sábado, fevereiro 27, 2021

 O que é essa vida e esse mundo,
em que cigarras explodem em desespero derradeiro
 quando saem debaixo da Terra
e cantam sem parar
depois de estarem 17 anos enterradas,
e em que as papoilas florescem ao trovejar?

segunda-feira, fevereiro 22, 2021

 És tudo para mim:

como a água no planeta,
que banha a terra que eu sou.

O retrato que ainda não fiz

 Nada me faz perder a noção do tempo
como desenhar os traços do teu rosto:
o teu nariz afilado de ser altivo
mas fofinho na pontinha, 
as tuas quase maçãs do rosto
que apetecem trincar
e os teus lábios de cereja 
doce e tenra.

(...)


[entt fiz]


A Conversa

 Podemos ter uma conversa franca, sem máscaras, sem tretas, sem estares a ouvir-te a dizer as coisas e a sentir "por que raio estou a dizer isto"? Sem receio de não ser aceite, ou mesmo dizer a coisa errada e perder alguma coisa? Até porque, claramente, já me tem sido denotado que nada do que digas pode cortar esta forte ligação estranha e tão imensurável quanto o embrionário mistério do universo. Nem que seja a conversa inaudível do silêncio que guardamos teimosa e sofregamente... porque esse louco e são amor de facto existe.

Assim ficamos. Tudo bem, tudo certo, na medida de tudo em volta errado.

domingo, fevereiro 21, 2021

Amo-te como o Vento

 Amo-te como o Vento;

não aquele que muda de direcção,

mas aquele que te acaricia o rosto 
envolvendo-te e tocando o teu cabelo 
como se fosse meu

Amo-te como o vento,
que faz o ondular suave no mar 
e as ondas bater na rocha devagar

Livre, leve, lúdico,
Amo-te sem tempo
e não sei de onde veio esse amor
nem mesmo quando começou

Lembro do momento em que senti 
o teu amor a vir numa onda enorme
para mim de tão longe
mas sempre tão perto
e o meu susto
a minha incredulidade 
o meu medo e maior temor

Às vezes o meu amor, que é como o vento,
baila com outras pessoas e as envolve
de uma tal forma que nunca dançou comigo
Mas é sempre breve e frenético rodopio
de fingidor que finge tão completamente
como um menino meio traquinas meio arisco
carregando o segredo mais secreto secretíssimo

Ele é a pedra que o meu vento faz rolar
Mas não sei se alguma vez ele vai-me amar.



Confuso

 Magoei-te no ombro Era Setembro Desespero Entendo Um não sonoro

Não há Passado, Presente nem Futuro.

Já tudo aconteceu,
é só um filme a que temos de assistir
o Presente consiste apenas nos ecos
de um Passado remoto
que aconteceu no Futuro.

(13.01.2021)

Vejo os olhos do horizonte e me perco Restou-me ir p'ra dentro E depois de perceber que p'ra ele afinal não sou o Sol como sempre Acabei ao relento

sábado, fevereiro 20, 2021

O cheiro da figueira...

 Houve uma figueira no nosso caminho
Frondosa que só ela
Tínhamos de passar roçando o corpo na vedação
trepando o montinho de areia e a íngreme elevação,
e aí se abria o mundo novo, só para nós os dois

Consigo lembrar a calidez no limite
O zumzum das libélulas que se encaixavam
todo aquele ar árido das dunas vazias
pontilhadas de espécies de verde velho

Eu já não sinto a calidez na pele
Não oiço o zumzum das libélulas
Nem a impositora folhagem e ramagem
Daquela rebelde figueira selvagem

Hoje o cheiro que tenho no corpo é de eau de figuier
naquele dia da semana que desde nova me foi sagrado
e ele é mais vibrante e vivaz do que alguma vez
o daquela imponente figueira foi
e da qual só um resquício jaz.

Tercetos de ti

 Tem em si o azul e o vermelho
Como  as cores do dia e da noite
raiando a tarde até se deitar

Veste a noite de mil tons,
a madrugada de todas as estrelas
e a aurora de nova esperança

Tem em si as metades da Lua;
Aquela que o Sol vê sempre nua
E a que está oculta e sempre escura

Amo o seu Sol e a sua Lua
Nesse amor maior que tudo e que nós
É um presente escondido pois somos sós

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

Perco o Sol

Perdi os dias
Perdi as pessoas

"Mas quem sou eu neste mundo louco?
Sou apenas mais um palhaço no teu carnaval,"
Aqui preso numa casa de sombras e dor,
Monge que fui, bobo da corte que sempre serei...

