sábado, agosto 31, 2024

Os meninos-homens

 Vosso olhar esconde garoas
Enquanto vossos lábios sorriem
E a todas essas bonitas garotas 
Vossos sentimentos não admitiram

Só conseguem pôr um pouco 
Que já se transforma em muito
Nas vossas lindas canções 
E poemas avulsos

Eu embalo-vos no meu colo
Como fiz outrora 
Em tantas noites 
Que vimos raiar a aurora

Mas vocês não querem ser meus
E eu sempre vos quis livres
Para poderem voar ateus
Sem dependerem de líderes 

sexta-feira, agosto 30, 2024

Mar, tão grande é o céu

 Ainda olho, pelos vistos, o céu e lembro de ti. Até lembrei de como poderias estar a ver o céu também da tua varanda, como dantes. 

Ontem tentei tirar uma foto a um céu estrelado, como não via há muito, num local pouco poluído luminosamente. Não ficou nada de jeito. Era para ter apanhado a ursa maior que pensei ter encontrado à direita. 

Agora ainda está claro, mas é o fim do dia. Aqui sendo Verão o sol põe-se mais tarde, mas curiosamente apercebi-me de que deve ser mesmo quando aí se põe também, ainda que a diferença horária seja bastante. 

Connosco o tempo sempre foi alienígena. Parava no teu sorriso. Eternizava-se no teu olhar. Acelerava nos teus lábios e na tua boca ora ia devagar deliciosamente, ora explodia. Tu que eras uma supernova. Tão brilhante no céu. Meu mar. 

Será que apagaste todos os resquícios visíveis de mim? Ou ainda te lembras de mim com ódio e dor, quando não passas os dias a ser indiferente a mim? Não preciso saber, apesar de ainda me surgir a pergunta. Se tu soubesses o que se passou entretanto só consigo imaginar-te instantaneamente a socar algo. E o pior disto tudo é que foi só tudo e mais alguma coisa, o amor, em todas as suas vertentes e vertigens. Quem me condenou a esses amores gigantes sem tempo nem lugar? 

Para os meus anos

 Ofereçam-me amoras pretas
que têm vitamina K
e a escultura da senhora do mar
que o Zé disse que ia guardar
e podem agora nestes três dias
livros nos saldos da Taschen comprar
eu digo quais os meus favoritos 
mesmo que não tenha lugar
e no meu quarto esteja tudo apinhado

ah e não se esqueçam do combinado 
se me quiserem telefonar 
tem de ser só mais tarde
que aqui demora-se a estar acordado 

mas o que eu preciso mesmo 
no pódio das necessidades está 
é saúde toda de volta, uma casa
e todo o amor de um real lar

 Teu corpo no meu corpo: água depositada em ânfora, depois do sôfrego atrito do pilão e do almofariz. 

Fodómetro

 O fodómetro é uma espécie de termómetro - não, não serve para medir o quão fodástico se é, nem muito menos quantas vezes a pessoa se fødeu, ou foi fødida, em quaisquer dos seus significados e perspectivas -, mas sim, tem a nobre função de aparelho medidor do quanto a pessoa se está a føder para o que não interessa. 

Uma das correlações estabelecidas ao longo da observação empírica de uma vida, facilmente deduzidas sem grande necessidade de recorrer a muitos instrumentos do método científico, é com grande obviedade que com o aumento da idade aumenta a gradação do nível do fodómetro de cada indivíduo. 

Aponta-se - para os que começam logo e antes mesmo com o "olhe que não", do contra, neste caso -, por exemplo, que enquanto crianças mesmo poderia parecer que não ligamos às coisas, porém há que notar as birras e o que lhes é importante, que na verdade, mesmo para eles, não tem qualquer importância naquele momento. 

A especificação, assim como o aumento do nível no fodómetro, dão-se de facto com a entrada numa idade mais provecta em que o cérebro finalmente é aliviado de se importar com merdices. 

