Friday, December 28, 2012

Morro e ninguém ouve...
chega a ser engraçado
como ninguém vê que estou a morrer;
queria mandar a cabeça para trás
e apenas nada mais ver senão estrelas
e punhados de pó de estrelas de prata
como se se tratasse de toda a Via-Láctea.

É doloroso ver gargalhadas e cheirar alegrias
que não passam de ignorância...
e dizê-lo também dói, fere e custa:
é a verdade que é bruta e carniceira,
que arranca esperanças e lembranças
outrora cheias de raios diamantíferos
do mesmo sol em volta do qual voámos,
e agora, agora já não há nada perfeito,
não há nada eterno nesta crueza mortal
que é a vida da qual a morte faz parte.

E pensar poder dizê-lo...?

Rasgando o rosto em chamas que cortam
lágrimas que desenhei num drama antigo
e qua agora passam a protagonistas
no mais intenso e mórbido cenário.
Não, não há trovão que ruge assim
e se há, nunca foi nem será o meu decerto,
porque não sou Neptuno mas sim...
Estrela-do-Mar que se abriga frágil
no leito divino e paterno do oceano
e só ao mar obedeço e sou fiel,
porque é só ele que sabe quem sou,
quem possuo e quem me possui
do início e até a este fim que chega perto
e avança com uma rapidez peremptória.

E todas as histórias têm fim
nem que seja por não terem continuidade.
Esta minha história não tem um sonho,
só a realidade que a faz terminar
e que é o que não me deixa começar.

Escrito a 31-10-97 (txt original discorrido em verso mas sem parágrafos de estrofes)


Friday, December 21, 2012

Sonho e Maresia

Penso que qualquer pessoa se podia habituar a sol e mar,
à vida boa que é não ter de sofrer, não ter de lutar.

Um sol que não queima e um mar que não se revolta,
perfeição e calmia, sempre crepúsculo e luar
ao doce som da maresia.

É, acho que eu me podia habituar.

Wednesday, December 19, 2012

Conexão Humana

Todos procuram
conectar-se a outrem
nas ruas, nos transportes,
nas redes físicas e virtuais
e as multidões de comensais.

Pois, eu digo que se beba o vinho
e que comece o desatino!

Mercados de gente,
mercados de natal
mercados de viagens
mercados de hospitais.

Não te ligas a ninguém
pensas que não sais magoado
mas a solidão não é só um achado
pois pode corroer-te mais além.

Teias com microchips nas intersecções,
assim é a rede humana de relações
em que se assiste à dizimação dos valores
e ao crescendo dos preços

Não temos deus, não temos crença,
mas também não temos razão
nem a tradição da benevolência.




Saturday, December 15, 2012

Escrevo-te com o sangue diluído em lágrimas
a partir do tinteiro do meu coração
e com a pena do corvo negro
que um dia foi apenas azul.

E escrevo-te porque sempre foste tu
e porque nunca soube onde estavas
e no entanto continuei a escrever-te
no papel translúcido e pardo
para um endereço sem morada.

Não consigo precisar
se foi a falar contigo em pensamento
ou se foi a escrever
que cedo perpetuei o hábito
de ninguém me responder.

Porque a solidão é a minha maior companhia
e, como dizem, não me dou com pessoas
nem tão pouco com animais.
E a minha vida sempre foi torta
como a escoliose que me oscila
um centímetro e meio para o lado errado
em meia dúzia de vértebras insustentadas.

Escrevo-te sobre coisa nenhuma
e como sempre foi apenas fruto do ar
que o vento levou e não esqueceu
deixando a sua marca febril
nas minhas veias marcada.

Sunday, December 09, 2012

Como sabemos que ele é o "tal"?


Depois de crescermos e nos definirmos minimamente, ou seja, identificarmos características e valores que nos definem, nomeadamente o que queremos e o que não queremos, podemos enquanto seres humanos conectarmos com os outros mais plenamente.

Após algumas experiências de termos estado em relacionamentos amorosos, podemos ver o que gostamos e o que não gostamos nessas pessoas e saberemos qual o conjunto de boas características a reconhecer no "tal".

Quando encontramos a pessoa certa, sabemos, porque ela apresenta as qualidades que sempre quisemos que a pessoa que ficasse connosco tivesse.
Escolhemos amá-la mesmo que tenha defeitos, pois as suas qualidades são tudo o que sempre quisemos encontrar numa só pessoa e os seus defeitos são mínimos e também minimizados pelas qualidades que talvez sejam difíceis de encontrar numa só pessoa.

Não nos devemos habituar, ou conformar com as pessoas, mas antes darmo-nos ao pleno exercício do direito de termos do nosso lado a pessoa que nos completa e que reúne todas as boas características que as anteriores não tiveram em conjunto em cada uma de si mesmas.

A vida é só uma, não há hipótese de voltar atrás para se corrigir, por isso o Amor que é ingrediente principal para a felicidade deve ser bem pensado, testado, aprovado e comprovado, e não apenas sentido, para que seja dos melhores que pode ser.

Sunday, December 02, 2012

Pára e olha à tua volta: não sejas apenas um robot a ir para o trabalho e um zombie à frente da tv.

