segunda-feira, janeiro 11, 2010
Rasgo
domingo, dezembro 13, 2009
terça-feira, novembro 10, 2009
O relógio de areia movediça
A pêra madura é trincada. Desfazem-se miniaturizados grãos de areia na língua de Ártemis. A sua tocha guia as pequenas bestas, que mais tarde perecem atravessadas pelas setas do seu atlético arco. Ártemis espalha o pó lunar da ampulheta, partindo-a, e todo o mundo, antes insone, quebra agora sob os encantos de Hipnos.
segunda-feira, novembro 02, 2009
Sensações
será que sentias aquilo que eu sinto
quando passo os dedos pela tua pele?
Serpentes de desejo sibilavam pelo meu corpo
e o sabor da tentação era o fruto doce
que eu trincava sem hesitação.
Sopravas olhares e o meu rosto dissolvia-se em rubor,
agora as metásteses do teu olhar
ainda contaminam as minhas memórias;
morro dessa cura, com a solitude como guardiã.
Soubeste escrever-me nas mãos um destino de sal,
vigoroso sabor nos dedos lânguidos que chupaste,
sem te conteres entre línguas e abraços.
quarta-feira, outubro 21, 2009
Foste o último raio naquele pôr-do-sol.
Dobraste a esquina e pude ver-te o olhar, rasgão de luz, última, no pôr do dia.
Viajei sem reparar, ainda nos teus cabelos, caminhando, vislumbrando o brilho deles ao luar.
Sinais de fumo me lembravam a tua pele, sufocada pela poluição da cidade,
à espera de um banho de mar, purificante.
Fiquei com o sal da tua pele nesse dia a perdurar-me na ponta da língua,
e dos teus lábios colhi grãos de sêmola de trigo, doce, que na minha boca se desfaziam.
Ainda é cedo, meu amor, disseste-me. Mas já era muito tarde, sabia-o de certeza.
Não te pude mais ver, nem sentir o teu sabor, e nas minhas digitais podia ainda sentir a areia da tua pele. Corri, corri, para que o teu corpo e a tua mente não me pudessem mais invadir, para que com a fúria do vento te expulsasse de mim... Porque já era muito tarde, porque não podíamos mais existir, porque tinha de ser assim.
segunda-feira, outubro 19, 2009
A memória da persistência
Contorna a base do penedo, enorme. As suas estepes são as costas de um gigante, cravejadas de rebentos que se erguem do suave musgo-alcatifa.
Lúcia-lima e dançam mosquitos, hortelã-pimenta que piso e é um bálsamo para os pés cansados da exploração errante.
Beleza selvática que se revela mutante de um mundo paralelo ao do meu familiar campo prazeroso.
Chegando ao planalto, do topo do abismo se avista o lago, reflectindo monstros semelhantes aos borrões de Rorschach; é uma lagoa na cratera do vulcão, ladeada por pequenos monstros de cinza.
Jorrava o verde em todos os seus tons: verde-água, verde-esmeralda, verde-seco, verde-malaquite, verde-palma, verde-absinto, verde-limão, «assim como os olhos do meu coração».
Segredam-me murmúrios de estalactites, como quando o vento serpenteia a costa. Ao longe, as ondas eram orquestradas pelo pensamento de Mariana, num compasso binário, iam : pausa, vinham : percussão. Atlântico, o mar, e de repente um som ténue, depois engrandecido para música com ritmo sincopado, da minha infância o bater dos pauzinhos das rendas de bilros que a minha avó malabarismava. Aquele ritmo ancestral e o olhar da minha avó sobre mim, tecendo esperanças e sorrisos a meu favor. Primorosamente, espuma de bilros em rendas espraiadas pela orla marítima. A memória da persistência. Gotículas aderiram ao interior das minhas narinas. Através da simbiose das moléculas do sincretismo que se apodera de mim, dá-se o equilíbrio dos elementos.
Um nevoeiro amargurado prepara-se para expulsar os pequenos duendes beneméritos e abraçar a noite dos bichos noctívagos. O estoicismo com que as plantas se recolhem, de estames vigorosos e caules hirsutos, de quem perdeu mais uma batalha, mas não a guerra. As folhas, largas e outrora protectoras, falecem no descendente lusco-fusco do horizonte desfocado. Derrama-se a penumbra e as sombras esponjam-se sobre todo o vale. «É de noite a Criação.»
