Guardava a minha alma
de noite e de dia
jamais desviava seu olhar
da minha parda face
enquanto eu sucumbia
Mostrava a devoção dos fiéis
e o sacrifício dos crentes
e soubera eu do seu destino
jamais sussurado entre dentes
o cruel desatino da queda
O que me leva a cair
que me impeça de re-ascender
O que me leva a sorrir
que nunca se aparta de mim
Pois longe estamos no vento do tempo
e mais perto estamos de chegar;
já não somos quem éramos, penso,
embora saiba que não se deixa de ser quem é.
sexta-feira, novembro 23, 2012
quinta-feira, novembro 22, 2012
O frio do desamor
Hoje senti-o: o frio do colchão do desamor,
acordar face a uma parede rachada
sem ninguém ao lado
sem qualquer esperança de vida.
Por breves momentos, senti-o:
o rubor esmaecido de memória de outrora,
quando o amor era bandido
e roubava suspiros sem demora.
A madrugada levou os sonhos bons
e deixou o deserto da realidade.
O meu amor nunca acabará,
é impossível que deixe de existir,
pois está ligado ao meu coração
e enquanto ele bate o seu pulsar
deixa-o repousado em mim.
acordar face a uma parede rachada
sem ninguém ao lado
sem qualquer esperança de vida.
Por breves momentos, senti-o:
o rubor esmaecido de memória de outrora,
quando o amor era bandido
e roubava suspiros sem demora.
A madrugada levou os sonhos bons
e deixou o deserto da realidade.
O meu amor nunca acabará,
é impossível que deixe de existir,
pois está ligado ao meu coração
e enquanto ele bate o seu pulsar
deixa-o repousado em mim.
sábado, novembro 10, 2012
Auto-Imune
Sempre tive relações temporárias com o mundo
e soube apagar logo a informação desnecessária,
porém o que resta no hotel da memória
não é agradável de se habitar,
mas necessário para não se repetir.
Como se pudesse controlar totalmente!
O mundo lá fora corre e eu sossegada
no tumulto da minha prisão e ostracismo
como nenhuma outra jovem mulher
construiu a sua solidão e o seu pensamento.
No meu quarto, os 36 espelhos que já nada me gritam
apenas acompanham a minha inexistência
como espíritos inertes, estátuas de quem fui.
Transfiro a dor em palavras
que a expiam temporariamente,
mas quem as lesse todas,
não conseguiria ver um décimo de quem fui.
As muralhas que o meu corpo ergueu
não se comparam às fortificações consequentes na mente:
a auto-imunidade de quem morreu a cada batalha
e teve que à força da vida ressuscitar
para continuar a guerra.
Os pacíficos, idealistas, como eu,
nunca conseguiram sozinhos as suas vitórias,
mas o meu ser - ariete contra os obstáculos
- não teve claques ou guarnições de apoio;
a solidão foi a minha força, o meu templo e construção.
e soube apagar logo a informação desnecessária,
porém o que resta no hotel da memória
não é agradável de se habitar,
mas necessário para não se repetir.
Como se pudesse controlar totalmente!
O mundo lá fora corre e eu sossegada
no tumulto da minha prisão e ostracismo
como nenhuma outra jovem mulher
construiu a sua solidão e o seu pensamento.
No meu quarto, os 36 espelhos que já nada me gritam
apenas acompanham a minha inexistência
como espíritos inertes, estátuas de quem fui.
Transfiro a dor em palavras
que a expiam temporariamente,
mas quem as lesse todas,
não conseguiria ver um décimo de quem fui.
As muralhas que o meu corpo ergueu
não se comparam às fortificações consequentes na mente:
a auto-imunidade de quem morreu a cada batalha
e teve que à força da vida ressuscitar
para continuar a guerra.
Os pacíficos, idealistas, como eu,
nunca conseguiram sozinhos as suas vitórias,
mas o meu ser - ariete contra os obstáculos
- não teve claques ou guarnições de apoio;
a solidão foi a minha força, o meu templo e construção.
sexta-feira, outubro 19, 2012
Epitáfio de Portugal
Aqui jaz Portugal
cuja data de nascimento
e data de morte
não têm precisão tal
que haja discernimento
capaz de lhe ler a sorte.
Da fibra que teve
apenas reza que foi por necessidade
sem grande interesse no bem comum
à medida que a gente ferve
por causa da riqueza e da vaidade
de todos e mais algum.
