Não sei se é longa a viagem, pois tudo se torna relativo quando comparado
e nada parece existir por si só, mas sinto com certeza
que tenho mais chão nos ombros do que debaixo dos pés
e que carrego mais poeira nos olhos do que nos ombros.
E nas minhas mãos tantas silhuetas, e nas suas palmas tantas cinzas de tantos corpos...
A vida é um sopro, perene, e todavia tem a intensidade do que arde
e se esfumaça, deixando às vezes microscópicas partículas para trás.
Custou a entender e talvez não tenha agarrado todo o significado
do que vi e vivi agora em poucos minutos que duraram muito mais do que isso
- perceber que o amor é apenas um sonho cinematográfico, mas de facto o mais doce a se ter.
sexta-feira, junho 27, 2014
sexta-feira, junho 13, 2014
Do apocalipse da humanização
É deplorável...
Pensar que agora as pessoas têm de competir com objectos e afins (smartphones, jogos, redes sociais, etc.) só para ter a atenção das pessoas. Não se passa de bestas zombificadas. Depois têm a lata de dizerem que estão muito ocupadas, quando precisamente dispondo de telemóvel bastam menos de 15 segundos para dar um toque, dar sinal de vida, a outra pessoa.
Há 15 anos atrás a maioria das pessoas não tinha telemóvel e eram todas mais humanas que isso nas suas (então verdadeiras) relações interpessoais.
Pensar que agora as pessoas têm de competir com objectos e afins (smartphones, jogos, redes sociais, etc.) só para ter a atenção das pessoas. Não se passa de bestas zombificadas. Depois têm a lata de dizerem que estão muito ocupadas, quando precisamente dispondo de telemóvel bastam menos de 15 segundos para dar um toque, dar sinal de vida, a outra pessoa.
Há 15 anos atrás a maioria das pessoas não tinha telemóvel e eram todas mais humanas que isso nas suas (então verdadeiras) relações interpessoais.
quinta-feira, maio 22, 2014
quarta-feira, maio 07, 2014
sexta-feira, maio 02, 2014
Irene, por Rodrigo Amarante
Saudade, eu te matei de fome
E tarde, eu te enterrei com a mágoa
Se hoje eu já não sei teu nome
Teu rosto nunca me deu trégua
Milagre seria não ver
No amor, essa flor perene
Que brota na lua negra
Que seca, mas nunca morre
Verdade, eu te cerquei de longe
E tarde, eu encostei no medo
Se ontem eu cantei teu nome
O eco já não morre cedo
Milagre seria não ter
O amor, essa rima breve
Que o brilho da lua cheia
Acorda de um sono leve
Irene
Irene ri
quarta-feira, abril 23, 2014
Intelectualidade e Moralidade São Incompatíveis, Fernando Pessoa (Barão de Teive), in "A Educação do Estóico"
Intelectualidade e Moralidade São IncompatíveisNão há maior tragédia do que a igual intensidade, na mesma alma ou no mesmo homem, do sentimento intelectual e do sentimento moral. Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral. Não sei que jogo ou ironia das coisas condena o homem à impossibilidade desta dualidade em grande. Por meu mal, ela dá-se em mim. Assim, por ter duas virtudes, nunca pude fazer nada de mim. Não foi o excesso de uma qualidade, mas o excesso de duas, que me matou para a vida.
Fernando Pessoa (Barão de Teive), in "A Educação do Estóico"
Fernando Pessoa (Barão de Teive), in "A Educação do Estóico"
segunda-feira, março 31, 2014
Juras de demora
Dizes que me vês no interior das tuas pálpebras,
pois eu falo contigo no interior dos meus lábios
e quando fecho as pálpebras vejo-te despido de nudez,
tão intransponível e coberto de véus de luz que me cega
e me deixa certa da divindade do teu ser.
Fazes-me juras de demora, pois é impossível passarmos
por tudo o que está selado nas nuvens de um reino invisível.
A minha voz vibra pelos raios de luz que emanas
e lembro que necessitas dos meus ouvidos para escutar
e do meu coração para sentir e eles sempre foram teus,
dia após dia por todos os dias das nossas vidas.
