Wednesday, July 08, 2009

A menina negra

No último degrau de uma escada, estava a menina de olhos tão vazios,
olhar triste e vazio, tanto era, que lhe entravam dentro da alma várias pessoas,
numa excursão ordeira, tentando perscrutá-la.
Eram pessoas sem alma. Só faltava a guilhotina no meio daquele cenário lúgubre.
Os carcereiros eram tantos, esses seres encapuçados que insistem em torturá-la,
todos os segundos, anarquicamente, prometendo que o farão todos os dias.
A menina negra era produto de trapologia artesanal.
A sua mãe em forma de ânfora de pedra, explicava que se havia descontrolado. Cinzelou uma menina e, depois, vendo a obra acabada, tomando vida, deixou-a ao relento, a ser conspurcada pelos golpes da poeira cósmica.
O braço da menina estava enegrecido. A sua mãe ia ser «vigiada».
A menina negra tinha um corpo de vime seco. Galhos. Quebradiços.
E assomavam-se no seu pequeno rosto   lágrimas de pó branco.
A cisão, pelo cordão umbilical, havia tido lugar. Pela faca da decepção.
A transferência da sua alma vazia   estava agora na minha mente. Ninguém fez nada, ninguém ia fazer nada. Disseram-me que a sua mãe ia apenas  ser «vigiada».
Transportei-me para um sítio escuro e apercebi-me de que eu nunca tinha deixado de ser a menina negra.
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