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quinta-feira, agosto 13, 2026

A Ferida e a Cicatriz

 Há que se honrar o que se sentiu
E a própria pessoa que se perdeu
Dentro de nós todo o sentimento 
E todas as memórias e aprendizados
Como se da ferida fazer cicatrizes 
Que são a forma de carregarmos
Tudo o que das pessoas aprendemos

E honrá-las é lembrar delas 
Com o amor que tivemos 
E pensar em caminhar juntos 
Com a presença que escolhemos
Vivendo felizes por tê-los dentro 


(há feridas que não fecham e estão lá a sangrar, mesmo que sejam do tamanho de um picar de uma agulha, não fecham)

quinta-feira, julho 23, 2026

 Costumava ter samba no coração 
Apesar de ter mais alma de fadista
Mas até em momentos virei lampião 
Imagine-se só, se calhar sou artista! 

terça-feira, julho 07, 2026

 De noitinha ele vinha
Abrir as hostes
Como quem apadrinha
Tudo o que fostes
Num tempo em que o vírus 
Se espalhava como perfume
Abundava morte e queixume

Procurávamos torpes
Esquecer a vida e o mundo
Entranhar no som profundo
Que mexia com as entranhas
Atravessávamos um limbo 
Movíamos montanhas
Só para resistir mais um minuto

As horas passavam
Nem se dava por nada
Se não lhe fosse a profissão 
Se não fosses tu guiada
Vivendo no gume afiado
De uma faca cansada
Buscavam alento
Tu eras só sofrimento 
Mas para outros disfarçava 

Encontrei só o meu coração 
Que de tanto sangrar e amar
E ser deixado pendurado
Sempre a esperar
Acabava a madrugada 
Com a ilusão de sonhar 

domingo, julho 05, 2026

Ele

 Sem ele não há tempo 
ficou suspenso 
E no entanto 
Passaram-se anos 

Todo o mundo viu
o meu sofrimento 
Todo mundo sabia 
do meu desalento 

Sem ele não há 
aurora ou pôr-do-sol 
verdade e infinito
no meu coração mole

Ele é a ternura do diabo 
quando caiu lá do céu 
e estatelou-se no asfalto 
olhando para o breu

E eu amo-o a ele 
como nunca amei ninguém 

sexta-feira, julho 03, 2026

E agora o que sobrou?

 Desde que eu tivesse capacidade de enxergar e apreciar a beleza 

Desde que eu te tivesse

Desde que eu sentisse o amor dentro

Desde que pudesse ver o pôr-do-sol 

Desde que eu tivesse paz 

Desde que eu tivesse claridade 

Desde que eu tivesse alguém 

Desde que eu tivesse esperança 

Desde que eu tivesse condições 

Desde que eu não tivesse complicações 

Desde que eu não estivesse desfalcada

Desde que eu não estivesse desabrigada

Desde que eu não me sentisse magoada

Desde que eu tivesse força para superar

Desde que eu conseguisse sobreviver 

Desde que eu conseguisse relevar

Desde que eu conseguisse tolerar

Desde que eu conseguisse nãoe afectar 

Desde que eu pudesse escrever 

Desde que eu pudesse pensar 

Se vier

 Se for verdadeiro e inteiro, pode vir
Se for só meio e fingir primeiro, pode ir

Um gerbo, um cedro, 
Um medo, um anseio
Pode decidir 

Quando não há dúvida, há certeza
E eu sempre fui pela inteireza 

Objectivos de carreira

 Quaisquer objectivos que eu tenha tido quando era mais nova, ficaram rapidamente gorados quando me apercebi do quão corrupto e nojento é o sistema que explora o trabalhador, entre milhões de casos, fosse quando trabalhei sob administrações que acabaram na prisão, fosse por saber que um patrão causou um aborto a uma funcionária. 

O mundo societal é podre, cheio de mentiras e violências e tudo completamente arbitrário. 

Estar inserido voluntariamente nessas rodas, é contribuir conscientemente para a desgraça do ser humano e corromper a sua verdadeira índole. 

