quarta-feira, março 17, 2010

A Poesia é para sobrevivermos

Só a Poesia tem beldade no Mundo. Sem ela mais valia nunca existir.
A Poesia não tem uma só Língua, nem palavras, mas sim, ela própria é a Linguagem como nos sentimos no Mundo, puro encantamento de Alma, estado divino da Arte dentro de nós. Não é o que nós concebemos, pois ela existe com autonomia plena desde os primórdios e só invade a Alma e o Coração de alguns que vêem e sentem para além do que é tido como realidade.

sexta-feira, março 05, 2010

Por causa de uma Criança

Tenho medo de que cresças sem que eu te acompanhe e, mais ainda, de me esqueças, porque é isso o que já aconteceu.
Não te lembrarás dos primeiros livros que tiveste e que eu te dei, nem das outras prendas que te enviei sem saber se chegariam até ti.
As vezes em que te ensinei as cores e a dizer yee-haw sempre que atravessávamos por lombas nas viagens de carro, agora invisíveis.
Não te vais lembrar de mim, dos meus cuidados e afagos para contigo, as vezes em que te embalei, te protegi do frio e tu ficavas a olhar para mim fascinado com o meu cabelo.
A vida continuava complicada, mas a felicidade nunca foi mais simples.
Momentos de um entendimento e de uma doçura ímpares. Eu vou guardá-los e se a memória não me atraiçoar, saberemos que eles existiram, que não foram apenas fruto da minha imaginação e que o nosso Amor também foi de verdade.

quarta-feira, março 03, 2010

Em tua ausência...

Pediste-me segredo e eu guardei-te
por debaixo de frondosos choupos.
Lavei-te as feridas com as minhas lágrimas
e cheiraste-me a rosas,
desfiadas as suas pétalas no meu colo.

Dentro de mim, quando ouvia a tua voz,
vibravam pequenos cristais,
prismas de luz pela tua boca irradiados.
Longe de ti as palavras perderam o som.
Deixei-te vestido com sombras e entregue à noite.

Às vezes, tenho dúvidas sobre o teu rosto
e consulto uma tua fotografia, como se fosse
o dicionário da memória da minha paixão.
Fecundo, o teu abraço, e longos, seus dias de sol.
Agora também ele, jaz na fotografia,
enquanto o teu corpo, semente da penumbra,
marca-me a ferro e brasa com a tua ausência...

Não durmo, tenho pesadelos. Uma e outra vez
tu apareces neles e sempre a sensação angustiante
de que te vou perder, engolido por uma onda,
ou por outra avassaladora fatalidade,
a que assisto impotente, a querer gritar
e a despertar à força, arrancada dos seus ventres
da mais dolorosa maneira.

sábado, fevereiro 27, 2010

De onde vem todo este vento?

(I. e P. na sala-de-estar.)
I - Achas que este vento há-de varrer o mundo?
P - Não. Há-de arder.
I - Arder?
P - Sim, esfumaça-se... ou não fosse vento.
I - Não sei como te deixas ficar, com esse contentamento perante a combustão do mundo. Não te dá pena não termos mais tempo?
P - Tempo para quê? A combustão do mundo... se calhar é a única solução para exterminar os piores canalhas da face da Terra.
I - Ora, tempo para nós, para as gargalhadas e carícias em uníssono. Não queria perder-nos antes de nos termos. Entendes?
P - Não. Falas chinês e eu só sei o que está a dar na televisão agora, não sei de mais nada.
I - Irritas-me com a tua ausência marcada nessa indiferença que rasga tudo sem fazer nada.
P (interrompe) - É. Às vezes deixo de existir, não sei para onde vou, um pouco como o vento...
I - Que engraçadinho.
P - Sabes, há coisas que não se devem dizer porque depois não há forma de as retirar, mas ainda assim quero que saibas que se estivesses em apuros e me ligasses da China, eu iria até lá para te salvar.
I (sorrindo) - Ah, pronto, está bem. Que bonito. Obrigada, também não esperava outra coisa de ti.
(pausa)
I - Sabes qual é a raiz quadrada da existência?
P - Lá estás tu com os teus atrofios.
I (interrompe) - Não, era só uma piada, por acaso, tipo charada. A raiz quadrada da existência é PI.
P - Ah, e então?
I - Então, PI é igual a Pessoa Individual.
P - Hmmm, vou levar algum tempo, mas já lá chego... Então e quando é que a tua Pessoa Individual se deixa penetrar pelo meu P*ço Intelectual?
I - Que parvo!... Mais logo? (deitando a língua de fora numa careta)
P - Tens de admitir que foi boa, esta; melhor que a tua, não?
I - É, mas não bate o que tenho para te dizer: estou grávida! E então, hmm, que achas disto agora?
P - Quê? Como é que isso foi acontecer?!
I - (interrompe) Olha, foi o teu P*ço Intelectual quando esteve a brincar com a minha Pessoa Individual.
P - Ah ah ah! Agora estiveste bem.
I (rindo-se também) - Vá, deixa essa caixa comedora de mentes e anda... vamos jantar.
P (desligando a tv e seguindo I, apercebe-se do barulho lá fora...) - Realmente está muito vento!