As horas passam e perco o Sol
os seus raios distantes não me alcançam
acho que é difícil debaixo das cobertas e do lençol
mas ele queima-me na mesma
mesmo à distância
está sempre a pairar sobre mim
e quando permito reconhecê-lo ele incendeia 
e tudo entra em combustão
vira quarta-feira de cinzas num segundo 

o seu segredo mais secreto secretíssimo
e o meu
jamais vêem a luz da aurora. 

sábado, fevereiro 13, 2021

Olhar-se ao Espelho

 Quando eras pequenina tinhas lábios de morango silvestre
depois, mais tarde, ficaste com boca de perfeito coração
e eu não vi o quanto cresceste
nem sei bem como foi que isso se deu.

Os teus cabelos eram caracóis angelicais
hoje quase nada são
e daqui a pouco não mais

A tua vida não andou para trás
Simplesmente ficou suspensa
num limbo de dia nublado
e de barco que anda à deriva sem cais

Quando eras pequenina sorrias mais
Eu sei que ainda és capaz
mas também sei que é tarde 
e que as eras que se entrelaçam
também são um grande nó que se desfaz.




sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Carnavaleiro

 A vida que ele ama
é de Carnaval, é de fera ferida,
e como não amar quem ama
a vida de boa forma tão desabrida

Porque ele contém o buraco negro
e as nebulosas como a de olho de tigre
e nada há de mais belo no mundo
quando ele fica de braços abertos
para todo o universo
e mais feliz do que a vida. 

Somos apenas os passistas na sua marcha
e todas as sambistas que caem em desgraça
porque depois do Carnaval o transe foi tal
que não sabem dar endereço de casa aos taxistas

Essa é a festa maior que a vida e que a morte
Esse é o entranhamento do azar com a sorte


(pq me inspirou ; e anteontem houve quem me perguntasse se eu tinha um poema sobre Carnaval, agora parece q já tenho algo sim... )



terça-feira, fevereiro 09, 2021

Do caos e da racionalidade

 O caos vem como tempestade
envolta em tornados de detritos,
As marés que eram de serenidade
vêem-se incriminadas por delitos
que são inomináveis
para o comum mortal

Não sei mais quem te elaborou
nessa formulação climática 
de langorosa intensidade
que penetra fundo e não larga

Há pouco, com uma dose de racionalidade
bem que tentei observar-te
fazer com que te dissipasses
e até pensei que tinha conseguido
quiçá um bom bocado para começar
Mas não.

Sinto agora o sono que tens
Assim como sinto a ansiedade que tiveste
e provavelmente amanhã começa tudo de novo

Sei que não fui feita para isto,
ou se fui foram-me erodindo 
de diamante a calhau
até restar apenas um conglomerado de rocha
que se desfaz quando há fricção.

Não sei quanto mais tempo isto durará
embora saiba que o que nos une 
é dito ser enquanto houver muita proximidade
mas também é feito de gigante materialidade
como a de que é feita o caos e a racionalidade.

 ... porque somos caos individuais, mas o que temos de uno é maior do que nós e é o mais belo infinito contido num raio cósmico de luz que atravessa o breu do buraco negro que nos suga neste universo...


não preciso de respirar, tu és o ar.

sexta-feira, janeiro 29, 2021

 Já não tenho paciência para filosofias,
vãs e tolas teorias rebuscadas numa pedra de carvão,
Nem sequer quero ter fôlego para uma discussão
Quero apenas o silêncio desértico que existe no meu peito
quero que ele grite acima de todo o ruído
e se transponha para reverberar em todos os objectos
e que vá além por todo o vácuo do universo.

Já chega de barulho. 
Já chega.
Obrigada.




terça-feira, janeiro 26, 2021

 

Só tu me tens na possibilidade do Ser, num ponto de encontro que transcende o Tempo Como se lado a lado estivéssemos no quentinho de uma cama de ambiente alvo, quase em posição fetal, Com a única certeza de finalmente pertencer (que nunca pudemos sentir antes) Sem existir mundo fisico lá fora porque sentimos a maior segurança a proteger-nos da fealdade do mundo e ele vergou-se e o seu caos dissipou-se na extensão do que existimos juntos. És o Amor massivo sem contornos, sem tamanho, tempo ou lugar.

 Quando a água,
o fogo
 e a alma jorram, 
nada as contém?


(publicado no insta, dps cheguei à conclusão que só o facto de jorrarem é porque nada as conteve, mas se no caso a água que lava a alma é que cria o fogo e a faz incinerar-se e puff, é tudo uma grande porcaria mesmo. lol)

quarta-feira, janeiro 20, 2021

...

