Querida Liberdade,
Tenho andado aflita de te ver seres presa e teres de viver sempre vigilante e com medo. O Mundo humano resolveu castrar-te. Vive a vigiar-te e a negar-te a tua natureza: seja na tua essência de voares, dançares, te expressares, seja na tua responsabilidade de te coibires de magoar as liberdades dos outros.
É estranho, não é, minha cara Liberdade? Os criminosos fogem para se albergar debaixo dos braços de uma tua suposta estátua numa ilha longínqua e fajuta. Um símbolo velho de uns braços antigos enferrujados pela maresia dos novos ventos, cheios de verdete e um cheiro pestilento de trabalhos forçados numa falsa promessa de prosperidade e segurança, um lar para os bravos.
Tens um gosto amargo agora. Ainda mais. Porque todos os outros não te têm, nem nunca souberam quem e do que és feita. "Liberdade é não ter medo", dizem, "liberdade é fazer o que se quer" e "amar quem se quiser amar... Será que é mesmo isso que tu és? Quem nos diz que ser livre é não ter amarras, é ter escolhas, não suspeita das intrincadas grades que ser-se humano implica ter em volta e em si.
A Liberdade já teve nome do outro. Já foi depositada na conta de tanta coisa. "Quando tiver/for/acontecer X, serei livre". Mas depois também se esquece. E aí volta-se ao mecanismo de rodas dentadas da manipulação que é intrínseca à vida. Relativizemos: a Liberdade em passos, em categorias, em realizações, em pequenos actos. "Eu ainda não sei se um dia me mato".
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