sábado, abril 25, 2009

111

Cento e onze vezes te beijei
em várias partes do corpo,
sempre à espera do sol
das madrugadas sensuais,
e nessas romarias de beijos
vislumbrei alta a lua.

A natureza ficou ali
estendida qual mar
e a morte qual céu
as duas divas do meu mundo
a eterna presença
de ambos androceu e gineceu.

A lira tocou cento e onze vezes,
sei-o de cor porque era eu
quem a fazia soar de cada vez
que tu olhavas o céu.

Nos desígnios do tempo e da sorte,
quem saberá o verdadeiro sentido
da hora e do número míticos
que assolaram o meu ouvido?

segunda-feira, abril 13, 2009

A chuva aqueceu-se no meu rosto. Durou um instante... apenas um instante e o céu está com uma cor sem cor, como se de tão mortiça se tenha tornado invisível.
O meu coração tem mais segredos do que eu. É muito complicado em relação a mim. Eu até sou bem simples.
Já não quero olhar para o ritmo vertiginoso da cidade; a velocidade e o ruído dos carros e toda a confusão de luzes que preenchem a vista e atrofiam o cérebro.
Quero sentir a chuva a aquecer-se no meu corpo, o verde dos campos e montanhas a entranhar-se em mim através dos meus olhos. E o azul, sim, muito azul, do céu e do mar e onde mais houver lugar. Porque também eu sou azul.
Tudo o que é da Mãe Natureza é magnânimo: a copa da árvore, o céu imenso e o vasto mar; o sentimento de vida e sentir a morte.
As pessoas parecem apaixonar-se todos os dias e neste caso, da maioria das vezes, o que parece é mesmo. Não sei se as invejo por isso ou se fico contente por tal acontecer. Mas sei que tenho em mim uma certa nostalgia que, quando tenho os meus, hoje raros, momentos de emotividade, de calor no coração que bombeia uma baforada dele para a alma, sinto ainda mais pena de não ter sabido reter.
Detemo-nos em pensamentos, em pormenores, seja no que for, desnecessariamente, pois o tempo passa, ele não se detém.
Há pessoas que se incomodam profundamente com a falta de vida ou vivacidade, isso provavelmente assusta-as; dizem que é sem cor uma cor sem brilho, sem vermelho, sem vida...
De todos os que amei,
Nenhum tinha o teu perfume
Que me deixava a rodar
Numa vertiginosa dança

De todos os que amei
Nenhum tinha as tuas mãos
Que detêm o mundo
E a minha alma também

De todos os que amei,
Nenhum tinha os teus olhos
Que eram tão profundos
Quanto o abismo da vida

De todos os que amei,
Nenhum me preencheu
Como a tua presença
Que me fazia esquecer tudo

De todos os que amei,
Só tu me amaste
Como se a vida e o mundo
Fossem acabar a qualquer instante

De todos os que amei
Nenhum me fez viver e sonhar
Como o teu corpo no meu
Fazendo-me tua sempre

De todos os que amei,
Só por ti o meu amor maior
Pois Tempus fugit,
Manet Amor


De todos os que amei,
Nenhum me falava com o silêncio
Como tu, meu anjo negro
Que dá sentido à minha existência

De todos os que amei,
Apenas te amei a ti sem ti
Por todas estas razões
E outras que desconheço

Só o teu amor é de verdade

Sigo na rua e as pessoas passam isoladas e apressadas, num frenesim desconcertante. Por todo o lado há rebanhos de carros pelas veias apertadas da cidade. Só os meus passos são lentos e descontraídos, em direcção ao rio, ao Tejo claro debaixo da luz ofuscante do céu azul brilhante.
Quando chego perto do cais, mais uma vez vejo pessoas a correrem como se fugissem de algo, todas a sair desordenadamente da barriga do ferry.
Sento-me à beira-rio, como tantas vezes já fiz, em conversa muda com o rio, com a vida e com a morte nas profundezas. Quando sinto a mão cálida do sol a tocar-me o rosto e a embalar-me as memórias mais queridas, penso em como gostaria de partilhar mais aquele momento contigo.
Em redor, tudo me parece turvo e feito de papel que esvoaça com a brisa de fim de tarde, que o rio sopra à cidade.
Sinto a tua falta e só o teu amor me parece ser de verdade, pois foi ele que me deu sopro de vida.
Depois de ver o sol que estava alto, descer languidamente no horizonte de prédios e não no rio, para minha grande frustração, levantei-me e de novo me pus a andar.
Quando lutava por serpentear nas ruas e não levar muitos encontrões dos transeuntes, desequilibro-me e em menos de um piscar de olhos, um carro abalroa-me e fico de corpo estirado, inerte e completamente dorido no meio da faixa de rodagem.
Nesses momentos que seriam os derradeiros, procuro ver-te, o meu amor de verdade que já não via há muitos anos e de quem tenho tantas saudades. Nos últimos segundos senti um abraçar que era o teu e num esforço de abrir os olhos vi o anjo negro que me viera buscar.

