sábado, dezembro 17, 2022

"tal qual o corpo da cidade"

 Já não escuto a tua voz há tanto tempo
E no entanto no pensamento ouço-a
Sempre a começar numa interjeição
Contrariado e como se não valesse a pena
Sequer dizer-me o que quer que seja

Eu fui quem não sou nem era antes
E habitou-me em todos os instantes
Uma angústia no peito que não era meu
Com um coração a bater que era o teu

Eu sou o homem da cidade
Que "manhã cedo acorda e canta"
 Que "manhã cedo ensaia a dança"
"E por amar a liberdade
Com a cidade se levanta"

Somos dois homens nessa cidade
Vociferando uma falsa liberdade
Somos dois amantes entrelaçados
Numa Luzboa que só o mar tem 

quinta-feira, dezembro 15, 2022

 Operamos com a nostalgia
Mexemos na teia de memórias
Como se fosse intrincada 
Mas muito frágil
Contamos estórias
E relembramos o esquecimento
Pois a recordação leva o vento
E neste clima extremo
Em que hoje vivemos
O céu está sempre nublado
Com chuva e cinzento
Um amor que dilacera de tão imenso
Parece um terramoto
Uma das quaisquer catástrofes
Depois da tua fingida morte
Eu que nunca tive sorte
Nesta vida inteira desgraçada
Vivo magoada
Porque não houve amor
Que me durasse
 Fiz a crueldade maior
E rasgando-me a mim
Sufoquei o próprio ar
Afoguei o próprio mar
Morremos 
E não sabemos voltar
Nunca soube eu 
Senão te amar

terça-feira, dezembro 13, 2022

 Está bem, eu admito, 
gosto de andar amarrotada, 
sempre foi moda em Itália, 
e eu tenho princípios muito vincados, 
que não dá para passar a ferro

segunda-feira, dezembro 12, 2022

 Ricochete

Boomerang 

Iôiô


Tu disseste que não sou

La vendetta

 Desejas mal a quem te quis bem
Uma raiva e um ódio
Que proliferam venenosos
Porque o pior foi a desilusão
E agora andas em contramão
Com essa mina de desgostos
Desgraçando em tropismos
Nas paredes, no tecto, em encostos
E por mais que soasse o perdão
Esperas a derradeira ausência
A morte em mim de tudo
Pois acreditas como ela 
Desde os anos 70
"La vendetta è un piatto 
che si serve freddo"
E io non credo più 
Che piano piano
Noi andiamo lontano.

*da vez que me envolvi com alguém nascido nos anos 70, líder de gangue da Máfia, e que desgraçou a minha vida desde então. Ficçőes ;)

domingo, dezembro 11, 2022

 E se fores sempre tu?
Tu que não existes. 
Tu que existes mais do que tudo.
Quando é tudo tão estranhíssimo.
Quanto essa última frase.

A Música

 
A música dilui-lhe o desespero
No balanço das ondas das colcheias e semi-colcheias
Emprenhado pelos ouvidos
Ele (d)escreve os seus dias
Com cançőes
 pois sabe que tudo vira memória e recordaçőes
Mas ele finta a morte
Com percussivas pausas
De estar muito vivo
Distraindo-se das desilusőes
E quando ele está solto
Em pleno scat a livres pulmőes 
É quando dá maior gozo
De ele estar alegre e feliz 
A mú-si-ca
Diz que sai e bem 
Bem bem bem 
A mú-si-ca

sábado, dezembro 10, 2022

sexta-feira, dezembro 09, 2022

Gordura

Um amor que é uma gordura estanque
Saturada, enjoada, exangue e gigante
Mas é a do princípio da vida
Do ventre maternal
Porém, esta gordura não é formusura
Ela pesa, mói, mata
É a mesma gordura dos auto-intitulados
Dos que pensam que foram nomeados
Pelo seu deus pessoal e pelo hedonismo
E que são tão ressabiados no altruísmo
A verdade é o único desengordurante 

"Dá-me a verdade se és capaz"
Um mentiroso compulsivo não é
E sem que eu dissesse nada
Apenas perguntando para me dizer
Eu vi a gordura desmontada
E tudo a arder

quarta-feira, dezembro 07, 2022

(Nota mais séria) do vazio

 O Vazio é sustentável, porque é a sustentação em si mesmo, quando se trabalha a mente para descobrir o que realmente existe sem ser produto da mente. 