Alimentação farta se concedeu
enquanto outros se contentavam
com bifanas, cervejas e tremoços
Sugaram-lhe o tutano no apogeu,
lambuzando os dedos olhavam
enquanto ficavam apenas os ossos.
Oh burocracia entrevada,
que nem numa cadeira de rodas é empurrada!
Dizimaram a Flora em prol do alcatrão,
não vêem que não chegam a lado nenhum
sempre só a cultivar o betão;
dizimam-se futuras colheitas
cimentando o pão às pessoas
que se vêem obrigadas
a abandonar a agropecuária
que nos séculos anteriores
tiveram no coração.
Não há lugar a elegias
ao moribundo país,
que acabou com as alegrias
de um povo que não lhe traz flores à campa.
Portugal, Portugal, que nas tuas próprias terras jogaste sal!
cuja data de nascimento
e data de morte
não têm precisão tal
que haja discernimento
capaz de lhe ler a sorte.
Da fibra que teve
apenas reza que foi por necessidade
sem grande interesse no bem comum
à medida que a gente ferve
por causa da riqueza e da vaidade
de todos e mais algum.
Alimentação farta se concedeu
enquanto outros se contentavam
com bifanas, cervejas e tremoços
Sugaram-lhe o tutano no apogeu,
lambuzando os dedos olhavam
enquanto ficavam apenas os ossos.
Oh burocracia entrevada,
que nem numa cadeira de rodas é empurrada!
Dizimaram a Flora em prol do alcatrão,
não vêem que não chegam a lado nenhum
sempre só a cultivar o betão;
dizimam-se futuras colheitas
cimentando o pão às pessoas
que se vêem obrigadas
a abandonar a agropecuária
que nos séculos anteriores
tiveram no coração.
Não há lugar a elegias
ao moribundo país,
que acabou com as alegrias
de um povo que não lhe traz flores à campa.
Portugal, Portugal, que nas tuas próprias terras jogaste sal!
domingo, outubro 14, 2012
Casino
Luzes langorosas
contrastam com o frenesim das salas
O piso alcatifado não ampara
os golpes de quem sucumbe ao vício
Hoje já não se vê o primor do vestuário,
circulam ténis néon apressados
à mesma velocidade de sapatos de verniz.
Há um misto de desespero, vergonha e ambição no ar:
uma expectativa diferente de quem quer ganhar.
E no meio de tudo um casal de idosos apaixonado
conta anos de casados na máquina da sorte.
O mundo gira tão veloz quanto a roleta
e o resultado para a maioria é sempre a perder,
à medida que o dinheiro muda de mãos
como numa prova de estafetas a correr.
contrastam com o frenesim das salas
O piso alcatifado não ampara
os golpes de quem sucumbe ao vício
Hoje já não se vê o primor do vestuário,
circulam ténis néon apressados
à mesma velocidade de sapatos de verniz.
Há um misto de desespero, vergonha e ambição no ar:
uma expectativa diferente de quem quer ganhar.
E no meio de tudo um casal de idosos apaixonado
conta anos de casados na máquina da sorte.
O mundo gira tão veloz quanto a roleta
e o resultado para a maioria é sempre a perder,
à medida que o dinheiro muda de mãos
como numa prova de estafetas a correr.
quarta-feira, outubro 10, 2012
Lambendo as tuas lágrimas de veludo azul
provo a Tristeza
e fico a conhecer o sabor da tua dor.
Eu estou aqui à tua espera
de braços abertos
vazios
como a terra que anseia pela água
que a faz ganhar vida.
Meu Amor. Meu Amado.
De quem eu sou amadora.
De quem eu sou amante.
Vem para mim
na cálida brisa
que faz ondular o meu cabelo
como se fosse um teu afago.
E faz de mim tua para sempre
ao baptizar-me com a luz que emana do teu coração.
Assim é o nosso Amor.
provo a Tristeza
e fico a conhecer o sabor da tua dor.
Eu estou aqui à tua espera
de braços abertos
vazios
como a terra que anseia pela água
que a faz ganhar vida.
Meu Amor. Meu Amado.
De quem eu sou amadora.
De quem eu sou amante.
Vem para mim
na cálida brisa
que faz ondular o meu cabelo
como se fosse um teu afago.
E faz de mim tua para sempre
ao baptizar-me com a luz que emana do teu coração.
