Friday, February 09, 2018

Capital de Dor

O peito humano, essa capital de dor no país de um corpo finito,
E o capital de dor que comporto nas fronteiras amassadas do coração,
É todo o meu ser espraiado e preso sabendo que não tem solução.
Sou eu repartida por vidros do espelho de cada pessoa: o corpo que faz amor como as ondas e acaba na rebentação.
Dos seres que são demasiado belos para este mundo, não reza a história.
A indiferença é o pão que alimenta a solidão.

Wednesday, October 04, 2017

Como é que se regressa à vida?


Como é que se regressa à vida, depois de vermos tudo ruir?
Não somos um bebé que começa a aprender tudo do nada. Trazemos memórias de fruta fresca no regaço, trazemos memórias de trovões que fustigaram toda a Terra no horizonte. Chegamos de mãos vazias e olhar fixo numa imagem devastadora que nunca parece largar a mente.
Dizes-me que não se recupera do irrecuperável, quando eu alto formulo retoricamente esse pensamento, mas (logos dixit) e se o tornarmos recuperável, se nos batermos até sangrarmos de novo para voltarmos a recuperar o controlo, e enchermos os destroços com uma intensidade semelhante que os assoberba de amor?
Será utopia pensar que é possível, será presunção almejar o que nos parece impossível e o que dá muito trabalho, porque pensamos que não temos dentro de nós essa força, esse querer, e que não teremos entre nós essa capacidade?
Só sei que a cada abraço teu tudo parece muito melhor.

18.06.2017

Sunday, September 03, 2017

Pincelo as notas de uma dançarina como quem escreve com as cores de um vento intemporal... e ela dança e rodopia, mascara o tempo e leva todo o mal.

Friday, August 04, 2017

O que dirias se visses o corpo a nu, por detrás das transparências: a limpidez das várias cicatrizes e a sujidade dos poucos sinais?

Bebeste da minha alma: o carinho entre-dedos, o teu semblante de poeta do romantismo e, eu, brincava com a tua face num mundo ao contrário. Tu sorrias, sempre. Eu a amar-te cada vez mais, sem dar por isso. 
Tenho saudades 
de quem não sei quem és 
e do que foste só para mim. 
Todas as auroras têm a melancolia da ternura que nos tocou 
e o cheiro  do orvalho trémulo invade-me como o teu abraçar 

que tanto queria de novo em mim. 

Monday, July 31, 2017

Quisera que o fogo nos consumisse a alma na mesma fogueira
Mas a chuva debochada alagava tudo à nossa volta
E os amores impossíveis como de Tristão e Isolda
Só têm lugar na escuridão da noite
Sob o manto negro do céu.

Friday, July 14, 2017

Saudades das tuas particularidades



Escreves muitos "a" sem "h"
E enquanto te leio falta-me sentir o teu sorriso a olhar para mim,
E toda a minha vida percorrida pelos teus dedos,
E até o teu som de estalar o corpo,
Como se sente nostalgia de ouvir o som que a antiga casa fazia;
O teu corpo esquálido de alabastro, o perfeito abrigo para o meu corpo aranhiço;
A tua vida a palpitar na calma excitação, essa ternura tranquila, que não se mede pelas palmas das nossas mãos; 
O teu tacto e polidez a cada frase minha, quase como resposta biológica;

São singularidades que me vêm à memória e de que sinto falta no ruído da madrugada, para silenciar a minha mente e sossegar o meu coração.

Sunday, July 02, 2017

As auréolas abocanhar-te-iam as pupilas e cada poro do meu corpo, micro-vulcão de desejo, queimaria a tua alva pele. Demasiado fluxo mental, demasiada vibração corporal, intensidades sísmicas das quais provavelmente não recuperarias. 
Ainda me dirás o que sentes, ou também me condenas ao abandono? 

O naturalismo dos Homens

Não falemos das plantas masculinas nem das plantas femininas, 
Mas é sabido que todos preferem o corpo à mente com todos os seus tropismos. 
As raizes ramificam-se e são super funcionais no que é superficial. 
A fisiologia dos seres cuja função derradeira é a de se duplicarem apenas por uma questão narcísica de sobrevivência espalham-se pela terra. 

Esta é a biologia e antropologia dos seres, que durante séculos maravilha os seus estudiosos. O mundo natural no seu primor e primordial significado. 

mens insana in corpore insano

Nesta existência lentamente se degrada e se degenera
Nem sequer cumprindo a função de ser húmus para a terra 
O corpo é cadaverizado em vida
E a morte já vem tarde para a recolha

Não falemos do espírito, da alma, da mente, pois esses nunca chegam a ser algum dia integrais, 

Unos e sãos, completos na sua essência. 

