*título é verso de poema "Rêve Oublié" de António Maria Lisboa
segunda-feira, outubro 27, 2025
"E depois matar-te e dar-te vida eterna"
Dá-me dó
Que as pessoas não sejam elas
Que nem sejam nada de seu
Até eu que tenho por alma um abismo
Onde às vezes brilha o céu
Outras vezes um sofismo
Sei minimamente ser apenas
Sem máscaras nem subterfúgios
Mas tenho pena de quem vive no breu
De não só não se conhecer
Mas também ser só como o outro
Ou como o outro quer
Ou esperam que sejam
domingo, outubro 26, 2025
A hora mudou, mas o tempo não
continua enevoado
nublado
tudo perdido
meio parado
como se já fora ultrapassado
e não se pudesse ir mais além.
sábado, outubro 25, 2025
O que é que ser português afinal quer dizer para ti?
Numa altura em que se fala muito sobre o que é ser português, quem é que pode ser considerado como tal e quem tem esse direito, a realidade é que qualquer definição que se faça é sempre pessoal e, portanto, subjectiva. Já em termos legais, sabendo-se que um dos preceitos da constitucionalidade e jurisdição é amplamente formulada precisamente pelas pessoas de direito numa senda de legislar o que existe, pergunto-me se algum dia ter alma de um certo povo bastaria para todos para que fosse considerado como membro dele. Sei que não. Se alma existe, sei que não é só idílica, também é podre.
Podia dizer que o meu país é mormente o Alentejo; nesse gharb al-andalus e literalmente também, além tejo, ultra tagum. Podia dizer que a alma portuguesa é saudosista e tantas outras coisas sobre ser português, como no livro 'O labirinto da saudade' de Eduardo Lourenço epítome, ou em tantos outros históricos. Mas eu sou só poeta, portuguesa e cidadã neste planeta e das poucas coisas em que acredito - porque não existem totalmente e por isso é preciso crer nelas e lutar, em certa maneira, por elas -, no topo, está a liberdade e com ela a responsabilidade de respeitar o próximo naquilo que ele quer ser, acreditando inclusive quando ele nos mostra que é uma besta infinita.
quinta-feira, outubro 23, 2025
Pelamordedeus!
terça-feira, outubro 21, 2025
Reflexão derradeira
terça-feira, outubro 14, 2025
o barco vai
... houve momentos em que te amei com uma doce ternura suspensa, como a que soa na primeira sinfonia de brahms.
nenhuma das tuas maldições pode eliminar isso, mas sei que o tempo sim.
quando me lias, ouvias a minha voz?
será que os pássaros ainda podem falar por ti?
só a dor e a mágoa nos fazem aprender, de uma vez por todas, a pôr limites e deixar quem nos faz mal. saiu-me bastante caro impor-te essa lição. rasguei completamente o meu coração. mas eu só existi ali, naqueles momentos, para a servidão.
mudei tanto, entretanto, pois umas trinta vidas processei. não sinto nada do que sentia pelos que senti toda uma vida. já nada, de novo, tem lugar. nem a morte a aguardar.
"o tempo vem, o tempo vai", um classicismo mesmo com o experimentalismo.
uma solitude absoluta de mais de doze anos e ainda não sei de nada nem me interessa saber. este vazio foi almejado. o fim da intelectualidade. sem o início de mais nada.
domingo, outubro 12, 2025
O ideal
O ideal é alguém que seja para mim a sexta-feira e o domingo, sendo que o meu dia preferido da semana é a quarta-feira.
Dual
sexta-feira, outubro 10, 2025
Azul
Uma alma
Quando voltares com a alma inteira, talvez já eu saiba, por essa altura, o que é alma e que ela existe mesmo. Talvez, então, eu já entenda absolutamente o que é isso de que Platão falava de "uma alma em dois corpos". Talvez eu aí tenha, entretanto, ultrapassado as noções que tive quando era jovem e de forma pueril pensava que tinha uma alma gémea, ou um irmão ou amizade de almas. Ou talvez não. Talvez eu sinta que sempre foste tu a tal da minha alma gémea, igualzinho a mim, sem me identificar, mas sabendo sempre que estamos ligados de forma indissociável: siameses, como fomos um dia.
As nossas completas devastações, a nossa resignada apatia, talvez encontrem umas nas outras uma paz integral, como se ligassem um círculo preenchido por um nada cabal e ilimitado, que tem a força da explosão de mil sóis.
Eu nunca quis abrir mão de ti. Eu nunca abri totalmente, pois não? É, por isso, também que não voltas mais. O meu querer nunca significou nada. O meu sentimento também não. Tu não quiseste saber, porque eu era demais e nada. Quando na verdade eu gostava que me escolhesses como teu tudo. Mas só quem me sente como seu tudo é que nem precisa escolher. Quando é maior, ninguém pode reter.
Se eu fui só verdade, como fui, criança que ama sem mais nada ter, talvez eu seja só uma alma a valer.
quinta-feira, outubro 09, 2025
Onde estás tu agora?
Uma viagem horrível e maravilhosa
terça-feira, outubro 07, 2025
Estátua
Petrifiquei-te numa imagem. Fui querendo ver se eras mesmo assim, ou da minha nente somente uma viagem. Aconteceu seres sempre uma miragem. A mais esperada. Meu oásis de um pedaço de água embriagada.
Chorei um dia, mais, muito depois, já tarde. A poeira de que nos fizemos, a densa neblina que esperei que a aurora mais aguardada rompesse, a geada, não chegou, esse momento tão ansiado mas não almejado, não chegou.
O teu corpo continua etéreo, um vulto sem qualquer detalhe. O teu rosto também mas mais sorridente, por raras vezes. Eu sinto o vazio que nos preenche. Somos repletos por eles, esses vazios consonantes. A inutilidade do meu ser com a ilusão do teu ser.
Assomámos uma realidade decrépita, umas ruínas espalmadas no châo. Sobrou só pó. Tu gozaste até com a minha própria língua, com as palavras de amor, com o sentimento profundo, com a dor.
Às vezes pergunto para ter a certeza que não exististe. Às vezes o céu responde-me com as aves, as borboletas e a Lua, quase sempre ela a acompanhar-me como tu. É a luz reflectida do luar que ilumina a tua estátua na minha memória. O Sol não.