*=i

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Esquinas da Vida

Uma pessoa nunca sabe o que está ao virar da esquina. Nós, os pedestres, não temos direito aos postes com espelhos convexos, que avisam quem, ou o quê, vem do outro lado.
É um pouco como na vida: ninguém nos avisa, nem temos forma de ver o que nos espera se quisermos mudar de trajecto. É daqueles acasos que a vida nos dá, premiando-nos como se fôssemos todos jogadores diários de totoloto - às vezes tem-se sorte, outras não.

No outro dia, vi duas pessoas chocarem violentamente ao cruzarem uma esquina e eu, como estava do outro lado da rua, apesar de poder avistá-los não conseguiria avisá-los a tempo de evitar o pior. O choque foi tal, que uma senhora foi impulsionada para trás, caindo ao chão. As pessoas circundantes acudiram-na e o rapagão que a derrubou também, pedindo-lhe desculpas e oferecendo ajuda para lhe carregar os sacos, ainda que ele estivesse a ir em direcção contrária e com hora marcada quando tudo se deu.
As pessoas olhavam para o rapaz e culpavam-no, secretamente, com as suas expressões faciais que gritavam acusadoras: "estes rapazes não se preocupam com os outros, andam sempre a correr"; "matulões, levam tudo pela frente". Felizmente, nada de grave sucedera e as pessoas foram seguindo os seus caminhos.

Todo este episódio fez-me então lembrar de um outro, comentado há cerca de um mês atrás por amigos do círculo das Artes.
Pedro Deslandes embateu numa caixa alta de metal que estava mesmo a seguir à esquina que ele dobrou. Foi pressionado pelas pessoas que seguiam atrás de si a andar mais rápido, e pelas pessoas, que vinham em sentido contrário, a dobrar a esquina um pouco mais encostado para o lado direito, e foi quando o seu ombro embateu na caixa alta de metal, provavelmente de instalações eléctricas que ele sentiu o seu ombro ir para trás com o impacto. Com o diagnóstico de ruptura de ligamentos, tendo o ombro deslocado, Pedro teve de ficar com o braço afectado ligado ao peito para se manter imóvel e não se arriscar a qualquer esforço.
Deslandes era escultor, artista comissionado por galerias até noutros países, mas ultimamente não tinha apresentado novas obras; falava-se de que ele estaria com falta de inspiração e que não produzia nada há meses por ser incapaz de ultrapassar esse bloqueio.
Quando finalmente em casa, Pedro retirou as ligaduras que lhe tinham acabado de pôr no braço convalescente, porque lhe lembravam as múmias e artefactos em barro entrapados, pertencentes a uma escavação egípcia, que estiveram no museu onde trabalhou quando era mais novo.
Pediu, então, à amante da ocasião, que por conta do sucedido teria alongado a sua presença em casa dele, que lhe ligasse o braço junto ao peito com um lenço que ele mesmo lhe passou para as mãos. "Que toque tão suave", disse ela e ele respondeu apenas: " Pura seda, o melhor dos tecidos." Depois de ter feito o que Pedro lhe pediu, e quase colocando um pé do outro lado da fronteira, no território do carinho, que era tacitamente proibido entre eles, recompôs-se e disse: "Adeus, espero que melhores rápido", com um encostar de bochechas, apartou-se, e fechou a porta.
De imediato, Pedro Deslandes, pensou naquela despedida dela, em como o leve embate das suas bochechas foi para eles a despedida possível; em como há pessoas que chegam juntas, caminhando pela mesma rua, até a uma esquina e aí, só aí, cada uma delas vai à sua vida.
Porque é que as esquinas são propensas a despedidas? É porque a sua geografia exige que as pessoas sigam caminhos diversos? E por que esperam elas, depois de caminharem toda a rua juntas, para chegarem a uma esquina para se despedirem?
Pedro Deslandes era escultor e viu no seu embate numa esquina, toda uma panóplia de imagens e conceitos por explorar. Teclou notas sobre elas com a mão esquerda, no computador. Passados dias, Pedro já tinha o seu braço sarado e pôde finalmente começar a tirar partido das ideias geradas pelo infortúnio que sofrera.
Agora, criava figuras humanas, frágeis, à lembrança de Giacometti, umas gigantes e outras menos, divididas em esquinas. Todos os artistas comentavam o regresso prolífico de Pedro Deslandes às esculturas e, com sucesso. "Geniais", aflorava já a crítica, e claro, alguns não se continham e, jocosamente, ouvi falarem entre si: "qual inspiração, desloquem-me mas é o braço!", ao que alguém respondia: "vai esperar para uma esquina!".
Às vezes já me chateiam, estas coisas dos poemas, ou sei lá mais o quê, às tantas da manhã, depois de já me ter deitado há muito, forçar-me a abrir as pestanas e com olhos doridos escrevinhar minúsculas e corridas letrinhas, só porque já gritava muito alto o poema, ou sei lá mais o quê, na minha cabeça que só queria era parar e dormir como as pessoas normais.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Hoje visitei o mundo....

