terça-feira, novembro 10, 2020

Depois de tudo quase nada?

 Queria amar-te despido de ti mesmo,
sem as máscaras atractivas letais
para a honestidade e a genuinidade;  
sem a violência de gestos banais,
escolhas que me são sempre cruéis;
...

Mas, no final, o que ficaria de ti?

segunda-feira, novembro 09, 2020

Gabriel

 Já ouvia a música com o teu nome
anos antes de sequer ouvir falar de ti;
Nela, eras anjo e eu chorava copiosamente
dentro do carro, apoiada no volante
e, em loop, todas as memórias que perdi.

Um dia, apareceste para mim como se fosses de outra época,
um tal mosqueteiro do amor, saído do romance de Dumas,
e eu feito Séneca, deixei-me arrastar seguindo atrás...

Falas-me de estar entre as nuvens e o chão,
Falas-me de mundos ínfimos num gelado coração
E eu já não sei se és a criança que nunca chegou a viver,
Aquela que era para ser o filho do meu melhor amigo,
Um anjinho que se perdeu...

Faz-me confusão maior no meu cérebro doente
Viver assim agora tão convosco e contente
Pois sei que será mais alguém belo que deixará
Um vazio no meu peito quando ao mundo regressará

Mas sei que tudo é assim fugaz
A lição de que ainda não me convenci
Mas por enquanto tenho a tua voz de paz
Para me aquietar sempre quando não dormi. 

(Da InSónia para o amigo Gabriel de Almeida Prado; pq "n há maior prazer do que rever velhos amigos, senão o de fazer um novo" <3 )


terça-feira, outubro 27, 2020

poemazito da água

 Preciso fazer as pazes com a água

porque dentro da cabeça o ciclone

não pára

e dentro do peito o tornado 

desfaz tudo

e dos olhos trombas de águas saem

inundando o coração 

afogando-o

sufocando-o

até que a pouca capacidade pulmonar 

seja nenhuma.


Será que a água me perdoa 

e lava todo esse sentimento de dentro de mim? 


Não sei porque o coração ficou tão encardido de ti

São já muitos anos que te quero fora de mim

Mas o tempo não é meu amigo

E a água agora também não.


segunda-feira, outubro 26, 2020

Morreste, minha "mais que mãe"...

 Fico sem saber o que fazer, meio suspensa, congelada

Como se estivesse presa numa teia de aranha feita à minha medida

E pressionada, espalmada,

a barriga no chão comprimida

e ainda com a dor de um soco no estômago

esse âmago da dor.


Vejo-te em todos os objectos que me deste e nos que não foram teus,

em todas as loiças e coisas de vestir,

quebro, grito, mas por mais que não mais me oiças,

não cessa o meu carpir.


Sei que eras a mais dourada das flores

Que te vestias com mil cores

E que contigo não havia tristeza ou dores,

Por isso tento ao máximo levantar-me com destreza,

Mas pensar que faltou muito de beleza

Para juntos os três vivermos

Só me dá raiva da injustiça

Nesta vida que só nos lixa.

sexta-feira, outubro 23, 2020

 Sou céu. Vislumbrei os traços de Anabela; aquele seu manto diáfano do que ela é, do que não é e de quem ela procurava ser. Ontem, quando lhe disse que ela tinha muitas amigas, "é bom, nomeadamente aquelas duas mais próximas, com quem podia falar", ela disse-me "mas tu és especial, é diferente, quando raramente me abro é só mesmo contigo". Pensei logo que me dizia isso só por ser ontem, por eu ter dado mais uma volta ao Sol, mas ela disse que não, que eu sabia como ela era. Sim, sei, sempre soube, pois ela, assim como o irmão dela e outras minhas crianças do coração azul, brincando da Terra verdejante com as minhas nuvens, arco-íris e estrelas do dia, também são pedaços de mim, sempre foram e sempre serão.

 Não há necessidade em perscrutar o miolo do Mundo

Nem tanto buscar incessantemente o seu sentido

Tudo mudou e em constante mutação seguirá

Apenas para permanecer o que sempre foi:

um nada aparentando estar cheio de tudo.

  Os dias têm passado com o céu indiferente à sua seminal dor e ao nosso filial inferno, o que me faz questionar também se o facto de não conseguir sentir o que sente, como se estivesse num limbo, quer reforçar essa desesperadora ideia de que é agora apenas fantasma, sem se poder sentir nem se sentir que já não existe. Nossa amada heroína, mulher mais forte e corajosa, que até a vida conseguiu com a sua nefasta força devastar até mais nada restar e mesmo assim não ter a bênção da morte. É, parece que estamos congelados, nós os dois, filhos amados, à espera de quem já não vem.

