De noitinha ele vinha
Abrir as hostes
Como quem apadrinha
Tudo o que fostes
Num tempo em que o vírus
Se espalhava como perfume
Abundava morte e queixume
Procurávamos torpes
Esquecer a vida e o mundo
Entranhar no som profundo
Que mexia com as entranhas
Atravessávamos um limbo
Movíamos montanhas
Só para resistir mais um minuto
As horas passavam
Nem se dava por nada
Se não lhe fosse a profissão
Se não fosses tu guiada
Vivendo no gume afiado
De uma faca cansada
Buscavam alento
Tu eras só sofrimento
Mas para outros disfarçava
Encontrei só o meu coração
Que de tanto sangrar e amar
E ser deixado pendurado
Sempre a esperar
Acabava a madrugada
Com a ilusão de sonhar
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