domingo, agosto 03, 2025

Minha querida criança

 Minha querida criança, em 2019 surgiu um vírus ("covid-19") que se espalhou muito rápido tornando-se numa pandemia que fez com que tivéssemos de ficar isolados em casa durante muito tempo. Milhões de pessoas morreram nos três anos seguintes. 

As pessoas reagindo animalisticamente correram para comprar tudo no supermercado, açambarcando sem pensar no próximo. Muitas não tiveram os cuidados necessários, como o uso de máscaras, evitar estar com pessoas, etc., e contribuíram para a infecção dos outros e consequentemente para as suas mortes. Muitos pais e filhos, muitas famílias inteiras, muitas pessoas chegaram a cair na rua mortas. O número de mortos acelerou de tal forma que não havia espaço para enterrar/cremar as pessoas. Foi um horror instalado. Depois começou todo o Mundo à procura de uma vacina. Mas até nisso as pessoas continuaram a tentar facturar e levar vantagem. Houve países competindo, houve muita desinformação e remédios falsos, nomeadamente de negacionistas. 

Houve uns poucos raios de sol no meio desse longo breu: comunidades que se ajudavam nos bairros, pelas janelas de casa, pelas janelas virtuais, chegando a haver entretenimento assim à distância mas com essa sensação de estarem juntos. Isso uniu muito as pessoas nesses momentos, de terem sido tão tenebrosos, muitas ficaram depois também ligadas. Inclusive houve também muitas pessoas que se afastaram de tantas, perderam tantas para o vírus, e mudaram muito, e as suas vidas também, mas foi como se começassem uma nova fase, a de terem sobrevivido. Mas o Mundo não tratou desse trauma colectivo. O medo tomou conta de todos, a ansiedade, a dependência a coisas que fazem mal mas oferecem alívio instantâneo. Grupos formaram-se ainda mais antagonistas, porque tudo se tornou urgente e decisivo. Conhecemos a polarização das posições, as correntes do ódio ou do amor, do lucro e psicopatia, ou da empatia e da cura. 

A vida virou um campo de batalha maior, com mais violência exposta, mais genocídios, mais crimes e mais loucuras inimagináveis. O esperado salto tecnológico que é costume ser registrado após pandemias ou guerras mundiais veio. Todos se agarraram a ele, especialmente como modo de se alhearem e dizerem que seguiram em frente. 

Muito poucos tiveram coragem de enfrentar tudinho e tratarem do que é preciso ser tratado, bastante como eu fiz durante estes árduos anos de difíceis, mas também muito bons, processos; aliás, foi assim que te reencontrei e tentei cuidar. Processar lutos, fazer uma aprendizagem mais profunda sobre nós mesmos e analisar tudo com muita atenção. 

A maioria das pessoas pôs-se a tentar fazer tudo e mais alguma coisa - não fosse haver outra pandemia já, ou catástrofe climática, e morrer mais gente -, mudar de vida, casar, ter filhos, etc., tudo o que andavam a adiar também. Agravados, imagino, pelas guerras que se intensificaram por todo o mundo. 

Mas morreu sim mais gente. O que reabriu feridas. No meu caso, em 2024 foi uma sequência horrível de 8 pessoas em 8 meses seguidos. A par de ter visto crianças a serem propositadamente mortas de fome (em Gaza que tem sido praticamente obliterada de vez) tem sido impossível recuperar qualquer ânimo de vida. 

Ninguém sabe com certeza o que virá a seguir, embora haja muitas probabilidades por aí e já realidades a insinuarem-se, mas na verdade tudo indica que ficará pior. 

Enquanto houver psicopatas em lugares de poder, não há qualquer esperança realista de haver melhoria. 

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