domingo, abril 12, 2009

06-05-2006

Os meus sonhos estão desfeitos em pedaços de carvão
Que se desmancham em pó pelo negro chão
E a minha vida é um longo processo
Em que sofrer não é um retrocesso.

Houve dias em que o céu foi mais azul
E a minha mão mergulhava no teu Ser
Como se fosses água de mar revoltado
Que eu apaziguava com o meu olhar.

Não sei se te amei o suficiente para te querer
Nem mesmo sei quem foi que te perdeu
Apenas sinto uma febre nas entranhas
Uma vontade de evaporar numa explosão.

Abraço a dor que a madrugada me traz
Todos os dias com a coragem do perdão
De uma pessoa que não sei quem é
Nem eu mesma sei porquê.

Houve dias em que o sol foi morno
Dias perfeitos como dizia o cantor
Mas a tua cobardia escurece agora
Todas as memórias que tenho deles.

Ainda assim te posso dizer
Que não há ninguém até hoje
Que me tenha preenchido a alma
Como tu o fizeste em tempos.

segunda-feira, abril 06, 2009


Este lugar é velho:
No ar vagueiam lembranças,
Cheiros e aromas de recordação
Na mística melodia do vento,
Transportando consigo poemas
Que agora me parecem áridos,
Vazios de terem estado cheios;
Duras são as fragrâncias
Relembradas pelo poeta;
Choro, outrora riso incurável,
Cá dentro já tem alento.
Só me esqueci de o esconder,
Tal como com as lembranças,
As quais me esqueci de esquecer.

Este lugar é velho:
Intrépidas estão gotas de orvalho,
Como quem espera um florescer
No tom do silêncio conformado,
As breves ruínas do meu parecer
Avistam-se ao olhar pelo horizonte
Naufragando perdido no tempo,
Infinito segregando murmúrios
De mistério e tesouro que é,
Cego pela distância que aflige
A herdeira da luz e beleza
Que resplandecem apesar de tudo;
O paraíso onde está aquele lugar
Ficou mudo de memórias obsoletas.

Pássaros que falam
De como perderam a sua aptidão
De voar livremente e tão bem
Contam que já nada têm
Pois quebraram-se as suas asas
Rasgadas ao maior descuido
Sem nada restar sequer.

Nuvens que choram
De tanta mágoa, secas de Razão
De correr tão apressadas além
Contam que já nada vêem
Pois taparam-se, com o sol, rasas
Ficadas ao sabor do ruído
Intermitente quando se quer.

Estrelas que calam
O silêncio mudo de coacção
Também de brilhar sem querer
Contam que já nada festejem
Pelas suas desgraças eu cuido
Ouvindo os seus lamentos de mulher.

Palavras que chagam
A pegada a caminho do coração
Lembranças persistentes retém
Contam que já nada têm
As letras não o têm possuído
Nem nunca outra coisa qualquer.

segunda-feira, março 23, 2009

23.03.09

Pedaços de vida
transmutam-se.

Nunca nada é igual.

Linhas de todas as formas
riscam-nos o corpo
numa contínua grafia
dispersa em rasgos de sombra.

Se tivesses mais tempo
nada mudava
porque tu desperdiçáva-lo.

Nada esperes
que em ti já não exista.

