sexta-feira, outubro 23, 2020

 Não há necessidade em perscrutar o miolo do Mundo

Nem tanto buscar incessantemente o seu sentido

Tudo mudou e em constante mutação seguirá

Apenas para permanecer o que sempre foi:

um nada aparentando estar cheio de tudo.

  Os dias têm passado com o céu indiferente à sua seminal dor e ao nosso filial inferno, o que me faz questionar também se o facto de não conseguir sentir o que sente, como se estivesse num limbo, quer reforçar essa desesperadora ideia de que é agora apenas fantasma, sem se poder sentir nem se sentir que já não existe. Nossa amada heroína, mulher mais forte e corajosa, que até a vida conseguiu com a sua nefasta força devastar até mais nada restar e mesmo assim não ter a bênção da morte. É, parece que estamos congelados, nós os dois, filhos amados, à espera de quem já não vem.

 Não te esqueças de te lembrar (é bem simples):

1. Não partir sem segurar uma peónia na concha das tuas mãos, embora sejas alérgica a flores;
2. Não perecer fatalmente sem mergulhar uma última vez no mar e ficar para assistir o pôr-do-sol e depois as estrelas;
3. Não se extinguir antes de recordar que tudo o que querias fazer e dizer do amor por todos disseste.

 Lábios de romã carmim, puro afã de arlequim, símbolo da fertilidade, do amor, da beleza, da sensualidade e da riqueza; quando há vida e sangue, depois do ódio e do corpo exangue, esses grãos dessa imperial orbe cujo sumo luxuriante trago de um só gole; tornando-me imortal num ser que eternamente morre.

 A vida em suspenso, como nuvens espaçadas e vãs, pois também elas são passageiras nesse céu imenso de mar, luz e escuridão. São resquícios de sobreviventes que somos, herdeiros do sangue de quem viveu guerras territoriais, de quem carrega a alma da vitoriosa revolução e da exangue derrota. Por isso, vagueamos ainda na criação, mostrando que a resistência da fênix é cíclica ad aeternum e a inspiração é toda ela a importância em si no Amor e na Luta.

(dps de ter ouvido a live de conversa entre Michael Meyson e Pedro Keiner e de como antecessores são sobreviventes de repressões contra povo índigena e povo judeu; essa identificação de como somos irmãos nisso tb)

sexta-feira, setembro 18, 2020

 O chão quebrado, no momento em que a terra tremeu, fez-te tropeçar, altivo com os teus dois metros, não estavas habituado a tudo o que ele sofreu;


Como as asas frágeis do amor, vi hoje uma gaivota a voar pelo subúrbio, um tanto longe do mar e fez-me pena estares tão perto e não te poder abraçar;

Sei que agora, como nunca, é certo que irás perder o teu ninho e que ele já definha perante o nosso olhar;

Mas sei que o cancro que se espalha por ele não te pode fazer naufragar;

Pois podem os prédios ruir, o céu se abrir, a terra se partir e a natureza falir, que teremos sempre a memória de um dia os nossos três corações terem sido porto de abrigo ao luar.

terça-feira, setembro 15, 2020

Infinito de nós

Ah se fôssemos todas as coincidências e todas as sincronicidades
Para não deixar mais que a lua nos cegue!
A nossa existência não passava dos primórdios
De ser água: riacho que brinca, mar que se agita e oceano que brilha,
A tua sombra na minha sombra
A tua luz na minha luz
Os teus olhos de mar o azul da minha alma
E todos os meus sonhos
Haviam de desfazer a eterna neblina...

quinta-feira, agosto 13, 2020

 A seda coral do papel com que embrulhei o teu presente e dei na concha da tua mão para que pudesses levar-me contigo e nunca me sentires ausente 


como te disse que o fim e o eventual entremeio são a única certeza na vida e que podes então nunca deixar nada por dizer até à despedida 


e quando for próximo o adeus dá-lhe a gratidão num abraço e num beijo por mim, pois afinal o maior presente dela também foi para mim. 