Assim é o nosso Amor.
domingo, outubro 07, 2012
Mandamentos: "Não ser como ela"
- Não subjugar
- Não agredir
- Não mentir, enganar, ludibriar
- Não explorar e usar
- Não descarregar
- Não queixar
- Não se auto-vangloriar
- Não trair
- Não se auto-vitimizar
- Não magoar
- Não enervar
- Não esperar
- Não frustrar
- Não pisar
- Não impedir
- Não julgar
- Não criticar
- Não gritar
terça-feira, outubro 02, 2012
Para a Fernanda*
Um coração de oiro que irradia luz,
num corpo de deusa grega,
queimado ao sol mediterrânico,
tem esta mulher que nos seduz
e nos deslumbra mal chega,
acalmando todo o pânico.
Doce bálsamo, Fernanda, produz
ao nos presentear com a sua amizade.
Vejo a sua classe e a bondade
e aspiro ser como ela,
chegar aos calcanhares dela.
Sei que essa altivez é nobre
e está nos nossos corações
mesmo quando se encobre
momentaneamente de ilusões.
Porque sonhamos com a ilha dos prazeres
longe daqui e da gaiola
que nos aprisiona com dizeres
de quem nem sequer foi à escola.
E finalmente empilhamos essa espera
como jornais que acumulam pó,
mas avistam dias melhores
pois com Fernanda sinto-me menos só.
* À minha querida Fernanda, agradeço a amizade e o carinho. Obrigada por ser quem é e a única amiga que liga para saber de mim :)
num corpo de deusa grega,
queimado ao sol mediterrânico,
tem esta mulher que nos seduz
e nos deslumbra mal chega,
acalmando todo o pânico.
Doce bálsamo, Fernanda, produz
ao nos presentear com a sua amizade.
Vejo a sua classe e a bondade
e aspiro ser como ela,
chegar aos calcanhares dela.
Sei que essa altivez é nobre
e está nos nossos corações
mesmo quando se encobre
momentaneamente de ilusões.
Porque sonhamos com a ilha dos prazeres
longe daqui e da gaiola
que nos aprisiona com dizeres
de quem nem sequer foi à escola.
E finalmente empilhamos essa espera
como jornais que acumulam pó,
mas avistam dias melhores
pois com Fernanda sinto-me menos só.
* À minha querida Fernanda, agradeço a amizade e o carinho. Obrigada por ser quem é e a única amiga que liga para saber de mim :)
segunda-feira, outubro 01, 2012
E tudo desfalece
Tudo ficou de um azul-cinza claro
e na minha boca um travo amargo,
é o final de mais um dia no mundo
e a paisagem pontilhada de focos-laranja
anuncia o sentimento outonal do vento calmo.
Retalhei os fios de cabelo que choram à despedida
desfiam-se pelo chão durante estas semanas
porque estão cansados mas ainda anseiam renovação.
O renascimento que não vem,
o renascimento difícil,
a vida em pausa antes de um último esforço.
As andorinhas inexistentes e as cigarras caladas,
os ramos que estáticos murmuram algo ao vento
e eu não vejo qualquer esperança para o sol,
já não lhe vejo o alento.
Amanhã tudo estará igual em lento esmorecer
e depois disso também, um dia de vida
a equivaler um dia de morte,
como em todos os dias que ninguém vê.
Os focos-laranja artificiais parecem-me agora
de beleza extraordinária, como a dos pôr-de sóis
que vi outrora, com raios de luz mágica e moribunda,
mas que deixavam nos nossos corpos a sensação
de que renasceriam quais fénix, dia-após-dia,
para um espectáculo dissonante.
e na minha boca um travo amargo,
é o final de mais um dia no mundo
e a paisagem pontilhada de focos-laranja
anuncia o sentimento outonal do vento calmo.
Retalhei os fios de cabelo que choram à despedida
desfiam-se pelo chão durante estas semanas
porque estão cansados mas ainda anseiam renovação.
O renascimento que não vem,
o renascimento difícil,
a vida em pausa antes de um último esforço.
As andorinhas inexistentes e as cigarras caladas,
os ramos que estáticos murmuram algo ao vento
e eu não vejo qualquer esperança para o sol,
já não lhe vejo o alento.
Amanhã tudo estará igual em lento esmorecer
e depois disso também, um dia de vida
a equivaler um dia de morte,
como em todos os dias que ninguém vê.
Os focos-laranja artificiais parecem-me agora
de beleza extraordinária, como a dos pôr-de sóis
que vi outrora, com raios de luz mágica e moribunda,
mas que deixavam nos nossos corpos a sensação
de que renasceriam quais fénix, dia-após-dia,
para um espectáculo dissonante.
terça-feira, setembro 25, 2012
O nosso amor é mais do que possível
ao mesmo tempo que tem sido impossível
em todos os dias das nossas vidas.