Thursday, November 22, 2012

A queda de um anjo

Guardava a minha alma
de noite e de dia
jamais desviava seu olhar
da minha parda face
enquanto eu sucumbia

Mostrava a devoção dos fiéis
e o sacrifício dos crentes
e soubera eu do seu destino
jamais sussurado entre dentes
o cruel desatino da queda

O que me leva a cair
que me impeça de re-ascender
O que me leva a sorrir
que nunca se aparta de mim

Pois longe estamos no vento do tempo
e mais perto estamos de chegar;
já não somos quem éramos, penso,
embora saiba que não se deixa de ser quem é.



O frio do desamor

Hoje senti-o: o frio do colchão do desamor,
acordar face a uma parede rachada
sem ninguém ao lado
sem qualquer esperança de vida.

Por breves momentos, senti-o:
o rubor esmaecido de memória de outrora,
quando o amor era bandido
e roubava suspiros sem demora.

A madrugada levou os sonhos bons
e deixou o deserto da realidade.

O meu amor nunca acabará,
é impossível que deixe de existir,
pois está ligado ao meu coração
e enquanto ele bate o seu pulsar
deixa-o repousado em mim.


Saturday, November 10, 2012

Auto-Imune

Sempre tive relações temporárias com o mundo
e soube apagar logo a informação desnecessária,
porém o que resta no hotel da memória
não é agradável de se habitar,
mas necessário para não se repetir.

Como se pudesse controlar totalmente!

O mundo lá fora corre e eu sossegada
no tumulto da minha prisão e ostracismo
como nenhuma outra jovem mulher
construiu a sua solidão e o seu pensamento.

No meu quarto, os 36 espelhos que já nada me gritam
apenas acompanham a minha inexistência
como espíritos inertes, estátuas de quem fui.

Transfiro a dor em palavras
que a expiam temporariamente,
mas quem as lesse todas,
não conseguiria ver um décimo de quem fui.

As muralhas que o meu corpo ergueu
não se comparam às fortificações consequentes na mente:
a auto-imunidade de quem morreu a cada batalha
e teve que à força da vida ressuscitar
para continuar a guerra.

Os pacíficos, idealistas, como eu,
nunca conseguiram sozinhos as suas vitórias,
mas o meu ser - ariete contra os obstáculos
- não teve claques ou guarnições de apoio;
a solidão foi a minha força, o meu templo e construção.

Friday, October 19, 2012

Epitáfio de Portugal

Aqui jaz Portugal
cuja data de nascimento
e data de morte
não têm precisão tal
que haja discernimento
capaz de lhe ler a sorte.

Da fibra que teve
apenas reza que foi por necessidade
sem grande interesse no bem comum
à medida que a gente ferve
por causa da riqueza e da vaidade
de todos e mais algum.

Alimentação farta se concedeu
enquanto outros se contentavam
com bifanas, cervejas e tremoços
Sugaram-lhe o tutano no apogeu,
lambuzando os dedos olhavam
enquanto ficavam apenas os ossos.

Oh burocracia entrevada,
que nem numa cadeira de rodas é empurrada!

Dizimaram a Flora em prol do alcatrão,
não vêem que não chegam a lado nenhum
sempre só a cultivar o betão;
dizimam-se futuras colheitas
cimentando o pão às pessoas
que se vêem obrigadas
a abandonar a agropecuária
que nos séculos anteriores
tiveram no coração.

Não há lugar a elegias
ao moribundo país,
que acabou com as alegrias
de um povo que não lhe traz flores à campa.

Portugal, Portugal, que nas tuas próprias terras jogaste sal!

Sunday, October 14, 2012

Casino

Luzes langorosas
contrastam com o frenesim das salas

O piso alcatifado não ampara
os golpes de quem sucumbe ao vício

Hoje já não se vê o primor do vestuário,
circulam ténis néon apressados
à mesma velocidade de sapatos de verniz.

Há um misto de desespero, vergonha e ambição no ar:
uma expectativa diferente de quem quer ganhar.
E no meio de tudo um casal de idosos apaixonado
conta anos de casados na máquina da sorte.

O mundo gira tão veloz quanto a roleta
e o resultado para a maioria é sempre a perder,
à medida que o dinheiro muda de mãos
como numa prova de estafetas a correr.

Wednesday, October 10, 2012

Lambendo as tuas lágrimas de veludo azul
provo a Tristeza
e fico a conhecer o sabor da tua dor.

Eu estou aqui à tua espera
de braços abertos
vazios
como a terra que anseia pela água
que a faz ganhar vida.

Meu Amor. Meu Amado.
De quem eu sou amadora.
De quem eu sou amante.

Vem para mim
na cálida brisa
que faz ondular o meu cabelo
como se  fosse um teu afago.
E faz de mim tua para sempre
ao baptizar-me com a luz que emana do teu coração.

Assim é o nosso Amor.