No altar do planalto, com vista para o abismo aquoso, vejo o etéreo corpo de Mariana. Jaz, incólume, como sacrifício recebido pela terra que a abraça com os seus áridos feixes, enrodilhando-a nos membros e no tronco. Nota-se florida na cabeça de Mariana, sobressaindo dos seus cabelos rebeldes, uma coroa de vime seco, pintalgada por pequenas flores de um cinzento-claro, que fazem lembrar o nevoeiro que há-de vir. Não tarda, a voz do silêncio cobre de meditação o frondoso mundo selvático que ficou abaixo do leito de Mariana. Gotejam-se chilreares tímidos..., escasseiam-se... e deixam de existir. Permanece «a serenidade que embala a vista com ternuras tristes». A tua ausência está cravada na negritude da rocha vulcânica, assim como na minha alma. Encontrei-te, finalmente, estiro-me ao teu lado e entrego-me ao húmus. Nem o nevoeiro amargurado e as criaturas da noite conseguem expulsar-te deste lugar, Mariana.
domingo, outubro 18, 2009
O Homem-Nada
quarta-feira, outubro 07, 2009
Poema da "Aborrescente"
Guinchava, Guinchava, como uma porca da matança,
Tinha o péssimo hábito
de atirar coisas para cima das pessoas,
dos tolos,
Não era nada genuína,
era simplesmente uma Adolescente
que muito Aborrecia.
Dava de beber à fome; era louca.
Servia vodka com gelatina e doces gordurosos.
Para conselhos sábios tinha orelhas moucas
e comentários aleivosos.
Os tolos davam risadas,
até que muito depressa, já não havia paciência
e era o fim de tantas gargalhadas.
Ela dizia que se suicidava,
naqueles cabelos escorreitos,
e assim a vida de um ou outro atrapalhava,
mas já eram cada vez menos os sujeitos.
+-5 am, 07-10-09
quinta-feira, setembro 10, 2009
Aeroporto
Era uma dimensão diferente; não pelos seus portais, para outros mundos, de entrada e saída de pessoas estranhas, mas pelos mundos de pessoas de todos os feitios e de todas as línguas, que ali se encontravam por acaso.
O fascínio: do mármore; de se ficar colado ao vidro, a vigiar quem chega - não porque se esperava alguém, mas pela hipótese de que alguém olhasse para nós e respondesse acenando de volta -; da voz feminina robotizada (muito mais elegante que no hipermercado), que tínhamos esperança que dissesse o nosso nome, que nos chamasse para embarcarmos numa aventura qualquer.
Era de facto já uma aventura, ir ao aeroporto enquanto era criança e beber todos os pormenores como se fosse uma água com bolhinhas, mil bolhinhas na língua: o câmbio das moedas que tinha de ser feito antes da viagem; a preocupação que havia com a comida nos aviões e, antes, nos restaurantes - uns tão charmosos e onde me tratavam como uma pequena princesa -, a alegria e o privilégio de avistar as hospedeiras - sonhar ser uma -, e mais ainda o comandante tão polido e brilhante.
Ah e, claro, os aviões, o que mais tarde aprendi que havia um nome, planespotting (em vez do Trainspotting do Welsh), para o que nós fazíamos, imensas vezes, naquela tenra idade - e quando, já não tão tenra, me transportava ainda para ela -, colada à rede da vedação que me impedia de correr livre naquelas amplas pistas, para ir abraçar um daqueles passarões de metal branco, com um nariz tão simpático.
Ainda me lembro dos nervos das pessoas, na luta delas para arranjar e manter um carrinho para a bagagem, encontrar um táxi, o bafo quente de Verão a emanar do alcatrão e o gelo agradável mal se ultrapassavam as portas automáticas e se entrava numa cidade diferente.
A fascinação de uma criança, talvez apenas isso. Não vou ao aeroporto há mais de seis anos e também, por razões médicas, é-me desaconselhado viajar de avião. Porém, nunca deixei de voar. Esta minha forma de voar também é, pela maioria das pessoas, considerada desaconselhável. Parece que o mundo inteiro nos põe grilhões de chumbo nos pés para forçar-nos a sermos sempre terra-a-terra, com os pés no chão e a não termos a cabeça nas nuvens.
