi amado.
Já ao seu redor, jazem sós todos os objectos.
Obs.: este acaba por vir assim fazer parte então do que pode ser uma série de textos (é só pesquisarem aqui) - Homem-Nada ; Homem-Tracejado ; Homem-Inexistente ..
quinta-feira, abril 19, 2018
a rugosidade do passeio que trilhas, o intermitente brilho nas pedras do caminho, a extensão das planícies e planaltos a que os animais retornam passadas décadas, o vento que transporta a vida e traz também notícias do outro lado, o mundo que ninguém vê*, só tu e mais ninguém, vislumbrando o céu imenso que ainda é minúsculo para tanto mar dentro de ti, e a falta de estrelas porque a luz da cidade as ofusca, e a falta de silêncio porque o barulho apodrecido da sociedade impera, não deixa escutar a vida que poderia ter sido, mil milhões de vidas que foram, toda a mortandade contida em todos os aflitivos chilreios incessantes de madrugada em madrugada, de despertar em despertar, raiando a atmosfera nebulosa de todos os que pariram a vida num só mundo.
Eu não sei viver.
*as cores que não existem
quarta-feira, abril 23, 2014
Intelectualidade e Moralidade São Incompatíveis, Fernando Pessoa (Barão de Teive), in "A Educação do Estóico"
Fernando Pessoa (Barão de Teive), in "A Educação do Estóico"
terça-feira, setembro 14, 2010
Uma sinopse literária do nosso amor (em construção)
Absinto-te pela distância, mas tenho em mim impregnado o cheiro dos girassóis desse teu corpo áureo.
Ainda mais forte do que tudo é o romper das ondas do que sentimos em uníssono; é essa a chave que faz funcionar o motor do nosso coração.
para Rui Herbon.
sexta-feira, março 19, 2010
Lisboa sob influência em "Absinto - a inútil deambulação da escrita"
"lisboa, apesar da sua luminosidade única, é uma cidade solitária e triste, mas misteriosa, não tem pressa de mostrar tudo de chofre, e ao percorrê-la adivinham-se enigmas, usurpações, imposturas, traições, desesperos, transgressões, rebeliões e mortes, é uma cidade trágica, mas não enfermiça como londres, nem hostil como as cidades alemãs, austríacas e suíças, e a tragédia, não confundir com pieguice, é sempre a base de um grande romance
palmilhei incansavelmente toda a zona histórica da cidade, em passinhos incertos e encolhidos, como os de um velho e mendicante vagabundo urbano, conheço de cor os seus recantos, as suas passagens secretas sob arcadas centenárias, as suas escadarias intrincadas como espinhaços, descobri fontes e chafarizes, neptunos e nereidas aspergindo água pelos mais diversos orifícios e contemplando, com o olhar de turistas suíços obcecados com a limpeza, o seu próprio verdete e o lodo e o musgo agarrados ao fundo dos tanques
descobri ainda estátuas que não vêm nos guias, janelas com formas estranhas, estruturas em ferro, varandas curiosas, umas repletas de flores e trepadeiras, outras decadentes, com esferas armilares a penderem de ferrugem, e decorei o som único das badaladas frenéticas de cada uma das igrejas da baixa, quase sempre desertas, mas que não deixam de convocar os seus fiéis de tempos mais crédulos, ignorando, ou fingindo ignorar, que estes já morreram, mas para elas talvez nunca tenham morrido
penso que, quando caminhava nessa lisboa simétrica, os outros, os do olhar turvo e sem brilho e que se movimentavam como miniaturas articuladas, em passinhos nervosos e apressados, ainda não como os loucos, simplesmente como desvairados ou apavorados, da mesma forma que não viam essa outra cidade, também não me viam a mim, a não ser uma rapariga que se cruzou comigo uma noite, na costa do castelo, e com a qual troquei, por breves segundos, um olhar frontal e cúmplice, que recordo até hoje, possivelmente por nunca a ter chegado a conhecer e ter permanecido misteriosa, insondável e desejada"
[in Absinto (a inútil deambulação da escrita), RUI HERBON, Parceria A.M. Pereira 2005]
"VOAR COMO OS PÁSSAROS, CHORAR COMO AS NUVENS" *
estás doente mamã?"
(...)
"alguém disse amor?
se for importante para si, se por eu dizer essas duas palavras mínimas, separadas por um não menos insignificante tracinho, a conseguir levar até ao quarto e envolver a sua figura balzaquiana nos meus braços murchos, acredite que
amo-te
mas não tome demasiado a sério, aceite com a mesma leveza das mentiras piedosas que se aprendem com a idade, a mesma leveza com que disse ao seu marido vou fazer serão"
Autor: RUI HERBON
* [Voar como os pássaros chorar como as nuvens (um filme português), Parceria A.M. Pereira 2004]
Um dos melhores livros que já li! A verdadeira obra-prima! :)
a) 1º excerto pg. 37; 2º pg. 85; em cada frase, neste livro imenso, conseguimos sentir uma profunda poesia em cada palavra, é mesmo do melhor, uma experiência inesquecível, recomendo vivamente.