Cresce, aumenta-te, magnifica-te,
num só minuto,

Vive tudo o que tens.

sábado, março 14, 2009

A HORA SABE A TER SIDO

Ah! Como esta hora é velha...
O tic-tac do cansado relógio
Faz pairar memórias no ar...
O teu olhar, praga sem sentido,
Ainda assombra os meus risos;
Cada gesto teu, abismo luzidio,
Aparece-me em imagens langoradas...
Bate uma saudade breve mas fatal
Recortando o sol que cai nas ruínas
No horizonte do silêncio raiado.
Os meus desejos balouçam na brisa,
Há alguém que me fita no nevoeiro,
São sonhos lúcidos e derradeiros
Nesta hora absurda e transviada.
O teu silêncio fechado angustia,
Magoa o meu crepúsculo fundido
Acelerando-o na minha alma tardia...
Se fôssemos nós duas figuras ledas
Num vitral de um mundo longínquo
Trespassado pelo Ocaso vazio, ténue,
Todos os segundos brotando límpido!
No meu céu soturno e pesado
Nunca houve uma única estrela...
Os reflexos no lago espelhado
Estão distorcidos com o vibrar
Do silêncio tenebroso e críptico;
Até mesmo as sombras carregadas
Estão mais tristes do que nunca;
Deslocam-se sôfregas as núvens;
As aves pecam ao cruzar o horizonte
E a cada ribombar de pétalas alvas
Eu recordo-me da tua voz maviosa
Misturada com os risos da fonte.
Nesta Hora enrugada jaz serenidade;
Ela, feita de mim, dos seus lamentos,
Talhada em safira de cristalino azul
É baça na sua essência interior.
Não sei o porquê disto, nem de tudo;
Eu sou uma doida que estranha o mundo.

Solidão retardada

A solidão sempre esteve lá
Só me dei conta quando parei
De me entreter sem parar
Fez-me ouvir vozes e gritos
Sons que nunca notei
Até este silêncio de enlouquecer
Ensurdecer-me com estes sons
Agora habituei-me com o correr
Dos ecos que assolam a alma
De quem permanece assim só
Sem por vezes sequer notar.

Andei sempre por aí, aos pulos
Às gargalhadas sonoras
Correndo para fugir ao sério
Escapando às vezes à reflexão
Aos fantasmas e horrores
Da minha lembrança tardia
Mas o vazio oco da Solidão
Fez-se sentir sempre mais
E nunca deixou o meu corpo
Repousou na minha mente
Insistindo em estar disfarçado.
Estrelas líquidas vibram
Com o agitar dos remos
No soturno breu reluzente
Gotejam-se risos soltos
Que ecoam ao imenso luar
Avistam-se duas silhuetas lânguidas
Esguias, balouçam navegando
Em suspiros mudos sem saber
Há por momentos um silêncio
Tão críptico e confortador
Que evoca a paz na alma
De ambas puras personagens
Que agora à deriva estão
Sem abrigo, sem alento
Apenas têm seus próprios braços
Que açambarcam um ao outro
Quando há chuva de sangue
Escorrendo em formas exangues
Cortando o riso desprotegido
Rasgando os rostos melancólicos
Não há nada mais que beleza
De dois cisnes alvos de pureza...

Tempestuoso Céu | Tempestuosas lembranças

Sinto as nuvens a chorar
As suas lágrimas incidem fortes
Queimando o rosto rasgado
Cheiro a Terra e a sua Morte
Cortando o silêncio pasmado.


Quando olho para o céu revolto
Com veios rubros no breu reluzente
Lembro-me de ti e do Mar
Imagino a sua pura rebeldia
Nesta noite de tempestade aflita.

Quando caí de joelhos para a Lua
Derramando gotas incessantemente
Lembrei-me de ti e das estrelas
Tu foste aquela que brilhou continuamente
És luz eterna que me seca os lamentos.

Quando rolei feliz e despreocupada
Dando gargalhadas sonoras e desgarradas
Pela verdura colorida e solta do monte
Lembrei-me de ti e do Sol intenso
Que nos iluminou numa tarde generosa.

Quando penetrou cá dentro a felicidade
Tão repentina e explosivamente
Que parecia rebentar por não ter cá espaço
Lembrei-me de ti e de uma árvore
Que nos aconchegou na nossa Alegria.

Ninguém há-de ler isto

Isto de se escrever poemas que ninguém há-de ler ou ouvir é apenas um exercício gramatical ou algo do género.

É o quase que nunca chega.

Tal como eu nunca passarei de um medíocre poeta ou aspirante a artista da Arte maior, da Poesia e do Amor.

A quem é que eu quero ludibriar? ...
Ninguém há-de ler isto.

sexta-feira, março 13, 2009

Pearl Jam - IMMORTALITY

Vacate is the word...vengeance has no place so near to her
Cannot find the comfort in this world
Artificial tear...vessel stabbed...next up, volunteers
Vulnerable, wisdom can't adhere...