Daí que o afecto seja conscientemente uma opção então e não como todas as outras pessoas que não se aperceberam do cerne e da essência existencial como sendo só o vazio mesmo e sempre todo e qualquer afecto delas é para lhes suprir carências, mesmo que não o saibam, o inconsciente opera-lhes toda a hora nesse nível. 

O vazio para mim e o seu nada, são as únicas coisas que me interessam, pois são a única verdade. 

 Aonde vão as coisas que não dizemos?

Talvez para o mesmo sítio das coisas que desistimos de fazer antes mesmo.

 Tentei ser normal
Mas as pessoas resolveram ser tão anormais
Que não durei um dia

domingo, dezembro 04, 2022

 Na pele tens escritos indecifráveis
Que eu cego de paixão tacteio
Para ver se esse braille leio
A tempo de te folheá-los amáveis

Mas assim que ela se ouriça
Em arrepiados poros de desejo
Eles escapam-se na vontade lisa
Transformando-se em líquido beijo

E as marés que sobem em dilúvio
Quebram e lavam o desconhecido
Tudo é lava e alívio
Nesses nossos corpos fundidos
 Esvaio-me em saudade
De uma vida perdida
Com as ondas da alegria
Que não pude ter então

Conformada desiludida 
Nessa contemplação cansativa
De tudo ser vão
E daí a imobilidade
Paralisando-me com leviandade
Ó aurora que não posso
Ó pôr-do-sol que me esqueço

Foi sempre esse o papel
Ser só coadjuvante
Antes da pessoa da tua vida
Mesmo que me desdigas
Foi só para isso a minha servidão

 Lembro do sabor

Que tinha

Quando te vejo

 sorrir

Sopravas vida

Até o sangue fluir

E não havia

Maior calor

Nem maior telepatia


sábado, dezembro 03, 2022

Não somos o que fomos?

 Somos neblina e ausência
Onde fomos brilhantina e paciência

Somos matutina e negligência
Onde fomos vespertina e ciência

Somos ritalina e sapiência
Onde fomos concertina e demência

Somos sina e maledicência
Onde fomos estricnina e inteligência

Somos melatonina e inexistência
Onde fomos mina e sobrevivência

Macho

Tu vês-me como garrote
Quando eu te sinto algoz
E dás o teu pinote
De macho cobridor atroz

"Porque o lugar de mulher é..."
Não, miserável cobarde,
Ficaremos sempre em pé
E agora faremos alarde

 Abre-me as janelas do coração
com as tuas mãos
e deixa que a luz nos invada
e nos dê o definitivo perdão
já que eu não conto mais
para ti em nada
pois já te entreguei a alvorada

Quando olharmos as nuvens
estaremos sempre mais perto
e quando olharmos o mar
sairemos do infindo deserto

Tu és excepção à minha regra
Minha condenação e entrega
Meu raio de sol no meio da treva
Minha morte que não me leva

Tu és o meu eterno retorno
Cíclico em vidas de abandono
Tantas em que foste meu dono
E eu só agora curei o meu sono

Tu és o meu mar e meu deserto
Meu som e silêncio desperto
Minha névoa e meu intelecto
Meu caminho nunca recto

Tu és a luz no horizonte
A escuridão do que conte 
Não há nada que desmonte
A adoração que não encontre

"Aceno" a Mário Cesariny (aquando dos 16 anos sem o poeta)

 Estás em mim 
como sangue e ar
e em todas as células
não fingi como libélulas
a morte para te afastar,
pois esse amor
é onde começa a estrada
longa de ti cousa amada
longínquo "halo da fita azul"
onde o "mar é floresta" a Sul
e a vista em tremor 
olha o "navio de espelhos
que não navega, cavalga"
e nós, leigos, 
aguardamos um nosso "país
de bondade e bruma"
onde temos a nossa raíz
dos dias   eternos   de espuma

Poesia

Dizem que a Poesia não serve para nada,
mas a mim tem-me servido para tudo,
por isso deduzo que quem diz isso
é uma gente muito coitada. 

quinta-feira, dezembro 01, 2022

Meu coração é do mar

 Meu coração é uma pedra gasta
pelo bater das ondas do mar
vira e mexe não lhe basta
deixar-me só a naufragar
por séculos olhando-o
sofrendo com as suas dores
torcendo pelos seus fervores
e amando-o
nesse vínculo de Penélope
com o seu eterno Ulisses.