Tuesday, August 28, 2012

A AMIZADE DAS PEDRAS


Num lindo dia de sol, todos os habitantes da Cidade das Pedras comemoravam a chegada da Primavera. O Rei Diamante tinha decretado que tinham o dia livre para se prepararem para a festa de celebração, que seria mais logo, à noitinha, à luz da lua cheia.

Quatro amigas, conhecidas por todo o Bairro das Opalas e bairros adjacentes – por serem filhas de quatro importantes famílias, que constituíam a Alta Nobreza da Cidade das Pedras –, preparavam-se, em casa de uma delas, para a grande festa, para a qual também tinham ajudado a organizar, um luau na praia, dirigido aos mais jovens, a fim de complementar o tradicional baile para os adultos, situado no centro da cidade.
As jovens adolescentes gostavam muito da sua cidade, da natureza e de animais; pelo que, sendo de famílias reais e conhecendo-se umas às outras desde muito novas, juntavam-se sempre na escola e em todos os sítios que frequentavam, ajudando a empreender várias actividades na cidade. Apesar de serem todas melhores amigas, a Jéssica Topázio e a Joana Esmeralda estavam sempre juntas, e a Carla Rubi andava mais frequentemente com a Joana Safira.

Nesse dia solarengo, a Jéssica ía usar um vestidinho branco, que contrastava bem com a sua pele e lhe dava um ar fresco e jovial; a Joana Esmeralda vestiria um conjunto esverdeado que a faria parecer mais adulta; a Carla Rubi trajava um vestido saia-calção de cor escarlate, muito prático; e a Joana Safira um vestido de alças, azul escuro, que dava bastante cor à palidez da sua pele e a deixava muito elegante. As quatro tinham dependurado uma flor no cabelo – símbolo primaveril e de união –, da cor de cada vestimenta. Quando, finalmente, foram andando para a festa, encontravam-se alegres e ansiosas: umas por irem comer umas guloseimas feitas à base de coral e micas doces, e outras porque íam ter a oportunidade de conhecer rapazes de outras escolas e, quiçá, dançar com um deles à luz do luar. Foram cumprimentar as famílias conhecidas; combinar as horas do reencontro para verem juntos o espectáculo final, de explosões de fogo magmático, antes de tornarem a casa; e se despedirem para irem para o luau para jovens.

Chegadas à praia, ainda mais eufóricas e já ruborizadas aquém dos círculos rosa-pastel da maquilhagem nas bochechas, deparam-se com um amigo da turma, o Márcio Pirite, que estava com um amigo que as quatro raparigas mal olharam e caíram logo de suspiros de micas doces; apaixonadas ora pelo seu sorriso, ora pelos seus olhos, ambos muito luminosos, espelhando as chamas da fogueira crepitante. A Carla e a Jéssica entreolharam-se e as Joanas para elas, e trocaram entre si impressões sobre aquele delfim que brilhava mais do que a lua cheia naquela praia. Rapidamente, Carla e Jéssica trataram de inquirir Márcio que se sentia sob ameaça perante a ansiedade das amigas. Ficaram ainda mais inquietas quando descobriram que ele era, afinal, o príncipe herdeiro, filho único do Rei Diamante, de seu nome Duarte, e que fizera 16 anos há poucos dias. A noite avançava e as quatro amigas desesperavam pela atenção do Príncipe. A pouco e pouco, elas começaram a discutir; primeiro, sobre quem é que o tinha visto primeiro e, depois, sobre para quem é que ele mais tinha olhado. Na verdade – que era, então, invisível para elas –, Duarte Diamante não estava muito interessado em olhar para as raparigas, pois era muito novo e queria era aproveitar aquela noite rara, de liberdade dos afazeres da Cidade que um dia, mais tarde, teria de governar, para ser apenas um adolescente, naquelas poucas horas.

Na festa da Primavera desse ano, as quatro amigas haviam iniciado aquilo que seriam dois anos de estragarem uma amizade de longa data e tudo por causa do belo jovem príncipe. As quatro adolescentes, quando regressaram ao baile dos adultos, já não eram as mesmas; já não íam juntas e alegres, e nem sequer se despediram do Inverno ao som dos estrondosos fogos, de braços dados, como faziam cheias de esperança a florir, desde que se lembravam de serem amigas.