Não sei se sentiria o mesmo fascínio, se voltasse à cidade das pessoas de outros mundos; talvez, em certa medida. Na verdade, não é tanto como as coisas são, mas sim como as sentimos. Nem se trata de como somos, mas sim como sentimos as coisas em determinado momento.
quinta-feira, agosto 27, 2009
Patrícia
Não era Patricia Highsmith; não efabulava, até fora sempre bastante terra-a-terra, senão na área do coração, pois esperava um dia viver um amor arrebatador, "daquele que dói algures no corpo", como uma ferida, provavelmente junto do peito onde está o coração.
Mas, quanto a isso, permanecia sempre em dúvida: "Como é que se sabe que é o homem certo?", pensava volta e meia. E, de vez em quando, procurava a resposta junto de amigas mais velhas, mal sabendo que iludida, por dizeres populares: "Quanto mais velho, mais sábio."
Próprio do universo conceptual feminino, o interesse pelas coisas espirituais, ou espiritualizadas, como a intuição e a astrologia, encontravam em Patrícia uma pequena aprendiz.
As suas capacidades relacionais e afectivas, daí, surgem num crescente de preocupação e generosidade para com os outros.
Não havia ninguém como ela, no que toca a convencer pessoas: ora eram assaltadas pela sua perseverança, ora seduzidas pela sua inocente graça.
Se se perguntasse aos amigos, quais as palavras que a definiam, seriam, entre outras, certamente: Alegria, Generosidade, Espontaneidade, Bondade, Beleza, Pureza, etc.
Numa Era em que todos pensavam em carros, Patrícia pensava em abraços.
E não é só isso que verdadeiramente importa?
(esta é a minha pequena homenagem à minha amiga Patrícia)
sexta-feira, agosto 21, 2009
Pessoas: vida e morte.
Nós apenas temos uma vida para nos ocuparmos enquanto a morte não chega.
A morte é silêncio e a vida é ruído; enquanto estamos vivos, a morte é um ruído na nossa mente, mas quando morremos a vida torna-se no silêncio.
E existindo apenas morte e vida, e nada fora de ambas, nunca nada é assim tão linear.
segunda-feira, agosto 03, 2009
Pela ternura que tem um berço nas tuas mãos
É um passado remoto que ninguém controla e que o tempo se encarrega de transportar para o presente e para o futuro, dobrando-se nas suas esquinas fugazes e diáfanas.
Sentimos a falta da pessoa que amamos, pela ausência do calor a que ela nos habitua. De manhã, quando acordamos e olhamos para o lado; de noite, quando lentamente entramos no reino dos sonhos.
As memórias passeiam-se, sem trela, pelos cantos, ora escuros, ora inundados de luz, da mente que se preenche com a ausência da pessoa que se ama.
De noite, as memórias, oníricas, concretizam a profecia: "transforma-se o amador na coisa amada". A metamorfose que não é física, como já foi, mas sim mental. Em ambos os casos há algo de espiritual nessa osmose das pessoas que se amam.
Sentir saudades da pessoa que se ama, é sentir um constante vazio no peito, que incomoda a todo o instante, lembrando-nos da falta do calor da sua presença.
Enquanto se celebra o luto da ausência do amado, com a festa das memórias de momentos finitos, mas intensos, cria-se a ilusão de que eles perduram - a ilusão da eternidade de momentos felizes -, aguardando-se serenamente por aquele calor que é só nosso.
sexta-feira, julho 31, 2009
Não quero...
Não quero viajar num sonho que não tenho
Não quero sonhar numa realidade impossível
Não quero vaguear numa viagem que não é minha
Não quero sonhar uma ilusão que é distante
Não quero ser filha da noite em tempestade
Não quero mover areias que são saudades
Não quero recordar o que me roubou a liberdade
Não quero deambular num sítio desconhecido
Não quero afastar-me da luz das águas poetisas
Não quero sofrer numa terra que não é minha
Não quero amargurar numa ceia que é farta
Não quero chorar incessantemente ao luar
Não quero nada, não quero nada...
segunda-feira, julho 27, 2009
sábado, julho 18, 2009
Gritava contra o vento
(como se a sua voz fosse um vento maior)
quarta-feira, julho 15, 2009
"A mulher e a rosa" ou "Não há 3ªs oportunidades"
Olhei para uma rosa, aproximei-me e, ponderando, colhi a que estava ao lado dela.
