sábado, setembro 11, 2021
Amor a tempo inteiro
O nome do vazio
Oscilo entre o nada e o vazio
Como um pêndulo
Que parte do instante
Para o infinito distante
No meio num rasgo veloz
Fujo
Apagam-se memorias
Paixoes e desalinhos
Destinos e turbilhoes
Balanço no entanto
Perdura
Tanto faz que fura
Numa nostalgia
De melancolia pura
Eu sou um fio
Tu és um rio
Eu fui cortado
Tu foste atravessado
Afinal, o que sabemos nós do Amor?
O Amor não existe
É só uma construção
Física e química
Societal e conceptual
De um imperativo de sobrevivência
Biológica...
O fel do mel
Dela espremi a última gota de mel
enquanto ser distante tomado por fel
e testemunhei do trono da rainha
a sua cobardia e rasgar da linha
Vi o que os seres comuns dizem
cheirei o ar de luz e sombra deles
penetrei no mistério do que se coíbem
e mostrei como ele lê-lhes
A confusão e o caos pairam sempre
à espera do gatilho se acender
esse é o mal da vida e da paixão
aquele que por mais que se adentre
nunca se pode resolver
porque é dos homens o coração
Finge sem fingimento
Fingimos todos os dias
mas sem fingirmos
actuamos no momento
somos carne e podridão
não sabemos o que fazemos
somos apenas solidão
A tua carência com a minha apetência
e eu nunca existi sequer
Tu foste o homem e eu a mulher
mas foi só um teatro frenético
em que representei o que me exigiram
Agora continuarei regressada a mim
ao meu vazio e consciente nada
nunca mais serei o que for precisada
pois tu foste a derradeira lição.
sexta-feira, setembro 10, 2021
Doce Rio, Salgado Mar
Essa união entre a doçura do rio e o salgado do mar
És tu quando vieres e fores chegar
Marinheiro de todos os portos
Velejando pelos oceanos que tentas domar
Eu queria poder segurar-te pelo pé e pela mão
Aprisionar-te o corpo no meu cais
Para não termos mais de nos separar
Entretanto, ondularemos na dor das marés
e de quando em quando nos despedaçamos
nas tempestades que dão cabo de nós
mas nunca desse amor que late atroz
num só coração e alma que já não têm perdão
Entre o doce rio e o salgado mar
meu amor mais-que-amado
uma vida inteira de vazio perdido
só para te encontrar comigo
Somos do tempo das rosas e dos cravos
de uma era que já não existe mais
e que está no que sireneias
e que contam as epopeias
"Mar da minha vida
Ri (o) das minhas feridas
Navega pelo meu oceano"
És só tu quem eu amo.
quinta-feira, setembro 09, 2021
Afecto
Tenho por ti um afecto
que não se pode medir
mas é extremamente concreto
tem substância e materialidade.
É parte de um amor maior
que também é imensurável
e foste tu quem me ensinou
a ser tão mais amável.
Fizeste-me recomeçar de novo
nas significações e significados
para descobrir o que é mesmo o amor
e a verdadeira afeição por outrem
Contigo aprendi a construir-me
melhor do que nunca.
Esse afecto lindo e monumental
tão cabal que tem raízes, flores e frutos
é manancial, é rio, é chuva e mar.
terça-feira, setembro 07, 2021
Presságio - Fernando Pessoa
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
segunda-feira, setembro 06, 2021
Confusão
Implodiu um prédio
Construção do tédio
A partir daí tudo ficou frenético
Não sei como tudo ficou tão confuso
Como me deixei enredar na manipulação
Eu que detesto quando fazem chantagem emocional
Ahhh! mas se eu soube que me ia fazer tão mal!
Esvaziei meus braços
Esvaziei meus braços
de todos os teus carinhos
Embarquei em mil passos
para deixar o teu rasto
Diluí os meus afagos
Abraços que não te dei
e só imaginei
Vislumbrei o meu cansaço
Não olhei mais para trás
para não ver o que deixei
Devoto-te real afeição,
sabes tu o que tens em mão
e quiçá no coração?
Mas nem todas as narrativas
tão bem construídas
tecem verdadeiramente o perdão.
Um dia veremos que nos esquecemos
e que não passou tudo de imaginação.
domingo, setembro 05, 2021
Até lá não posso dormir
Não consigo dormir
Se o fizer, perderei,
e eu não quero perder
pitada do que acontecer
porque pode ser fatal
A distância entre a tua mão
e toda a minha satisfação
Não quero dormir
pois vi-te há pouco
sem ser nos meus sonhos
e tudo isto que é louco
fez de nós mais risonhos
quando não tristonhos
Oscilamos perdidos
enraivecidos por vezes
perturbados e desconcentrados
e tantas vezes fartos
mas não sabemos o que fazer
Quem pode contra o Amor?
sábado, setembro 04, 2021
Falando de Amor - Tom Jobim
Se eu pudesse por um dia,
Esse amor essa alegria
Eu te juro te daria
Chega mais meu coração
Vem ouvir este segredo
Escondido num choro ou canção
Do teu cheiro teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor
Choro eu o teu cantor
Chora manso bem baixinho
Esse choro falando de amor
Chega mais meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro ou canção
Nessa rua banhada de sol
Minha alma segue aflita
Eu esqueço até do futebol
Foi pra ti meu coração
Que eu guardei esse segredo
Escondido num choro ou canção
Lá no fundo do meu coração
sexta-feira, setembro 03, 2021
Pertencimento
Como é que eu posso ter esta sensação de tão inteiramente pertencer a alguém que aparentemente não existe?