Posto isto, muito bom envelhecimento e consequente aumento do fodómetro para todos! O meu está a funcionar que é uma maravilha - ao menos isso, já que o declínio do resto também é suposto 😅🤷🏽‍♀️

quinta-feira, agosto 29, 2024

Temperança e Bonomia

 A dita intelectualidade não me atrai, nem a dita imbecilidade; os snobes e burgessos repelem-me com praticamente igual intensidade. 

A minha personalidade almeja sempre a temperança e a bonomia. Sou essa balança que não se ateve a lutar pela justiça. Dizem que saio logo em defesa dos oprimidos, ora se não são eles que precisam de defesa, quem mais, sabendo o horror execrável que é me fazerem ser oprimida. Eu tenho sim essa força. Eu sei. Agora, mais do que nunca, sei de onde vem. 

quarta-feira, agosto 28, 2024

Bisa

 Amada bisa, sei que era suposto estar mais leve - e senti de facto -, mas entretanto comecei a querer saber qual era mesmo o teu nome, como era a tua cara; imagino como era o teu sorriso doce e o teu olhar sofrido. Ponho-me a pensar que idade terias e em que condições foste levada assim por um homem daqueles supostamente de bem, tirada da tua Tanzânia, para ires viver para tão longe na Índia. Grávida já (e depois ficaste de criada forçada da esposa dele, ou já era antes esse o plano dele?), ainda por cima? Ou será que a avó também nasceu na Tanzânia e o registo dela foi aldrabado na Índia? Nasceu mesmo em 1920, ou se calhar nem isso estava direito? A porcaria dos homens (não só os brancos e não só os homens infelizmente) e da sociedade a fazer o que querem das mulheres. Como é que é suposto eu não odiá-los a todos? Esta coisa de sermos escravizadas, escuras, negligenciadas, tratadas como lixo, usadas e descartadas. Sei que é suposto trabalhar a gentileza, mas odeio tudo isso, mete-me um nojo e raiva viscerais. 

Pus-me a ver fotos no site da Unicef da Tanzânia e as crianças e mulheres fizeram mesmo lembrar as bochechas e o sorriso da minha avó e até o meu quando eu era bebé. Já queria ir lá à tua terra e tudo. Que também é a minha. Que hoje eu consiga fazer o que tem de ser feito e libertar-me desta dor e desta angústia para poder seguir leve e te honrar vivendo uma vida melhor do que todo sofrimento até agora. Eu amo-te e lamento muito por tudo o que passaste. Obrigada por não me abandonares e me teres dado a tua força. Eu estou contigo também sempre. Ajuda-me a seguir como deve ser. Ter descoberto a tua existência foi das coisas mais importantes da minha vida. Obrigada por teres existido e um dia espero sonhar contigo e poder finalmente ver o teu rosto e quiçá abraçar-te.

(que louco, pensar que suspeitei da tua existência desde 2019 e só agora tive confirmação de que existiu mesmo esse segredo todo e de que tu exististe na verdade como minha bisavó negada; que triste e podre tudo)


PS: em 2026, a outra pessoa disse lembrar q afinal era Uganda. Eu já há anos que não lhe acredito em quase nada pois é só psicopatia e mentiras compulsivas dela. 

Sarar

 Tentei curar-me do que nos aconteceu. Sei que não acreditas em cura. Dizem-me que nos prendemos pela culpa. Eu deixo ir a culpa, aprendendo a saná-la ultimamente e mesmo assim não te perdi de mim, ficou só um amor distante; longínquo embora tendo o seu tamanho sempre gigante. 

Afinal foi o que estava querido, que ficasse guardado, bem lá no fundo, dentro, abraçando o peito gentilmente e sem já sufocá-lo. Eu sempre precisei de respirar. Amar-te estava a matar-me. Sim, era uma doce morte mas angustiada e sufocante. Às vezes a vida mostra-nos que não podemos amar. Que aprendemos a amar pessoas difíceis, casos perdidos, pessoas que nunca nos vão tratar como merecemos, que nos amem com dedicação e prioridade. 