Não sei por que o fiz. Sei que não foi por ter olhado primeiro para a outra, nem pela beleza que tinha perante o meu olhar.
Mesmo após ter colhido a rosa, não cessei a minha fixação sobre a que não sacrifiquei.
Mais tarde, quando a entreguei, num gesto de redenção, à mulher que eu havia abandonado há mais de três anos, apercebi-me que a rosa que eu não colhi é que tinha sido sacrificada, pois estava condenada a morrer sozinha, enrodilhada em espinhos, dela própria e das outras, sem sentir o afago das mãos suaves daquela mulher. Pouco mais de dois meses se passaram até que eu voltasse a pensar na rosa que ficou para trás, a que havia cativado o meu olhar primeiro e que, lembrava-me eu agora, possuía uma beleza inesquecível.
Agora, era o tempo da separação, do último abandono. Lembrei-me da rosa que não colhi. Pensei em como parecia que, no meu íntimo, eu já sabia nessa altura que não a devia sacrificar em vão, que ela era demasiado bela para ser abandonada de novo.
De vez em quando, ainda me lembro dela e passo a olhar para o mesmo roseiral. À mulher, deixei de ver, porque só se pode desperdiçar uma segunda oportunidade uma vez.
E o amor que sinto por ela, tal como o seu cheiro e a beleza daquela rosa, é inesquecível.
quarta-feira, julho 08, 2009
A menina negra
numa excursão ordeira, tentando perscrutá-la.
Eram pessoas sem alma. Só faltava a guilhotina no meio daquele cenário lúgubre.
Os carcereiros eram tantos, esses seres encapuçados que insistem em torturá-la,
todos os segundos, anarquicamente, prometendo que o farão todos os dias.
A menina negra era produto de trapologia artesanal.
A sua mãe em forma de ânfora de pedra, explicava que se havia descontrolado. Cinzelou uma menina e, depois, vendo a obra acabada, tomando vida, deixou-a ao relento, a ser conspurcada pelos golpes da poeira cósmica.
O braço da menina estava enegrecido. A sua mãe ia ser «vigiada».
A menina negra tinha um corpo de vime seco. Galhos. Quebradiços.
E assomavam-se no seu pequeno rosto lágrimas de pó branco.
A cisão, pelo cordão umbilical, havia tido lugar. Pela faca da decepção.
A transferência da sua alma vazia estava agora na minha mente. Ninguém fez nada, ninguém ia fazer nada. Disseram-me que a sua mãe ia apenas ser «vigiada».
Transportei-me para um sítio escuro e apercebi-me de que eu nunca tinha deixado de ser a menina negra.
segunda-feira, junho 22, 2009
Sinais do Tempo
Agora, só existem linhas, pequenas, rugas, que também querem dizer que sorri, que me preocupei, que chorei e me expressei, lutando para ser ouvida, compreendida, amada. Sinais do tempo, esses hieróglifos das memórias e saudades, vitorioso percurso até à complacência e sapiência dos dias. Ao contrário do que dizem, os dias não são espuma, mas sim, os grãos de areia, que o mar leva e devolve, de uma imensa praia. Marcas de passagem do tempo, que ficam em pedras soltas, livres, onde estão talhadas as memórias infinitas.
Parece que já está aí, de novo, o Verão.
O mesmo barulho das pessoas, de noite, nos fins-de-semana e eu ainda no mesmo sítio, encerrada no quarto, fatidicamente, em frente ao espelho. Sentada em cima da cama; a posição de lótus não me torna automaticamente zen.
Não é meditação, esta lucubração insone, que revolve o passado distante. É apenas o resultado de mais uma noite no país da solidão.