Um objectivo de carreira só é cumprido às custas de outras vidas, sacrificadas no altar do consumismo e capitalismo canibalistas. Nada do que se obtém dele é gratuito. Os vendilhões do templo são toda a gente. 

quinta-feira, julho 02, 2026

Depois do Ruído

 Já não peço ao mar
que me explique o mundo

Basta-me
que continue a voltar
onda após onda
sem rancor

As árvores
não discutem com o vento
Resistem
E, resistindo,
continuam a dar sombra

Procurei o amor
em rostos distantes
em cidades,
em futuros impossíveis

Agora sei
que o amor também é
a mão que permanece aberta
o olhar que não se desvia
o pão repartido
o silêncio partilhado

Se a humanidade
esqueceu a sua própria luz
que eu não esqueça
a chama pequena

Não para iluminar
toda a Terra
porque isso nenhum de nós consegue
mas para guardar acesa
uma única janela
durante a noite

E se amanhã chegar
com mais calor
mais dor
ou mais incerteza

que exista ainda
um pássaro sobre o mar
um desenho à espera do carvão
um museu silencioso
e um coração
que se recuse
a tornar-se pedra

terça-feira, junho 30, 2026

 Pego no teu corpo, morto, entre os dedos, ondulo-os, vejo o teu corpo balançar de um lado para o outro. És um boneco que morreu. Inanimado guardo-te na minha mão. As saudades que se tem do que está morto. Lembramos o que esquecemos. Imaginamos o que não podemos. Só para lembrarmos da realidade. E a realidade é que está tudo morto. E eu guardo nos meus dedos. 


(Este luto todo acumulado está a ser muito engraçado, não haja dúvidas, s.q.n.)



segunda-feira, junho 29, 2026

Alumbramento

 Um deslumbre sôfrego 
Como num quadro de Rothko 
Quando a sensação perpassa 
Deixa sem fôlego 
Por um segundo inteiro 

E não há chiaroscuro que me valha 
Agora nesta hora sombria
De tanto vazio, pesar e melancolia 
Procuro mas não acho
Ainda

Bebo um sumo, trago a trago
Vizualizo algo
Tranquilo
E lentamente absorvo
Qualquer coisa que seja algo
Que me estenda a mão 
Directa ao coração 

Como quem ressuscita 
Não com boca à respiração 
Mas um aperto sincopado
De uma massagem remediada
De uma ajuda involuntária 

Os dedos que tocam 
E sentem alguma pele arrepiar
As pestanas dos olhos 
Protegem o nosso olhar 
Goteja fraco e forte
Como os retratos da Fraga
Era uma vez essa história acabada
Num flash de imagem guardada

Que delírio imagético foi esse
Que te fez perder a objectiva
Olhando para todo o lado 
E não sentindo nada
Voltaste ao mesmo fado

Toca de novo essa guitarra 
Perfaz o teu curto dedilhado 
Dá asas a essa tua pancada
Não é à toa que goste sempre
A pessoa mais deslumbrafa

Do meu amor que é fogo eterno

 Amo-te com o fogo eterno do Olimpo
E a nossa história foi feita de dureza
Através dos tempos que nos testam
Até nos roubaram a nossa delicadeza!

Quantas provas passaremos nós
E quantas delas nos matarão
Será que sobreviveremos ao atroz
Ao impiedoso e à implacável sensação?

Do grão, do fruto, do amendoim 
Do pecado, da semente de gergelim 
Da cerveja e do vinho enfim 
Quais os venenos que comemos?

No palco do teatro da solidão 
Não precisamos de ninguém 
Porque somos de muito além 
E contemos imortal paixão 

Olho o teu pescoço alvo
Esticado e rosto cabisbaixo 
O teu cabelo ondulado 
E lembro o fogo que não lavo


quinta-feira, junho 25, 2026

"Uma dor assim pungente"

 "Uma dor assim pungente"
De me lembrar todos os dias 
Desses amores maiores ausentes
Que fizeram da vida uma alegria 

Pudera eu ir conhecer-te
O som, o sabor, o cheiro 
Lá bem de pertinho ver-te 
A traça do teu edifício inteiro 

Porque tendo dança no corpo
Na ponta do pé o sambado
Nada em mim fez-se de rogado
Ressuscitando o que estava morto

Mas o meu ritmo é azul na veia
Como quem fez pacto com o diabo 
E dele fiz o ser mais amado
Ao som de uma guitarra velha



quarta-feira, junho 24, 2026

A vida que não tivemos

 Os nossos corações não estão intactos. A destruição foi tanta que apenas fingimos. Eu nunca fui de fingir. Tu tens tantas máscaras embutidas que nunca soubeste quem eras mesmo. Escolheste inventar uma vida que te permitisse viver conforme o que te era possível. Sempre tiveste uma boa sorte. Escolheste emocionar-te como podias para fugires da tua verdadeira persona, de pessoa fria e cruel, pois juraste nunca mais ser fraco de novo, nunca mais sucumbir. Conseguiste transformar-te no perfeito fingidor. Especialmente no que toca ao amor. Quando não o sentes. 

