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quinta-feira, abril 09, 2026

Chorando

 Se eu chorar 1001 dias
Será que desagua a mágoa
E páro de dizer #bebamágua
E voltam algumas alegrias?

Se eu chorar 1001 nomes
Será que terminam as fomes
Todas dos humanos ignomes
E arreigar-se-ão dos seus pronomes?

Se eu chorar 1001 noites
Será que param os açoites 
Nas costas da minha alma
E começa finalmente a calma?

quinta-feira, março 12, 2026

mais um daqueles pensamentos

 A vida é uma coisa muito difícil para a maioria das pessoas.

Tenta-se levar em frente, fazer o que se pode, mas há pessoas que estão fadadas a ter todas as suas oportunidades goradas.

Ultimamente olho para trás, para ver se alguma vez houve uma chance, mas chego sempre à mesma conclusão: não houve e nós não fazemos "ses", não é?

Por causa da malograda saúde, estar há mais de uma década sem poder trabalhar fora, mais de duas décadas sem poder viajar, anos sem poder estar com pessoas à-vontade, e todos os pesadelos enfrentados desde a pandemia, mais uma vida inteira de traumas, faz-me pensar em como abraçar ser artista tem sido mais um murro em ponta de faca.

sábado, março 07, 2026

Os meninos choram

 Os meninos choram 
Preferiam dançar no TikTok
Ou andar a jogar no Roblox 
Do que ter de ir para a guerra

Os meninos choram 
Preferiam comer McDonald's 
Ou ir tomar café ao Starbucks 
Do que lutarem pelos EUA

Os meninos choram 
Preferiam usar Ye e Levi's 
Ou Calvin Klein e Tommy Hilfiger 
Do que a camuflada farda militar 

Os meninos choram 
Preferiam ir divertir-se para o Dubai 
Ou para a Arábia Saudita 
Do que ir bombardear o Irão 

Desoriente

 Andamos com uma espada 
Em cima das nossas cabeças 
E o ar vai-nos sufocando
Até que piramos
No tecido infinito do céu
E o que era nosso, agora é teu
Todas as ruas e candeeiros 
Todas as luas e meses de Janeiro 
Eu não julgo que seja eu 
Tu não sabes o que é teu

Andamos perdidos no vácuo 
Como pássaros doentes
Em razias ao fogo fátuo 
Koa'e keas ao redor de vulcões 
Nós éramos alvos e puros
Víamos outro tipo de aviões 
Tu nunca foste inteiramente maduro
Eu sempre fui idosa demais 
Mas no final de tudo
A verdade é que já casámos
Na fotografia dos meus pais
Também incompatíveis e desiguais 


quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Um produto da imaginação

 Eu sou quem todo o mundo trocou 
Rapidamente quando viu a validade
Como um produto que pegaram
E só se aperceberam do prazo 
Depois de gastarem e já era tarde

Tiveram um imediato entusiasmo 
Ao se depararem com a embalagem 
Logo curiosidade e etiquetaram-me 
Como algo exótico para irem de viagem
Mas não estavam preparados 
E nunca têm adequada bagagem 

Talvez seja como disse o meu tio
E é só curiosidade de meninos
Que mal sabem no que se metem
E quando depois percebem 
Enfiam a viola no saco e desaparecem

Acho que a vida toda é feita de ilusão 
Para quem é como um artista 
Que inventa a arte para escapar 
Eu que sempre fui só solista
Sou-lhes apenas produto da imaginação 

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Quem me leva os meus fantasmas?

 Se é mesmo verdade que se nos encontrássemos mesmo nos nossos agora quarentas, depois de mais de vinte anos, nunca poderíamos ser só amigos, eu não sei. Mas acho que não. Eu já não te amo como te amava. Já amei outros dois depois de ti. Pensamos sempre que temos a nossa pessoa. Mas isso só é assim se essa pessoa estiver lá para nos defender e podermos contar com ela. Nenhum dos três me defendeu quando era preciso. E abandonaram-me à morte. Curioso, não? 

sábado, fevereiro 21, 2026

Incapacidade final

 Talvez a minha forçada inépcia sempre no último verso seja como a minha inabilidade de fazer rapidamente um cheque-mate, ou talvez apenas o facto de nunca ter saído daqui, ou tão simplesmente nunca ter tentado de vez apagar-me.