Sunday, October 07, 2012

Mandamentos: "Não ser como ela"


  • Não subjugar
  • Não agredir
  • Não mentir, enganar, ludibriar
  • Não explorar e usar
  • Não descarregar
  • Não queixar
  • Não se auto-vangloriar
  • Não trair
  • Não se auto-vitimizar
  • Não magoar
  • Não enervar
  • Não esperar
  • Não frustrar
  • Não pisar
  • Não impedir
  • Não julgar
  • Não criticar
  • Não gritar
(poderá sofrer adições)

Tuesday, October 02, 2012

Para a Fernanda*

Um coração de oiro que irradia luz,
num corpo de deusa grega,
queimado ao sol mediterrânico,
tem esta mulher que nos seduz
e nos deslumbra mal chega,
acalmando todo o pânico.

Doce bálsamo, Fernanda, produz
ao nos presentear com a sua amizade.
Vejo a sua classe e a bondade
e aspiro ser como ela,
chegar aos calcanhares dela.

Sei que essa altivez é nobre
e está nos nossos corações
mesmo quando se encobre
momentaneamente de ilusões.

Porque sonhamos com a ilha dos prazeres
longe daqui e da gaiola
que nos aprisiona com dizeres
de quem nem sequer foi à escola.

E finalmente empilhamos essa espera
como jornais que acumulam pó,
mas avistam dias melhores
pois com Fernanda sinto-me menos só.

* À minha querida Fernanda, agradeço a amizade e o carinho. Obrigada por ser quem é e a única amiga que liga para saber de mim :)

Monday, October 01, 2012

E tudo desfalece

Tudo ficou de um azul-cinza claro
e na minha boca um travo amargo,
é o final de mais um dia no mundo
e a paisagem pontilhada de focos-laranja
anuncia o sentimento outonal do vento calmo.

Retalhei os fios de cabelo que choram à despedida
desfiam-se pelo chão durante estas semanas
porque estão cansados mas ainda anseiam renovação.
O renascimento que não vem,
o renascimento difícil,
a vida em pausa antes de um último esforço.

As andorinhas inexistentes e as cigarras caladas,
os ramos que estáticos murmuram algo ao vento
e eu não vejo qualquer esperança para o sol,
já não lhe vejo o alento.
Amanhã tudo estará igual em lento esmorecer
e depois disso também, um dia de vida
a equivaler um dia de morte,
como em todos os dias que ninguém vê.

Os focos-laranja artificiais parecem-me agora
de beleza extraordinária, como a dos pôr-de sóis
que vi outrora, com raios de luz mágica e moribunda,
mas que deixavam nos nossos corpos a sensação
de que renasceriam quais fénix, dia-após-dia,
para um espectáculo dissonante.

Monday, September 24, 2012

O nosso amor é mais do que possível
ao mesmo tempo que tem sido impossível
em todos os dias das nossas vidas.

Mas um dia, sentar-me-ei naquele mesmo banco de jardim,
em baixo daquela mesma árvore e tu estarás sentado ao meu lado.

E um dia eu estarei a olhar o rio e tu o mesmo ondular.

Um dia estarei naquela praia e tu a olhar o mesmo horizonte.

E nesse mesmo dia tu e eu estaremos a olhar um para o outro
no nosso leito, lado a lado, enquanto entardece.

Sunday, September 16, 2012

Vai-se andando

Supostamente somos animais civilizados
No entanto, todos os minutos das nossas vidas
são premiados com eventos selváticos
a que assistimos a partir dos nossos sofás
confortavelmente defronte à televisão.

Enquanto civilização devíamos aspirar
desenvolvermo-nos em paz e harmonia
procurando atingir a perfeição
considerando a humanidade como um todo.

Porém, numa vida mormente curta
o indivíduo pejado de defeitos
vive a afundar-se num lodo
de movediças guerras e ódios.

Enquanto houver ganância
e o ser humano perpetuar imperfeições
nada poderá florir em calma
e semear a paz em todos os corações.

Sonhei com um mundo melhor
com pessoas melhores
e amei-os nessa ilusão doce
de quem vive amando.

Infelizmente, a celeuma diária continua
e ainda assim
toda a gente responde:
"vai-se andando".

Thursday, September 13, 2012

Tatuagem, por Chico Buarque


Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é prá te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...

E também prá me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço...

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem...

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...

Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes...

[Com Caetano Veloso: http://www.youtube.com/watch?v=TB6Cpy-X7A8]

Tuesday, September 04, 2012

Surfista sem prancha

Quatro horas da tarde e não me apetece muito...
não há água quente e a fria causa-me hipotermia.

Não sei se hoje vai aparecer alguém,
mas sei que não há ninguém.

Os Verões são cada vez mais longos,
cada vez mais incendiários,
mas não na minha vontade
que dispensa intermediários.

O sofá sempre disponível,
nem sempre confortável
e a isto se chegou
tão rápido quanto o mar secou.

Surfo em revistas, sítios e páginas,
vejo o horizonte com dois palmos e meio
e a reluzir minusculamente
porque já não há pôr-do-sol
ondas ou luar.

Na minha terra havia palmeiras a dançar
acompanhando o corpo mole
que bailava a cada passo na areia.

Assim são os surfistas sem prancha
românticos, idealistas,
lunáticos, existencialistas...


Tuesday, August 28, 2012

A AMIZADE DAS PEDRAS


Num lindo dia de sol, todos os habitantes da Cidade das Pedras comemoravam a chegada da Primavera. O Rei Diamante tinha decretado que tinham o dia livre para se prepararem para a festa de celebração, que seria mais logo, à noitinha, à luz da lua cheia.