Mas um dia, sentar-me-ei naquele mesmo banco de jardim,
em baixo daquela mesma árvore e tu estarás sentado ao meu lado.
E um dia eu estarei a olhar o rio e tu o mesmo ondular.
Um dia estarei naquela praia e tu a olhar o mesmo horizonte.
E nesse mesmo dia tu e eu estaremos a olhar um para o outro
no nosso leito, lado a lado, enquanto entardece.
ao mesmo tempo que tem sido impossível
em todos os dias das nossas vidas.
Mas um dia, sentar-me-ei naquele mesmo banco de jardim,
em baixo daquela mesma árvore e tu estarás sentado ao meu lado.
E um dia eu estarei a olhar o rio e tu o mesmo ondular.
Um dia estarei naquela praia e tu a olhar o mesmo horizonte.
E nesse mesmo dia tu e eu estaremos a olhar um para o outro
no nosso leito, lado a lado, enquanto entardece.
domingo, setembro 16, 2012
Vai-se andando
Supostamente somos animais civilizados
No entanto, todos os minutos das nossas vidas
são premiados com eventos selváticos
a que assistimos a partir dos nossos sofás
confortavelmente defronte à televisão.
Enquanto civilização devíamos aspirar
desenvolvermo-nos em paz e harmonia
procurando atingir a perfeição
considerando a humanidade como um todo.
No entanto, todos os minutos das nossas vidas
são premiados com eventos selváticos
a que assistimos a partir dos nossos sofás
confortavelmente defronte à televisão.
Enquanto civilização devíamos aspirar
desenvolvermo-nos em paz e harmonia
procurando atingir a perfeição
considerando a humanidade como um todo.
Porém, numa vida mormente curta
o indivíduo pejado de defeitos
vive a afundar-se num lodo
de movediças guerras e ódios.
Enquanto houver ganância
e o ser humano perpetuar imperfeições
nada poderá florir em calma
e semear a paz em todos os corações.
Sonhei com um mundo melhor
com pessoas melhores
e amei-os nessa ilusão doce
de quem vive amando.
o indivíduo pejado de defeitos
vive a afundar-se num lodo
de movediças guerras e ódios.
Enquanto houver ganância
e o ser humano perpetuar imperfeições
nada poderá florir em calma
e semear a paz em todos os corações.
Sonhei com um mundo melhor
com pessoas melhores
e amei-os nessa ilusão doce
de quem vive amando.
e ainda assim
toda a gente responde:
"vai-se andando".
quinta-feira, setembro 13, 2012
Tatuagem, por Chico Buarque
Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é prá te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...
E também prá me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...
Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...
E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço...
Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem...
Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...
Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes...
[Com Caetano Veloso: http://www.youtube.com/watch?v=TB6Cpy-X7A8]
terça-feira, setembro 04, 2012
Surfista sem prancha
Quatro horas da tarde e não me apetece muito...
não há água quente e a fria causa-me hipotermia.
Não sei se hoje vai aparecer alguém,
mas sei que não há ninguém.
Os Verões são cada vez mais longos,
cada vez mais incendiários,
mas não na minha vontade
que dispensa intermediários.
O sofá sempre disponível,
nem sempre confortável
e a isto se chegou
tão rápido quanto o mar secou.
Surfo em revistas, sítios e páginas,
vejo o horizonte com dois palmos e meio
e a reluzir minusculamente
porque já não há pôr-do-sol
ondas ou luar.
Na minha terra havia palmeiras a dançar
acompanhando o corpo mole
que bailava a cada passo na areia.
Assim são os surfistas sem prancha
românticos, idealistas,
lunáticos, existencialistas...
não há água quente e a fria causa-me hipotermia.
Não sei se hoje vai aparecer alguém,
mas sei que não há ninguém.
Os Verões são cada vez mais longos,
cada vez mais incendiários,
mas não na minha vontade
que dispensa intermediários.
O sofá sempre disponível,
nem sempre confortável
e a isto se chegou
tão rápido quanto o mar secou.
Surfo em revistas, sítios e páginas,
vejo o horizonte com dois palmos e meio
e a reluzir minusculamente
porque já não há pôr-do-sol
ondas ou luar.
Na minha terra havia palmeiras a dançar
acompanhando o corpo mole
que bailava a cada passo na areia.
