Saturday, June 23, 2018

Quem dera que entre mim e eu reinasse um silêncio impoluto, onde apenas água estivesse.

Wednesday, June 06, 2018

Poesia

Imagino que ainda me esperas nas madrugadas que passamos sem dormir, ao som das tuas listas de músicas, a banda sonora das nossas vidas. Dependurados na janela que só se abre quando estamos juntos, a ver mil andorinhas bailar num frenesim único, espectáculo que apenas reservam para nós num crescente até ao romper da aurora, e o nosso sorrir diz que abdicaríamos do amanhã só para ter aquele momento. Não há nada mais precioso então. E como sabemos que tudo se acaba só queremos saber que somos nós, puros e apenas com a maior verdade, de que houve um momento que se pode imaginar que valeu para uma vida inteira.

Friday, June 01, 2018

Saudade, gastei-te o nome,
ficaste gravada na minha mente
como um sonho recorrente
e agora o teu rosto é lua cheia
que brilha e encandeia os meus olhos
em todos os dias da minha vida.

Thursday, May 17, 2018

Soneto (hendecassilábico)

Veio para mim como uma onda,
com força de natureza pujante,
lembrar-me do quanto ele faz falta,
nos dias quentes meu amado amante.

Toca esses lábios sedentos de mar
nas brisas mornas que acariciam
e na luz que o corpo veio banhar,
já quando as gaivotas apareciam.

Um crepúsculo por demais célere
Os tons laranja derramados loucos
Com tudo a nu bronzeado ténue

E nuvem de cheiro a maresia
Onde apenas os pés me enterre
Mergulho numa calidez aos poucos.
Para chegar a ti tenho de viajar muito,
não pelos quase 400 kms que nos separam,
mas pelos deslizantes terrenos do teu corpo,
pelas notas marcantes do teu riso,
pelos prados verdejantes em que nos deitámos,
e depois as léguas do deserto da árida indiferença.

Wednesday, May 09, 2018

Fadista

Ouvi-te as lágrimas na garganta,
que caíam como as folhas outonais,
choravas baixinho, fadista minha,
abençoavas-me com os teus ais,
mas eu sabia que nada te espanta
e que ignoravas a admiração que te tinha,
do teu público querias mais.

De mansinho, veio pois o Inverno
e com ele se enregelou o meu coração
Hoje procuras o meu beijo terno,
mas vazio já não consigo dar-te a mão.


[10.10.2017]

Canção ... "à Chico Buarque"    3/4-09-2017  

Carla ficou sem o seu Carlos
e virou um pote de mágoa
quando tantos eram os bons momentos raros
e a desatenção era a gota de água.
Ela vive os dias na casa atarefada
com a banda sonora do rádio a pilhas
Não tem tempo para chorar a dor
Nem se aperceber que foi abandonada
Sonha ainda em viajar e ver maravilhas
Mas tem de aprender a viver sem amor.

Saturday, May 05, 2018

Não sou tela em branco
Não sou página vazia
Sou antes buraco negro que não suga
Apenas contém todas as cores em si
Denso e repleto de substância 
Na confusão dos universos.

Monday, April 23, 2018

Insónia, essa ninfa de olhos esbugalhados, gigantes e arregalados, que me fita e me congela num tempo interminável como quem viaja num comboio imparável.
Quem está mais dentro de nós: quem ocupa o nosso coração, ou quem habita a nossa alma? Amar com o coração, ou amar com a alma; qual o ofício mais inteiro?

03.01.2018
Estava pronto para te amar até ao fim das nossas vidas, 
agora serás sempre a lágrima que ficou pendente na minha alma 
e o perfume que está sempre no ar 
e o vazio que permanece no meu peito
e que nunca terá fim.

[Lover, You Should've Come Over - Jeff Buckley]

Wednesday, April 18, 2018

Viver uma vida apenas contemplando a Vida: 
a rugosidade do passeio que trilhas, o intermitente brilho nas pedras do caminho, a extensão das planícies e planaltos a que os animais retornam passadas décadas, o vento que transporta a vida e traz também notícias do outro lado, o mundo que ninguém vê*, só tu e mais ninguém, vislumbrando o céu imenso que ainda é minúsculo para tanto mar dentro de ti, e a falta de estrelas porque a luz da cidade as ofusca, e a falta de silêncio porque o barulho apodrecido da sociedade impera, não deixa escutar a vida que poderia ter sido, mil milhões de vidas que foram, toda a mortandade contida em todos os aflitivos chilreios incessantes de madrugada em madrugada, de despertar em despertar, raiando a atmosfera nebulosa de todos os que pariram a vida num só mundo. 

Eu não sei viver. 



*as cores que não existem

Thursday, April 12, 2018

Afastar o verbo da palavra, assim como os dedos do coração; mover o vento com as mãos e percorrer a estrada.
Com garbo vestiste o lenço e seguiste em direcção às arribas. O seio da dor e o peito esburacado como as rochas erodidas de camadas de sentir, não fazem jus ao vazio. E tudo o que sempre quiseste de mundano era pertencer aos que te quisessem escolher a ti como família, para te protegerem e amarem neste mundo de tão demasiada fealdade.