Quatro amigas, conhecidas por todo o Bairro das Opalas e bairros adjacentes – por serem filhas de quatro importantes famílias, que constituíam a Alta Nobreza da Cidade das Pedras –, preparavam-se, em casa de uma delas, para a grande festa, para a qual também tinham ajudado a organizar, um luau na praia, dirigido aos mais jovens, a fim de complementar o tradicional baile para os adultos, situado no centro da cidade.
As jovens adolescentes gostavam muito da sua cidade, da natureza e de animais; pelo que, sendo de famílias reais e conhecendo-se umas às outras desde muito novas, juntavam-se sempre na escola e em todos os sítios que frequentavam, ajudando a empreender várias actividades na cidade. Apesar de serem todas melhores amigas, a Jéssica Topázio e a Joana Esmeralda estavam sempre juntas, e a Carla Rubi andava mais frequentemente com a Joana Safira.

Nesse dia solarengo, a Jéssica ía usar um vestidinho branco, que contrastava bem com a sua pele e lhe dava um ar fresco e jovial; a Joana Esmeralda vestiria um conjunto esverdeado que a faria parecer mais adulta; a Carla Rubi trajava um vestido saia-calção de cor escarlate, muito prático; e a Joana Safira um vestido de alças, azul escuro, que dava bastante cor à palidez da sua pele e a deixava muito elegante. As quatro tinham dependurado uma flor no cabelo – símbolo primaveril e de união –, da cor de cada vestimenta. Quando, finalmente, foram andando para a festa, encontravam-se alegres e ansiosas: umas por irem comer umas guloseimas feitas à base de coral e micas doces, e outras porque íam ter a oportunidade de conhecer rapazes de outras escolas e, quiçá, dançar com um deles à luz do luar. Foram cumprimentar as famílias conhecidas; combinar as horas do reencontro para verem juntos o espectáculo final, de explosões de fogo magmático, antes de tornarem a casa; e se despedirem para irem para o luau para jovens.

Chegadas à praia, ainda mais eufóricas e já ruborizadas aquém dos círculos rosa-pastel da maquilhagem nas bochechas, deparam-se com um amigo da turma, o Márcio Pirite, que estava com um amigo que as quatro raparigas mal olharam e caíram logo de suspiros de micas doces; apaixonadas ora pelo seu sorriso, ora pelos seus olhos, ambos muito luminosos, espelhando as chamas da fogueira crepitante. A Carla e a Jéssica entreolharam-se e as Joanas para elas, e trocaram entre si impressões sobre aquele delfim que brilhava mais do que a lua cheia naquela praia. Rapidamente, Carla e Jéssica trataram de inquirir Márcio que se sentia sob ameaça perante a ansiedade das amigas. Ficaram ainda mais inquietas quando descobriram que ele era, afinal, o príncipe herdeiro, filho único do Rei Diamante, de seu nome Duarte, e que fizera 16 anos há poucos dias. A noite avançava e as quatro amigas desesperavam pela atenção do Príncipe. A pouco e pouco, elas começaram a discutir; primeiro, sobre quem é que o tinha visto primeiro e, depois, sobre para quem é que ele mais tinha olhado. Na verdade – que era, então, invisível para elas –, Duarte Diamante não estava muito interessado em olhar para as raparigas, pois era muito novo e queria era aproveitar aquela noite rara, de liberdade dos afazeres da Cidade que um dia, mais tarde, teria de governar, para ser apenas um adolescente, naquelas poucas horas.

Na festa da Primavera desse ano, as quatro amigas haviam iniciado aquilo que seriam dois anos de estragarem uma amizade de longa data e tudo por causa do belo jovem príncipe. As quatro adolescentes, quando regressaram ao baile dos adultos, já não eram as mesmas; já não íam juntas e alegres, e nem sequer se despediram do Inverno ao som dos estrondosos fogos, de braços dados, como faziam cheias de esperança a florir, desde que se lembravam de serem amigas.

Dois anos decorreram e nem a notícia de que Joana Safira estava com uma preocupante virose, erosiva no Verão, ou a boa-nova de que Carla Rubi era eleita a melhor jogadora de futebol feminino de todas as equipas da Cidade das Pedras, fez com que as quatro voltassem a se falar. Assim, apesar da imensa vontade que tinham de estar umas com as outras e que mantinham em segredo, orgulhosamente, ficaram dois anos: sem se falarem – apenas se olhavam e quando uma era apanhada a olhar, desviava os olhos imediatamente para não “dar o braço a torcer”; sem irem aos mesmos eventos – tentavam, mais tarde, saber das notícias por outras colegas; e sem disfrutarem das férias de Verão juntas – o que não estragava os planos do resto das quatro famílias, de as passarem juntas, como era habitual, na estância da Praia de Xisto, no grande solar marmóreo, herança secular para as famílias da Alta Nobreza.

Era chegada a época da hora do sol se pôr, amarelado; era o Outono a vir de mansinho, anunciava-se lá para o fim do mês, com as suas folhas de feldspato, caídas, a fazerem a passadeira real para o regresso dos alunos – pequenos príncipes do conhecimento –, às escolas.

