sexta-feira, outubro 23, 2020

 A vida em suspenso, como nuvens espaçadas e vãs, pois também elas são passageiras nesse céu imenso de mar, luz e escuridão. São resquícios de sobreviventes que somos, herdeiros do sangue de quem viveu guerras territoriais, de quem carrega a alma da vitoriosa revolução e da exangue derrota. Por isso, vagueamos ainda na criação, mostrando que a resistência da fênix é cíclica ad aeternum e a inspiração é toda ela a importância em si no Amor e na Luta.

(dps de ter ouvido a live de conversa entre Michael Meyson e Pedro Keiner e de como antecessores são sobreviventes de repressões contra povo índigena e povo judeu; essa identificação de como somos irmãos nisso tb)

sexta-feira, setembro 18, 2020

 O chão quebrado, no momento em que a terra tremeu, fez-te tropeçar, altivo com os teus dois metros, não estavas habituado a tudo o que ele sofreu;


Como as asas frágeis do amor, vi hoje uma gaivota a voar pelo subúrbio, um tanto longe do mar e fez-me pena estares tão perto e não te poder abraçar;

Sei que agora, como nunca, é certo que irás perder o teu ninho e que ele já definha perante o nosso olhar;

Mas sei que o cancro que se espalha por ele não te pode fazer naufragar;

Pois podem os prédios ruir, o céu se abrir, a terra se partir e a natureza falir, que teremos sempre a memória de um dia os nossos três corações terem sido porto de abrigo ao luar.

terça-feira, setembro 15, 2020

Infinito de nós

Ah se fôssemos todas as coincidências e todas as sincronicidades
Para não deixar mais que a lua nos cegue!
A nossa existência não passava dos primórdios
De ser água: riacho que brinca, mar que se agita e oceano que brilha,
A tua sombra na minha sombra
A tua luz na minha luz
Os teus olhos de mar o azul da minha alma
E todos os meus sonhos
Haviam de desfazer a eterna neblina...

quinta-feira, agosto 13, 2020

 A seda coral do papel com que embrulhei o teu presente e dei na concha da tua mão para que pudesses levar-me contigo e nunca me sentires ausente 


como te disse que o fim e o eventual entremeio são a única certeza na vida e que podes então nunca deixar nada por dizer até à despedida 


e quando for próximo o adeus dá-lhe a gratidão num abraço e num beijo por mim, pois afinal o maior presente dela também foi para mim. 

sábado, julho 18, 2020

 ...
É urgente a arte para não se falecer da realidade. São por isso urgentes os artistas; os que têm mais vida dentro do que a própria vida; os que têm sonhos maiores que o mundo conhecido; os que são tudo menos banais; os que não se ajustam a uma sociedade doente e fétida alimentando as rodinhas de hamster na engrenagem formal do Homem.

quinta-feira, julho 09, 2020

Quando o sonho é uma lembrança do que já aconteceu, é apenas o desejo manifestando a saudade e nostalgia do que se viveu.

segunda-feira, junho 15, 2020

Luto pelos índios, luto pela Amazonia

 Ouvir pelo tímpano do Mundo e escutar pelas difusas ondas sonoras a melancolia dos raios de sol por detrás das nuvens opacas... e não conseguir respirar pelos pulmões das florestas, pois onde elas gritavam, agora mal conseguem sussurar... Apenas restam pássaros em vôos rasantes desesperados que só são iluminados pelo luar.

quarta-feira, junho 10, 2020

A penumbra no teu corpo
é o que os meus olhos deslumbra
e  o que causa a ignição da chama
que arde invisível dentro da alma e do coração..
Pois és tu a noite eterna em que quero adormecer.