Assim são os surfistas sem prancha
românticos, idealistas,
lunáticos, existencialistas...
terça-feira, agosto 28, 2012
A AMIZADE DAS PEDRAS
Num lindo dia de sol, todos os habitantes da Cidade das Pedras comemoravam a chegada da Primavera. O Rei Diamante tinha decretado que tinham o dia livre para se prepararem para a festa de celebração, que seria mais logo, à noitinha, à luz da lua cheia.
Quatro amigas, conhecidas por todo o Bairro das Opalas e bairros adjacentes – por serem filhas de quatro importantes famílias, que constituíam a Alta Nobreza da Cidade das Pedras –, preparavam-se, em casa de uma delas, para a grande festa, para a qual também tinham ajudado a organizar, um luau na praia, dirigido aos mais jovens, a fim de complementar o tradicional baile para os adultos, situado no centro da cidade.
As jovens adolescentes gostavam muito da sua cidade, da natureza e de animais; pelo que, sendo de famílias reais e conhecendo-se umas às outras desde muito novas, juntavam-se sempre na escola e em todos os sítios que frequentavam, ajudando a empreender várias actividades na cidade. Apesar de serem todas melhores amigas, a Jéssica Topázio e a Joana Esmeralda estavam sempre juntas, e a Carla Rubi andava mais frequentemente com a Joana Safira.
Nesse dia solarengo, a Jéssica ía usar um vestidinho branco, que contrastava bem com a sua pele e lhe dava um ar fresco e jovial; a Joana Esmeralda vestiria um conjunto esverdeado que a faria parecer mais adulta; a Carla Rubi trajava um vestido saia-calção de cor escarlate, muito prático; e a Joana Safira um vestido de alças, azul escuro, que dava bastante cor à palidez da sua pele e a deixava muito elegante. As quatro tinham dependurado uma flor no cabelo – símbolo primaveril e de união –, da cor de cada vestimenta. Quando, finalmente, foram andando para a festa, encontravam-se alegres e ansiosas: umas por irem comer umas guloseimas feitas à base de coral e micas doces, e outras porque íam ter a oportunidade de conhecer rapazes de outras escolas e, quiçá, dançar com um deles à luz do luar. Foram cumprimentar as famílias conhecidas; combinar as horas do reencontro para verem juntos o espectáculo final, de explosões de fogo magmático, antes de tornarem a casa; e se despedirem para irem para o luau para jovens.
Chegadas à praia, ainda mais eufóricas e já ruborizadas aquém dos círculos rosa-pastel da maquilhagem nas bochechas, deparam-se com um amigo da turma, o Márcio Pirite, que estava com um amigo que as quatro raparigas mal olharam e caíram logo de suspiros de micas doces; apaixonadas ora pelo seu sorriso, ora pelos seus olhos, ambos muito luminosos, espelhando as chamas da fogueira crepitante. A Carla e a Jéssica entreolharam-se e as Joanas para elas, e trocaram entre si impressões sobre aquele delfim que brilhava mais do que a lua cheia naquela praia. Rapidamente, Carla e Jéssica trataram de inquirir Márcio que se sentia sob ameaça perante a ansiedade das amigas. Ficaram ainda mais inquietas quando descobriram que ele era, afinal, o príncipe herdeiro, filho único do Rei Diamante, de seu nome Duarte, e que fizera 16 anos há poucos dias. A noite avançava e as quatro amigas desesperavam pela atenção do Príncipe. A pouco e pouco, elas começaram a discutir; primeiro, sobre quem é que o tinha visto primeiro e, depois, sobre para quem é que ele mais tinha olhado. Na verdade – que era, então, invisível para elas –, Duarte Diamante não estava muito interessado em olhar para as raparigas, pois era muito novo e queria era aproveitar aquela noite rara, de liberdade dos afazeres da Cidade que um dia, mais tarde, teria de governar, para ser apenas um adolescente, naquelas poucas horas.
Na festa da Primavera desse ano, as quatro amigas haviam iniciado aquilo que seriam dois anos de estragarem uma amizade de longa data e tudo por causa do belo jovem príncipe. As quatro adolescentes, quando regressaram ao baile dos adultos, já não eram as mesmas; já não íam juntas e alegres, e nem sequer se despediram do Inverno ao som dos estrondosos fogos, de braços dados, como faziam cheias de esperança a florir, desde que se lembravam de serem amigas.