Hoje visitei o mundo
e ele não estava tal qual o tinha deixado.

As pessoas pareciam produtos de supermercado,
com prazo de validade, cores garridas e consumíveis.

Pessoas-garrafas, pessoas-latas, pessoas-frascos,
todas elas embalagens em vácuo
para uma melhor conservação.

Não fui às compras. Não comi nada.
Apenas fui visitar o mundo e ele serviu-me chá,
"de camomila ou hortelã?", quente,
porque estava muito frio lá fora.

No fim do dia, visitei as cores do ocaso,
veios rosa profundo num azul que entardecia.
O meu corpo envolto num manto de lassidão
e no entanto, já não sentia mais o frio nem o quente.

Acho que à medida que calcorreava o empedrado,
naquele fim de tarde, no regresso, o tempo parou.
Eu também fiquei imóvel depois de já não sentir qualquer brisa,
e pude absorver o que me rodeava e entender que o mundo,
o mundo das pessoas agora embalagens, mudou.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Dá-me o meu sangue de volta

Dá-me o meu sangue de volta.
Dá-me o meu sangue de volta!
Já não há os contos perenes da Rosa
nem os risos infantes do Viegas,
já não há as cantigas resistentes do Zeca
e dos dizeres do Ary,
nem a calmia da guitarra do Paredes. 
Dá-me o meu sangue de volta,
dá-me o ar, a respiração:
já não há a intrincada pintura da Vieira da Silva
nem os poemas crus e mansos do Cesariny.
Dá-me de novo o meu peito,
o lugar onde batia o meu coração,
pois já não há da Florbela a sofreguidão,
nem os delírios filosóficos de Pessoa.
Traz-me de volta o meu sangue,
o seu pulsar, a sua cor,
as vísceras do meu ser.
Chupa Godinho, Palma e Branco,
e transfusa Pimenta e Herberto,
pois já não há a dor de Al Berto,
mas ainda há o pranto do hugo-mãe.
Dá-me o meu sangue de volta,
dá-me o meu sangue de volta...
neste meu breve amanhecer.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

A solidão do mar de uma folha em branco

Nunca fiquei tanto tempo a olhar para uma folha em branco, sem conseguir escrever nada nela....

