sábado, janeiro 04, 2014

Naquela tarde em Foshan

Funestos festivais de cores
que os amores vêem na melancolia do céu
quando caem as flores de cerejeiras
com as suas pétalas alvas
brilhando através do breu.

Atravessam as nuvens raios de nostalgia
que mortiços se vão deitar na terra,
entregues às suas últimas moradas
e as memórias desconsoladas
vivem nas folhas do vento lento
que move as montanhas do nosso pensamento.


quarta-feira, janeiro 01, 2014

Os Conscientes

Bem-aventurados e condenados são os que têm a consciência de não fazer sofrer pois sabem e já viram demasiado sofrimento na Terra...

Esta faca de dois gumes, ter consciência da realidade que é tão horrenda e ao mesmo tempo ter de continuar a viver, tornou-se numa impossibilidade tal que fomenta um turbilhão constante de dificuldades existenciais.

Como é que se vê, ou se tem consciência, das atrocidades que o Homem comete contra a sua própria espécie e contra as outras, contra as suas próprias crianças e se continua? As guerras, as mutilações, explorações, assédios e violações... como é que se continua depois de se ter consciência, depois de se ter gravado no olhar e na mente e no coração e na alma toda a podridão que nos rodeia e sabendo que o que quer que se faça de bom e belo nunca é um milésimo do que de mal se faz a todo o segundo no Mundo?



quinta-feira, dezembro 26, 2013

Afundada no cúmulo das ironias: alguém que se chama Sónia e que vive permanentemente com insónias...

quarta-feira, dezembro 11, 2013

O paraíso

Dizem que o paraíso está repleto de hibiscos e romãs
e por todos os lados carmim de hedonismo e verdes de esperanças.

Mas eu vejo-o com fortes tons de azul e também claros
como se de tão pálidos cinzentos e
branco por todo o lado
e laranja num bronze de sol e sal.

É o teu corpo e nos teus olhos que o encontro
sempre sem fazer nada
porque eles vêm até a mim como num sonho.

Vislumbrar o paraíso com ondas de prazer
e lentamente entregarmo-nos ao céu e ao mar
com a mesma rendição com que viemos ao mundo.

quarta-feira, dezembro 04, 2013

O Tempo

Parece-me que o Tempo nunca se cansa
e está sempre à frente do acontecimento;
é um velocista que ensaia uma dança
e não vê o seu próprio movimento.

Discorre ondulações de brisa no ar
Descobre vibrações de raios de luar

No deserto a areia passa pelos cabelos
das memórias de todas as pessoas
que vagueiam dias e noites nas dunas

No campo a erva passeia pelas pernas
das visões de todos os animais
que perambulam manhãs e tarde nos montes

Na cidade o asfalto é pisado pelos pés
das histerias de todos os autómatos
que nervosamente se atropelam entre os prédios.

E em todos os cantos e todas as ruas e todas as paisagens
a vida toma forma e o Tempo não se apercebe.

sexta-feira, novembro 15, 2013

sábado, novembro 09, 2013

Quantos espelhos vês no teu rosto?
E nas tuas mãos e no teu corpo?

Quantas pessoas se aninharam na tua mente
que galopa incessantemente
não tendo sequer piedade do teu corpo cansado?

E quando olhas para os teus dedos
vês apenas tudo o que escorreu entre eles
como areia fina da ampulheta da memória.


sábado, outubro 19, 2013

O Meu Amor - Chico Buarque

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa
Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

sexta-feira, outubro 18, 2013

O silêncio não existe, nunca existiu

no mundo inteiro

apenas os teus lábios o contêm

quarta-feira, outubro 16, 2013

...

Um dia já não me lembrarei de ti,
apenas de um emaranhado de emoções sem rosto.

Lembrar-me-ei que o Futuro virou na curva errada
e que não se espetou de imediato numa árvore
nem teve nenhum acidente fatal
somente um apagar silencioso.

E aí, no meio da névoa do outrora, a luz que persiste é só minha
e de tudo o que sou mas não do que sei.

Sim, um dia já não hei-de ser a guardadora de memórias
que qual elefante porta-as até à sua última viagem.

E os abraços que nos demos unir-se-ão todos
num derradeiro para me levar.

*escrito ao som de Solitude de Ryuichi Sakamoto

segunda-feira, outubro 14, 2013

Inventaram que a falta de solidariedade humana resultou numa cegueira branca. Inquiro-me se é o meu sofrimento diário que me está a tornar branca...

domingo, setembro 29, 2013

A mudança do paradigma: amor, liberdade, poesia

Hoje acabou-se a magia,
findaram-se as marés de chuva
a espuma das madrugadas
e os feitiços do luar.

Não era ainda de noite e já entardecia,
pois a manhã estava atrasada
com sonhos feitos de nada.

O estatuto do amor mudou,
ele deixou de ser o salva-vidas
que nos põe à tona na tempestade
e sei hoje, conformo-me na constatação
de que é apenas uma das coisas que existe
como todas as outras sem liberdade.

E a própria poesia teve o já longamente adiado funeral
pois não passa de exacerbação e subterfúgio
para quem nunca encontrou um bom refúgio
da solidão, da desgraça do mundo e da putrefacção.


quinta-feira, setembro 19, 2013

O amor de uma relação

O amor tem todas as caras do mundo
e todas as feições de todos os animais
pois ele varia imenso mas tem sempre algo em comum
o bem-querer e a preocupação de mais nenhum.