Preciso dos teus braços para sufocarem o desejo dos meus
e necessito da tua mente para cercear os meus maus pensamentos.
pois eu falo contigo no interior dos meus lábios
e quando fecho as pálpebras vejo-te despido de nudez,
tão intransponível e coberto de véus de luz que me cega
e me deixa certa da divindade do teu ser.
Fazes-me juras de demora, pois é impossível passarmos
por tudo o que está selado nas nuvens de um reino invisível.
A minha voz vibra pelos raios de luz que emanas
e lembro que necessitas dos meus ouvidos para escutar
e do meu coração para sentir e eles sempre foram teus,
dia após dia por todos os dias das nossas vidas.
Preciso dos teus braços para sufocarem o desejo dos meus
e necessito da tua mente para cercear os meus maus pensamentos.
sexta-feira, março 21, 2014
terça-feira, março 04, 2014
O sopro do amor renovado.
Amei-te com a força das preces de um negro que grita pela liberdade, enquanto está a ser açoitado pelos brancos-sujos de uma parda irmandade.
Vasculhas-me a mente com os dedos grossos da memória, dedilhando cada momento como quem procura num armário de ficheiros secretos empoeirados arquivados há milénios. Também recorres ao uso de luvas como quando se mexe em documentos antigos, mas as tuas luvas são feitas de um misto de hesitação e receio do que podes encontrar.
Não te esqueças que estavas lá comigo no princípio de tudo e também depois quando vieram as areias movediças do tempo abalar-nos o chão que pensámos termos firme debaixo dos pés. Não te esqueças que estavas lá, no fim de tudo, quando veio o redemoinho que nos evaporou pelo universo como pó estelar.
Assim é o nosso amor, espalhado aos quatro ventos, ganhada uma vida ainda maior, varrendo a Terra e cavalgando as ondas do mar. Pois nós dois somos um só conjunto de partículas esvoaçantes e o nosso amor semeia-se em todas as flores e fecunda todos os campos que a vista consegue alcançar. Floresce de novo, com mais vigor, esse coração que é uno tal qual a chuva e a terra quando sobrevivem à tempestade.
Vasculhas-me a mente com os dedos grossos da memória, dedilhando cada momento como quem procura num armário de ficheiros secretos empoeirados arquivados há milénios. Também recorres ao uso de luvas como quando se mexe em documentos antigos, mas as tuas luvas são feitas de um misto de hesitação e receio do que podes encontrar.
Não te esqueças que estavas lá comigo no princípio de tudo e também depois quando vieram as areias movediças do tempo abalar-nos o chão que pensámos termos firme debaixo dos pés. Não te esqueças que estavas lá, no fim de tudo, quando veio o redemoinho que nos evaporou pelo universo como pó estelar.
Assim é o nosso amor, espalhado aos quatro ventos, ganhada uma vida ainda maior, varrendo a Terra e cavalgando as ondas do mar. Pois nós dois somos um só conjunto de partículas esvoaçantes e o nosso amor semeia-se em todas as flores e fecunda todos os campos que a vista consegue alcançar. Floresce de novo, com mais vigor, esse coração que é uno tal qual a chuva e a terra quando sobrevivem à tempestade.
domingo, março 02, 2014
Arte
A Arte anuncia e denuncia
e é confissão e expiação
e não é tanta a parte que nos retrata
quanto a parte que nos maltrata
e muitas vezes nos tira a Razão.
A Arte é como amar-te
tem palavras e imagens
tem segredos e viagens
A Arte tem a sua própria paisagem
e o seu próprio pulsar no coração.
e é confissão e expiação
e não é tanta a parte que nos retrata
quanto a parte que nos maltrata
e muitas vezes nos tira a Razão.
A Arte é como amar-te
tem palavras e imagens
tem segredos e viagens
A Arte tem a sua própria paisagem
e o seu próprio pulsar no coração.
terça-feira, fevereiro 25, 2014
Esburacados
A vida é mesmo assim
triste e miserável
arranca-nos tudo
pouco a pouco
como um louco
que arranca os próprios cabelos.
As pessoas tumultuadas
pelos sulcos dos percalços
enlouquecem surdinamente
até que explodem estilhaços
das suas psiques
alevejando quem está por perto.
triste e miserável
arranca-nos tudo
pouco a pouco
como um louco
que arranca os próprios cabelos.