É da solidão que me trai, porque não me engrandece como muitos dizem que é suposto, no seu templo edificante; mas sim diminui-me, transforma-me em nada, reduzindo-me à minha própria insignificância perante o Universo e arredores. Eu, um ser mortal, imperfeito e vulnerável, como todos os outros milhões deles neste planeta, no mínimo, estranho. Sim, as pessoas não detêm qualquer estranheza, ou mesmo mistério em si mesmas, mas sim o mundo à volta delas; aquele que por tantas vezes é esquecido, encerra paisagisticamente uma estranheza incomum. Deviam todos olhar mais vezes em todo o seu redor.
Já alguma vez tocou-te na consciência, várias vezes num dia, que estavas só? É, as pessoas verdadeiramente não o sabem. Considero uma dádiva (seja lá de quem for) sentirmo-nos em paz, em pura calma, com a certeza de que é impossível estarmos mais seguros, tendo o mundo desvanecido como se estivéssemos num plano etéreo. Penso que esta sensação global de preenchimento é capaz de surgir quando encontramos a pessoa que pensamos que vamos amar para sempre. É bem capaz.
Já faz um tempo que me demiti de mim mesma , fiz uma pausa para me tornar noutrém. Sempre vale a pena tentarmos ser condescendentes connosco mesmos. Nem se aplica apagarmo-nos ou substituirmo-nos, mas sim pegarmos noutra pessoa de dentro de nós e fazermos dela nós mesmos, por mais ou menos tempo que dure, sempre sabe bem variar. É um “Kit-Kat” que nos aplicamos.
Neste processo, podemos perder o controlo sobre aquilo que sabemos que realmente somos e, para evitar isso, há sempre o mar. Mais propriamente o mar da Ericeira. Tudo em redor dele pode-se alterar, mas ele, apesar de inconstante e de incansável, mantém-se sempre o mesmo. O mesmo cheiro envolvido em misteriosa neblina, a mesma imensidão, o mesmo poder esmagador sobre o nosso respirar, a mesma revoltada quietude de alma. As nossas vozes não alcançam o mar, mas os nossos pensamentos são telepáticos com ele.
Todo aquele mar e por vezes não me lava a alma...

sexta-feira, janeiro 29, 2010

A Festa

Monotonia, cheia de barulhos,
acompanhada por um relógio;
sorrisos insinceros, largos,
vão ecoando como estalos,
breves e ocos, de balões 
cheios de nada.

Gente frustradamente já conformada
preenche o tempo na esperança
de que ele passe e não se note
a sua existência perturbadora, 
constante,
que a todos põe ansiosos.

É algo que se demonstra intocável.

Alegria boba, que ruidosa que é,
vingada por um anjo negro e só,
numa festa entediada e vã.
Mentiras cortantes como papel,
feitas de água ímpia e esguia,
apunhalam a escrita solene
de quem se revelou cínica.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Estou longe de ser perfeita, mas para a imperfeita pessoa para quem sou a mais perfeita e que para mim é a perfeição em pessoa, estou definitivamente pronta para ser mais que perfeita.

terça-feira, janeiro 19, 2010

sem título

Não me consigo mexer - sou alguém congelado no tempo das feras mansas.
Vislumbro o rasgar de vinte e quatro vozes que ecoam eternamente
- a luta da vida em constante rotação.
O cheiro das pedras no meio das pétalas de enxofre... 
deliciam-me,
trepam-me às fossas nasais como se fossem pequenos homens
em cumes de montanhas tortuosas, sem oxigénio nas bolsas lacrimais.

Sou o velho ar do campo, cansado, de tanto percorrer a vastidão 
- terrenos de miséria, abandono e fel. 
Gotejam-se sombrias as histórias dos velhos na escuridão
- outrora cânticos de trigo de oiro e mel.

Não me consigo mexer - é o súbito reumático da nostalgia.
As saudades que são iguais em todas as línguas e sentem-se
assim tão sós, tão frágeis, 
como as próprias mãos das velhas do campo.

Sei que um dia voltarei àquele lugar, 
e entre árvores frondosas e leitos secos
estará a mesma velha senhora à sombra
- a mãe de todos os seres.




segunda-feira, janeiro 18, 2010

O Regresso

Esta noite regresso ao teu corpo
de onde saí há muitos dias atrás
sozinho
no meio da tempestade de breu.

Sussurro segredos na tua pele
lentamente 
deslizo para atracar no teu porto
esse meu abrigo das horas de luz.

Estarás sempre à minha espera
e quando me deito
no lugar do teu coração
floresço.

Com o seu bater de tambor manso
começa a dança do eterno conforto.

