segunda-feira, janeiro 05, 2026

Pesadelo

 Os últimos anos parecem um pesadelo interminável. Ou melhor, vários pesadelos diários, que depois permanecem como traumas enevoado na memória. 
Cinzentos, muito escuros. Magoados. No corpo dores e na alma rasgos. Eu não ter mais capacidade de continuar. Perdi-a já há muito tempo. Não é mais como antigamente uma resignação, mas um luto destruidor e paralisante. Os lutos acumulados são como óleos de cor escura empastados uns sobre os outros. Viscosidade de alcatrão mas sem brilho. Com as suas pedrinhas como micro-memórias esmagadas e levadas todas juntas.

De todos os pesadelos que tenho, o pior é ter de continuar a viver como desde criança a querer morrer por causa do sofrimento e do caos e insegurança que me causam diariamente, vindo de quem precisamente devia ter-me protegido e amado. Toda a falta de respeito, de cuidado, de protecção, de amor e atenção, o abuso e a exploração, estão a latejar no meu corpo a toda a hora. 

Sei que terei descanso finalmente quando morrer, sempre o quis desde criança, mas não ter tido direito a paz, amor, liberdade, a poder fazer escolhas e ter uma vida estável e harmoniosa, é por demais injusto. E vocês sabem como eu sou com as injustiças. 

Alegra-te, meu ser amado de todos os dias, o meu maior pesadelo dá cabo de mim o dia inteiro. E não és tu. Tu foste apenas o meu maior erro. Um que nunca terá perdão.  Ou seja, a pessoa morre burra e estúpida. Mas, também, não é assim que todos morremos?

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