quinta-feira, maio 28, 2020

Amazonas

Lágrimas translúcidas no rosto opaco, a verdade cobarde à espreita, a terra vermelha e o céu negro, pois parece que de facto sempre era tarde para acabar com o pesadelo. São ciclones e tornados que convexos ressurgem ciclicamente no céu e no mar, que nunca te deixaram ter um dia para descansar. O que transcende tudo e está na origem de tudo o que é invisível, o princípio da matéria e anti-matéria, e o que está entre elas, não chega para nada na derradeira coisa vã.
Desabrocharam à flor da pele os sentimentos, púrpura mas não rosa nem do Cairo, continuou a exalar os seus perfumes hipnóticos, invisíveis para os que nunca sentiram, tal como os que nunca saberão como é a cor púrpura pois, desde que nasceram, os seus olhos jamais as cores viram.

sexta-feira, maio 01, 2020

O Homem-Tracejado

O Homem-Tracejado é uma cápsula frágil sem limites desenhados,  resultado de uma vida inteira de violência doméstica, ele permanece desconhecido de si mesmo porque apesar de manter a sua essência ele está sempre em constante mutação e adaptação. Ele vive num inferno de existência que volta e meia fica ainda mais infernal. Permeável pelo seu tracejado, ele observa o Mundo e é infectado por ele.

Por ser dotado de uma lucidez maior que os demais, o Homem-Tracejado, visionário, é considerado louco pelos demais. Todos o querem queimar na fogueira das invejas e da mesquinhez deles. Desde os primórdios que assim é. À semelhança de Galileu, também o Homem-Tracejado ousou olhar para o infinito desde infante.

Pela clarividência e transparência do Homem-Tracejado, absorve e reflecte como espelho cru e o mais verdadeiro do que o rodeia e que, por isso, é abominado pelos demais.

O Homem-Tracejado está condenado a jamais ser de contornos fechados. Não sei se há algo a fazer para que isso um dia mude nele, já que o Mundo dos demais nunca mudará.

 ... E assim de repente, tudo vazio, com a perspectiva oblíqua do vento frio sempre disfarçado pelo azul do céu.

sexta-feira, abril 03, 2020

As paredes rachadas

Apercebo-me das paredes rachadas, não sei se foi das mil obras no prédio intermináveis ou se apenas encerram todas as torturas passadas e repassadas no decorrer de quatro décadas.

Contava os dias para te ver...
Olhando sempre para estas mesmas paredes prisioneiras da minha alma.
Entretanto perfizeram-se seis anos que os nossos lábios se separaram.

E no entanto, sinto tudo teu, sem palavras, sinto tanto
Mas nada chega para chegar até ti.

E saber que também tu sentes tanto é ouvir o rachar das paredes do meu coração.

quarta-feira, abril 01, 2020

Passo a passo a meu lado.

Passo a passo, desfaço os nós do laço da vida,
os que todos fizeram por mim de forma indevida,

....

de todos que senti a meu lado, apenas do teu senti paz. 

segunda-feira, outubro 14, 2019

Pobre de quem não tem memórias, ou diz que nunca se lembra do passado, porque não quer, porque diz que só lhe interessa o futuro, seguir em frente a todo o custo, na fuga frenética da roda da vida, negando o simples facto de que todo o futuro é feito de passado e também um dia terá passado; pois não sabe quem é, não tem história nem construção; não sabe o que é ser transportado para uma feliz ida à praia de um passado verão quente apenas pelo doce cheiro que exala de uma figueira. Nem tanto o furioso som da tempestade, pois esse só transporta quem conhece a força do que foi enfrentá-la de peito aberto. A experiência, as alegrias, as lições que se retiram... E mais flagrante que tudo, não saberá o que é ser a todo o instante feliz independentemente do momento presente.

quarta-feira, dezembro 26, 2018

Da morte da poesia

Faltam-me as metáforas, as personalizações, as melopeias,
Só sobraram as elipses e os sempre presentes pleonasmos.
Já não há ribombares de pétalas nem aliterações,
nem muito menos hipérbatos ou repetições.

Nunca mais vi um pôr-do-sol,
Sequer tenho escrito sonetos
Assim como não tenho
carícias ternurentas
ou abraços desempoeirados.