 Não te esqueças de te lembrar (é bem simples):

1. Não partir sem segurar uma peónia na concha das tuas mãos, embora sejas alérgica a flores;
2. Não perecer fatalmente sem mergulhar uma última vez no mar e ficar para assistir o pôr-do-sol e depois as estrelas;
3. Não se extinguir antes de recordar que tudo o que querias fazer e dizer do amor por todos disseste.

 Lábios de romã carmim, puro afã de arlequim, símbolo da fertilidade, do amor, da beleza, da sensualidade e da riqueza; quando há vida e sangue, depois do ódio e do corpo exangue, esses grãos dessa imperial orbe cujo sumo luxuriante trago de um só gole; tornando-me imortal num ser que eternamente morre.

 A vida em suspenso, como nuvens espaçadas e vãs, pois também elas são passageiras nesse céu imenso de mar, luz e escuridão. São resquícios de sobreviventes que somos, herdeiros do sangue de quem viveu guerras territoriais, de quem carrega a alma da vitoriosa revolução e da exangue derrota. Por isso, vagueamos ainda na criação, mostrando que a resistência da fênix é cíclica ad aeternum e a inspiração é toda ela a importância em si no Amor e na Luta.

(dps de ter ouvido a live de conversa entre Michael Meyson e Pedro Keiner e de como antecessores são sobreviventes de repressões contra povo índigena e povo judeu; essa identificação de como somos irmãos nisso tb)

sexta-feira, setembro 18, 2020

 O chão quebrado, no momento em que a terra tremeu, fez-te tropeçar, altivo com os teus dois metros, não estavas habituado a tudo o que ele sofreu;


Como as asas frágeis do amor, vi hoje uma gaivota a voar pelo subúrbio, um tanto longe do mar e fez-me pena estares tão perto e não te poder abraçar;

Sei que agora, como nunca, é certo que irás perder o teu ninho e que ele já definha perante o nosso olhar;

Mas sei que o cancro que se espalha por ele não te pode fazer naufragar;

Pois podem os prédios ruir, o céu se abrir, a terra se partir e a natureza falir, que teremos sempre a memória de um dia os nossos três corações terem sido porto de abrigo ao luar.

terça-feira, setembro 15, 2020

Infinito de nós

Ah se fôssemos todas as coincidências e todas as sincronicidades
Para não deixar mais que a lua nos cegue!
A nossa existência não passava dos primórdios
De ser água: riacho que brinca, mar que se agita e oceano que brilha,
A tua sombra na minha sombra
A tua luz na minha luz
Os teus olhos de mar o azul da minha alma
E todos os meus sonhos
Haviam de desfazer a eterna neblina...

quinta-feira, agosto 13, 2020

 A seda coral do papel com que embrulhei o teu presente e dei na concha da tua mão para que pudesses levar-me contigo e nunca me sentires ausente 


como te disse que o fim e o eventual entremeio são a única certeza na vida e que podes então nunca deixar nada por dizer até à despedida 


e quando for próximo o adeus dá-lhe a gratidão num abraço e num beijo por mim, pois afinal o maior presente dela também foi para mim. 

sábado, julho 18, 2020

 ...
É urgente a arte para não se falecer da realidade. São por isso urgentes os artistas; os que têm mais vida dentro do que a própria vida; os que têm sonhos maiores que o mundo conhecido; os que são tudo menos banais; os que não se ajustam a uma sociedade doente e fétida alimentando as rodinhas de hamster na engrenagem formal do Homem.

quinta-feira, julho 09, 2020

Quando o sonho é uma lembrança do que já aconteceu, é apenas o desejo manifestando a saudade e nostalgia do que se viveu.

segunda-feira, junho 15, 2020

Luto pelos índios, luto pela Amazonia

 Ouvir pelo tímpano do Mundo e escutar pelas difusas ondas sonoras a melancolia dos raios de sol por detrás das nuvens opacas... e não conseguir respirar pelos pulmões das florestas, pois onde elas gritavam, agora mal conseguem sussurar... Apenas restam pássaros em vôos rasantes desesperados que só são iluminados pelo luar.

quarta-feira, junho 10, 2020

A penumbra no teu corpo
é o que os meus olhos deslumbra
e  o que causa a ignição da chama
que arde invisível dentro da alma e do coração..
Pois és tu a noite eterna em que quero adormecer.