Esta noite regresso ao teu porto
como escuna que volta do mar frio
e procura o calor do teu farol a sul. 

Ergues-te uma vez mais 
e em tuas mãos adormeço
e encontro a minha paz.


segunda-feira, janeiro 11, 2010

Rasgo

A inocência tresmalhada pelo conta-gotas do mal.
A inocência que não foi, que não esteve, que nunca chegou.

Porque não podes querer nada, porque és pobre e miserável 
e a estes apenas cabe a luxúria da penúria e do abandono.  

Não ambicionas, não vês as fráguas perfumadas a carmim 
- o desejo.

Hoje és poalha nas digitais de um vagabundo
e habitas o asco com que todos o olham.

Não foste parido pela educação do estóico,
nem por outra qualquer. Apenas largado.

Ninguém te ensinou a querer. 
Houvesse quem te tivesse tido amor
e talvez conhecesses a irmã da chama 
que habita nos seres completos,
nos que não foram abandonados.

Mas tu és apenas inexistente,
como as flores invisíveis do mal. 

domingo, dezembro 13, 2009

Sucumbi no lacónico desejo

deixei-me sonhar

pousei um dedo na ponta
de um teu seio

assim
sem saber sequer

vislumbrei esse teu cume de mulher.

Sonhos partidos
cacos do nada

estava deitado na estrada
como se dorme na própria cama

mas em vez do lençol a cobri-lo
não tinha mais nada senão lama

fora varrido pelo motor potente
do carro do destino

não tive qualquer mágoa derradeira
senão quando segundos antes do último suspiro
abri os olhos e percebi : 
o teu cume era antes uma pedrinha no alcatrão
e aquele lençol negro era o meu fim.   

terça-feira, novembro 10, 2009

O relógio de areia movediça

Entre o tempo e o mundo, circulam penas de aves arcanas e bailam vísceras suspensas em formol. Adormecidos animalejos que, com clorofórmio, se mantêm refugiados da realidade, são hipnotizados pela abúlica aurora austral. Não são as horas desses ditadores, mas eles voltam repetidamente.

A pêra madura é trincada. Desfazem-se miniaturizados grãos de areia na língua de Ártemis. A sua tocha guia as pequenas bestas, que mais tarde perecem atravessadas pelas setas do seu atlético arco. Ártemis espalha o pó lunar da ampulheta, partindo-a, e todo o mundo, antes insone, quebra agora sob os encantos de Hipnos.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Sensações

Se as tuas mãos fossem iguais às minhas
será que sentias aquilo que eu sinto
quando passo os dedos pela tua pele?

Serpentes de desejo sibilavam pelo meu corpo
e o sabor da tentação era o fruto doce
que eu trincava sem hesitação.

Sopravas olhares e o meu rosto dissolvia-se em rubor,
agora as metásteses do teu olhar
ainda contaminam as minhas memórias;
morro dessa cura, com a solitude como guardiã.

Soubeste escrever-me nas mãos um destino de sal,
vigoroso sabor nos dedos lânguidos que chupaste,
sem te conteres entre línguas e abraços.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Foste o último raio naquele pôr-do-sol.

Escondi-te na palma da mão enquanto tu me sorrias.
Dobraste a esquina e pude ver-te o olhar, rasgão de luz, última, no pôr do dia.
Viajei sem reparar, ainda nos teus cabelos, caminhando, vislumbrando o brilho deles ao luar.

Sinais de fumo me lembravam a tua pele, sufocada pela poluição da cidade,
à espera de um banho de mar, purificante.
Fiquei com o sal da tua pele nesse dia a perdurar-me na ponta da língua,
e dos teus lábios colhi grãos de sêmola de trigo, doce, que na minha boca se desfaziam.
 
Ainda é cedo, meu amor, disseste-me. Mas já era muito tarde, sabia-o de certeza.
Não te pude mais ver, nem sentir o teu sabor, e nas minhas digitais podia ainda sentir a areia da tua pele. Corri, corri, para que o teu corpo e a tua mente não me pudessem mais invadir, para que com a fúria do vento te expulsasse de mim... Porque já era muito tarde, porque não podíamos mais existir, porque tinha de ser assim.

segunda-feira, outubro 19, 2009

A memória da persistência

Busco, desde há sete anos, o trilho para chegar até Mariana. Exangue, sigo os seus passos, adivinho-a e oiço os ecos da sua voz que ficou presa nas ondas eléctricas do magnetismo terrestre e que a Mãe-Natureza me devolve, num acto similar ao de um sacerdote que entrega as cinzas de um cadáver acabado de cremar.