 És a tempestade 

que não se formou

quando o vento te ameaçava

És a calmaria que ninguém guardou

porque ninguém te amava

E por isso podes serenar

porque sabes que vai acabar

A confusão que se aguardava.

O Tempo não é teu,

não o guardes 

dentro de ti.

Podes esperar o que é meu

Mas ninguém sabe o que eu vi.

São asas invisíveis

que voam no azul 

que sou dentro

E o abraço quente 

que me atravessa o tórax

sem nunca me tocar,

Movimentos impossíveis

que nunca se hão-de realizar.

sábado, janeiro 16, 2021

Não me lembro

 Não me lembro como era falar contigo horas ao telefone
nem sequer de todos os nomes carinhosos ou engraçados
que fomos chamando um ao outro nestes anos todos;

Não me lembro de como era o mapa de sinais nas tuas costas
e qual a espessura sempre grossa do teu cabelo ondulado
nem sequer da tua barba que me deixava o rosto em brasa;

Não me lembro como ficavas ainda mais belo com o pôr-do-sol
a banhar-te o corpo sempre dourado de Apolo do Mediterrâneo
e de como toda a população feminina ficava desnorteada ao ver-te;

Nem sequer me lembro da fome em que nos deixávamos 
só para nos devorarmos cosmicamente quando nos revíamos
e não lembro mesmo como era chegar perto do teu cheiro inebriante;

Os teus lábios polposos dessa tua boca que encerrava o mundo
e o teu olhar que continha o oceano inteiro em que eu me afogava
não me lembro deveras como eram os seus desenho perfeitos;

As tuas mãos que vi antes mesmo de te ver e a tua voz
que ficava ainda mais quente se bebesses uísque
realmente já não me lembro como eram calorosas;

E os teus braços que me açambarcavam e eram donos de mim
tal como as longas pernas de um ciclista que rodou o planeta
e nunca se cansou, não me lembro mais como se estiravam;

O teu ser físico e cerebral todo ele altivo e deificado
nessa personalidade a que ninguém resistia seguir
não me lembro de como era magnetizante para todos;

O amor que sentias e repartiste por nós sempre tímido
e toda a alegria imensa que geravas fazendo rir toda a gente
já não me lembro de como era tudo tão bonito;

Imagina se lembrasse?


(escrevo pq me esqueço)

sexta-feira, janeiro 15, 2021

Porque dói o "pisa-na-fulôr"...

Sou o corpo da tristeza, da doença, da solidão e da dor,
De todo o amor que me deram e que supostamente cura
afinal não era senão paixão,
De quem fui nina e rosa vermelha,
sempre pequenina,
Por isso há que conformar e parar de brigar,
a existência de destino aceitar que tristeza, doença e solidão são como outro fado qualquer.
Ser a maior fã do Amor, acreditar que ele é a maior força nos universos, não faz mal,
mesmo quando nunca se recebeu esse Amor e quando se é alérgico a flor.

quarta-feira, janeiro 13, 2021

O vago olhar penetrante

 O meu olhar vai de objecto em objecto
detendo-se em cada um deles
deixando a projecção do slide cinematográfico 
estampar-se na minha retina de peixe morto

Não luto mais por estar à tona de água
e as guelras estarem em lento fole
Apenas respiro como dá
sem o vento que me engole

É uma antropia que é autofagia
porque quem sou e o que perscruto
devora-me sem que me dê conta 
nem sequer esperneie 
como quem tem instinto de sobrevivência

Os olhos são só bússolas desmagnetizadas
não vorazes de conhecimento ou informação,
que vêem as mil formas e feitios
e não se compadecem de nenhum
nesse castigo que é a noite infindável. 


quarta-feira, janeiro 06, 2021

O Homem na Cidade

 Eu sou o homem na cidade, que no ocaso ensaia a dança e por amar a liberdade nunca deixa sufocar a criança.

Plantei estátuas pela cidade, durante os raios de luz solar, como quem semeia flores no meio do brutalismo do betão. Agora, quando chega a madrugada, as gotas de silêncio brilham na geada e, já depois, de manhã, colho o orvalho como se fossem as lágrimas que não chorei

segunda-feira, janeiro 04, 2021

 No quase silêncio da madrugada que começa eterna, diariamente, me ergo estátua da apatia desassossegada. Não pára, não quebra, continua no som contínuo, da vibração das fossas abissais dos universos. Não foram os sete anos no Tibete, mas sete anos de Addison, que me amarraram à condenação de ver auroras inalcançáveis, como Prometeu sem fogo.

O descanso não existe senão para os mortos.