Márcio Pirite, amigo de ferro, não queria saber de inimizades e confusões, especialmente entre as suas grandes amigas de infância, Carla Rubi e Jéssica Topázio; daí que, durante estes dois últimos anos, se tivesse mantido imparcial e reportasse a ambas tudo o que ía sabendo de Duarte Diamante, o príncipe sobejamente desejado por todas as jovens cujos corações não eram de pedra. Por ter assistido às competições entre as, outrora, melhores amigas – Jéssica, Carla e Joanas –, Márcio Pirite resolve combinar um encontro com as quatro para anunciar algo que as interessava de igual maneira. Márcio era um rapaz extremamente afável, tido pelos colegas como algo despistado e ingénuo, mas, desta vez, todos ficariam cientes de que ele tem vindo a crescer interiormente, mais do que os outros rapazes, tornando-se perspicaz – muito à custa das quatro amigas, agora mais inimigas – e um tanto sábio, no que dizia respeito a relações de amizade. Combinou com as quatro raparigas no Parque dos Géisers, pois sabia que, assim, elas viriam cada uma pelo seu caminho e não havia o risco de se encontrarem, senão já no centro do parque, onde Márcio as “emboscaria”. Entre as cinco horas e as cinco e um quarto, foram chegando, e Márcio explicou – pedindo paciência, às primeiras a chegar, Carla e Joana Safira – que tinha uma notícia muito importante para todas.

Finalmente, as amigas faziam as pazes, abraçando-se, e tudo porque Márcio Pirite fez-lhes o favor de lhes abrir os olhos: «O meu amigo Duarte já tem uma namorada; estão juntos há um mês inteiro e até estiveram uns dias das férias de Verão juntos; é a Cátia Quartzo! Enquanto vocês estiveram a perder as férias, já para não falar destes dois anos, ele já tinha escolhido outra princesa. Estragaram a vossa amizade para nada! Não vêem que os namorados passam e os amigos é que ficam?! Espero que tenham aprendido a lição, porque eu já não estou mais para vos aturar chateadas umas com as outras.»
As raparigas ouviram, atentas e depois cabisbaixas, tudo o que Márcio deitou cá para fora e apressaram-se a consolarem-se umas às outras, repetindo como tinham sido estúpidas e que nunca mais se separariam por semelhante insignificância.

O regresso à escola – com todos os outros colegas, surpresos, a seguir com o olhar as quatro jovens, de novo, amigas –, pareceu-lhes muito doce, enquanto, de braços dados, pisavam o tapete de folhas de feldspato e soltavam risinhos que se confundiam com o tiritar das folhas secas.

N.B.: Para variar um bocado, um conto infantil, dedicado à minha irmã Jéssica e aos seus amigos.

Wednesday, August 22, 2012

coração feito com chumbos para espingarda de pressão de ar


O coração pode ser um eterno caçador solitário,
ou uma freira pudica, ou até um tarado!

Mas quando o coração 
é um idoso que olha para a sua cara-metade
com felicidade plena,
então aí temos a certeza de que o amor é certo,
confiável e verdadeiro.

O Passado está repleto de ontens
e o Futuro tem demasiados amanhãs
Por isso, só o hoje é tido em conta,
só o hoje nos abala como se não houvesse amanhã.

Eu sou forte, mas só de pensar em ficar sem ti
sucumbo como areia, num monte que apenas jaz
e se deixa extinguir lentamente pelos sussurros do vento.

Eu sou forte, mas sei que sem ti o meu coração deixa de pulsar
como acontece com a chama de uma vela
nos últimos instantes antes de se apagar
porque já se queimou todo o seu pavio.

Tuesday, August 14, 2012

O som do Amor a partir-se

Visitámos o mel dos lugares paradisíacos e logo depois descemos aos infernos do sofrimento terreno.

O Amor que foi o certo do certo e o errado do errado, tudo mais e nada.

Já alguma vez ouviste o som do Amor a partir-se?
Com o peso das desilusões, de repente, ele se partiu. Inesperadamente.

Mas os cacos estão lá, como fósseis recentes, pó de estrelas cadentes, que agora não se erguem mais.

Incrivelmente, depois de tudo, ainda sinto falta do que tive de bom contigo. Infelizmente, apenas restam vestígios e reminiscências dolorosas que eu tento imediato afastar.

Estará sempre tudo bem, porque tem estado sempre tudo mal, por isso não faz mal... é só um coração despedaçado.

Tuesday, August 07, 2012

Risco

Abalanças-te contra o vento,
sem qualquer pejo encarnas
toda a atmosfera do relento
sem que ardas nesse inferno
e repousas os pés no abismo
das falésias onde te enterro.

Hoje não és meu para guardar
não és mais quem se ajoelhou
aos meus pés virado do avesso
na direcção contrária de quem era para ser.

Escolhes a noite e ficas no momento
desde o seu tardio começo
até quando começou a entardecer.

Thursday, July 12, 2012

Mantra: "Eu sou um Ser de Luz. Sou eterna. Nada me pode afectar."

Saturday, June 30, 2012

Matar ou morrer

Um rosto afundado nas brumas da tristeza,
que arrasta consigo um corpo vítima da gravidade,
esta, que com os seus braços lânguidos
severamente o castiga
condenando-o a arrastar-se  pela Terra.