Dois anos decorreram e nem a notícia de que Joana Safira estava com uma preocupante virose, erosiva no Verão, ou a boa-nova de que Carla Rubi era eleita a melhor jogadora de futebol feminino de todas as equipas da Cidade das Pedras, fez com que as quatro voltassem a se falar. Assim, apesar da imensa vontade que tinham de estar umas com as outras e que mantinham em segredo, orgulhosamente, ficaram dois anos: sem se falarem – apenas se olhavam e quando uma era apanhada a olhar, desviava os olhos imediatamente para não “dar o braço a torcer”; sem irem aos mesmos eventos – tentavam, mais tarde, saber das notícias por outras colegas; e sem disfrutarem das férias de Verão juntas – o que não estragava os planos do resto das quatro famílias, de as passarem juntas, como era habitual, na estância da Praia de Xisto, no grande solar marmóreo, herança secular para as famílias da Alta Nobreza.
Era chegada a época da hora do sol se pôr, amarelado; era o Outono a vir de mansinho, anunciava-se lá para o fim do mês, com as suas folhas de feldspato, caídas, a fazerem a passadeira real para o regresso dos alunos – pequenos príncipes do conhecimento –, às escolas.
Márcio Pirite, amigo de ferro, não queria saber de inimizades e confusões, especialmente entre as suas grandes amigas de infância, Carla Rubi e Jéssica Topázio; daí que, durante estes dois últimos anos, se tivesse mantido imparcial e reportasse a ambas tudo o que ía sabendo de Duarte Diamante, o príncipe sobejamente desejado por todas as jovens cujos corações não eram de pedra. Por ter assistido às competições entre as, outrora, melhores amigas – Jéssica, Carla e Joanas –, Márcio Pirite resolve combinar um encontro com as quatro para anunciar algo que as interessava de igual maneira. Márcio era um rapaz extremamente afável, tido pelos colegas como algo despistado e ingénuo, mas, desta vez, todos ficariam cientes de que ele tem vindo a crescer interiormente, mais do que os outros rapazes, tornando-se perspicaz – muito à custa das quatro amigas, agora mais inimigas – e um tanto sábio, no que dizia respeito a relações de amizade. Combinou com as quatro raparigas no Parque dos Géisers, pois sabia que, assim, elas viriam cada uma pelo seu caminho e não havia o risco de se encontrarem, senão já no centro do parque, onde Márcio as “emboscaria”. Entre as cinco horas e as cinco e um quarto, foram chegando, e Márcio explicou – pedindo paciência, às primeiras a chegar, Carla e Joana Safira – que tinha uma notícia muito importante para todas.
Finalmente, as amigas faziam as pazes, abraçando-se, e tudo porque Márcio Pirite fez-lhes o favor de lhes abrir os olhos: «O meu amigo Duarte já tem uma namorada; estão juntos há um mês inteiro e até estiveram uns dias das férias de Verão juntos; é a Cátia Quartzo! Enquanto vocês estiveram a perder as férias, já para não falar destes dois anos, ele já tinha escolhido outra princesa. Estragaram a vossa amizade para nada! Não vêem que os namorados passam e os amigos é que ficam?! Espero que tenham aprendido a lição, porque eu já não estou mais para vos aturar chateadas umas com as outras.»
As raparigas ouviram, atentas e depois cabisbaixas, tudo o que Márcio deitou cá para fora e apressaram-se a consolarem-se umas às outras, repetindo como tinham sido estúpidas e que nunca mais se separariam por semelhante insignificância.
O regresso à escola – com todos os outros colegas, surpresos, a seguir com o olhar as quatro jovens, de novo, amigas –, pareceu-lhes muito doce, enquanto, de braços dados, pisavam o tapete de folhas de feldspato e soltavam risinhos que se confundiam com o tiritar das folhas secas.
N.B.: Para variar um bocado, um conto infantil, dedicado à minha irmã Jéssica e aos seus amigos.
quarta-feira, agosto 22, 2012
![]() |
| coração feito com chumbos para espingarda de pressão de ar |
O coração pode ser um eterno caçador solitário,
ou uma freira pudica, ou até um tarado!
Mas quando o coração
é um idoso que olha para a sua cara-metade
com felicidade plena,
então aí temos a certeza de que o amor é certo,
confiável e verdadeiro.
O Passado está repleto de ontens
e o Futuro tem demasiados amanhãs
Por isso, só o hoje é tido em conta,
só o hoje nos abala como se não houvesse amanhã.
Eu sou forte, mas só de pensar em ficar sem ti
sucumbo como areia, num monte que apenas jaz
e se deixa extinguir lentamente pelos sussurros do vento.