Os homens só o fazem quando estão apaixonados. Aí interessam-se tanto que não vêem nada à frente. Até lhes passar. Até seguirem para a próxima novidade. As mulheres têm uma capacidade um tanto diferente de amar verdadeiramente alguém ao ponto de quererem o seu bem acima de tudo. Dizem que isso de abnegação não é amor também. Eu continuo a ver essas diversas formas de amar e relacionar entre as pessoas, sejam de que género sejam, com os mesmos padrões. Nada é amor. São sempre outras coisas. Embora haja um conjunto delas que conflui em amor, há sempre outras formas que não sendo contempladas acabam por fazer sentir que há uma certa incompletude nele. Afinal o amor, seja qual ele for, deveria fazer-se sentir inteiro, sem que falte nada para ele ser amor, sem que ele tenha coisas que o fazem não o ser. 

De qualquer modo, estou em vias de sanar totalmente essa coisa nossa que foi uma máfia em tempos e que agora é só um sentimento quase que como esquecido num canto remoto e absorto. Nada em nós é morto. Só adormecido. "Adeus, amor, adeus, até ao dia em que nos teus braços falte eu"...

(ficaste a dever-me uma música, mesmo que não nos devamos nada)

terça-feira, agosto 27, 2024

Bolero de Satã

 Ainda dói ter-te perdido 
Nunca mais te poder ver
Essa paixão imortal 
Esse amor incontido
Tudo o que foi sofrido 
Só porque eu ia morrer 

Tu mostraste-me 
Tudo de bom e do pior
Que a vida pode dar
Enjeitaste-me 
Fizeste-me ficar só
Sem ter o meu lugar 

Passei pelo inferno 
A tortura de te querer
A tua ausência e indiferença 
Mataram-me 
Como se fosse uma qualquer 

Não fui por ti escolhida 
Nem me deste a mão 
Negaste o teu abraço
Deixaste-me na escuridão 
Fui a tua preterida
Rasgaste-me o coração 

E todo o nosso cansaço 
A loucura que nos fizeste
Quando descaso me deste
Sem me dizeres o teu perdão 
Só serviu para aumentar 
Essa minha sofreguidão 

Pois que amar quem nega
Todo o amor e devoção 
É digno de compreensão 
Quando diz que não existe 
Como pensei que era triste 
E afinal só me despreza


domingo, agosto 25, 2024

 Eu lamento que ainda ames tanto aquela menina que foi tua. Eu já não sou ela há bastante tempo. 

Talvez ainda procures por ela em mim. Mas ela já não existe. Também tu contribuíste para o seu fim. 

Bisavó

 Sou fruto de homens sanguinários 
Que foram para todo o mundo 
Colonizar, expulsar, matar
E de mulheres silenciadas
Que não puderam criar filhos 
Como seus mas como criadas
Eu tenho essa violência em mim
Essa barbárie impressa no corpo
Mas eu te honro minha bisavó 
Eu tenho a tua força e justeza 
Eu tenho o coração grande e bondade
Falta só fazer expandir em mim
A gentileza que bane toda a maldade 

sábado, agosto 24, 2024

 tu foste a única pessoa que eu amei primeiro e só depois é que me apaixonei. foi por isso também que o nosso amor sem querer estraguei.

(Co)Existem

 Existe o acaso

Existe a coincidência 

Existe a sincronicidade 

E a confluência 


Existe a má-vida

Existe a boa vida

Existe a maledicência 

E a benedicta vivida


Existe o caos

E a bala perdida 

Existe a fé 

E a mal agradecida

Descanso

 Não te preocupes, está tudo bem, eu só preciso de descansar muito, depois desta vida inteira a carregar o que não era mesmo meu. 

sexta-feira, agosto 23, 2024

Gentileza

 A gentileza é pétala de flor, que eu devo dar-me a mim e ao meu amor em todos os dias e não somente esperarmos o tempo da delicadeza.

