quinta-feira, julho 02, 2026

Depois do Ruído

 Já não peço ao mar
que me explique o mundo

Basta-me
que continue a voltar
onda após onda
sem rancor

As árvores
não discutem com o vento
Resistem
E, resistindo,
continuam a dar sombra

Procurei o amor
em rostos distantes
em cidades,
em futuros impossíveis

Agora sei
que o amor também é
a mão que permanece aberta
o olhar que não se desvia
o pão repartido
o silêncio partilhado

Se a humanidade
esqueceu a sua própria luz
que eu não esqueça
a chama pequena

Não para iluminar
toda a Terra
porque isso nenhum de nós consegue
mas para guardar acesa
uma única janela
durante a noite

E se amanhã chegar
com mais calor
mais dor
ou mais incerteza

que exista ainda
um pássaro sobre o mar
um desenho à espera do carvão
um museu silencioso
e um coração
que se recuse
a tornar-se pedra

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