Povo que é povo! (homenagem aos Homens da Luta)

Povo que é povo, não tem blogue
Povo que é povo, mal tem acesso à net
Povo que é povo, não tem com quem dialogue
Povo que é povo, põe-se em tudo quanto se mete
Povo que é povo, nunca provou gourmet
Povo que é povo, não conhece quem escolhe
Povo que é povo, não percebe o que lê
Povo que é povo, é grevista para quem o tolhe
Povo que é povo, é perigoso ou pitoresco para quem o vê
Povo que é povo, ninguém lhe diz, gratuitamente, tome
Povo que é povo, não trata ninguém por você
Povo que é povo, alimenta quem mais o come
Povo que é povo, com restos é malabarista
Povo que é povo, quando corre é por ser ladrão
Povo que é povo, é vagabundo, nunca artista
Povo que é povo, sua muito pelo seu pão
sexta-feira, junho 19, 2009
Porque também somos todos Manoel de Oliveira - homenagem
quarta-feira, junho 10, 2009
Inutilidade
A tortura que é, ver os minutos a passarem e não fazer nada, e, no entanto, crescer uma angústia palpitante, cá dentro; só eu sei o que é isso em mim. De mês a mês, ou com ainda menor frequência, sentir que chegámos ao limite do que conseguimos resistir, e estupidamente, continuar, pensando que já faltou mais, para não aguentar nem mais um pouco. A alguém que viesse ter comigo com semelhante conversa, eu diria simplesmente algo do género «tens de arranjar uma distracção», significando “arranja uma vida”. Mas as coisas não são bem assim, na prática.
A inutilidade é uma profissão a tempo inteiro,
da qual não nos podemos despedir, não somos assalariados,
nem sequer a exercemos, mas sim, é ela que se exerce em nós.
O ser nada, homem ou mulher, que são o vazio que está dentro dos balões enchidos por pulmões artificiais – balofos invólucros do nada.
À semelhança das obras artísticas designadas apenas por “sem título”,
eu assino-me como “sem identidade”.
Não chego a outorgar comparação a um cadáver, no qual, já na morgue,
se avista, dependurada no dedo grande do pé, ou à volta do tornozelo – qual bezerra laçada à cowboy, pela exímia cavaleira e guardadora de gado que é a morte – , a etiqueta que o nomeia de “desconhecido”.
Não, não sou um cadáver, pois a inutilidade não pode existir neles;
não há cérebro e consciência para se alimentar. Ela é uma doença incapacitante,
de carácter degenerativo, e não apenas em termos médicos. Esta azia constante incomoda, vai corroendo as entranhas da nossa personalidade crescentemente oxidada.
Não há cura possível. A inutilidade é senhora e rainha do meu Ser.
sexta-feira, junho 05, 2009
Hoje fui ao Oceanário - homenagem Sophia Mello Breyner Andresen
O mar azul e branco e as luzidias
Pedras – O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.
Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Também gosto destes, que não vi lá:
No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente
Dia do mar do meu quarto – cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.
Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Onde mais bela crina sacudida
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
quarta-feira, junho 03, 2009
domingo, maio 03, 2009
Porque não se pôde ter outra mãe...
Repare-se que não especifiquei que esta super-protecção fosse apenas no início da minha vida - época, precisamente, em que o sistema imunitário e tudo mais se forma em nós -; não, de facto esta insidiosa segurança à minha volta durou até que me pudesse libertar dela a ferros... e, antes, a muito fogo. Até aos 18 anos, tive de levar com os mitos estupidificantes que os meus pais, radialistas da banda sonora mais estridente da minha vida, espetavam nos meus ouvidos, subjugando-me a uma rígida construção de rapariga florzinha de estufa:
- Nunca sair depois de tomar banho.
- Não andar descalça porque se constipa (ou se calhar pensavam que o Diabo me ia apanhar pelos pés!).
- Não usar "roupa boa" em casa ou para ir à escola.
- Quando/se tens alguma dor, seja de cabeça, nas pernas ou na barriga, faz-se o sinal da cruz sobre a mesma e automaticamente passa.
- Nunca se misturar com os miúdos que costumam brincar no parque ou quaisquer outros da rua (sabe-se lá porquê!).
- Não dormir em casa das amigas, mesmo que elas morem no prédio ao lado.
- Não aceitar nada de ninguém, muito menos de comer, nem das amigas.
- Nunca ficar muito tempo na rua ou em casa de quem quer que seja; vir da escola direitinha para casa.
- Andar com o chapéu-de-chuva e jamais apanhá-la na cabeça.
- Nunca beber coisas geladas, ou comer gelados (sem estarmos no Verão e com muito calor), ou sequer lavar a cara de manhã com água fria no Inverno, porque senão constipamo-nos ou ficamos com dores de garganta.
- Quando se está com soluços, põe-se um fio de tecido na testa, ou pendurado como se a orelha fosse um cabide.