As pessoas tumultuadas
pelos sulcos dos percalços
enlouquecem surdinamente
até que explodem estilhaços
das suas psiques
alevejando quem está por perto.
domingo, fevereiro 16, 2014
Onde estão as árvores?
As viagens já não são as mesmas
e as paisagens já não são lesmas
que se arrastam pelo meu olhar
lânguidas para eu as saborear.
Incrivelmente já não há árvores
a encher-me a vista de ar puro
apenas selvas com mármores
que se erguem num cenário duro.
São erecções de betão armado
que destruíram toda a natureza
numa reprodução sem delicadeza
tornando tudo desfigurado.
e as paisagens já não são lesmas
que se arrastam pelo meu olhar
lânguidas para eu as saborear.
Incrivelmente já não há árvores
a encher-me a vista de ar puro
apenas selvas com mármores
que se erguem num cenário duro.
São erecções de betão armado
que destruíram toda a natureza
numa reprodução sem delicadeza
tornando tudo desfigurado.
segunda-feira, fevereiro 10, 2014
sexta-feira, fevereiro 07, 2014
Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
Fartei-me de poemas sobre nada e de gestos vazios de mãos cansadas e de mentes aborrecidas e aguadas.
A amargura é apenas um dos temperos da vida do qual não se deve abusar. Tal como se diz que o segredo para uma vida bem passada é uma dieta equilibrada...
Pois não quero mais esse nada que é o equilíbrio de uma linha recta que emite o ruído monótono da morte. Não quero mais essa mediania, esse passar bem e suposto bem-estar que não são nada, que não têm pulsar.
Chegam as cores que não o são, o preto, o branco e o mortiço cinza; eu quero é vermelho no sangue e no coração!
A amargura é apenas um dos temperos da vida do qual não se deve abusar. Tal como se diz que o segredo para uma vida bem passada é uma dieta equilibrada...
Pois não quero mais esse nada que é o equilíbrio de uma linha recta que emite o ruído monótono da morte. Não quero mais essa mediania, esse passar bem e suposto bem-estar que não são nada, que não têm pulsar.
Chegam as cores que não o são, o preto, o branco e o mortiço cinza; eu quero é vermelho no sangue e no coração!
terça-feira, fevereiro 04, 2014
Todos os dias vejo-te em todas as coisas de tantos tamanhos.
Penso em poder sonhar-te a sorrires e cuido do teu coração com carinho.
O Tempo totaliza o nosso namoro de séculos sozinhos e ósculos oscilam nas largas linhas do pensamento em par. Correspondemo-nos cautelosamente nuns chamados, cheios de sentimentos sincronizados e amamo-nos até um amanhecer de novo nos alcançar abraçados.
Penso em poder sonhar-te a sorrires e cuido do teu coração com carinho.
O Tempo totaliza o nosso namoro de séculos sozinhos e ósculos oscilam nas largas linhas do pensamento em par. Correspondemo-nos cautelosamente nuns chamados, cheios de sentimentos sincronizados e amamo-nos até um amanhecer de novo nos alcançar abraçados.
domingo, fevereiro 02, 2014
quinta-feira, janeiro 30, 2014
Helena (Len Inha)
Ela protege-se do desamor vestindo cores garridas... e baila ao sabor das marés e do vento, com a lua como acompanhante de dança sempre a brilhar no palco-chão de relva.
Helena não tem necessidade de ser deusa nem adorada ou ser solicitada por todos, mas ela é, porque ela irradia como o sol uma honestidade e autenticidade inatas, raras qualidades humanas.
Os anos passam, mas Helena não se detém na poeira do tempo e de raízes fortes ela permanece florescida e florescente.
Helena não tem necessidade de ser deusa nem adorada ou ser solicitada por todos, mas ela é, porque ela irradia como o sol uma honestidade e autenticidade inatas, raras qualidades humanas.
Os anos passam, mas Helena não se detém na poeira do tempo e de raízes fortes ela permanece florescida e florescente.
domingo, janeiro 26, 2014
Para quem está longe mas nunca está.
Quando se ama verdadeiramente,
por mais que a outra pessoa esteja do outro lado do Mundo,
ela está sempre colada à tua pele
e sentes o seu respirar mais intimamente
do que a brisa que te sopra gentilmente no rosto.