E de vez em vez, o ódio e a raiva como injecção letal
influem-se no corpo exangue
tomam conta dos braços agora entesados
e até os pés tendem a suplantar o corpo.

É nessas horas que se pode matar ou morrer.
É nesses momentos que o sibilo da víbora soa,
pérfido nos ouvidos, despertando as imagens
violentas e repetidas como ataques infligidos
à alma atormentada pelas memórias
do que nos fizeram.

E o que nos fizeram jamais sai de nós
e surge como em relâmpagos
repentinamente, sem aviso,
à menor escuridão no horizonte.




Tuesday, June 19, 2012

Não há diferença

As minhas mãos não estão muito diferentes
de quando te deixei no quarto escuro
com a penumbra a envolver-te o corpo
mas não fui capaz e voltei a ver-te.

Os meus cabelos não estão muito diferentes
de quando passeávamos de mãos dadas
e o vento os percorria como invisíveis dedos,
mas não fui capaz de derrotar os velhos medos.

O meu rosto não está muito diferente
de quando visitavas as memórias doces e amargas
apenas de olhá-lo nos olhos
mas não fui capaz e reduzi-as a escolhos.

O meu corpo não está muito diferente
de quando te deitavas a meu lado
e mo acariciavas durante lânguido tempo
mas não fui capaz e perdi o momento.

Wednesday, June 13, 2012

Acredito que alguns de nós somos mais tudo aquilo que aconteceu antes de virmos ao mundo, todas as histórias que as pessoas que nasceram antes de nós viveram, do que propriamente o que nos acontece depois de existirmos.


É como com os cabelos brancos, que quando caem, ou são arrancados, já tinham outros cabelos à espera de crescerem no lugar deles. Somos essa rede, mais ou menos desgrenhada, esse emaranhado de cabelos, que gradualmente envelhece e decai para dar lugar aos novos.

Sunday, June 10, 2012

Perspectiva

Podemos ter opinião sobre várias matérias sem termos lido sobre elas, porém só obtemos perspectiva quando nos informamos sobre o que várias outras pessoas dizem essas várias matérias.

Aí podemos juntar a nossa visão ao conglomerado opinionista apesar de não valer em nada para a matéria em questão.

Thursday, June 07, 2012

” Não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente”
Krishnamurti


Por isso é que... enfim... para mim é óbvio e não entendo como é que as pessoas não vêem em que Mundo é que estamos, que Mundo criámos e aquilo em que nos tornámos.

Ligado a isto: http://crypticpoetry.blogspot.pt/2012/04/reasons-by-images-to-not-have-children.html

Monday, June 04, 2012

Psico-traumatismo

Proferia ameaças embebidas em álcool, infantilidade, pura estupidez humana...

De certa vez, sempre em descontrolo e em absoluta falta de senso, abriu a porta do carro e saiu... estava o carro a 90 kms à hora pela avenida da liberdade... irónico, não? Mas não era aquilo liberdade, mas antes um acto completamente prisioneiro de um desespero agreste, típico da frustração humana acumulada durante décadas.

Doutra vez, recordo-me da imagem, bebeu álcool etílico, não sei bem porquê, confesso. Mas imagino que a quantidade não tenha sido muita.

Houve uma outra vez, num tempo mais antigo, em que eu consigo até visualizar-me fora do meu corpo pequeno, e vi, uma das muitas vezes que se seguiriam, sair a dizer que se ia matar. Usava sempre este termo e nunca que se ía suicidar. Imagino que este último seja demasiado sofisticado para quem profere esse tipo de coisas.

O amor que supostamente é incondicional e que pensamos nunca ter fim perde-se com o acumular de desiludidas ameaças. Suponho eu.

Thursday, May 17, 2012

Quando eu era pequenina...

... os senhores velhinhos que se sentavam nos bancos da minha rua eram acarinhados por todos os moradores e muitos deles vistos como sábios a quem se recorria para se aconselhar em momentos de tormenta.

... a minha mãe obrigava-me a usar collants toda a hora e a agasalhar-me sempre em demasia, mas eu gostava muito das minhas calças largas de bombazina por baixo das quais ela forçava-me muitas vezes a usar umas calças de fato de treino. Hoje só há skinny jeans por todo o lado... eu que sempre fui skinny nunca usava calças muito apertadas.

... o champô fazia-me arder os olhos quando lavava o cabelo que ficava sempre com tantos nós.

... das coisas que mais gostava de fazer com o meu pai eram: limpar os discos de vinyl com a escovinha que tinha um tecido tão suave e também de ajudar com a colecção de selos, usando uma pinça, molhá-los e esperar que eles se despegassem do papel para depois secá-los com muito cuidado para que não se colassem e mais tarde arrumá-los, dispondo-os gentilmente entre o papel vegetal e o papel normal do livro que o meu pai tinha criado para servir de álbum de selos. Com as notas e moedas também me divertia a consultar o livrinho de numismática para descobrir qual o valor das moedas que tínhamos e como é que se avaliava a sua condição:
EF - Soberba: moedas com pouco vestígio de circulação.
VF - Muito Bem Conservada: moedas com vestígios de circulação.
F - Bem Conservada: moedas com muitos vestígios de circulação.
VG  - Um Tanto Gasta: moedas com excessivos vestígios de circulação.
G - Gasta: moedas excessivamente gastas, de péssima visualização.
Slug - Completamente Gasta: moedas com nenhuma visualização.