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

 Marcou-me o teu gesto
De tocares um caracol do meu cabelo 
Será que era um brinquedo 
Ou o afastavas do meu rosto?

O teu cabelo é tão negro 
Como a asa de um corvo reluzente
E o teu cavanhaque de moço
Era tal como te dizia espadachim 

Tu causaste-me um alvoroço 
Com a tua desgarrada bravura 
Sempre tiveste optimista candura
Afinal lembravas-te de mim

E eu não sei o que te perdura
Nem soube por que foi assim 
Depois, todo o clima funesto
Quando te tinha já antes dito
Que eu não aguentava nada disto
E vocês que um dia foram alegrias
Acabaram a dar cabo de mim

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Sensibilidade e bom senso

 Penso em quantas pessoas deixámos que nos influenciassem um contra o outro. O quanto de intrigas, fofocas, mexericos, diários equívocos, deixei que me contaminassem e envenenassem como nunca outrora. Sempre soube da perniciosidade dos comportamentos de grupo. Mesmo assim não me afastei das pessoas nefastas, porque por momentos tinha a ingenuidade de um puro amor como escudo acima de tudo e senti-lo era o que bastava para ser imune. Pensava eu. Mas os planos mesquinhos de outros podem matar tudo o que quiserem e, achava também eu, que se fizessem mossa num sentimento tão grande era porque afinal não era tão grande assim. Para mim ele resistiu e foi sempre o que foi: enorme. Massivo e maciço em tais formas que até depois da morte ressoa. 

Afinal também nós tivemos bastante de Heathcliff e Cathy. 

(e quantas vezes de seguida disseste tu a alguém que a amas?)

Hoje ao rever Sensibilidade e Bom Senso pensei em como devia ter morrido aos 16 anos com as febres do vírus, mas também eu tal como a Marianne, sobrevivi. Só que eu não tive o meu final feliz (sei que ainda não se acabou tudo, mas não há esperança para mim nesse departamento). Hoje fiquei feliz e com esperança no mundo porque vi um post da Minó no fim de dezembro a dizer que afinal o amor existe e ela disse que sim (pedido de casamento). Depois, fui ver O Monte dos Vendavais e chorei imenso no fim. 

Não há amor verdadeiro que sobreviva à morte e o despedaçar do coração por inteiro. (Nós, eu, sempre estivemos, estive, condenados, condenada.) Tu nunca saberás o que foi este amor e ainda bem para ti. Como no filme. Nada de bom vem dessa perdição. Não imaginava que ainda poderia viver tamanho amor de destruição total, depois de tudo o que passei na vida e, ainda assim, a loucura e consumição típicas dos amores mais vorazes e adolescentes persistiu com uma violência brutal. 

Tudo tem a sua medida e tamanho e adequação. Só o inferno incontrolável é que não.

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Feridos

 Fomos feridos
Por balas perdidas
Fogos cruzados 
Duelos ao luar

Uns machucaram-nos a boca
Outros o resto do corpo
Deixando-nos a voz rouca
E um ouvido mouco

Uns de nós fomos assediados
Outros abusados 
Fomos todos explorados
Escravizados feitos de escravos 
As feridas não cicatrizaram

Fomos julgados e condenados
Depois abandonados
Desapoiados e roubados
De tudo o que podíamos ter

Somos mal olhados
Temos cara de estranhos
Somos feras feridas andantes
Não temos senão passado

Fomos feridos 
Somos
Estamos
E tu onde estás?

terça-feira, janeiro 27, 2026

Dor Dilacerante

 Tem configuração rotunda
Esta dor dilacerante 
Que me destrói devagar
E profusamente 
Corrói qualquer hipótese 
De se estar contente 
Seja com o que for
Durante mais que minuto
Eu sei, eu escuto
Um queixume do coração 
Que morre aos poucos 
Tudo está quebrado 
Nunca houve anjo
Era só um endiabrado 
Quem eu tenho de abraço 
Na memória de espuma
É alguém que foi devasso
Mas que pensei gostar de mim
Não sou dona nenhuma 
De ninguém que não me quer
Pois só há um homem no mundo 
De quem eu poderei ser mulher 
E ele nunca existiu afinal 
Por isso esta dor é, em tudo, normal