Eu sou forte, mas sei que sem ti o meu coração deixa de pulsar
como acontece com a chama de uma vela
nos últimos instantes antes de se apagar
porque já se queimou todo o seu pavio.
e o Futuro tem demasiados amanhãs
Por isso, só o hoje é tido em conta,
só o hoje nos abala como se não houvesse amanhã.
Eu sou forte, mas só de pensar em ficar sem ti
sucumbo como areia, num monte que apenas jaz
e se deixa extinguir lentamente pelos sussurros do vento.
Eu sou forte, mas sei que sem ti o meu coração deixa de pulsar
como acontece com a chama de uma vela
nos últimos instantes antes de se apagar
porque já se queimou todo o seu pavio.
terça-feira, agosto 14, 2012
O som do Amor a partir-se
Visitámos o mel dos lugares paradisíacos e logo depois descemos aos infernos do sofrimento terreno.
O Amor que foi o certo do certo e o errado do errado, tudo mais e nada.
Já alguma vez ouviste o som do Amor a partir-se?
Com o peso das desilusões, de repente, ele se partiu. Inesperadamente.
Mas os cacos estão lá, como fósseis recentes, pó de estrelas cadentes, que agora não se erguem mais.
Incrivelmente, depois de tudo, ainda sinto falta do que tive de bom contigo. Infelizmente, apenas restam vestígios e reminiscências dolorosas que eu tento imediato afastar.
Estará sempre tudo bem, porque tem estado sempre tudo mal, por isso não faz mal... é só um coração despedaçado.
O Amor que foi o certo do certo e o errado do errado, tudo mais e nada.
Já alguma vez ouviste o som do Amor a partir-se?
Com o peso das desilusões, de repente, ele se partiu. Inesperadamente.
Mas os cacos estão lá, como fósseis recentes, pó de estrelas cadentes, que agora não se erguem mais.
Incrivelmente, depois de tudo, ainda sinto falta do que tive de bom contigo. Infelizmente, apenas restam vestígios e reminiscências dolorosas que eu tento imediato afastar.
Estará sempre tudo bem, porque tem estado sempre tudo mal, por isso não faz mal... é só um coração despedaçado.
terça-feira, agosto 07, 2012
Risco
Abalanças-te contra o vento,
sem qualquer pejo encarnas
toda a atmosfera do relento
sem que ardas nesse inferno
e repousas os pés no abismo
das falésias onde te enterro.
Hoje não és meu para guardar
não és mais quem se ajoelhou
aos meus pés virado do avesso
na direcção contrária de quem era para ser.
Escolhes a noite e ficas no momento
desde o seu tardio começo
até quando começou a entardecer.
sem qualquer pejo encarnas
toda a atmosfera do relento
sem que ardas nesse inferno
e repousas os pés no abismo
das falésias onde te enterro.
Hoje não és meu para guardar
não és mais quem se ajoelhou
aos meus pés virado do avesso
na direcção contrária de quem era para ser.
Escolhes a noite e ficas no momento
desde o seu tardio começo
até quando começou a entardecer.
sábado, junho 30, 2012
Matar ou morrer
Um rosto afundado nas brumas da tristeza,
que arrasta consigo um corpo vítima da gravidade,
esta, que com os seus braços lânguidos
severamente o castiga
condenando-o a arrastar-se pela Terra.
E de vez em vez, o ódio e a raiva como injecção letal
influem-se no corpo exangue
tomam conta dos braços agora entesados
e até os pés tendem a suplantar o corpo.
É nessas horas que se pode matar ou morrer.
É nesses momentos que o sibilo da víbora soa,
pérfido nos ouvidos, despertando as imagens
violentas e repetidas como ataques infligidos
à alma atormentada pelas memórias
do que nos fizeram.
E o que nos fizeram jamais sai de nós
e surge como em relâmpagos
repentinamente, sem aviso,
à menor escuridão no horizonte.
que arrasta consigo um corpo vítima da gravidade,
esta, que com os seus braços lânguidos
severamente o castiga
condenando-o a arrastar-se pela Terra.
E de vez em vez, o ódio e a raiva como injecção letal
influem-se no corpo exangue
tomam conta dos braços agora entesados
e até os pés tendem a suplantar o corpo.
É nessas horas que se pode matar ou morrer.
É nesses momentos que o sibilo da víbora soa,
pérfido nos ouvidos, despertando as imagens
violentas e repetidas como ataques infligidos
à alma atormentada pelas memórias
do que nos fizeram.