A truant finds home...and I wish to hold on...
But there's a trapdoor in the sun...immortality...

As privileged as a whore...victims in demand for public show
Swept out through the cracks beneath the door
Holier than thou, how?
Surrendered...executed anyhow
Scrawl dissolved, cigar box on the floor...

A truant finds home...and I wish to hold on, too...
But saw the trapdoor in the sun...

Immortality...
I cannot stop the thought...I'm running in the dark...
Coming up a which way sign...all good truants must decide...
Oh, stripped and sold, mom...auctioned forearm...
And whiskers in the sink...
Truants move on...cannot stay long
Some die just to live...
Ohh...

(song said to be written for Kurt Cobain, after his suicide)

quarta-feira, março 04, 2009

"Poeta (do Silêncio) Para Sempre"

Tenho a Poesia para não falecer da Verdade 
Minhas palavras vêm como suspiros da alma 
Minhas letras estão carregadas de ódio 
E outras vezes cheias de revolta 
Embora, sempre, sejam muito sinceras 
Tenho andado à deriva em descobertas 
Eu nunca procuro nada, eu descubro. 
O meu silêncio é um amigo que jamais trai 
E aprendi a sua arte com vários desgostos; 
Há alguém com quem é desnecessário falar 
E sou feliz por isso, porque entendo-o. 
O meu silêncio é corrosivo para os demais 
E encontro-me com ele e com a noite 
Quando há angústia na solidão, para chorar. 
No silêncio, em que vejo a Eternidade, 
Se realizou e construiu tudo de grande. 
Quando escrevo estou compenetrada, 
Tanto, que nada quebra o meu silêncio 
Senão o ribombar de pétalas a cair 
De uma rosa negra no meu Mundo. 
Sinto-me várias vezes como se fosse 
Outras personalidades ou mesmo coisas. 
Por momentos sou corvo azul e ele, 
Também é, aquele com quem não falo, 
Pois, não é necessário para entendermo-nos. 
Por vezes sou rosa negra, misteriosa com espinhos, 
Que tão veemente guarda um segredo 
Que permanecerá sempre uma incógnita; 
Mas determinadamente sinto-me Lua, 
Que os nossos olhos só conseguem ver no céu
A parte a que o Sol dá a sua luz.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

poema que se sente mais vezes do que gostava:

Abandonaram-me...
É verdade...
Não acreditas?
Pois é, eu ainda estou pior;
Sou eu quem não quer acreditar.
Foi mesmo essa a causa:
Acreditei que seria impossível.,
Agora permaneço aqui de dia;
Gelado e ébrio o pensamento.
Imóvel; frustração e ironia.
De noite, esqueço-me ali :
Naquele canto só, ao relento.
Frio ou mesmo calor?
São coisas às quais a sensibilidade
também desertou sem pudor,
E já eu, nem sinto saudade.
Sim, os meus sentimentos também!
Fecharam-me as portas do amor
Já há muito tempo e nem
Soube sequer o que isso era.
Querias o quê?!
Sempre frágil, enfraquecera
A cada virar de costas.
Mas porquê, perguntas porquê?
Se eu soubesse, isto não acontecia.
Tal como tu não gostas
Eu odiava o que entedecia;
Detestava e mesmo fugia
Do entardecer chegando veloz,
Ultrapassando tão atroz
A minha alma aterrorizada,
Abandonada e sem voz,
Enquanto o mundo vibrava
De furor e vida, era ledo.
Sou triste dizes tu,
Dramaticamente meto dó.
Pois eu digo-te agora,
Que de drama nada tem,
Ficar abandonada e só...
Não gostas, vai-te! Fora!
Não quero que tenhas pena também,
Vai-te, que a minha voz...
Que um dia foi fala maviosa,
Está agora a morrer angustiada
De tanta mágoa e desespero.
Deixa-me adormecer em paz
No pouco sono que ainda jaz.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

"ALMA E VOZ DE ÁRVORE"


"Descascaram-me, forte e bruta;
Fiquei nua, sem metade de mim
Paguei pelo desejo de muita gente
Usurparam-me esses filhos da puta
Não foi só a mim que deixaram assim
Tal como eu, aquela pobre inocente
Ficou devastada e todos os seus elementos
Choram agora folhas sem ser Outono
Gotejam a sua copa desesperadas
Por terem ofendido seus sentimentos
E não deixarem tê-las o seu sono
Nem o desejo de dormir descansadas
Extraem de mim sem pedir licença
A seiva que corre nas minhas veias
Que me dá cor e vivacidade
Perfumes e vida intensa
Que caíram em movediças areias
Pelas mãos do Homem da cidade.
Estamos, com os nossos gritos isoladas
Pedindo ajuda sem esperança sequer
Actos vãos que assolam o espírito
Enquanto algumas são carbonizadas
Outras, com fragilidade de mulher
Esperam pela sua vez conformadas."