Contorna a base do penedo, enorme. As suas estepes são as costas de um gigante, cravejadas de rebentos que se erguem do suave musgo-alcatifa.
Lúcia-lima e dançam mosquitos, hortelã-pimenta que piso e é um bálsamo para os pés cansados da exploração errante.
Beleza selvática que se revela mutante de um mundo paralelo ao do meu familiar campo prazeroso.

Chegando ao planalto, do topo do abismo se avista o lago, reflectindo monstros semelhantes aos borrões de Rorschach; é uma lagoa na cratera do vulcão, ladeada por pequenos monstros de cinza.
Jorrava o verde em todos os seus tons: verde-água, verde-esmeralda, verde-seco, verde-malaquite, verde-palma, verde-absinto, verde-limão, «assim como os olhos do meu coração».

Segredam-me murmúrios de estalactites, como quando o vento serpenteia a costa. Ao longe, as ondas eram orquestradas pelo pensamento de Mariana, num compasso binário, iam : pausa, vinham : percussão. Atlântico, o mar, e de repente um som ténue, depois engrandecido para música com ritmo sincopado, da minha infância o bater dos pauzinhos das rendas de bilros que a minha avó malabarismava. Aquele ritmo ancestral e o olhar da minha avó sobre mim, tecendo esperanças e sorrisos a meu favor. Primorosamente, espuma de bilros em rendas espraiadas pela orla marítima. A memória da persistência. Gotículas aderiram ao interior das minhas narinas. Através da simbiose das moléculas do sincretismo que se apodera de mim, dá-se o equilíbrio dos elementos.
Um nevoeiro amargurado prepara-se para expulsar os pequenos duendes beneméritos e abraçar a noite dos bichos noctívagos. O estoicismo com que as plantas se recolhem, de estames vigorosos e caules hirsutos, de quem perdeu mais uma batalha, mas não a guerra. As folhas, largas e outrora protectoras, falecem no descendente lusco-fusco do horizonte desfocado. Derrama-se a penumbra e as sombras esponjam-se sobre todo o vale. «É de noite a Criação.»
No altar do planalto, com vista para o abismo aquoso, vejo o etéreo corpo de Mariana. Jaz, incólume, como sacrifício recebido pela terra que a abraça com os seus áridos feixes, enrodilhando-a nos membros e no tronco. Nota-se florida na cabeça de Mariana, sobressaindo dos seus cabelos rebeldes, uma coroa de vime seco, pintalgada por pequenas flores de um cinzento-claro, que fazem lembrar o nevoeiro que há-de vir. Não tarda, a voz do silêncio cobre de meditação o frondoso mundo selvático que ficou abaixo do leito de Mariana. Gotejam-se chilreares tímidos..., escasseiam-se... e deixam de existir. Permanece «a serenidade que embala a vista com ternuras tristes». A tua ausência está cravada na negritude da rocha vulcânica, assim como na minha alma. Encontrei-te, finalmente, estiro-me ao teu lado e entrego-me ao húmus. Nem o nevoeiro amargurado e as criaturas da noite conseguem expulsar-te deste lugar, Mariana.