Friday, February 09, 2018

Capital de Dor

O peito humano, essa capital de dor no país de um corpo finito,
E o capital de dor que comporto nas fronteiras amassadas do coração,
É todo o meu ser espraiado e preso sabendo que não tem solução.
Sou eu repartida por vidros do espelho de cada pessoa: o corpo que faz amor como as ondas e acaba na rebentação.
Dos seres que são demasiado belos para este mundo, não reza a história.
A indiferença é o pão que alimenta a solidão.

Wednesday, October 04, 2017

Como é que se regressa à vida?


Como é que se regressa à vida, depois de vermos tudo ruir?
Não somos um bebé que começa a aprender tudo do nada. Trazemos memórias de fruta fresca no regaço, trazemos memórias de trovões que fustigaram toda a Terra no horizonte. Chegamos de mãos vazias e olhar fixo numa imagem devastadora que nunca parece largar a mente.
Dizes-me que não se recupera do irrecuperável, quando eu alto formulo retoricamente esse pensamento, mas (logos dixit) e se o tornarmos recuperável, se nos batermos até sangrarmos de novo para voltarmos a recuperar o controlo, e enchermos os destroços com uma intensidade semelhante que os assoberba de amor?
Será utopia pensar que é possível, será presunção almejar o que nos parece impossível e o que dá muito trabalho, porque pensamos que não temos dentro de nós essa força, esse querer, e que não teremos entre nós essa capacidade?
Só sei que a cada abraço teu tudo parece muito melhor.

18.06.2017

Sunday, September 03, 2017

Pincelo as notas de uma dançarina como quem escreve com as cores de um vento intemporal... e ela dança e rodopia, mascara o tempo e leva todo o mal.

Friday, August 04, 2017

O que dirias se visses o corpo a nu, por detrás das transparências: a limpidez das várias cicatrizes e a sujidade dos poucos sinais?

Bebeste da minha alma: o carinho entre-dedos, o teu semblante de poeta do romantismo e, eu, brincava com a tua face num mundo ao contrário. Tu sorrias, sempre. Eu a amar-te cada vez mais, sem dar por isso. 
Tenho saudades 
de quem não sei quem és 
e do que foste só para mim. 
Todas as auroras têm a melancolia da ternura que nos tocou 
e o cheiro  do orvalho trémulo invade-me como o teu abraçar 

que tanto queria de novo em mim. 

Monday, July 31, 2017

Quisera que o fogo nos consumisse a alma na mesma fogueira
Mas a chuva debochada alagava tudo à nossa volta
E os amores impossíveis como de Tristão e Isolda
Só têm lugar na escuridão da noite
Sob o manto negro do céu.

Friday, July 14, 2017

Saudades das tuas particularidades



Escreves muitos "a" sem "h"
E enquanto te leio falta-me sentir o teu sorriso a olhar para mim,
E toda a minha vida percorrida pelos teus dedos,
E até o teu som de estalar o corpo,
Como se sente nostalgia de ouvir o som que a antiga casa fazia;
O teu corpo esquálido de alabastro, o perfeito abrigo para o meu corpo aranhiço;
A tua vida a palpitar na calma excitação, essa ternura tranquila, que não se mede pelas palmas das nossas mãos; 
O teu tacto e polidez a cada frase minha, quase como resposta biológica;

São singularidades que me vêm à memória e de que sinto falta no ruído da madrugada, para silenciar a minha mente e sossegar o meu coração.

Sunday, July 02, 2017

As auréolas abocanhar-te-iam as pupilas e cada poro do meu corpo, micro-vulcão de desejo, queimaria a tua alva pele. Demasiado fluxo mental, demasiada vibração corporal, intensidades sísmicas das quais provavelmente não recuperarias. 
Ainda me dirás o que sentes, ou também me condenas ao abandono? 

O naturalismo dos Homens

Não falemos das plantas masculinas nem das plantas femininas, 
Mas é sabido que todos preferem o corpo à mente com todos os seus tropismos. 
As raizes ramificam-se e são super funcionais no que é superficial. 
A fisiologia dos seres cuja função derradeira é a de se duplicarem apenas por uma questão narcísica de sobrevivência espalham-se pela terra. 

Esta é a biologia e antropologia dos seres, que durante séculos maravilha os seus estudiosos. O mundo natural no seu primor e primordial significado. 

mens insana in corpore insano

Nesta existência lentamente se degrada e se degenera
Nem sequer cumprindo a função de ser húmus para a terra 
O corpo é cadaverizado em vida
E a morte já vem tarde para a recolha

Não falemos do espírito, da alma, da mente, pois esses nunca chegam a ser algum dia integrais, 

Unos e sãos, completos na sua essência. 

Saturday, July 01, 2017

Afogas-te nas memórias diluídas 
Tal como eu embarco nelas...
Faltou-me saber reconhecer a verdade 
Parar com os textos repetidos
E começar por admitir a vontade 

É sempre tarde quando te apercebes
É sempre impossível quando não consegues 
E acabas por ficar apenas com a maresia 
de uma vida por viver

Os redemoinhos de repetições 
Sucedem-se implacáveis 
Nunca varrendo a inutilidade 
E a vacuidade que cega,
Mantendo-nos sempre na escuridão 

Eu esforcei-me demasiado  
Fui contra a corrente 
Qual eterna rebelde 
Mas descobrindo o niilismo da vida 
Como e por quê continuar

Em décadas sucessivas de naufrágio?