Monday, September 24, 2012

O nosso amor é mais do que possível
ao mesmo tempo que tem sido impossível
em todos os dias das nossas vidas.

Mas um dia, sentar-me-ei naquele mesmo banco de jardim,
em baixo daquela mesma árvore e tu estarás sentado ao meu lado.

E um dia eu estarei a olhar o rio e tu o mesmo ondular.

Um dia estarei naquela praia e tu a olhar o mesmo horizonte.

E nesse mesmo dia tu e eu estaremos a olhar um para o outro
no nosso leito, lado a lado, enquanto entardece.

Sunday, September 16, 2012

Vai-se andando

Supostamente somos animais civilizados
No entanto, todos os minutos das nossas vidas
são premiados com eventos selváticos
a que assistimos a partir dos nossos sofás
confortavelmente defronte à televisão.

Enquanto civilização devíamos aspirar
desenvolvermo-nos em paz e harmonia
procurando atingir a perfeição
considerando a humanidade como um todo.

Porém, numa vida mormente curta
o indivíduo pejado de defeitos
vive a afundar-se num lodo
de movediças guerras e ódios.

Enquanto houver ganância
e o ser humano perpetuar imperfeições
nada poderá florir em calma
e semear a paz em todos os corações.

Sonhei com um mundo melhor
com pessoas melhores
e amei-os nessa ilusão doce
de quem vive amando.

Infelizmente, a celeuma diária continua
e ainda assim
toda a gente responde:
"vai-se andando".

Thursday, September 13, 2012

Tatuagem, por Chico Buarque


Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é prá te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...

E também prá me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço...

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem...

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...

Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes...

[Com Caetano Veloso: http://www.youtube.com/watch?v=TB6Cpy-X7A8]

Tuesday, September 04, 2012

Surfista sem prancha

Quatro horas da tarde e não me apetece muito...
não há água quente e a fria causa-me hipotermia.

Não sei se hoje vai aparecer alguém,
mas sei que não há ninguém.

Os Verões são cada vez mais longos,
cada vez mais incendiários,
mas não na minha vontade
que dispensa intermediários.

O sofá sempre disponível,
nem sempre confortável
e a isto se chegou
tão rápido quanto o mar secou.

Surfo em revistas, sítios e páginas,
vejo o horizonte com dois palmos e meio
e a reluzir minusculamente
porque já não há pôr-do-sol
ondas ou luar.

Na minha terra havia palmeiras a dançar
acompanhando o corpo mole
que bailava a cada passo na areia.

Assim são os surfistas sem prancha
românticos, idealistas,
lunáticos, existencialistas...