"Descrição de um entardecer"

Cai a tarde num Vazio
Silêncio eterno fingido,
Grito mudo e aflito
Das folhas e do vento.
A tarde cai límpida;
A noite depressa quer chegar,
Na magia do entardecer,
Na explosão das cores do Ocaso;
Rubras e fogosas extinguem-se
Com a chegada do entardecer,
Que cai límpido, vem devagar
Envolto em leves aromas;
Fragrâncias naturais de riso,
Luzes num fim de tarde
Que ao longe vem vindo.
A larga Paz do Crepúsculo
Traz uma quietação dulcíssima
E vagamente melancólica entra
A adormecer na Natureza breve,
A tarde ía descendo lenta
Cada vez mais límpida;
Na luz indecisa do Crepúsculo
Acentuam-se sombras dos Montes,
Gigantescas, imobilizadas as arestas.
Na decoração ilusionista de Poente,
Está na vasta cúpula do Céu
O constrangedor silêncio dominante
E o sinistro espasmo amedrontador
Que evocam temores inconscientes.

s/título


Um anjo fiel...
No mar infinito está
Com uma doce paixão
Que lhe faz cair
Para sempre preso está
E não se solta facilmente
Só mesmo com um grito
Que fere a dor na alma.

Uma flor jovial...
De amarga beldade
É pecaminoso o seu acto
Que mostra fragilidade
A fraca e submissa
Liberdade descontente
De quem ondula ao vento
Sem a rigidez real.

Um olhar penetrante...
É como se pudesse
Ver tudo o que não sei
Através daquilo que sinto
Ultrapassando aquilo que sou
Sem pedir sequer licença
E devastando tudo por dentro
À passagem consequentemente.

Um grito profundo...
De tanta intensidade
Que chega a doer na alma
E, já faz adiantar a chegada
Do fim do dia entardecido
Com o puro breu da noite
Na escuridão da voz
E no riso esgotante.

Um pôr-do-sol rubro...
Cinzento no mais íntimo
Não revela porque dói
Dor, que mata o coração
Sem deixar lembranças
Recordações, só frustração
Que não larga a sombra
Do personagem vivo-morto.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

8/05/97

Volta!
Pelo tempo que perdi;
Contigo não se perde tempo.
Solta!
Deixa-me, que eu sorri;
Aprendi com todo momento.

Deixa!
Já nada vale a pena,
Pois tudo vem e passa.
Queixa!
Diz que lembraste da cena,
E que a lembrança escassa.

Vive!
Cá dentro de mim;
Como a chama me incendeia...
Tive!
E quero nunca acabar assim,
Com a memória que o vento plageia.

Morre!
Como amor, adormeceu,
Cá dentro profundo e sonolento.
Corre!
Para onde te quero meu...
Veloz, mas frágil, sempre atento.

Faz!
O que quiseres, na fúria do mar
Esquecer de tudo e de todos.
Jaz!
Lágrima morta, dúbia de afogar;
Contigo quero ficar sem engodos.

Roga!
Pelos céus e pela terra
Que haja Paz e não Guerra.
Afoga!
Mil desejos embriagados,
Deixando-os ir desenfreados.

Mora!
Aqui onde sempre estiveste,
No lugar onde a vontade pôs.
Chora!
Pelas tuas regras que não cumpriste;
Deixa o disfarce com pó-de-arroz.

Seja!
Como o Demo me quiser levar,
É caótica a final despedida.
Beija!
Que a despedida está a acabar,
Em breve é recordação perdida.

Gasta!
Tudo o que podes e te deram,
Por esses mesmos factos.
Afasta!
Logo de uma vez o que fizeram,
Tudo passa e também esses actos.

Hoje!
Sempre será o amanhã,
Arrependido de tê-lo ontem.
Foge!
Sumir, evaporar, desaparecer;
Simplesmente acabar, morrer!