quinta-feira, maio 28, 2020

Amazonas

Lágrimas translúcidas no rosto opaco, a verdade cobarde à espreita, a terra vermelha e o céu negro, pois parece que de facto sempre era tarde para acabar com o pesadelo. São ciclones e tornados que convexos ressurgem ciclicamente no céu e no mar, que nunca te deixaram ter um dia para descansar. O que transcende tudo e está na origem de tudo o que é invisível, o princípio da matéria e anti-matéria, e o que está entre elas, não chega para nada na derradeira coisa vã.
Desabrocharam à flor da pele os sentimentos, púrpura mas não rosa nem do Cairo, continuou a exalar os seus perfumes hipnóticos, invisíveis para os que nunca sentiram, tal como os que nunca saberão como é a cor púrpura pois, desde que nasceram, os seus olhos jamais as cores viram.

sexta-feira, maio 01, 2020

O Homem-Tracejado

O Homem-Tracejado é uma cápsula frágil sem limites desenhados,  resultado de uma vida inteira de violência doméstica, ele permanece desconhecido de si mesmo porque apesar de manter a sua essência ele está sempre em constante mutação e adaptação. Ele vive num inferno de existência que volta e meia fica ainda mais infernal. Permeável pelo seu tracejado, ele observa o Mundo e é infectado por ele.

Por ser dotado de uma lucidez maior que os demais, o Homem-Tracejado, visionário, é considerado louco pelos demais. Todos o querem queimar na fogueira das invejas e da mesquinhez deles. Desde os primórdios que assim é. À semelhança de Galileu, também o Homem-Tracejado ousou olhar para o infinito desde infante.

Pela clarividência e transparência do Homem-Tracejado, absorve e reflecte como espelho cru e o mais verdadeiro do que o rodeia e que, por isso, é abominado pelos demais.

O Homem-Tracejado está condenado a jamais ser de contornos fechados. Não sei se há algo a fazer para que isso um dia mude nele, já que o Mundo dos demais nunca mudará.

 ... E assim de repente, tudo vazio, com a perspectiva oblíqua do vento frio sempre disfarçado pelo azul do céu.

sexta-feira, abril 03, 2020

As paredes rachadas

Apercebo-me das paredes rachadas, não sei se foi das mil obras no prédio intermináveis ou se apenas encerram todas as torturas passadas e repassadas no decorrer de quatro décadas.

Contava os dias para te ver...
Olhando sempre para estas mesmas paredes prisioneiras da minha alma.
Entretanto perfizeram-se seis anos que os nossos lábios se separaram.

E no entanto, sinto tudo teu, sem palavras, sinto tanto
Mas nada chega para chegar até ti.

E saber que também tu sentes tanto é ouvir o rachar das paredes do meu coração.

quarta-feira, abril 01, 2020

Passo a passo a meu lado.

Passo a passo, desfaço os nós do laço da vida,
os que todos fizeram por mim de forma indevida,

....

de todos que senti a meu lado, apenas do teu senti paz. 

segunda-feira, outubro 14, 2019

Pobre de quem não tem memórias, ou diz que nunca se lembra do passado, porque não quer, porque diz que só lhe interessa o futuro, seguir em frente a todo o custo, na fuga frenética da roda da vida, negando o simples facto de que todo o futuro é feito de passado e também um dia terá passado; pois não sabe quem é, não tem história nem construção; não sabe o que é ser transportado para uma feliz ida à praia de um passado verão quente apenas pelo doce cheiro que exala de uma figueira. Nem tanto o furioso som da tempestade, pois esse só transporta quem conhece a força do que foi enfrentá-la de peito aberto. A experiência, as alegrias, as lições que se retiram... E mais flagrante que tudo, não saberá o que é ser a todo o instante feliz independentemente do momento presente.

quarta-feira, dezembro 26, 2018

Da morte da poesia

Faltam-me as metáforas, as personalizações, as melopeias,
Só sobraram as elipses e os sempre presentes pleonasmos.
Já não há ribombares de pétalas nem aliterações,
nem muito menos hipérbatos ou repetições.

Nunca mais vi um pôr-do-sol,
Sequer tenho escrito sonetos
Assim como não tenho
carícias ternurentas
ou abraços desempoeirados.

A janela está baça,
esqueci-me da última vez que a olhei
e a luz atravessava a vidraça
aquecendo-me o coração.

São mil poemas e versos que se foram
verdades cinzentas de toda a incerteza
letras e palavras que se escapuliram
líquidas passando a gasosas
evaporando-se na escuridão.