Tal foi enraizada a necessidade de pertencer que fez criar uma ilusão?
O que foi?
Foi só isso?
Foi só mau?
Dependência
Sofreguidão
Vício
Egoísmo
Cinismo
Desleixo
Indiferença
Desprezo
Invasão
Solidão
Ciúme
Vilania
Tirania
Manipulação
Ilusão
Violência
Tortura
Pressão
Ansiedade
Confusão
Não. Nada disso. Isso foi só subterfúgio.
Tudo para esconder o que não se consegue entender.
Provavelmente nunca hei-de compreender.
Respiro
Sopra o vento devagar
pelas encostas do teu rosto
vejo a minha alma divagar
mas serenamente num sol posto
Olho a linha do horizonte
e não está lá para se achar
nunca esteve na verdade no ar
porque jamais se escolheu um monte
Donde se possa almejar
uma vida para se guardar
eu não lhe fiz fronte
nem quis sequer mirar
Porque sei que não há nada
que eu mereça que não se perca
pois apenas o efémero existe
quando nada no mundo é terno
E tudo na vida é triste
pois é na Terra o Inferno
onde se busca respirar
mas já não há sequer ar.
Cataclisma
Abalou as estruturas
Perturbou o imperturbável
Magnetizou o neutro
E estoirou com o certo
Da necessidade dos perdidos
Forjados elos dos vencidos
Violados os invadidos
Não houve paz sem senão
Agora é tudo vazio
Ténue e réplica de sismo
Há um buraco de amplidão
Não suga nada nem o perdão.
Tenho Fome (se parar para admitir)
Tenho uma fome que não é sede de viver;
é fome de comer mesmo!
Por exemplo, se não estivéssemos em pandemia,
eis o que eu comeria:
Brownie e chocolate quente da Bettina e Nicolo Corallo;
Ramen da Kokoro;
Bulgogi do Xin;
Gyozas do Mr. Lu;
Croissant de amêndoa Padaria Portuguesa
Pizza tartufo da Cappriciosa;
Risotto Porcini do La Pasta Fresca
(...)
Nov. 2020
Retrato da vida - Djavan e Dominguinhos
Essa dor que mora em mim
Não descansa e nem dorme cedo
O retrato da minha vida
É amar em segredo
E eu vivendo da tua vida
Deus no céu e você aqui
A esperança é quem me abriga
Esses campos não tardam em florir
Já se espera uma boa colheita
E tudo parece seguir
Fazendo a vida tão direita
Que não repara no chão
Por onde tem que passar
O teu beijo em meu destino
Era tudo o que eu queria
Ser teu homem, teu menino
O ser amado de todo dia
Essa estrada, esse rio seco
Essa dor que mora em mim
Não descansa e nem dorme cedo
O retrato da minha vida
É amar em segredo
E eu vivendo da tua vida
Deus no céu e você aqui
A esperança é quem me abriga
Esses campos não tardam em florir
Já se espera uma boa colheita
E tudo parece seguir
Fazendo a vida tão direita
Que não repara no chão
Por onde tem que passar
E pisa em meu coração
O teu beijo em meu destino
Era tudo que eu queria
Ser teu homem, teu menino
O ser amado de todo dia
Fazemos parte dos vilões
Fui laçada por canções
embalada em trovões
e tive de fugir das paixões
para poupar corações
Meti-me com ladrões
e agora com foliões
redundo em tropeções
de vida aos trambolhões
Sim, sou dos vilões
ruindade das acções
sou louca como tufões
e declamo para limões
Oiço e obedeço ao que impões
nós não passamos de fujões
mas mocinhos ou vilões
acabaremos todos em caixões
quarta-feira, setembro 01, 2021
Meu Bem, Meu Mal - Caetano Veloso
Meu vinho, meu vício
Desde o início estava você
Meu bálsamo benígno
Porto seguro onde eu voltei
Meu mar e minha mãe
Meu medo e meu champagne
Onde o que seu sou se afoga
Meu fumo e minha ioga
Você é minha droga
Meu zem, meu bem, meu mal
Meu zem, meu bem, meu mal
Meu zem, meu bem
Meu vinho, meu vício
Desde o início estava você
Meu bálsamo benígno
Porto seguro onde eu voltei
Meu mar e minha mãe
Meu medo e meu champagne
Onde o que eu sou se afoga
Meu fumo e minha ioga
Você é minha droga
Meu zem, meu bem, meu mal
Meu zem, meu bem, meu mal
Meu zem, meu bem, meu mal
( Caetano está cá para vários dias... :( )