Sunday, April 04, 2010

A morte é uma lenta escrita...

Na maior parte das vezes, durante toda a minha escrita, tinha assunto suficiente para usar as folhas de papel na íntegra. E tudo tinha sempre um título, por mais que eu não o indicasse nos textos que discorria.
Agora tenho a sensação de que, de cada vez que me socorri através da escrita, de cada vez em que tudo era demasiado e a inspiração não faltava, houve algo em mim que eu matei, apunhalando-o pela frente com a caneta bem afiada. A pessoa que eu sou já morreu muitas vezes: sempre que quis que a minha existência terminasse, e sempre que dei por mim a continuar.
Pensei que houvesse muitas pessoas como eu, que sofriam de males corrosivos, mas quase invisíveis, e expiavam-nos através da escrita numa lenta dança para entreter a morte.

Nada restará de nós, no entanto. Todas as palavras que dissemos foram sugadas pelo negro vácuo do esquecimento. Assistimos impotentes à sua fatalidade e não nos mexemos, paralisamos perante os seus longos braços de tinta correctora. Não soubemos, jamais, lutar contra os desígnios que nos eram apresentados, apenas escrevemos porque não conseguimos dar sentido a nada.
Exercício vão? Não, não me parece. Transpira-se luz na tinta que modelamos sobre as linhas ténues no papel. Mais ainda, transpira-se a vida de quem não viveu.
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