Sunday, May 03, 2009

Porque não se pôde ter outra mãe...

Eu fui daquelas crianças que nasceu de pais muito jovens e, inicialmente talvez por isso,tenha sido altamente protegida de tudo o que eram correntes de ar, humidades, frios; do sol, da terra, da água, de outros seres - humanos e animais -, enfim, tudo o que era vivo, tudo o que (se) podia mexer e (especulativamente) fazer-me mal.
Repare-se que não especifiquei que esta super-protecção fosse apenas no início da minha vida - época, precisamente, em que o sistema imunitário e tudo mais se forma em nós -; não, de facto esta insidiosa segurança à minha volta durou até que me pudesse libertar dela a ferros... e, antes, a muito fogo. Até aos 18 anos, tive de levar com os mitos estupidificantes que os meus pais, radialistas da banda sonora mais estridente da minha vida, espetavam nos meus ouvidos, subjugando-me a uma rígida construção de rapariga florzinha de estufa:
  • Nunca sair depois de tomar banho.
  • Não andar descalça porque se constipa (ou se calhar pensavam que o Diabo me ia apanhar pelos pés!).
  • Não usar "roupa boa" em casa ou para ir à escola.
  • Quando/se tens alguma dor, seja de cabeça, nas pernas ou na barriga, faz-se o sinal da cruz sobre a mesma e automaticamente passa.
  • Nunca se misturar com os miúdos que costumam brincar no parque ou quaisquer outros da rua (sabe-se lá porquê!).
  • Não dormir em casa das amigas, mesmo que elas morem no prédio ao lado.
  • Não aceitar nada de ninguém, muito menos de comer, nem das amigas.
  • Nunca ficar muito tempo na rua ou em casa de quem quer que seja; vir da escola direitinha para casa.
  • Andar com o chapéu-de-chuva e jamais apanhá-la na cabeça.
  • Nunca beber coisas geladas, ou comer gelados (sem estarmos no Verão e com muito calor), ou sequer lavar a cara de manhã com água fria  no Inverno, porque senão constipamo-nos ou ficamos com dores de garganta.
  • Quando se está com soluços, põe-se um fio de tecido na testa, ou pendurado como se a orelha fosse um cabide.
Agora que listo alguns dos mitos que me tentavam inculcar, vejo que "a rua e os seus elementos" eram um  alvo a abater! Bem, de qualquer forma, o ponto assente era recolher-me na redoma da casa, que se calhar para eles era mega-esterilizada. 
Escusado será dizer que o mínimo incumprimento de qualquer um desses "sábios conselhos", era imediatamente punido e a mais pequena tentativa de o justificar, explicar, ou (livre-nos Deus!) de retorquir, apenas aumentava a fúria com que a minha adorável progenitora me chegava ao pêlo e, provavelmente, também resultava num diversificar de utensílios (portanto, o que estivesse mais à mão), com que ela me atingiria ou (o que era talvez a sua visão das coisas) me disciplinaria.
Uma progenitora ultra-paranóica e hipocondríaca (porque se os filhos adoeciam, eram para ela - mártir incontestada - uma carga de trabalhos), que me espetou no peito grilhões do medo, e mesmo pavor, que ela sentia e, assim, cravejando-me de lapidados ferros, me condenou a uma reclusão de flor de estufa temperada pelos seus neuróticos humores.

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