Tuesday, October 20, 2009

Foste o último raio naquele pôr-do-sol.

Escondi-te na palma da mão enquanto tu me sorrias.
Dobraste a esquina e pude ver-te o olhar, rasgão de luz, última, no pôr do dia.
Viajei sem reparar, ainda nos teus cabelos, caminhando, vislumbrando o brilho deles ao luar.

Sinais de fumo me lembravam a tua pele, sufocada pela poluição da cidade,
à espera de um banho de mar, purificante.
Fiquei com o sal da tua pele nesse dia a perdurar-me na ponta da língua,
e dos teus lábios colhi grãos de sêmola de trigo, doce, que se desfaziam na minha boca.

Ainda é cedo, meu amor, disseste-me. Mas já era muito tarde, sabia-o de certeza.
Não te pude mais ver, nem sentir o teu sabor, e nas minhas digitais podia ainda sentir a areia da tua pele. Corri, corri, para que o teu corpo e a tua mente não me pudessem mais invadir, para que com a fúria do vento te expulsasse de mim... Porque já era muito tarde, porque não podíamos mais existir, porque tinha de ser assim.

Monday, October 19, 2009

A memória da persistência

Busco, desde há sete anos, o trilho para chegar até Mariana. Exangue, sigo os seus passos, adivinho-a e oiço os ecos da sua voz que ficou presa nas ondas eléctricas do magnetismo terrestre e que a Mãe-Natureza me devolve, num acto similar ao de um sacerdote que entrega as cinzas de um cadáver acabado de cremar.

Contorna a base do penedo, enorme. As suas estepes são as costas de um gigante, cravejadas de rebentos que se erguem do suave musgo-alcatifa.
Lúcia-lima e dançam mosquitos, hortelã-pimenta que piso e é um bálsamo para os pés cansados da exploração errante.
Beleza selvática que se revela mutante de um mundo paralelo ao do meu familiar campo prazeroso.

Chegando ao planalto, do topo do abismo se avista o lago, reflectindo monstros semelhantes aos borrões de Rorschach; é uma lagoa na cratera do vulcão, ladeada por pequenos monstros de cinza.
Jorrava o verde em todos os seus tons: verde-água, verde-esmeralda, verde-seco, verde-malaquite, verde-palma, verde-absinto, verde-limão, «assim como os olhos do meu coração».

Segredam-me murmúrios de estalactites, como quando o vento serpenteia a costa. Ao longe, as ondas eram orquestradas pelo pensamento de Mariana, num compasso binário, iam : pausa, vinham : percussão. Atlântico, o mar, e de repente um som ténue, depois engrandecido para música com ritmo sincopado, da minha infância o bater dos pauzinhos das rendas de bilros que a minha avó malabarismava. Aquele ritmo ancestral e o olhar da minha avó sobre mim, tecendo esperanças e sorrisos a meu favor. Primorosamente, espuma de bilros em rendas espraiadas pela orla marítima. A memória da persistência. Gotículas aderiram ao interior das minhas narinas. Através da simbiose das moléculas do sincretismo que se apodera de mim, dá-se o equilíbrio dos elementos.
Um nevoeiro amargurado prepara-se para expulsar os pequenos duendes beneméritos e abraçar a noite dos bichos noctívagos. O estoicismo com que as plantas se recolhem, de estames vigorosos e caules hirsutos, de quem perdeu mais uma batalha, mas não a guerra. As folhas, largas e outrora protectoras, falecem no descendente lusco-fusco do horizonte desfocado. Derrama-se a penumbra e as sombras esponjam-se sobre todo o vale. «É de noite a Criação.»
No altar do planalto, com vista para o abismo aquoso, vejo o etéreo corpo de Mariana. Jaz, incólume, como sacrifício recebido pela terra que a abraça com os seus áridos feixes, enrodilhando-a nos membros e no tronco. Nota-se florida na cabeça de Mariana, sobressaindo dos seus cabelos rebeldes, uma coroa de vime seco, pintalgada por pequenas flores de um cinzento-claro, que fazem lembrar o nevoeiro que há-de vir. Não tarda, a voz do silêncio cobre de meditação o frondoso mundo selvático que ficou abaixo do leito de Mariana. Gotejam-se chilreares tímidos..., escasseiam-se... e deixam de existir. Permanece «a serenidade que embala a vista com ternuras tristes». A tua ausência está cravada na negritude da rocha vulcânica, assim como na minha alma. Encontrei-te, finalmente, estiro-me ao teu lado e entrego-me ao húmus. Nem o nevoeiro amargurado e as criaturas da noite conseguem expulsar-te deste lugar, Mariana.