Dois anos decorreram e nem a notícia de que Joana Safira estava com uma preocupante virose, erosiva no Verão, ou a boa-nova de que Carla Rubi era eleita a melhor jogadora de futebol feminino de todas as equipas da Cidade das Pedras, fez com que as quatro voltassem a se falar. Assim, apesar da imensa vontade que tinham de estar umas com as outras e que mantinham em segredo, orgulhosamente, ficaram dois anos: sem se falarem – apenas se olhavam e quando uma era apanhada a olhar, desviava os olhos imediatamente para não “dar o braço a torcer”; sem irem aos mesmos eventos – tentavam, mais tarde, saber das notícias por outras colegas; e sem disfrutarem das férias de Verão juntas – o que não estragava os planos do resto das quatro famílias, de as passarem juntas, como era habitual, na estância da Praia de Xisto, no grande solar marmóreo, herança secular para as famílias da Alta Nobreza.

Era chegada a época da hora do sol se pôr, amarelado; era o Outono a vir de mansinho, anunciava-se lá para o fim do mês, com as suas folhas de feldspato, caídas, a fazerem a passadeira real para o regresso dos alunos – pequenos príncipes do conhecimento –, às escolas.

Márcio Pirite, amigo de ferro, não queria saber de inimizades e confusões, especialmente entre as suas grandes amigas de infância, Carla Rubi e Jéssica Topázio; daí que, durante estes dois últimos anos, se tivesse mantido imparcial e reportasse a ambas tudo o que ía sabendo de Duarte Diamante, o príncipe sobejamente desejado por todas as jovens cujos corações não eram de pedra. Por ter assistido às competições entre as, outrora, melhores amigas – Jéssica, Carla e Joanas –, Márcio Pirite resolve combinar um encontro com as quatro para anunciar algo que as interessava de igual maneira. Márcio era um rapaz extremamente afável, tido pelos colegas como algo despistado e ingénuo, mas, desta vez, todos ficariam cientes de que ele tem vindo a crescer interiormente, mais do que os outros rapazes, tornando-se perspicaz – muito à custa das quatro amigas, agora mais inimigas – e um tanto sábio, no que dizia respeito a relações de amizade. Combinou com as quatro raparigas no Parque dos Géisers, pois sabia que, assim, elas viriam cada uma pelo seu caminho e não havia o risco de se encontrarem, senão já no centro do parque, onde Márcio as “emboscaria”. Entre as cinco horas e as cinco e um quarto, foram chegando, e Márcio explicou – pedindo paciência, às primeiras a chegar, Carla e Joana Safira – que tinha uma notícia muito importante para todas.

Finalmente, as amigas faziam as pazes, abraçando-se, e tudo porque Márcio Pirite fez-lhes o favor de lhes abrir os olhos: «O meu amigo Duarte já tem uma namorada; estão juntos há um mês inteiro e até estiveram uns dias das férias de Verão juntos; é a Cátia Quartzo! Enquanto vocês estiveram a perder as férias, já para não falar destes dois anos, ele já tinha escolhido outra princesa. Estragaram a vossa amizade para nada! Não vêem que os namorados passam e os amigos é que ficam?! Espero que tenham aprendido a lição, porque eu já não estou mais para vos aturar chateadas umas com as outras.»
As raparigas ouviram, atentas e depois cabisbaixas, tudo o que Márcio deitou cá para fora e apressaram-se a consolarem-se umas às outras, repetindo como tinham sido estúpidas e que nunca mais se separariam por semelhante insignificância.

O regresso à escola – com todos os outros colegas, surpresos, a seguir com o olhar as quatro jovens, de novo, amigas –, pareceu-lhes muito doce, enquanto, de braços dados, pisavam o tapete de folhas de feldspato e soltavam risinhos que se confundiam com o tiritar das folhas secas.

N.B.: Para variar um bocado, um conto infantil, dedicado à minha irmã Jéssica e aos seus amigos.
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