Relações amorosas, não as queremos mais
são danosas por vezes
outras não chegam sequer a ser
mas sei que não são as tais
que quero para sempre manter.

O que queremos é leve e solto
mas imprime-se no corpo
como tatuagem de veias que brotam do coração.

O meu abraço e pensamento são teus
e o amor é a eternidade de um morto
que está para sempre enterrado no chão.

quinta-feira, agosto 22, 2013

Anedonia

Num estado completo de anedonia
o único desejo é morrer.
Depois, de ter as cinzas espalhadas
em Saturno e ver um bocado seus anéis brilhar
a rasgarem o céu.

Já não há desejos de estrelas cadentes,
nem sequer de pôr-de-sóis redentores.
Apenas um buraco negro
para o qual só eu não fui sugada.

terça-feira, agosto 20, 2013

"Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fosse retirada". 
Heinrich Karl Bukowski

sexta-feira, agosto 09, 2013

Entre nós

Não se deita fora o que de melhor se tem.
Não se deita fora algo que se demorou anos a construir
e quando já se passou por tanto para manter.

"Há pessoas certas e as que lutam para dar certo":
nós fomos sempre dessas duas espécies de pessoas
ao mesmo tempo.

Entre nós há quilómetros de distância e no entanto,
não há um único milímetro que nos separe as mentes
e os corações tão presentes.

Se me quiseres alcançar tens de vir como o mar
com toda a sua complexidade
e tens de chegar até mim como o céu azul
com toda a sua serenidade.

É o quanto basta, pois entre nós
haverá sempre toda uma eternidade.


terça-feira, julho 23, 2013

Dizer o que nos perturba não é, ao contrário do que muitos dizem, estarmos a queixar; é apenas partilhar a dor numa de "dor partilhada, dor aliviada".

domingo, julho 14, 2013

Ecos

soam ecos de quando peco
e me esqueço da redenção

a minha vida sem ti vivi-a
a minha morte contigo esqueci-a

vêm lembranças de mansas danças
que já lá vão

sábado, julho 13, 2013

Pernoitar

Lilases reflectiam do cabelo dela,
assim que a noite descia, mansa,
com gentil toque de dedos de luar.

Convidou-me para subir as escadas,
fê-lo só com o olhar
e assim que dei por mim
a cada pé em cada degrau
senti a corrida do coração
e a lentidão dos meus movimentos.

Entre as suas pernas pernoitei,
encostando a cabeça no interior
de umas das suas leves coxas.

A minha vida tinha parado
entre o calor da pele dela
e a suavidade de um afago.

Quando abri os olhos
apenas um pouco
percebi que era um bom sonho,
como aqueles dos quais não queremos despertar.

sábado, julho 06, 2013

sem título

Nunca fomos a um concerto juntos, nem dançámos juntos em público.
No entanto, não trocava os meus momentos contigo, com o teu mundo, por ninguém.
Pois foram os meus momentos mais ricos mesmo sem ter havido riquezas financeiras.
Assim são os grandes amores, são todos impossíveis e de meter dó, tal é o desperdício.

sábado, junho 29, 2013

Todos os dias eu amo-te em silêncio
como que em oração num templo
onde a devoção que te tenho faz-te o meu deus pessoal.

E todas as noites são passadas em contemplação
na adoração do que foste para mim
lembrando os teus dizeres e gestos
e todos os nossos momentos.

A dor de já não te ter enlouquece-me silenciosamente.
Eras a minha família: a quem dizia boa noite
e a quem desejava um bom dia.
Agora, não poder chegar até ti faz-me sentir paraplégica,
com os braços e pernas amputados
impedindo-me de te alcançar.

O meu desejo de ti encobriu-se de sombras
e já não mais quero alguém amar 
porque o amor agora só significa dor.

terça-feira, junho 25, 2013

O som do coração a partir-se

Nunca tinha ouvido aquele som antes...
O som do coração a partir-se em microssegundos
acompanhado pela dor lancinante no peito

Para aniquilar sete anos precisamente sete palavras...
sempre metódico, o meu "Ming, o implacável".

Nada sinto, nada sou
e já quase nada resta.

Nunca tinha ouvido aquele som antes...
O som do coração a partir-se.

sexta-feira, junho 21, 2013

O Amor é como aqueles animais que se põem a atravessar estradas: acabam sempre atropelados.

quarta-feira, junho 12, 2013

O fim de uma relação

Não tenho nem nunca tive nada para te oferecer, só dores e tormentos,
os abortos de um mundo de podridão fecundo.
Por isso, fizeste bem em partir, mas devias ir inteiro,
todos os outros encontraram quem lhes fizesse felizes depois;
nunca fui a mais amada e ainda bem que é assim
pois nunca guardei nenhum prisioneiro,
nem quero ser a maior causadora de sofrimento.

Sejamos o mais cândidos que podemos ser
no meio da nojice humana em que habitamos
e ofertemo-nos a paz possível na solidão.

Verdadeiramente sempre estivemos sós:
tu nunca te abriste comigo até à última
e eu nunca te revelei o que incomodava.
Nenhum de nós esteve lá para o outro,
apenas parecia,
pois eu estava e tu não querias
e tu não estavas e eu precisava.