A janela está baça,
esqueci-me da última vez que a olhei
e a luz atravessava a vidraça
aquecendo-me o coração.

São mil poemas e versos que se foram
verdades cinzentas de toda a incerteza
letras e palavras que se escapuliram
líquidas passando a gasosas
evaporando-se na escuridão.

Memento mori

A forma mais absoluta de realmente se viver é saber e ter consciência de que estamos prestes a morrer a qualquer instante. 

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Ela saiu para a noite com as pinturas de guerra
Viajou pelas luzes das ruas incandescentes
Quando entrou num bar e se sentou
Aquele era sempre o seu lugar
Ele chegou depois, já bem tarde.

As pinturas de guerra transformaram-se em doçura
que derretia ao aumentar entre os dois a ternura

Saboreei a história a acontecer,
seguindo-a como quem caça uma presa,
procurando tocar o que não era de todo meu.

Ela e ele eram apenas duas personagens
que no meu sonho eu fui encontrar
e que por instantes
deram-me toda a paixão de um olhar.

terça-feira, novembro 27, 2018

Se antes tive poalha nas digitais,
hoje percebo que é da matéria do meu coração,
da substância desfeita, que nem liofilizada é creio,
negra como cinzas do carvão resultante da lenta mas irremediável combustão.

Nunca fui de me curvar perante a verborreia vácua das narrativas forçadas,
tal como sempre reneguei toda a autoridade que se quis impor,
não fiz senão questionar tudo porque tudo é inexistente enquanto absoluto,
provavelmente até o amor que sempre tive como maior do que tudo.

E se parece que em todas as matérias me dei por remediada,
conformada jamais estive com a sua existência que causa dor,
apenas foi tudo porque deixada pelo meio
já que a destruição foi maior e demais.

quinta-feira, novembro 22, 2018

Zinha

Os anos passaram, as crianças cresceram e perderam o seu fulgor, já não são quem eram, mudaram tanto que já ninguém as lembra como ainda iguais.

Mas há uma, no entanto, que eu reconheço a candura dos lisos cabelos negros e doces sorrisos que a fazem tão ingénua como sempre foi. É, por isso, a mais bela das crianças que já não o são, é singela criatura dos vento e do prado verdejante, da lagoa e do jardim, é todo o campo de flores alvas que nunca foram desfolhadas para um mal-me-quer.

Ela é o milagre do trevo de quatro folhas numa inteira e imensa extensão de trevos. E eu ainda sorrio quando penso como ela era e como ela é.

quinta-feira, novembro 08, 2018

E no meio de tantos invernos e depois de todas as tempestades que sempre me visitam, aprendi que existe um verão sempre enterrado dentro de mim. 

quinta-feira, outubro 25, 2018

Fazes-me falta como sangue nas veias, que de mim se evapora de cada vez que te vais embora.
Meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã. Meu amor mais amado. Meu afã.

"Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim."


domingo, junho 24, 2018

Quem dera que entre mim e eu reinasse um silêncio impoluto, onde apenas água estivesse.

quinta-feira, junho 07, 2018

Poesia

Imagino que ainda me esperas nas madrugadas que passamos sem dormir, ao som das tuas listas de músicas, a banda sonora das nossas vidas. Dependurados na janela que só se abre quando estamos juntos, a ver mil andorinhas bailar num frenesim único, espectáculo que apenas reservam para nós num crescente até ao romper da aurora, e o nosso sorrir diz que abdicaríamos do amanhã só para ter aquele momento. Não há nada mais precioso então. E como sabemos que tudo se acaba só queremos saber que somos nós, puros e apenas com a maior verdade, de que houve um momento que se pode imaginar que valeu para uma vida inteira.

sábado, junho 02, 2018

Saudade, gastei-te o nome,
ficaste gravada na minha mente
como um sonho recorrente
e agora o teu rosto é lua cheia
que brilha e encandeia os meus olhos
em todos os dias da minha vida.