8/05/97

Serpente trespassa
Tudo o que deixaste
Por desleixo e desprezo
Deixa-me ser da raça
Com que te revestiste
E livraste-te desse peso.
Desperta o que em ti
Veemente se encerra
Traz a verdade
Denunciando a mentira
O logro de um abraço
A nocturna flor
Floresce em manhã nua
Inóspita de pecado
Suavemente tão pura
Que mata o regaço
Com que te embalas
No teu céu radiante.
Solta-se o som rude
Voraz, fere cá dentro
Agonizando a negritude
Da alma pensante
Quando penso em ti
Rompante se torna
Toda a fúria de sobreviver
Para te ver de novo.
Fujo da tristeza das lembranças
Como tento não me lembrar!
Chorar pela tua falta
Que me faz morrer
A cada minuto em ti
Na janela do meu tempo
Na distância da visão
Que o horizonte se alcança
Obstáculos, opositores frios
Inimigos de tudo que é belo.

"Por ti"

Por Ti eu respiro;
Lágrimas dum Oceano chorei,
Foram-se todas de uma só vez
Profundamente num suspiro.
No teu peito me deitei,
Em teu palpitar outra vez.
Por Ti, nas estrelas tive alento,
Fui repousar no azul do Céu,
Acordar no arco íris madrugador.
Foi nas águas claras do pensamento
Coberto pelo mais fino véu,
Que o coração sentiu a Dor.
Por Ti, movi os pássaros exangues;
Não deixei a noite escura vir;
Lutei contra o crepúsculo lindo
De um entardecer mórbido.
O Sol pus a sorrir
Mesmo com a noite vindo.
Por Ti, com toda a força gritei;
Do meu mais profundo ser
Saiu esse desabafo breve.
Quando de Ti me lembrei,
A lembrança fez-me sofrer
De saudades vindas ao leve.
Por Ti, choram árvores no Outono,
Folhas que caem levadas,
De todas as cores cingidas,
Despertadas do seu sono
Pelo vento só, agarradas.
Voam sem destino, perdidas.
Por Ti, moveram-se os céus,
Moveu-se a Terra,
Quebrou o silêncio e a Razão;
São eles os réus,
Provocaram essa Guerra.

4/1/97

Escreve torto no meu peito
Tinta verde dos teus olhos
Ondulam ao sabor do vento
Vigorosos caracóis do teu cabelo
Nesse teu rio de paixão
Deixa-me deitar em seu leito
Paixões tive aos molhos
Mas tu não me sais do pensamento
Com cada batida do coração
Dão-se 1001 fantasias
De magia saem direito
Para o mais fundo da alma
Irrompem num marchar lento
Com o amanhecer dos dias
Nascem novas esperanças
De quem vive uma vida calma
No entanto com a Razão ao relento
Brilham de novo o Sol e as Estrelas
Na tua pele e no teu olhar
Translúcidas ficam gotas de orvalho
Manhã acesa sem o teu lume
Queria poder sentir o teu abraçar
Satisfazer o meu sumarento desejo
Vou sempre amar-te sem queixumes
Esperar pelo teu amor sereno de mar
De tanto o fazer já me aleijo
Alcanço a luz infinita da Lua
Só nos meus sonhos de céu
Jaz uma lágrima morta
Que a mágoa é só tua
Coberta por um fino véu.

"CULPADO DE TRISTEZA(S)"

Eu culpo-te pelo céu sem estrelas,
Que já não me ilumina a alma;
Agora que ficaram lembranças
Apenas e tão malditas são.
Culpo-te pela fúria do mar
Que devastou-me a euforia,
Agora que as folhas só caem
Mortas, levadas por melancolia.
Culpo-te pelos dias sem sol,
Que já não aquecem as tardes,
Agora que o frio penetra fundo
No mais íntimo do nosso Ser.
Culpo-te pelo suspiro profundo
Que o lobo uivou sem querer
Agora que os gritos só se dão
Quando cá dentro dói a valer.

"Dá-me a tua mão."

Dá-me a tua mão;
Quero levar-te comigo
Para onde nunca estive;
Encher-te de paixão,
Passear contigo
Nas memórias que retive.
Dá-me a tua mão,
Deixa-me tocar no fundo
Desse infinito azul,
Um pedaço de coração,
Do meu amor profundo,
Da minha alma a sul.
Dá-me a tua mão,
Flor do eterno desejo
Em pó foi acabar;
E os céus desabarão
Se deixar-me num beijo
Morrer num teu abraçar.