domingo, março 15, 2026

Acidentes

 Lembras-te de quando tiveste o acidente em que o carro ficou de tal forma espatifado que ficou inutilizado? Lembras-te como ficaste depois dias a bater mal da cabeça e a querer viver tudo antes que se acabasse? Lembras-te como, de repente, consciencializaste-te da inevitabilidade do teu fim e tantos arrependimentos vieram ao de cima? Eu lembro, lembro que me ligaste a contar, Lembro-me da tua aflição. 

Sempre fico a pensar em como é invariavelmente assim que acontece com toda a gente. Aquele misto de intenso conflito mental com um toque de alívio e o suposto despertar para a iminente morte. Ah e a culpa, especialmente se havia mais gente no carro. 

Lembro como eu me espatifei à grande por amor, quase a cada encontro, nunca saí incólume. Eu fui sempre o pendura e como boa pessoa no lugar do morto, morri em bastante. Só para depois entender mais de mim, do que fui e fiz e o quanto me perdi. A tal da expansão da consciência acontece também e a noção da mortalidade regressa. Eu sempre fui propenso a acidentes. Mas qualquer dia destes, despertei, foi de tal forma que nunca mais me apanharam nesses entroncamentos. Nunca mais andei sobre estradas de pedrinhas soltas derrapantes. Nunca mais fiz 180 graus. Nunca mais galguei o passeio nem amolguei coisa nenhuma. Além de ter deixado de conduzir há muito mais de uma década. 

Hoje em dia já não sou propenso a acidentes, apenas a raríssimas passagens a pé, que no máximo rebentam as minhas veias das pernas até amanhã. 

Sem comentários: