sexta-feira, maio 29, 2026

Aquela ardente presença da ausência

 Houve durante anos aquela ardente presença da tua ausência. Crepitava em labaredas e incinerava o meu sossego a toda a hora. Não se podia negociar com ela. Impositiva e déspota sobre mim fazia com que a saudade me matasse, me corroesse por dentro. 

Fogacho, fogueira, de S. João, foguete, fogo no fogoso coração. "Não se esqueça de mim, não se esqueça de mim, não se afaste de mim, não brigue comigo", sussurava incessante à volta dos meus ouvidos. Bombardeava-me de ti se por acaso parecesse que estava a divergir finalmente. Não dava hipótese. Era guerra preemptiva. Uma sombra constante. Também na minha alegria. 

A mente era obrigada a regressar pelo mesmo caminho. De memória em memória. De história em história. Um balão vermelho assinalando os incêndios, voando livre e imperioso. Um cheiro, uma comida, um amor. 

Enquanto eu conseguir escrever, não estou perdida. 

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