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Consequência de ti

 Fui consequência de ti
Não lamento a vida passada
Assim como tu, só existi
Inventando uma caminhada

Porque tu exististe
Também eu fui
Assim como viste
Algo que rui

E como ondas do mar
Que fazem navegar
Ora fomos para cima 
Ora para baixo nessa rima

Era o que tu dizias
Com tanta certeza 
Aprendeste com o que lias
A ter tamanha destreza

E com o teu pai a lição 
De que não há o que fazer
Se um dia é de paixão 
E o outro de morrer


sábado, janeiro 17, 2026

 - Passa das 5h da manhã. Há uma hora atrás, enquanto acabava de ver o 2° episódio da série documental "Deus Cérebro", o meu olhar vislumbrou ao longe um pedaço do capôt coberto de geada desse carro, pela janela. Uma imagem que me lembrou de desolação. 

Entretanto, já chove.

Pensei em ti, como sempre. Mas, enfim, mais uma vez com a resignação já antiga de "tu ne m'aimes plus". É, essa é a imagem. Fria e distante. Como o que me dá bronquite asmática. 


(pus no insta com a música de reels de November Ultra)

segunda-feira, janeiro 05, 2026

Pesadelo

 Os últimos anos parecem um pesadelo interminável. Ou melhor, vários pesadelos diários, que depois permanecem como traumas enevoado na memória. 
Cinzentos, muito escuros. Magoados. No corpo dores e na alma rasgos. Eu não ter mais capacidade de continuar. Perdi-a já há muito tempo. Não é mais como antigamente uma resignação, mas um luto destruidor e paralisante. Os lutos acumulados são como óleos de cor escura empastados uns sobre os outros. Viscosidade de alcatrão mas sem brilho. Com as suas pedrinhas como micro-memórias esmagadas e levadas todas juntas.

De todos os pesadelos que tenho, o pior é ter de continuar a viver como desde criança a querer morrer por causa do sofrimento e do caos e insegurança que me causam diariamente, vindo de quem precisamente devia ter-me protegido e amado. Toda a falta de respeito, de cuidado, de protecção, de amor e atenção, o abuso e a exploração, estão a latejar no meu corpo a toda a hora. 

Sei que terei descanso finalmente quando morrer, sempre o quis desde criança, mas não ter tido direito a paz, amor, liberdade, a poder fazer escolhas e ter uma vida estável e harmoniosa, é por demais injusto. E vocês sabem como eu sou com as injustiças. 

Alegra-te, meu ser amado de todos os dias, o meu maior pesadelo dá cabo de mim o dia inteiro. E não és tu. Tu foste apenas o meu maior erro. Um que nunca terá perdão.  Ou seja, a pessoa morre burra e estúpida. Mas, também, não é assim que todos morremos?

Como das outras vezes

 E, depois, muitos indignaram-se
Mas enfiaram-se em discotecas 
A dançarem e a se drogarem
Como se não houvesse amanhã 
Contudo, sempre houve
E eles não fizeram nada
Nem no dia a seguir 
Nem nunca 
Como de todas as outras vezes

Se ao menos...

 Se ao menos eu te pudesse amar

com este corpo

ao teu 

talvez lentamente 

nos pudéssemos encontrar 

e eu havia de te ter como meu

e não te querer largar 


mas não 

isso era o eu de antigamente 


hoje eu sei que somos só carentes

segunda-feira, dezembro 15, 2025

O Luto

 O luto é um desalento 

Que se instala e não sai

Tão cedo

Se foram 

No redemoinho que cai

Sobre a nossa cabeça 

E sob os nossos pés

Só fica um tormento 

Que volta de lés a lés 

sexta-feira, dezembro 05, 2025

Etéreos

 Habitamos o éter
Somos um intervalo
Preenchemos o vazio
Entre a matéria escura
Que raia o cosmos

Somos seres etéreos
Alguns de nós 
Chegamos a flutuar 
Na nuvens velejantes
De um horizonte estrelado

Tens um tom magoado 
Eu sei, porque foste roubado 
Por mim quando enlouqueci 
Momentaneamente 
Por ti
E capturei o teu coração 

Irmão da dor, paixão 
Estamos órfãos da ternura
Ela não é a minha outra sobrinha 
Ela foi-se embora e pouco sobrou
Mas hoje o cordão vibrou