... pegava na caneta da Bic e usava-a para repor a fita das cassetes que se soltava.

... levava o meu irmão para brincar no parque e às vezes jogar um bocado com uma bola à frente do meu prédio, ou ia andar de bicicleta, uma bmx com uma cor fluorescente.

... já era filha da noite e dos desassossegos pela responsabilidade que demasiado cedo me foi imposta.

...

Friday, April 20, 2012

Orgulho

Quando alguém faz parte de ti e sentes orgulho, isso transparece e irradia, e o contrário também.
Infelizmente a única pessoa que alguma vez me disse directamente que tinha orgulho em mim, é apenas um vulto que assombrou a minha existência.

Sunday, April 15, 2012

O retorno à Liberdade

Hoje, tenho a sensação de que nunca serei livre.

Mas respiro Liberdade;
desejo-a com todos os sentidos,
em último suspiro,
em última vertigem,
em último abraço,
em juízo final.

Almejo retornar à Liberdade que nunca tive.

Friday, April 13, 2012

Cinematografia Portuguesa

Woody Allen tenta simular "a vida é bela" nos países mediterrânicos; passa por Espanha, França, Itália, sempre em ambientes ligeiros, de romantismo efémero, alumiados pelo calor do Sul.

Mas não passa por Portugal. Não, Portugal merece mais, mais do que ele pode dar.
Portugal é maior, de tonalidades profusas e oblíquas, com a intensidade de Byron e a magia de Wenders.

A sua atmosfera, ora bucólica, ora frenética; as esparsas cores da sua terra e do seu mar, atraem os olhares como as sereias com os seus cantares e fazem de Portugal um país encantado.

Mergulhado na neblina de outrora e atravessada por raios de luz intensa, modernista, Portugal é o país  de onde partiu Camões para o exotismo das Índias e para onde retornaram os filhos dessa eterna órfã mãe.

Saturday, April 07, 2012

O meu saldo da Poesia é positivo: por pior que ela me tenha feito, o que de bem ela me fez não tem preço.

Thursday, April 05, 2012

Objecto esquisito

Sei lá!
Era uma vez um gato
Ela está a escrever mesmo
que comia ratos
eram eras perdidas
Era uma vez um galo
que endoidecia o arado!

Onde é que estão os guardanapos?
o cimento
Estou a ficar com rugas acentuadas
Não sei nem quero saber!
Cantei bem alto e tu ouviste,
fez cocó?
Adeus praias tão lindas e tão belas!

*poema composto com a co-autoria de Jéssica e César Costa Campos

Friday, March 09, 2012

Gerações

Os mais novos não tem saudades do passado e dos momentos com os familiares mais idosos; apenas anseiam pelo futuro e vivem o presente com a indiferença de pássaros livres.

Os mais velhos, esses, recordam a família que já não têm e momentos que se passaram em alegria.
Carcomida a alma pelas traças da nostalgia, os segredos esqueceram-se de tão bem guardados. 

«Eu ainda brinquei na rua.»

«No teu tempo era diferente.»

Não sei se qual foi a geração mais humana, nem mesmo a que celebrou melhor a vida, mas sei que é apenas um ciclo que vai e vem, nada mais.

Monday, March 05, 2012

Ser idealista

Muitas são as pessoas idealistas, que vivem em torno e à procura de um mundo construído nas suas mentes.
Essa irrealidade sobrepõe-se ao real quotidiano e imerge todos os seus obstáculos numa névoa.

Mas perante a brutalidade das chacinas e crimes humanos espalhados por todo o mundo, que outra saída resta à mente conscienciosa?

Neste mundo de Hitler, mais vale ser Quixote: continuar a lutar contra moinhos na nossa mente e imaginar que o Bem triunfa no ser humano e se propaga em seu redor, num verdadeiro mundo de Paz e Amor.


Para as pessoas-bombas a solidão e o desespero são o rastilho e a pólvora prontos a explodir.

Wednesday, February 22, 2012

A Arte, quando é industrializada, deixa de ser Arte. Porquê? Porque a sua alma é vendida ao desbarato.

Tuesday, February 21, 2012

Ser ou não ser intolerante? Eis a questão. *

Gosto dos dias de Inverno que parecem dias de Primavera.
Deve ter que ver com o facto de que em toda a minha vida me regi pela máxima «in medium, virtus est», ou pelo menos tentei.
Apercebo-me, agora, que sou uma pessoa que se tem inclinado para a exigência e para a intolerância, depois de me falharem, especialmente no que trata de pessoas de quem gosto. Também concluo que se devia primariamente  por me sentir negligenciada por essas pessoas, pois era muito doloroso para mim sentir que elas não se interessavam por saber como eu estava, nem se preocupavam assim tanto comigo. Por me ter dedicado tanto tempo a elas, por me ter disponibilizado sempre com o maior dos altruísmos, é para mim devastador o mínimo sinal de que elas se esqueceram de mim, ou de indiferença, ou que não me consideram diariamente nos seus corações.

