Wednesday, May 26, 2010

sem título

Não tenho quem me tire o cotão do umbigo.
Sei que viajaste por nuvens brancas
e voltaste para beber do mesmo rio
mas nunca mais te tive comigo.
Liras de platina soavam ao longe
quando vibravam as águas da memória
através da luz que emanavas.
Ainda assim, permanecia o aglomerado,
lento e enfadonho, do cotão no meu umbigo.
Os mistérios que lobriguei, vestido de cinzas,
foram-se adensando com o passar das nuvens
e o teu semblante, figura alva e altiva,
jamais pude alcançar.
Consigo ver o pormenor da roda dentada,
ou mesmo a espiral do parafuso,
os magros fios metálicos que ligam tudo
nesse mecanismo do tempo ceifado.
Sozinho, continuei à tua espera,
não como quem aguarda por um transporte público,
mas como quem anseia por se transportar sem meio,
flutuar sem ficar sem os seus pés no chão,
correr mais rápido que o som da nossas vozes.
Estirado, de barriga ao alto, meio estremunhado,
passei o dedo indicador na cova do umbigo
e lá estava ele, o cotão aglomerado,
que só posso tirar sozinho.
Post a Comment