Viver uma vida apenas contemplando a Vida:
a rugosidade do passeio que trilhas, o intermitente brilho nas pedras do caminho, a extensão das planícies e planaltos a que os animais retornam passadas décadas, o vento que transporta a vida e traz também notícias do outro lado, o mundo que ninguém vê*, só tu e mais ninguém, vislumbrando o céu imenso que ainda é minúsculo para tanto mar dentro de ti, e a falta de estrelas porque a luz da cidade as ofusca, e a falta de silêncio porque o barulho apodrecido da sociedade impera, não deixa escutar a vida que poderia ter sido, mil milhões de vidas que foram, toda a mortandade contida em todos os aflitivos chilreios incessantes de madrugada em madrugada, de despertar em despertar, raiando a atmosfera nebulosa de todos os que pariram a vida num só mundo.
Eu não sei viver.
*as cores que não existem
Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel de Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel de Oliveira. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, abril 19, 2018
Etiquetas:
Al Berto,
amor,
Fernando Pessoa,
Júlio Pomar,
Livros,
Manoel de Oliveira,
Poetry,
prosa poética,
Robin Williams,
Rosa Lobato de Faria,
Salvador Sobral,
Sílvia Pérez Cruz,
Sophia Mello Breyner Andresen
sexta-feira, junho 19, 2009
Porque também somos todos Manoel de Oliveira - homenagem
de criança envelhecida, com uma centena de anos,
apenas resta a tristeza, por saber dos dias em vão,
do sol vazio e do fim.
Soçobra melancolia, pelos entes queridos,
que se foram todos, as músicas dolorosas
e o Outono em mim.
Das copas das árvores da minha infância,
gotejam todas as folhas - flocos mágicos caem do céu -,
e eu piso-as com toda a energia
com que um dia rebolei nesse jardim só meu.
Ao longe, risinhos soltos, da minha meninice,
ecoam ainda nas margens do rio.
A foz agora fúnebre que me marulha
e eu me arrepio.
São as lestas memórias, varridas pelo vento,
que estão pinceladas na ponte da cor da sombra.
É a nostalgia das histórias, tocadas por um instrumento,
que se quebrou e já não se encontra.
Bordados do pensamento, arraiolos e filigranas,
lembram que há arte em viver e morrer.
Faz parte, esse saber, do eterno aprender
que o espírito empreende nesta viagem.
Um lídimo caminho de infinitas pessoas
e incontáveis sentimentos,
do qual nos libertamos
para não mais percorrermos esses tormentos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)