domingo, outubro 18, 2009

O Homem-Nada

A minha vida é um círculo perfeito, preenchido com o nada. Os dias nela são sucessivos nadas e, ainda assim, o tempo continua a passar. 
De vez em quando espirro, outras endireito as costas, e por minutos, poucos, consigo manter uma postura de uma certa altivez. Mas lentamente, com a mesma inércia de quem está dentro de um autocarro e chega a um destino sem se mover, e sem saber como se chegou, torno a ficar encurvado, como quem carrega um mundo indiferente nas costas. 
A minha estrada - há quem lhe chame caminho -, é recta, ladeada por funestos chorões, e a sua perspectiva fá-la terminar apenas no horizonte. Havia quem dissesse em tempos, que eu era um maníaco do controlo. Não me parece que hoje controle o meu nada ou tenha controlado a minha vida para chegar a este nada e mantê-lo assim. 
Não é alguma coisa, de muito interessante, este meu nada? Não me parece que careça de manutenção sequer. Talvez seja o puro nihilismo que teóricos sempre procuraram alcançar. O nada que, para variar, não é tudo. 
Visivelmente, há marcas de uma aventura passada, em que havia alguém - no final, no derradeiro fim de tudo, só ela permanece, só ela conta para alguma coisa -, em quem acreditei. Gostei dela como se gosta de um animal de estimação, um companheiro que morre ao fim de uns anos de simples afecto. Cheguei rapidamente à conclusão de que somos sós; de que não há quem nos aplaque a dor da consciência, eu pelo menos não tive a sorte de encontrar essa pessoa, de quem ouvi contar de apenas de uma pessoa, que é como se fosse nós fora de nós e que está sempre dentro de nós. Complexo e daí algo confuso, não? Para quem estava talhado para o nada, eu certamente não serviria, não seria merecedor de encontrar essa pessoa assim tão mágica. Por isso, também não posso dizer que no meu fim estará ela, contará apenas ela, pois nunca existiu mais ninguém. 
Este meu nada é um acumular de solitude num icebergue monumental. São poucos os momentos em que o pesar me vem delapidar o sono ou o respirar. Há muito que não há sentido qualquer - num círculo nunca o há, ou se há, é apenas em si mesmo, numa tautologia da forma -, nesta existência de solidão.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Poema da "Aborrescente"

Gritava, Gritava, como uma gralha histérica
Guinchava, Guinchava, como uma porca da matança,
Tinha o péssimo hábito
de atirar coisas para cima das pessoas,
dos tolos,
Não era nada genuína,
era simplesmente uma Adolescente
que muito Aborrecia.
Dava de beber à fome; era louca.
Servia vodka com gelatina e doces gordurosos.
Para conselhos sábios tinha orelhas moucas
e comentários aleivosos.
Os tolos davam risadas,
até que muito depressa, já não havia paciência
e era o fim de tantas gargalhadas.
Ela dizia que se suicidava,
naqueles cabelos escorreitos,
e assim a vida de um ou outro atrapalhava,
mas já eram cada vez menos os sujeitos.

+-5 am, 07-10-09

quinta-feira, setembro 10, 2009

Aeroporto

(...) independentemente das emoções de se ir deixar ou buscar alguém, havia sempre uma excitação por se lá ir.
Era uma dimensão diferente; não pelos seus portais, para outros mundos, de entrada e saída de pessoas estranhas, mas pelos mundos de pessoas de todos os feitios e de todas as línguas, que ali se encontravam por acaso.

O fascínio: do mármore; de se ficar colado ao vidro, a vigiar quem chega - não porque se esperava alguém, mas pela hipótese de que alguém olhasse para nós e respondesse acenando de volta -; da voz feminina robotizada (muito mais elegante que no hipermercado), que tínhamos esperança que dissesse o nosso nome, que nos chamasse para embarcarmos numa aventura qualquer.
Era de facto já uma aventura, ir ao aeroporto enquanto era criança e beber todos os pormenores como se fosse uma água com bolhinhas, mil bolhinhas na língua: o câmbio das moedas que tinha de ser feito antes da viagem; a preocupação que havia com a comida nos aviões e, antes, nos restaurantes - uns tão charmosos e onde me tratavam como uma pequena princesa -, a alegria e o privilégio de avistar as hospedeiras - sonhar ser uma -, e mais ainda o comandante tão polido e brilhante.

Ah e, claro, os aviões, o que mais tarde aprendi que havia um nome, planespotting (em vez do Trainspotting do Welsh), para o que nós fazíamos, imensas vezes, naquela tenra idade - e quando, já não tão tenra, me transportava ainda para ela -, colada à rede da vedação que me impedia de correr livre naquelas amplas pistas, para ir abraçar um daqueles passarões de metal branco, com um nariz tão simpático.

Ainda me lembro dos nervos das pessoas, na luta delas para arranjar e manter um carrinho para a bagagem, encontrar um táxi, o bafo quente de Verão a emanar do alcatrão e o gelo agradável mal se ultrapassavam as portas automáticas e se entrava numa cidade diferente.