Não andaremos pelas ruas vazias abraçados pela noite iluminada apenas pela ténue luz dourada quente dos candeeiros. Não faremos amor o dia inteiro. A vida não nos proporciona pequenos-almoços, completos, demorados. Nem galas onde vestiríamos os nossos melhores fatos para depois sairmos logo, fugindo, entediados.

 A vida do quotidiano: tão pequenina, tão bonitinha, tanta comidinha, tão cansativa, tão entediante como se torna rotina e faz o tempo desaparecer. Quando fomos de férias, quando me foste buscar, quando nos aventurámos, quando fomos andar de bicicleta, quando íamos ao campo e ao mar, quando íamos ao parque e ao jardim, quando fomos ao cinema e ao museu, quando fomos a uma festa, quando fomos visitar amigos e ter alegrias no quintal, quando fomos comer fora, quando fomos viajar, quando fizemos piqueniques, quando fomos brincar com os nossos sobrinhos, quando tivemos e adoptámos os nossos filhos, quando íamos ao mercado e à feira e às compras.

Tu fazias-me dormir, como na canção, o carinho, a ternura, uma mão. O cheiro do café, a erva-principe, a cacau e baunilha, a pipocas e farturas, a frango a a chouriço assados, a frutos vermelhos, a canela e cardamomo. Gostávamos da vida que tínhamos juntos: parecia-nos tão perfeita e quase inacreditável, todos os dias olhávamo-nos "ô sorte!". Nós éramos tão diferentes e tão iguais.

Eu amei-te demais e tu amaste-me até depois de eu morrer. Também não demoraste a morrer depois. Fomos um e dois, sempre e para sempre. A tua mão na minha, o teu coração abraçado ao meu. Estávamos juntos e estava tudo bem.

sábado, junho 20, 2026

A Fantasia

Houve um tempo
em que imaginei uma casa
antes mesmo de existir um caminho

Vi jardins onde nunca caminhámos
janelas abertas para um mar
que só eu conseguia ouvir
escolhi cores para paredes
desenhei mesas
imaginei silêncios partilhados
e até os dias comuns
pareciam ter sido prometidos

Na minha cabeça
havia pequenas viagens
para visitar todos os amigos
concertos vistos na primeira fila
chás e cafés demorados
risos depois de microdiscussões
o envelhecer tranquilo
de quem encontra finalmente um porto

Vieram à minha cabeça conversas
que nunca aconteceram
respostas que nunca chegaram
abraços que só existiram
na delicadeza da esperança

Não foi mentira
Foi fantasia

E as fantasias têm essa estranha beleza
alimentam-nos
enquanto nos afastam da realidade

Hoje olho para esse mundo
como quem visita uma casa abandonada
ainda reconheço os móveis
ainda me emociono com a luz
que entra pelas janelas
mas já não espero encontrar ninguém

Percebo agora
que o amor que senti
era verdadeiro
o casamento que ela sonhou
depois o futuro que imaginei
Não 

E talvez seja essa
a forma mais silenciosa do luto

Guardo a fantasia
com a ternura que se tem
por um desenho antigo
de uma casa sonhada

Ela falou de quem eu era
Não de quem tu eras afinal 

E, por isso,
chegou a hora
de deixar a porta aberta

Não para que voltes
(embora fosse o meu maior desejo)
mas para que eu possa
finalmente
sair dessa ilusão 

quinta-feira, junho 18, 2026

Porque é que a vida vale a pena?

 Passei a vida literalmente nestaa coisas do existencialismo. Só na adolescência fui aflorar os que afinal pensavam e se questionavam acerca das mesmas inquietações, como Sartre, Sócrates, Camus e alguns outros. E Pessoa, claro, que eternizou essa falaciosa frase que passou a feita, falando de que a vida vale a pena quando a alma não é pequena. E das duas, uma: ou a alma é grande e pōe-se a inventar uma vida cheia de sentir, ou a alma inventando e não vivendo na realidade como ela é toda também expõe que a vida em si não vale a pena. No sentido em que a pena é pesada e longo sofrimento, a vida que é senão um intervalo até à morte, não valerá por esse mesmo facto inexorável. 

Costumava, no entanto, ver então a vida como um desafio, não tanto uma aventura, mas pela caminhada de descobrir sobre a existência humana que nos calhou e os conhecimentos que podíamos explorar e adquirir sobre o que existia. Muita gente, noutra perspectiva, viam a vida como uma busca pela felicidade, pela concretização de objectivos, sonhos e o hedonismo que ela proporciona. Há quem retire grandes quantidades de prazer da vida pela repetição de actividades que lhes dão isso, até para muitas desembocar em vicio. 