sábado, julho 18, 2020

 ...
É urgente a arte para não se falecer da realidade. São por isso urgentes os artistas; os que têm mais vida dentro do que a própria vida; os que têm sonhos maiores que o mundo conhecido; os que são tudo menos banais; os que não se ajustam a uma sociedade doente e fétida alimentando as rodinhas de hamster na engrenagem formal do Homem.

quinta-feira, julho 09, 2020

Quando o sonho é uma lembrança do que já aconteceu, é apenas o desejo manifestando a saudade e nostalgia do que se viveu.

segunda-feira, junho 15, 2020

Luto pelos índios, luto pela Amazonia

 Ouvir pelo tímpano do Mundo e escutar pelas difusas ondas sonoras a melancolia dos raios de sol por detrás das nuvens opacas... e não conseguir respirar pelos pulmões das florestas, pois onde elas gritavam, agora mal conseguem sussurar... Apenas restam pássaros em vôos rasantes desesperados que só são iluminados pelo luar.

quarta-feira, junho 10, 2020

A penumbra no teu corpo
é o que os meus olhos deslumbra
e  o que causa a ignição da chama
que arde invisível dentro da alma e do coração..
Pois és tu a noite eterna em que quero adormecer.

quinta-feira, maio 28, 2020

Amazonas

Lágrimas translúcidas no rosto opaco, a verdade cobarde à espreita, a terra vermelha e o céu negro, pois parece que de facto sempre era tarde para acabar com o pesadelo. São ciclones e tornados que convexos ressurgem ciclicamente no céu e no mar, que nunca te deixaram ter um dia para descansar. O que transcende tudo e está na origem de tudo o que é invisível, o princípio da matéria e anti-matéria, e o que está entre elas, não chega para nada na derradeira coisa vã.
Desabrocharam à flor da pele os sentimentos, púrpura mas não rosa nem do Cairo, continuou a exalar os seus perfumes hipnóticos, invisíveis para os que nunca sentiram, tal como os que nunca saberão como é a cor púrpura pois, desde que nasceram, os seus olhos jamais as cores viram.

sexta-feira, maio 01, 2020

O Homem-Tracejado

O Homem-Tracejado é uma cápsula frágil sem limites desenhados,  resultado de uma vida inteira de violência doméstica, ele permanece desconhecido de si mesmo porque apesar de manter a sua essência ele está sempre em constante mutação e adaptação. Ele vive num inferno de existência que volta e meia fica ainda mais infernal. Permeável pelo seu tracejado, ele observa o Mundo e é infectado por ele.

Por ser dotado de uma lucidez maior que os demais, o Homem-Tracejado, visionário, é considerado louco pelos demais. Todos o querem queimar na fogueira das invejas e da mesquinhez deles. Desde os primórdios que assim é. À semelhança de Galileu, também o Homem-Tracejado ousou olhar para o infinito desde infante.

Pela clarividência e transparência do Homem-Tracejado, absorve e reflecte como espelho cru e o mais verdadeiro do que o rodeia e que, por isso, é abominado pelos demais.

O Homem-Tracejado está condenado a jamais ser de contornos fechados. Não sei se há algo a fazer para que isso um dia mude nele, já que o Mundo dos demais nunca mudará.

 ... E assim de repente, tudo vazio, com a perspectiva oblíqua do vento frio sempre disfarçado pelo azul do céu.

sexta-feira, abril 03, 2020

As paredes rachadas

Apercebo-me das paredes rachadas, não sei se foi das mil obras no prédio intermináveis ou se apenas encerram todas as torturas passadas e repassadas no decorrer de quatro décadas.

Contava os dias para te ver...
Olhando sempre para estas mesmas paredes prisioneiras da minha alma.
Entretanto perfizeram-se seis anos que os nossos lábios se separaram.

E no entanto, sinto tudo teu, sem palavras, sinto tanto
Mas nada chega para chegar até ti.

E saber que também tu sentes tanto é ouvir o rachar das paredes do meu coração.

quarta-feira, abril 01, 2020

Passo a passo a meu lado.