Sunday, October 18, 2009

O homem-nada

A minha vida é um círculo perfeito, preenchido com o nada.
Os dias nela são sucessivos nadas e, ainda assim, o tempo continua a passar.
De vez em quando espirro, outras endireito as costas, e por minutos, poucos,
consigo manter uma postura de uma certa altivez.
Mas lentamente, com a mesma inércia de quem está dentro de um autocarro e chega a um destino sem se mover, e sem saber como se chegou, torno a ficar encurvado, como quem carrega um mundo indiferente nas costas.
A minha estrada - há quem lhe chame caminho -, é recta, ladeada por funestos chorões, e a sua perspectiva fá-la terminar apenas no horizonte.
Havia quem dissesse em tempos, que eu era um maníaco do controlo. Não me parece que hoje controle o meu nada ou tenha controlado a minha vida para chegar a este nada e mantê-lo assim. Não é alguma coisa, de muito interessante, este meu nada? Não me parece que careça de manutenção sequer. Talvez seja o puro nihilismo que teóricos sempre procuraram alcançar. O nada que, para variar, não é tudo.
Visivelmente, há marcas de uma aventura passada, em que havia alguém - no final, no derradeiro fim de tudo, só ela permanece, só ela conta para alguma coisa -, em quem acreditei. Gostei dela como se gosta de um animal de estimação, um companheiro que morre ao fim de uns anos de simples afecto. Cheguei rapidamente à conclusão de que somos sós; de que não há quem nos aplaque a dor da consciência, eu pelo menos não tive a sorte de encontrar essa pessoa, de quem ouvi contar de apenas de uma pessoa, que é como se fosse nós fora de nós e que está sempre dentro de nós. Complexo e daí algo confuso, não? Para quem estava talhado para o nada, eu certamente não serviria, não seria merecedor de encontrar essa pessoa assim tão mágica.
Por isso, também não posso dizer que no meu fim estará ela, contará apenas ela, pois nunca existiu mais ninguém. Este meu nada é um acumular de solitude num icebergue monumental.
São poucos os momentos em que o pesar me vem delapidar o sono ou o respirar. Há muito que não há sentido qualquer - num círculo nunca o há, ou se há, é apenas em si mesmo, numa tautologia da forma -, nesta existência de solidão.

Wednesday, October 07, 2009

Poema da "Aborrescente"

Gritava, Gritava, como uma gralha histérica
Guinchava, Guinchava, como uma porca da matança,
Tinha o péssimo hábito
de atirar coisas para cima das pessoas,
dos tolos,
Não era nada genuína,
era simplesmente uma Adolescente
que muito Aborrecia.
Dava de beber à fome; era louca.
Servia vodka com gelatina e doces gordurosos.
Para conselhos sábios tinha orelhas moucas
e comentários aleivosos.
Os tolos davam risadas,
até que muito depressa, já não havia paciência
e era o fim de tantas gargalhadas.
Ela dizia que se suicidava,
naqueles cabelos escorreitos,
e assim a vida de um ou outro atrapalhava,
mas já eram cada vez menos os sujeitos.

+-5 am, 07-10-09