Eu sempre vi que a vida não valia as penas que significa e acarreta. Não falo só dos horrores cometidos pelos homens, mas tão simplesmente pelas dores pessoas comuns, até do quotidiano, do mundo humano em que nos inserimos. Contudo, lá está, quando vêm os grandes amores e eventuais realizações, ficamos com a ilusão de que a vida vale sim a pena e, muitas vezes, proferem até a mítica frase "valeu a pena tudo o que se passou para chegar aqui".

Não sei. De quase nada, já. Mas sei que se penso nele a cantar aquelas músicas, faz pensar de novo que dava tudo para as poder ouvir e que muita da pena pesada valia a pena só para ouvir e a amenizar. Isso sim, deve constituir-se em masoquismo. Ou seja, é mesmo assim: só os masoquistas e os inconscientes é que crêem que a vida vale a pena. E quando a pena deles é pequena. 

(P.S.; a vida valeria a pena se eu pudesse te ter para sempre)

domingo, junho 14, 2026

O Todo e o Caos

 Entre o Todo e Caos
Não faço mais perguntas 
Só remanesço
"Como dá"
Penso em ti
Minha única loucura 
Meu vinho lilás 
Que é pesado e cabeçudo
Arranhou-me a garganta 
Rasgou-me o peito
Deu cabo do meu coração 
Sangrou-me
Rios de tinta 
Numa violenta escrita 
Em cada explosão 

Perpetua-se o silêncio 
Vi imagens de três hoje
Quatro na verdade 
Que confusão que fiz
Só para tentar ser feliz 
Mas somos escravos 
Eu desse eterno retorno 
Que a vida me trouxe
Sem realmente ser
Pois entre o Todo e o Caos
Só me restou perecer

quarta-feira, junho 10, 2026

A vida não é boa, mesmo que a tua seja

 Aprende uma coisa: quando disseres que a vida é boa, tem a consciência de que estás a falar da tua vida e não da vida enquanto vida em si. Só porque tu vives numa bolha em que tens só alguns problemas com que conseguiste lidar e já achas que foste grande herói por isso, sem muitas vezes ver todo o sistema que te fez ter essa resolução nem sequer muitas vezes és grato pelas pessoas que te ajudaram a vida toda, não quer dizer que a vida é boa. A vida não é boa, nunca foi, especialmente para o ser humano que sempre foi horrível para com os seus e destruidor de tudo o que é são. Desde que o animal homem existe ele estupra outros seres, nomeadamente crianças. Toda a gente maltrata-se e ao próprio filho que põe no mundo sem sequer ter estudado para ser responsável por outro ser humano. Para não falar da extrema fome e poluição que causámos no planeta que é a única casa que temos. 

Pessoas canibalizam, torturam, violam, roubam, matam, assistem todas essas coisas calados todo o segundo e não fazem nada para impedir. A vida não é boa, nem nunca foi, tu é que só fazes parte dos que se mentem e se separam dos outros, dizendo que não é nada contigo, que não queres saber, que só focas no que queres, que não podes fazer nada e que algum deus ou político está aí para resolver essas coisas. 

Parabéns para ti.

segunda-feira, junho 08, 2026

Menina

 Pára com essa doença 
Ele é jovem, artista de shows
Tem um amor 
A quem disse o mesmo 
Que o outro te disse 
Por isso não deve haver espaço 
Para mais nada do que ela
Que tu escolheste de antemão 
E tu estás velha e partida e torta
E contaminada de recordação 
Até do outro coração 

Ela é a menina dos seus olhos 
Tu não 
Por isso lembra toda a ilusão 
E consequente desilusão 
Toda a única longa obsessão 
Todo o ódio e maldição 
E sacode de vez esse tapete
Que empoeirou
Não levantou do chão 
E enterra-o ou desfá-lo
Do teu coração 

Menina
O diabo tem-te no caixão 
Incinerada como bruxa
Louca, má e em contramão 

domingo, junho 07, 2026

Vazio pacífico

 Esvaziei-me
Nos bons e maus sentidos 
Acabei com os significados
Os amores mais amados
E os que talvez nunca amei

Afinal só os tem 
Quando nós lhes damos 
Atribuímos aos que amamos
Um bocado extra também 

O amor já foi e se arrumou
Não volta mais e ainda bem
Sempre foi mais capaz
Quem não é de ninguém 




sábado, junho 06, 2026

Sem nada

 Pode-se viver sem motivo? Sem ter qualquer objectivo? Claro que sim. Pois todas as razões para se viver são inválidas perante a fatalidade de todos nós irmos morrer.

Até mesmo com o contrário, uma pessoa tendo motivos para morrer, mas continua viva, vá-se lá saber.  Nada tem razão de ser.