Ela é o invólucro do teu coração;
contém-nos e fá-lo existir.
por mais que a outra pessoa esteja do outro lado do Mundo,
ela está sempre colada à tua pele
e sentes o seu respirar mais intimamente
do que a brisa que te sopra gentilmente no rosto.
Ela é o invólucro do teu coração;
contém-nos e fá-lo existir.
Sem título
Nunca o vira com tamanhos olhos de ver. Talvez eu tenha chegado à idade e um certo acumular de experiência, que me permitiram enxergar como as coisas eram além do visível, do imediato, do que todos os outros em redor, em ambiente de festa, viam.
Ele pegou na bebé, como tinha pegado em tantos outros e fez as mesmas brincadeiras de sempre que resultavam em gargalhadas sonoras das crianças e em espanto de quem via como ele tinha tanto jeito com elas. No entanto, desta vez percebi que ao pegá-la e ao brincar com ela, ele tentava à força afastar todas as coisas más que lhe tinham acontecido; esperava - com a esperança de quem está há muito no deserto e precisa de encontrar água - que todas as memórias das suas dores e das suas mágoas se dissolvessem com a força do riso.
Eu, por outro lado, nunca consegui não ver que os bebés vêm para um mundo pejado de intolerância e massacre e que ninguém escapa ao sofrimento, e por isso olhava-os com a pena devida e merecida que lhes pertencia por serem, então, inocentes.
Quando se tem noção dos absurdos que existem ao longo da vida das pessoas, entende-se que não havendo qualquer sentido para todos esses aspectos não há grande coisa que se possa fazer. O próprio acto de se pegar num bebé torna-se indiferente para a engrenagem das coisas e não há que haver mais tristezas ou alegrias, pois ora tudo é, ora tudo não é e nós vivemos no meio disso, sem haver Norte possível.
Ele pegou na bebé, como tinha pegado em tantos outros e fez as mesmas brincadeiras de sempre que resultavam em gargalhadas sonoras das crianças e em espanto de quem via como ele tinha tanto jeito com elas. No entanto, desta vez percebi que ao pegá-la e ao brincar com ela, ele tentava à força afastar todas as coisas más que lhe tinham acontecido; esperava - com a esperança de quem está há muito no deserto e precisa de encontrar água - que todas as memórias das suas dores e das suas mágoas se dissolvessem com a força do riso.
Eu, por outro lado, nunca consegui não ver que os bebés vêm para um mundo pejado de intolerância e massacre e que ninguém escapa ao sofrimento, e por isso olhava-os com a pena devida e merecida que lhes pertencia por serem, então, inocentes.
Quando se tem noção dos absurdos que existem ao longo da vida das pessoas, entende-se que não havendo qualquer sentido para todos esses aspectos não há grande coisa que se possa fazer. O próprio acto de se pegar num bebé torna-se indiferente para a engrenagem das coisas e não há que haver mais tristezas ou alegrias, pois ora tudo é, ora tudo não é e nós vivemos no meio disso, sem haver Norte possível.
quarta-feira, janeiro 15, 2014
A redundância do final do tempo
A vontade azul que ninguém consegue mover
cristalizou-se em cume de glaciar
que ninguém consegue alcançar.
A vida de todos eles, envelhecidos,
materializou-se em sonhos perdidos
e deixou-se ficar em tempos idos
a que não mais se pode regressar.
Desejam-se promessas, esperanças, gargalhadas,
ao invés das lembranças desgarradas,
remorsos e arrependimentos
do que também não há-de mais chegar.
A vida já é breve
e o bater cansado do coração
anuncia-se leve
pronto para largar a mão.
cristalizou-se em cume de glaciar
que ninguém consegue alcançar.
A vida de todos eles, envelhecidos,
materializou-se em sonhos perdidos
e deixou-se ficar em tempos idos
a que não mais se pode regressar.
Desejam-se promessas, esperanças, gargalhadas,
ao invés das lembranças desgarradas,
remorsos e arrependimentos
do que também não há-de mais chegar.
A vida já é breve
e o bater cansado do coração
anuncia-se leve
pronto para largar a mão.
segunda-feira, janeiro 13, 2014
Quando aqui não estás, de Al Berto
Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador
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