Passo a passo, desfaço os nós do laço da vida,
os que todos fizeram por mim de forma indevida,

....

de todos que senti a meu lado, apenas do teu senti paz. 

segunda-feira, outubro 14, 2019

Pobre de quem não tem memórias, ou diz que nunca se lembra do passado, porque não quer, porque diz que só lhe interessa o futuro, seguir em frente a todo o custo, na fuga frenética da roda da vida, negando o simples facto de que todo o futuro é feito de passado e também um dia terá passado; pois não sabe quem é, não tem história nem construção; não sabe o que é ser transportado para uma feliz ida à praia de um passado verão quente apenas pelo doce cheiro que exala de uma figueira. Nem tanto o furioso som da tempestade, pois esse só transporta quem conhece a força do que foi enfrentá-la de peito aberto. A experiência, as alegrias, as lições que se retiram... E mais flagrante que tudo, não saberá o que é ser a todo o instante feliz independentemente do momento presente.

quarta-feira, dezembro 26, 2018

Da morte da poesia

Faltam-me as metáforas, as personalizações, as melopeias,
Só sobraram as elipses e os sempre presentes pleonasmos.
Já não há ribombares de pétalas nem aliterações,
nem muito menos hipérbatos ou repetições.

Nunca mais vi um pôr-do-sol,
Sequer tenho escrito sonetos
Assim como não tenho
carícias ternurentas
ou abraços desempoeirados.

A janela está baça,
esqueci-me da última vez que a olhei
e a luz atravessava a vidraça
aquecendo-me o coração.

São mil poemas e versos que se foram
verdades cinzentas de toda a incerteza
letras e palavras que se escapuliram
líquidas passando a gasosas
evaporando-se na escuridão.

Memento mori

A forma mais absoluta de realmente se viver é saber e ter consciência de que estamos prestes a morrer a qualquer instante. 

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Ela saiu para a noite com as pinturas de guerra
Viajou pelas luzes das ruas incandescentes
Quando entrou num bar e se sentou
Aquele era sempre o seu lugar
Ele chegou depois, já bem tarde.

As pinturas de guerra transformaram-se em doçura
que derretia ao aumentar entre os dois a ternura

Saboreei a história a acontecer,
seguindo-a como quem caça uma presa,
procurando tocar o que não era de todo meu.

Ela e ele eram apenas duas personagens
que no meu sonho eu fui encontrar
e que por instantes
deram-me toda a paixão de um olhar.

terça-feira, novembro 27, 2018

Se antes tive poalha nas digitais,
hoje percebo que é da matéria do meu coração,
da substância desfeita, que nem liofilizada é creio,
negra como cinzas do carvão resultante da lenta mas irremediável combustão.

Nunca fui de me curvar perante a verborreia vácua das narrativas forçadas,
tal como sempre reneguei toda a autoridade que se quis impor,
não fiz senão questionar tudo porque tudo é inexistente enquanto absoluto,
provavelmente até o amor que sempre tive como maior do que tudo.

E se parece que em todas as matérias me dei por remediada,
conformada jamais estive com a sua existência que causa dor,
apenas foi tudo porque deixada pelo meio
já que a destruição foi maior e demais.

quinta-feira, novembro 22, 2018

Zinha

Os anos passaram, as crianças cresceram e perderam o seu fulgor, já não são quem eram, mudaram tanto que já ninguém as lembra como ainda iguais.

Mas há uma, no entanto, que eu reconheço a candura dos lisos cabelos negros e doces sorrisos que a fazem tão ingénua como sempre foi. É, por isso, a mais bela das crianças que já não o são, é singela criatura dos vento e do prado verdejante, da lagoa e do jardim, é todo o campo de flores alvas que nunca foram desfolhadas para um mal-me-quer.

Ela é o milagre do trevo de quatro folhas numa inteira e imensa extensão de trevos. E eu ainda sorrio quando penso como ela era e como ela é.

quinta-feira, novembro 08, 2018

E no meio de tantos invernos e depois de todas as tempestades que sempre me visitam, aprendi que existe um verão sempre enterrado dentro de mim.