A fascinação de uma criança, talvez apenas isso. Não vou ao aeroporto há mais de seis anos e também, por razões médicas, é-me desaconselhado viajar de avião. Porém, nunca deixei de voar. Esta minha forma de voar também é, pela maioria das pessoas, considerada desaconselhável. Parece que o mundo inteiro nos põe grilhões de chumbo nos pés para forçar-nos a sermos sempre terra-a-terra, com os pés no chão e a não termos a cabeça nas nuvens.
Não sei se sentiria o mesmo fascínio, se voltasse à cidade das pessoas de outros mundos; talvez, em certa medida. Na verdade, não é tanto como as coisas são, mas sim como as sentimos. Nem se trata de como somos, mas sim como sentimos as coisas em determinado momento.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Patrícia

Era uma menina-mulher. A característica dela, que mais saltava à vista dos que privilegiavam da sua companhia, consistia numa espécie de tique - pela repetição do movimento, embora em nada nervoso -, que era o enrolar de uma mecha de cabelo num caracol, à sua direita, permeando-a com o indicador e o dedo do meio.

Não era Patricia Highsmith; não efabulava, até fora sempre bastante terra-a-terra, senão na área do coração, pois esperava um dia viver um amor arrebatador, "daquele que dói algures no corpo", como uma ferida, provavelmente junto do peito onde está o coração.
Mas, quanto a isso, permanecia sempre em dúvida: "Como é que se sabe que é o homem certo?", pensava volta e meia. E, de vez em quando, procurava a resposta junto de amigas mais velhas, mal sabendo que iludida, por dizeres populares: "Quanto mais velho, mais sábio."

Próprio do universo conceptual feminino, o interesse pelas coisas espirituais, ou espiritualizadas, como a intuição e a astrologia, encontravam em Patrícia uma pequena aprendiz.
As suas capacidades relacionais e afectivas, daí, surgem num crescente de preocupação e generosidade para com os outros.
Não havia ninguém como ela, no que toca a convencer pessoas: ora eram assaltadas pela sua perseverança, ora seduzidas pela sua inocente graça.

Se se perguntasse aos amigos, quais as palavras que a definiam, seriam, entre outras, certamente: Alegria, Generosidade, Espontaneidade, Bondade, Beleza, Pureza, etc.

Numa Era em que todos pensavam em carros, Patrícia pensava em abraços.
E não é só isso que verdadeiramente importa?

(esta é a minha pequena homenagem à minha amiga Patrícia)

sexta-feira, agosto 21, 2009

Pessoas: vida e morte.

Há pessoas que se eregem como templos, na solidão do silêncio dos deuses.

Nós apenas temos uma vida para nos ocuparmos enquanto a morte não chega.

A morte é silêncio e a vida é ruído; enquanto estamos vivos, a morte é um ruído na nossa mente, mas quando morremos a vida torna-se no silêncio.

E existindo apenas morte e vida, e nada fora de ambas, nunca nada é assim tão linear.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Pela ternura que tem um berço nas tuas mãos

A vida é um continuum de momentos finitos. De pessoas finitas. Cujas memórias só o são depois de o deixarem de ser.
É um passado remoto que ninguém controla e que o tempo se encarrega de transportar para o presente e para o futuro, dobrando-se nas suas esquinas fugazes e diáfanas.
Sentimos a falta da pessoa que amamos, pela ausência do calor a que ela nos habitua. De manhã, quando acordamos e olhamos para o lado; de noite, quando lentamente entramos no reino dos sonhos.
As memórias passeiam-se, sem trela, pelos cantos, ora escuros, ora inundados de luz, da mente que se preenche com a ausência da pessoa que se ama.
De noite, as memórias, oníricas, concretizam a profecia: "transforma-se o amador na coisa amada". A metamorfose que não é física, como já foi, mas sim mental. Em ambos os casos há algo de espiritual nessa osmose das pessoas que se amam.
Sentir saudades da pessoa que se ama, é sentir um constante vazio no peito, que incomoda a todo o instante, lembrando-nos da falta do calor da sua presença.
Enquanto se celebra o luto da ausência do amado, com a festa das memórias de momentos finitos, mas intensos, cria-se a ilusão de que eles perduram - a ilusão da eternidade de momentos felizes -, aguardando-se serenamente por aquele calor que é só nosso.