 (será que só conseguimos mesmo quando um dia formos velhinhos?)

Libertação

 A culpa já não nos serve, meu amor, chegou a hora de nos libertarmos. O meu amor ficará para sempre, pois sempre foi mais forte o que nos une do que nos separa. 

Talvez num próximo sonho tu me olhes nos olhos e me abraces ❤️

 Tudo é

Como é 

Nada mais 

Pode ser

 Ouve o teu coração 
E se pensar em alguém
Te faz rasgar o peito
Mesmo que o vosso amor
Não seja perfeito 
Lembra-te que só é boa
A luz que emana da escuridão 

quinta-feira, agosto 22, 2024

Vozes

Não aguento vozes de nariz empinado 
Vozes snobes, vozes nojinho
Daquelas pessoas que julgam
Olham de alto a baixo 
Com cara de nojo 
Como se a pessoa fosse lixo
E elas invés as melhores do mundo

É caso de dizer que 
"vozes de snobes não chegam ao céu"

Sonholento

 Quando sonhas, adias o fim
Vives mil vidas no entremeio 
O pensamento vira pensalento
Os dias têm outro recheio 
E és tu que me desenhas a mim


Des-culpa

 Eu não tinha como saber.

Não fiz nada de propósito.

Só que depois de saber do erro claro que quis me repreender, responsabilizar-me, redimir-me, não havendo desculpa possível senão de me ter deixado levar sem consciência e, não tendo como saber não se pode atribuir culpa. Erros não são de propósito. 

Uns e outros amores

 Eu amo-o, ele é o amor da minha vida, a minha sina, minha loucura, meu desvario, o meu sangue! Mas ele nem sequer existe, como ele próprio disse.

Há um outro que eu começo a querer gostar aos poucos, porque me faz bem gostar assim de alguém que é boa pessoa, respeitoso, que demonstra gostar de mim e, quiçá, para o ano eu encontro-o.

Há um outro que eu amei em tempos e que recuso reencontrar também por ter medo do corpo, que ele tão bem me conheceu. 

Há um também que eu gostei há um tempo e que não quero voltar a ver porque sei que ele não é capaz de ser a valer. 

Na época da sinceridade dos relacionamentos não-monogâmicos, será que será esse o futuro das pessoas? Ou cada vez mais tudo é fugaz e à toa?


(eu só amo e estou apaixonada pelos vistos irremediavelmente por uma só pessoa desde 2021, embora inexistente)

quarta-feira, agosto 21, 2024

Karma terminado

Das piores coisas que me aconteceu na vida foste tu: maldição de tantas vidas acumulada. Em breve vou ficar completamente livre, como tu te livraste de mim depois de me teres destruído. 

Amor adoecido

 O amor adoeceu com a tua indiferença 
A tua ausência que me esburacou o peito 
E não teve outro jeito senão declarar falência 

Tu exististe para eu aprender a lição 
De que não se deve escutar só o coração 
Muito menos aliado à ilusão de intuição 
Mas sim acreditar no que o outro diz
Ver só a pura razão mesmo que no fim
Nos faça tudo menos ser feliz 


terça-feira, agosto 20, 2024

Volta

(Está quase na hora 
o círculo fecha-se 
a matéria espelha-se 
tudo vira borra 
de um café 
que ninguém bebeu)


 "Volta, nem que seja em forma de sombra, nem que seja em forma de sonho", e a verdade é que tu sempre voltaste, nunca partiste, estás sempre aqui comigo. Hoje lembrei também de te ter mostrado um poema de Neruda e te ter dito que era assim um bocado como eu te amava (como era imenso o carinho e a lealdade que eu já tinha por ti então), quando eu ainda nem sabia que ia amar-te mais do que podia. Que me tenhas guardado naquela melodia que não tocas para ninguém e eu naquele poema que nunca escrevi.