Eles só sentem solidão quando estão aborrecidos. Daí usarem de terceiros para se distrair. Eu quase nunca me aborreço, porque eu vivi a vida inteira de pensamento e contemplação. Quando era mais nova fui uma ávida leitora e isso formou-me tanto a imaginação que acabei por me tornar numa pessoa extremamente imagética de tudo o que testemunho. A exponenciação da empatia e dos neurónios-espelhos também se deve desenvolver assim, creio. Ou seja, este cocktail perigoso foi o que também me permitiu, enquanto ser cronicamente alerta, nunca me entediar. Tudo a todo o segundo acontece e eu observo, sou impactada e atravessada por isso. A solidão e o aborrecimento podem ocorrer por não estar com pessoas que sejam presentes, que existam conscientes e que saibam estar no momento. Eu soube relaxar, descansar, divertir-me, mas muito pouco e com a duração de poucos minutos, nesta vida. O resto foi essas aflições de stress, incerteza, bombardeamentos e tudo mais patrocinado por outros (que assim podem e têm tudo, que se divertem à vontade, etc.) enquanto sempre a ter de cuidar de alguém.
Enfim, o tédio não me assiste. Eu assisto o tédio e nunca é completamente entediante. Até traz bonitas surpresas à percepção, às vezes. Um espaço para enxergar, escutar, aceder outras ondas.
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