E o que nos fizeram jamais sai de nós
e surge como em relâmpagos
repentinamente, sem aviso,
à menor escuridão no horizonte.
terça-feira, junho 19, 2012
Não há diferença
As minhas mãos não estão muito diferentes
de quando te deixei no quarto escuro
com a penumbra a envolver-te o corpo
mas não fui capaz e voltei a ver-te.
Os meus cabelos não estão muito diferentes
de quando passeávamos de mãos dadas
e o vento os percorria como invisíveis dedos,
mas não fui capaz de derrotar os velhos medos.
O meu rosto não está muito diferente
de quando visitavas as memórias doces e amargas
apenas de olhá-lo nos olhos
mas não fui capaz e reduzi-as a escolhos.
O meu corpo não está muito diferente
de quando te deitavas a meu lado
e mo acariciavas durante lânguido tempo
mas não fui capaz e perdi o momento.
de quando te deixei no quarto escuro
com a penumbra a envolver-te o corpo
mas não fui capaz e voltei a ver-te.
Os meus cabelos não estão muito diferentes
de quando passeávamos de mãos dadas
e o vento os percorria como invisíveis dedos,
mas não fui capaz de derrotar os velhos medos.
O meu rosto não está muito diferente
de quando visitavas as memórias doces e amargas
apenas de olhá-lo nos olhos
mas não fui capaz e reduzi-as a escolhos.
O meu corpo não está muito diferente
de quando te deitavas a meu lado
e mo acariciavas durante lânguido tempo
mas não fui capaz e perdi o momento.
quarta-feira, junho 13, 2012
Acredito que alguns de nós somos mais tudo aquilo que aconteceu antes de virmos ao mundo, todas as histórias que as pessoas que nasceram antes de nós viveram, do que propriamente o que nos acontece depois de existirmos.
É como com os cabelos brancos, que quando caem, ou são arrancados, já tinham outros cabelos à espera de crescerem no lugar deles. Somos essa rede, mais ou menos desgrenhada, esse emaranhado de cabelos, que gradualmente envelhece e decai para dar lugar aos novos.
É como com os cabelos brancos, que quando caem, ou são arrancados, já tinham outros cabelos à espera de crescerem no lugar deles. Somos essa rede, mais ou menos desgrenhada, esse emaranhado de cabelos, que gradualmente envelhece e decai para dar lugar aos novos.
domingo, junho 10, 2012
Perspectiva
Podemos ter opinião sobre várias matérias sem termos lido sobre elas, porém só obtemos perspectiva quando nos informamos sobre o que várias outras pessoas dizem essas várias matérias.
Aí podemos juntar a nossa visão ao conglomerado opinionista apesar de não valer em nada para a matéria em questão.
quinta-feira, junho 07, 2012
” Não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente”
Krishnamurti
Por isso é que... enfim... para mim é óbvio e não entendo como é que as pessoas não vêem em que Mundo é que estamos, que Mundo criámos e aquilo em que nos tornámos.
Ligado a isto: http://crypticpoetry.blogspot.pt/2012/04/reasons-by-images-to-not-have-children.html
Krishnamurti
Por isso é que... enfim... para mim é óbvio e não entendo como é que as pessoas não vêem em que Mundo é que estamos, que Mundo criámos e aquilo em que nos tornámos.
Ligado a isto: http://crypticpoetry.blogspot.pt/2012/04/reasons-by-images-to-not-have-children.html
terça-feira, junho 05, 2012
Psico-traumatismo
Proferia ameaças embebidas em álcool, infantilidade, pura estupidez humana...
De certa vez, sempre em descontrolo e em absoluta falta de senso, abriu a porta do carro e saiu... estava o carro a 90 kms à hora pela avenida da liberdade... irónico, não? Mas não era aquilo liberdade, mas antes um acto completamente prisioneiro de um desespero agreste, típico da frustração humana acumulada durante décadas.
Doutra vez, recordo-me da imagem, bebeu álcool etílico, não sei bem porquê, confesso. Mas imagino que a quantidade não tenha sido muita.
Houve uma outra vez, num tempo mais antigo, em que eu consigo até visualizar-me fora do meu corpo pequeno, e vi, uma das muitas vezes que se seguiriam, sair a dizer que se ia matar. Usava sempre este termo e nunca que se ía suicidar. Imagino que este último seja demasiado sofisticado para quem profere esse tipo de coisas.
O amor que supostamente é incondicional e que pensamos nunca ter fim perde-se com o acumular de desiludidas ameaças. Suponho eu.
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