sexta-feira, março 27, 2026

Sou de um país que não existe

 Acho que sou de um país que não existe. 

Quando quis pensar no teu nome veio-me o dele e quando quis pensar em qualquer nome de outros vem-me o teu. Faz sentido. Assim como o meu cérebro associa traços de rostos a outros rostos, confundo-me entre quem é nalguma coisa forte da personalidade igual. 

Nunca nada fiz por mal. Foi tudo automático. Mas já sei o que se passa no meu cérebro, no meu coração, na minha sensação. 

No país de onde eu sou só existe amor, todos os dias, sem qualquer gota de rancor. Há uma ingenuidade e franqueza alvas, nunca há mágoas, nem ressentimentos. No meu país vive-se por momentos, cada um presente. 

Tu moras no meu país. Tens lá morada fixa. Será que era a mim que pedias que fingisse ser tua namorada? Hoje lembrei desse pormenor. Tudo quase questiono em redor. 

Agora que somos assim, tão presentes, como acabam os nossos dias? Eu mudei tanto que já nem gosto das mesmas coisas. Nem todas. Eu sei que não fui eu que fui quem esteve naquele momento no tempo. Mas será que tu sabes? És tu quem sempre soube? Afinal és tu quem sempre soube quem eu realmente sou, não é? 

O país de onde eu sou tem sim o cheiro doce da figueira, que primeiro me lembrava daquela passagem, das dunas e das libélulas e, depois, mais entranhado ainda eu usava à sexta-feira.

Sou de um país que não existe, que nunca teve fronteiras, limites, mentiras e falsidades, onde só existe tu. 

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