Saturday, July 01, 2017

Afogas-te nas memórias diluídas 
Tal como eu embarco nelas...
Faltou-me saber reconhecer a verdade 
Parar com os textos repetidos
E começar por admitir a vontade 

É sempre tarde quando te apercebes
É sempre impossível quando não consegues 
E acabas por ficar apenas com a maresia 
de uma vida por viver

Os redemoinhos de repetições 
Sucedem-se implacáveis 
Nunca varrendo a inutilidade 
E a vacuidade que cega,
Mantendo-nos sempre na escuridão 

Eu esforcei-me demasiado  
Fui contra a corrente 
Qual eterna rebelde 
Mas descobrindo o niilismo da vida 
Como e por quê continuar

Em décadas sucessivas de naufrágio?
A pele do corpo nunca se repete, 
Porque é assim que se mede o tempo,
E da linha sisuda do horizonte 
Estendem-se triliões de raios de luz 
Que se espraiam no seu corpo 

Deleitando-se depois da cansada jornada do sol poente. 
Habitas a minha insónia como um inquilino permanente 
E na escuridão da noite és tu quem trazes a aurora a pouco e pouco
E a vertes sobre mim em sorrisos que nunca existiram antes de nós os dois 
Das janelas das nossas mentes vemos os vôos infinitos dos nossos sonhos 
E por instantes tudo é mais belo do que o mundo
As nossas mãos unem-se tão completamente que parecemos gémeos siameses no bater do coração sincronizado 
E a vida torna-se uma possibilidade pela primeira vez
... 

Entretanto desperto do sonho.
Como estar consciente neste mundo
E continuar a sobreviver, 

Sempre desajustado à sociedade doentia?
Foi tão imensurável a intimidade que aprofundaram numa só madrugada, que lhes valeu vidas inteiras que nunca viveriam. 
A entidade que é a impossibilidade esteve sempre à espreita, 
Tornando aquela mais bela felicidade em terna tristeza.

O silêncio antes da palavra dita

É igual ao instante anterior ao beijo?

Wednesday, June 21, 2017

Gostava que fosses eterno 
e que o teu infinito cobrisse a Terra
como um manto de propagação da tua arte
Gostava que o teu cérebro te permitisse o sentir e o expressar livremente 
e que eu, em vez, me tivesse demorado mais no teu abraço e no teu toque 
e nunca largasse a extensão da palma da tua mão.
Gostava que o teu sorriso perdurasse para sempre e a verdade da felicidade te fosse alcançável.


Desejos egoístas?
O poema tão belo que não se pode perder
Até onde se vai por ele? 
O que se sacrifica para tê-lo?
O sono? O amor? A vida? 

Ninguém sabe o dia de amanhã...

Para a Andreia

Cílios que dormitam e em REM se arrepiam, 
Cabelos longos escuros que ensaiam danças
Ela anda pelas ruas que trilha
Como mapas de tesouros para crianças 
E no seu sorriso cabe mais doçura do que num pote de mel
Conhecê-la seria sempre aventura
Se o destino não fosse cruel
Mas nada importa quando se está ao lado dela

Pois é uma bela guerreira que torna a vida amarela :) 

Wednesday, June 07, 2017

Separa as pálpebras
Aparta-as como se fossem cortinas do universo
Esses véus para revelar o cosmos
Separa o carvão do diamante
O breu do brilho
A espuma e a água
O mar nos teus olhos
Como se Moisés voltasse à terra
E se regressasse às origens da luz e da escuridão
É tudo teu.

Friday, June 02, 2017

Chavão, à Pessoa

Não é coca-cola, é síndrome de abandono:
Primeiro, encontra-se, depois abandona-se.
A Liberdade é o sonho que o Homem tem de um dia voar.

Monday, May 29, 2017

 Procurava a esperança como os girassóis procuram a luz do sol,
agarrava-me à racionalidade como os cactos a armazenar água,
buscava a paz como as andorinhas um seu ninho 
e toda a vida, no dia-a-dia,
contava as felicidades alheias como quem conta pétalas bem-me-quer. 

Porque é necessária a beleza para suplantar a fealdade do mundo
e urgente a humanidade da natureza que salva cada árvore e cada ser,
olhava sequiosa em volta para me abastecer dessas pérolas
e lutar contra esse mundo ruidoso e ruinoso 
de stress, de desejo de satisfação imediata,
e todos esses vícios acumulados da insatisfação perpétua e frustração
que a fugacidade do frenético causa.

Um dia já não será preciso procurar:
só escutarei o chilrear dos pássaros e o mar. 

Sunday, May 28, 2017

Antigamente não se ouviam tantos pássaros lá fora, nem as aranhas tinham abdómenes tão grandes a tecerem seda que mais parece cotão de tão grossa...
Havia mais meses em que chovia, eram dia a fio e caminhos alagados, nada era tão bafiento e sem se ver o céu azul ou totalmente cinzento escuro. 
Agora é como se vivêssemos em permanente efeito de estufa.