Tanta foi a minha dedicação, que tentando encontrar solução para os problemas que elas tinham e não saber depois como elas estavam, perturbava-me o sono. Tornei-me numa insomníaca há muito, como é sobejamente sabido, também por causa de me preocupar com elas.

Com o tempo aprendi a não andar atrás das pessoas de quem gostava para saber como elas estavam, mas vejo agora que ficou mascarada a parte em que deveria mesmo deixar de me preocupar. Resultado: comecei a chatear-me com as pessoas por elas não terem a iniciativa de me dizerem como estão, de partilharem os seus problemas de modo a que juntos tentássemos encontrar uma solução, tal como antigamente.

Parece-me que com tudo isto, vista agora como "intolerante", "garrote" e exigente, não há grande volta a dar, senão deixá-las ir, sem que o explique, pois ninguém volta para saber como e para que haja oportunidade de me entenderem e, quiçá, tolerarem-me.

As relações interpessoais supõem esperarmos algo do outro e, quando as expectativas (que nunca) não correspondem desiludimo-nos.
Solução: não nos preocuparmos com os outros; e não esperarmos nada dos outros.


* Este txt deu-se a 16.02.2012, a propósito de uns dias antes uma amiga ter-me chamado de intolerante. (depois de ela cancelar encontros em cima da hora por 3x)

Tuesday, February 14, 2012

Tu e Eu


Tu és rochedos
com o mar a bater neles
Tu és os teus olhos
verdadeiramente belos.

Eu sou a calma
e os raios de luz e sombras
Eu sou alma
que encanta e seduz.

Juntos somos o céu e o mar
com imensidão de Amor
Juntos entrelaçados
Como os dedos das nossas mãos.

Saturday, February 11, 2012

Emoções são fórmulas químicas, cores e símbolos universais.

Saturday, February 04, 2012

Irreversível

O que tu me fizeste,
já nada pode alterar.

És um monstro de duas cabeças: a que me pariu e a que me desflorou.

Ser espancado e pisoteado pelas tuas ações e inações é igualmente brutal às humilhações psicológicas, verbais e não-verbais.
O veneno que espalhaste por todo o meu ser, como um alquimista ao serviço do demo - ao circularmente agitares uma colher para o dissolveres na tua bebida que era o meu sangue -, continua disseminado nas minhas veias.

Nem o passar dos anos conseguiu sobrepor camadas de felicidade que enterrem o mal que perpetraste. Por tua causa jamais consegui confiar em alguém plenamente, ou deixar que tudo progrida naturalmente.

Sou uma sombra que vagueia a terra e carrega consigo todo o peso do mundo.

Tuesday, January 24, 2012

Ser louco é uma faca de dois gumes: pode-se dizer tudo e mais alguma coisa, que ninguém liga.

Tuesday, January 17, 2012

A explicação da insónia

A luz ténue de uma vela é a única coisa que me embala o corpo nestas noites frias que passo só, no colchão frio do desamor.

É quando a noite chega, que a consciência desperta, como se tivesse esperado o final do dia para se libertar, entra-me na mente em forma de paranóia. Sim, paranóia, que mais parece ter a forma de um parafuso-meio-tornado que não pára de se agitar violento.

O mal que reside em mim é de um carácter profano, forte na sua profundeza divina. Esta pessoa feia que eu sou, e conformada com isso, nada tem a temer de nada. 

Isto de levar a vida como poeta tem muito que se lhe diga; dá mesmo muita dor de cabeça. O sofrimento está para os feios e ricos de espírito como as argolas para as betas.

Não procuro mais ser uma intervencionista, nem com o que escrevo, nem com o que faço da minha vida; hoje em dia fazer seja o que for com carácter intervencionista dá muito trabalho. Então tudo não passará de preguiça mental ou de outra qualquer espécie? ¾ Não, nada disso. As coisas não são como na realidade aparentam ser.

É mais uma forma de me proteger contra o aumento da dor causada pelo espancamento psicológico, pela libertação da consciência, pela paranóia. Então tudo não passará de paranóia. É essa a realidade que para ninguém é real.

Saturday, January 14, 2012

Falo, contigo, falo, em dias e noites cobertas de névoa,

onde tu és o farol que me guia até ao deleite da vida.

Monday, January 09, 2012

Parar. Pensar. Perceber.

Um dia destes ainda perdemos a capacidade de escrever, da mesma maneira que partes do cérebro morrem devido à falta de exercício.

As conversas também já cessaram e escasseiam-se as letras e palavras em todo o lado.

Estupidificamos, não apenas pela falta de interesse em aprender coisas novas e conhecer os mundos das várias pessoas, mas também porque nos apercebemos que no cômputo da vida humana - devido à sua mortalidade e a tantas atrocidades que ela testemunha - as coisas e as pessoas não interessam nada, nem valem nada, senão enquanto estamos a viver o caminho para nos encontrarmos com a nossa insignificância.

Com a idade, aumenta o conformismo e sentimos saudades de sermos rebeldes, mesmo já tendo percebido que ser revolucionário conseguia ser bastante extenuante e em vão.

Wednesday, January 04, 2012

Mantra: não és importante o suficiente para me chatear.