Já não peço ao mar
que me explique o mundo
Basta-me
que continue a voltar
onda após onda
sem rancor
As árvores
não discutem com o vento
Resistem
E, resistindo,
continuam a dar sombra
Procurei o amor
em rostos distantes
em cidades,
em futuros impossíveis
Agora sei
que o amor também é
a mão que permanece aberta
o olhar que não se desvia
o pão repartido
o silêncio partilhado
Se a humanidade
esqueceu a sua própria luz
que eu não esqueça
a chama pequena
Não para iluminar
toda a Terra
porque isso nenhum de nós consegue
mas para guardar acesa
uma única janela
durante a noite
E se amanhã chegar
com mais calor
mais dor
ou mais incerteza
que exista ainda
um pássaro sobre o mar
um desenho à espera do carvão
um museu silencioso
e um coração
que se recuse
a tornar-se pedra
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