sexta-feira, novembro 28, 2025

O caçador de sombras

Tu foste o meu caçador, quando sombras me habitavam e se entranhavam no meu ser. 
Alimentaste delas como os abutres da carniça mortiça. Tu foste o meu caçador e diligentemente, a todo o instante, montaste armadilhas, venceste-me nas trilhas espalhando os teus minions para me apanhar. Eles espiam-me até hoje. Volta e meia tu assombras-me, e eu embora esteja mais curada das minhas sombras, tu vens como vento repentino que suspira na minha mente uma esquecida canção de piseiro do meu coração, cheia de repentes e contradição. 
Eu caio de novo no redemoinho tortuoso da vibração e não durmo porque volto a absorver um bocado da tensão, mas agora sei que ela não é minha para eu ter de a suportar. Mas quem lhe diz, até às dez da manhã? Chego a desejar-te de surdina sorte e que vai tudo correr bem, como sempre correu. Talvez ainda não tenha aprendido a lição. Talvez ainda não tenha esquecido que um dia foste meu irmão. E também que depois caí em aflição, qual vítima ignorando o síndrome de Estocolmo, mergulhada no tormento da paixão. 
Tu és o meu caçador, ainda, rodeando-me quando a lua enche e quando o silêncio é mais alto. Eu sou o fogo que ardeu até cinzas, sopradas pelo teu furacão. Estiveste armado até aos dentes, a tua matilha era grande, usaste todo o teu arsenal para me matar e antes dilaceraste-me com dentes certinhos e brilhantes num enorme sorriso, seguido de gargalhadas estridentes. 
Eu não sobrevivi. A minha luz apagada sim. 

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